31.08


“Love: A história de Lisey
Stephen King
Tradutor: Fabiano Morais
Suma – 2021 – 536 páginas

Uma história de amor, de um casamento, de uma esposa dedicada e de um escritor bem-sucedido. Uma história de violência, de trauma e de loucura ― e sobre os segredos que permanecem após a morte. A história de Lisey está só começando.

Dois anos após a morte do marido, Lisey Landon decide que é hora de colocar os papéis dele em ordem. Afinal, Scott Landon era um escritor de sucesso, e há diversas partes interessadas em qualquer trabalho inédito deixado por ele, embora ela esteja determinada a recusar qualquer oferta.

Casados por vinte e cinco anos, os dois compartilhavam de uma intimidade profunda e muitas vezes assustadora. Logo no início do relacionamento, Lisey descobriu de onde Scott tirava suas ideias ― um lugar capaz de curá-lo ou devorá-lo, chamado Boo’ya Moon.

Quando é contatada por Zack McCool, um homem desagradável que diz que ela deve entregar os manuscritos ou sofrer as consequências, chega a vez de Lisey encarar os demônios que assombravam Scott ― e que agora podem ajudar a protegê-la. Assim, o esforço de uma viúva para organizar o escritório de seu célebre marido se transforma em uma jornada quase fatal ao mundo sombrio que ele habitava.

Um dos livros mais poderosos e íntimos de Stephen King, Love: A História de Lisey fala sobre a fonte da criatividade, as tentações da loucura e a linguagem secreta do amor.

Ler este livro quase me enlouqueceu. Sei que não é uma frase que se deve abrir uma resenha, mas é verdade: ler “Love: A história de Lisey” me deixou insone e nervosa de um jeito que eu não esperava. Do jeito inquieto, que faz sua mente voltar a narrativa do livro durante todo o dia e, por mais que você queira encerrar a leitura, você não consegue porque o livro te deixa desconsertada. Pra você, que me lê, ter uma ideia, eu demorei uma semana inteirinha para terminar essa leitura, e eu nunca, absolutamente nunca, demoro tanto para ler algo pelo simples fato de que sou ansiosa (para o lado bom e para o lado ruim também): eu quero saber o final daquela trama ali, quero entender os personagens e quero saber se eu gostei ou não daquele livro. Mas, aqui, eu não conseguia ler rápido porque a história entrou em minha pele de um jeito que eu precisei pensar muito para poder entender o motivo pelo qual eu estava tão tensa: quando você lê um livro sobre personagens que não tem nada a ver com sua personalidade, mas que passam por algumas experiências de vida que você, leitor, passou, isso pode te atingir e te afetar tanto que você se sente ligado aquela história.

Também não indico para ninguém começar a ler Stephen King por este livro pelo simples fato de que ele é o livro mais Stephen King de todos, e digo isso em todos sentidos, no melhor e no pior. Parágrafos de uma página inteira (ou mais), descrições detalhadas ao extremo e uma das piores cenas de tortura que eu já li em livros (e vocês sabem, eu já li bastante livros de suspense/terror). Mas, ao mesmo tempo, eu consegui entender porque “Love: A história de Lisey” é tido como um dos livros favoritos do próprio autor: a mente criativa de King está aqui, presente em cada pequeno detalhe deste livro, no relacionamento entre Lisey e seu finado marido Scott, no relacionamento entre Lisey e suas irmãs Amanda e Darla, nas escolhas que a mulher fez para estar com o marido e a forma como ela vai se entregando a loucura da criatividade do amor de sua vida. Esse livro é inquietante porque é uma pequena amostra de como o processo criativo do próprio King funcionou, de formas metafóricas, claro, mas que trazem muitas curiosidades sobre a vida pessoal do autor. O livro é uma jornada à loucura, ao amor e a criatividade. E não poderia ser mais íntima do que é.

O que está acontecendo comigo?
Ela teria pagado o preço do próprio carro, que era bem caro, e mais ainda para saber a resposta daquela pergunta. Parecia que estava tão bem! Lamentara a morte dele e seguira em frente; deixara o luto para trás e seguira em frente. Por mais de dois anos, a velha ladainha parecia ser verdade: eu me viro muito bem sem você. Então começara o trabalho de limpar o escritório dele e aquilo acordara o fantasma de Scott — não de forma sobrenatural, etérea, mas dentro dela. Lisey até sabia quando e onde tudo começara: no fim do primeiro dia, naquele canto não-exatamente-triangular que Scott gostava de chamar de cantinho da memória. Era lá que os prêmios literários estavam pendurados na parede, menções honrosas envidraçadas: seu National Book Award, seu Pulitzer de ficção, seu World Fantasy Award por Demônios vazios. E o que acontecera?
Eu quebrei — disse Lisey numa voz fraca e assustada, e fechou novamente o alumínio sobre a fatia fossilizada de bolo de casamento.

Como há na sinopse, Lisey é viúva há 2 anos e ainda lida com a morte do homem que foi o grande amor de sua vida, seu marido Scott. O relacionamento era tão real e intenso que eles tinham até mesmo dialetos próprios, que podem ser confusos no começo da trama, mas que depois farão sentido, eu prometo. No entanto, a morte repentina do escritor consagrado deixou seu agente literário e muitos fãs ao redor do mundo se questionando se havia algo escrito por ele que ainda não havia sido publicado e Lisey tem que lidar com esses malucos que a procuram para tentar conseguir acesso à sua casa e ao escritório do seu marido. Mas Lisey é uma mulher extremamente firme e que não está disposta a dar o controle do lugar no qual o amor de sua vida passou horas a fio para qualquer outra pessoa, então tomou para si a tarefa de limpar o lugar. Claro que isso requereria uma certa cura da falta que o marido fazia, e assim já faziam 2 anos que ela estava postergando a arrumação o lugar.

A narrativa vai alternando pontos de vistas entre Lisey e seu marido, tanto no presente quanto no passado, tudo em pontos chaves, mostrando como eles se conheceram e seguindo o presente, como a irmã mais velha de Lisey, Amanda, tendo um episódio de “surto psicológico” – algo que ela já teve antes e que agora os médicos parecem acreditar estar se repetindo com a hipótese de que ela nunca mais se recupere. Junte esses dois fatores a chegada de Zack McCool, um homem que a princípio parece ser somente mais um pateta que quer forçar Lisey a entregar os escritos inéditos de Scott, mas que rapidamente vai se revelando um perigo real (eu me surpreendi com o personagem mesmo depois de tantos livros do King, coisa que eu já deveria ter aprendido a não fazer).

Os argumentos contra a loucura caem por terra com um leve farfalhar;
são esses os sons das vozes mortas em discos mortos
flutuando pelo veio partido da memória abaixo.
Quando me viro para o seu lado para perguntar se você se lembra
Quando me viro para o seu lado na nossa cama

Você precisa entender o que Lisey está passando nessa altura do livro: o luto profundo, e, por favor, que ninguém pense: “Ah, mas já fazem dois anos que o marido dela morreu!”, porque não há, nunca houve e nunca haverá tempo certo para o luto. Lisey sofre com a ausência do marido de um jeito visceral, que faz o leitor entender que sim, ela provavelmente nunca vai superar a morte dele, ela só vai aprender a conviver com isto porque é isso que a gente faz quando perdemos alguém que amamos profundamente.

Comecei essa resenha falando que este livro quase me enlouqueceu, e acredito que um dos fatores foi justamente o luto pelo qual a personagem está passando. Ela está tão perdida que cria diálogos com o marido em sua mente, mas serão eles formados pela falta que sentia dele ou é algo mais? A margem que a personagem chega levada por essa dor é algo poderoso, e a forma como King escreve esse livro, fazendo o leitor entender os traumas do passado de Scott e a força que o guiava em sua vida, como tudo vai se misturando em uma trama repleta de sobrenatural sim, mas com bastante facilidade de se fazer metáforas com traumas que o garoto pode ter passado quando era criança. Tudo isso vai fazendo a trama ser forte de uma forma que me surpreendeu e também pesou em meu coração e em minha mente, mas, depois que os elementos são colocados na trama, se inicia algo como uma corrida contra o tempo e a trama acelera, acelera bastante, colocando o vilão (ou vilões, quem sabe?) em colisão direta contra a protagonista e isso tira um pouco do peso da trama psicológica passando para a coisa mais física.

Mas depois pensa nele saindo do escuro, estendendo para ela os destroços sanguinolentos da mão, a voz cheia de júbilo e alívio. Um alívio enlouquecido. Lembra-se do que pensou enquanto envolvia aquele estrago com a blusa: que ele podia estar apaixonado por ela, mas também estava um pouco apaixonado pela morte.

Em termos de trama do livro, é basicamente isto que você precisa saber: são 3 tramas que estão entrando em colisão de uma forma que parece bizarramente orgânica, todos com Lisey no centro, muito provocado pela loucura de Zack e a doença que acometeu Amanda. Enquanto vamos viajando entre o passado, vamos entendendo o passado complexo de Scott, e confesso que por diversas vezes eu me questionei o que era real e o que era loucura de um homem capaz de criar histórias que encantavam milhões de pessoas – e, claro, nesse processo, fiz um paralelo com o próprio King. Muito do que do Scott passou, a loucura que ele acreditava correr em sua família, a forma como ele encontrou o pouco controle que tinha até Lisey entrar em sua vida, e a perda pela qual que passou ainda criança, tudo isso somado construiu a personalidade que Scott tinha, influenciando diretamente em sua escrita. O recurso de terminar um capítulo com uma palavra que continuava no capitulo seguinte foi algo que me encantou, além de, claro, os diversos easter eggs do Kingverse (Castle Rock, você por aqui de novo?), tornam o livro sedutor ao extremo, apesar de difícil, mas temos um fator catalisador aqui: enquanto Scott é uma figura excêntrica, que limita entre o estranho e o incompreensível, Lisey é a força motora que ancora o homem e que rouba toda cena na qual participa.

E sim, acrescente o fato de que Lisey é realmente uma ÓTIMA personagem. Dona de si, capaz de escolher o que quer, quando quer e como quer, ela escolhe enfrentar o complô contra ela que começa a se formar enquanto ela lida com a família, que é um relacionamento bastante complexo (e muitas vezes, desconfortável até para o leitor que acompanha tudo). A personagem definitivamente entre em qualquer lista de melhores personagens favoritas do escritor, fazendo com que nos apeguemos a ela e sua jornada com seu marido e a sua escolha de entender a loucura que ele carregava dentro de si, o amando e o salvando. Esse é um dos melhores aspectos do relacionamento dos personagens: como a esposa de um homem tão famoso parece ser somente sua sombra, mas, na verdade, o salvou de seus demônios imaginários (ou não, não se esqueça que estamos em um livro do King).

Gene fala que o pai dele nunca entendeu o ofício do amor. O ofício do amor! Olha como isso é bonito! Quem nunca sentiu uma coisa assim, mas nunca conseguiu colocar em palavras? Mas seu marido conseguiu. Por todos nós que teríamos ficado quietos, foi isso que o profe disse. Deus deve ter amado o seu marido, madame, pra dar uma língua afiada dessas.

No final, “Love: A história de Lisey” é literalmente uma história de amor. O amor de uma mulher que salvou um homem e de um homem que escolheu amar uma mulher da melhor forma como podia. O amor está tão presente nessa narrativa que King o dedica a sua esposa, Tabitha King – e ele cansa de falar que este livro é um dos seus favoritos. Depois de ler a obra, consigo entender o motivo porque há muito de King em Scott, talvez até mais do que nós, seus leitores que não o conhecem realmente, consigam compreender. Mas o que dá pra compreender é que este livro é bom, muito bom, e que entrega mais do que o amor de King por sua escrita: entrega um pouco de sua alma através da história de Lisey.

Não podia terminar sem mencionar que o livro inspirou uma minissérie com roteiro do próprio King. “A história de Lisey” tem Julianne Moore como a personagem principal, Clive Owen como Scott, Dane DeHaan, e ainda Jennifer Jason Leigh e Joan Allen como as irmãs de Lisey. Com 8 episódios, a série já está completa e disponível na AppleTV (e eu já tinha falado sobre na coluna literária na parte de noticias – clique AQUI para ler), mas deixo o trailer novamente abaixo para vocês assistirem e talvez assistirem o seriado, coisa que definidamente pretendo fazer.

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1 comentário em “Resenha: Love: A história de Lisey – Stephen King”



  1. Larissa disse:

    Descreveu exatamente tudo o que senti , loucura, conexão , entrega , o envolvimento do autor , tudo , perfeito 👏🏽👏🏽👏🏽



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