28.05


“Sete mentiras”
Elizabeth Kay
Suma – 2021 – 272 páginas
Tradutora: Regiane Winarski

Desde crianças, Jane e Marnie são inseparáveis. As duas têm muito em comum. Aos vinte e poucos anos, ambas se apaixonam e se casam com homens jovens e bonitos. Só que Jane nunca gostou do marido de Marnie. Ele é tão arrogante, tão exibicionista, age como se chamar atenção fosse seu objetivo de vida.

O que é bem irônico… agora que ele está morto.

Se Jane tivesse sido sincera desde o início, se não tivesse mentido, talvez o marido de sua melhor amiga ainda estivesse vivo. Esta é a chance de Jane contar o que de fato aconteceu. Mas a pergunta é: será mesmo a verdade?

Sete Mentiras” chegou como um raio pra mim: a minha vontade de ler era tanta que passei o livro na frente de todos outros (vocês sabem, eu sou a louca do suspense/thriller, então foi natural isso). A história toda se passa com Jane, a narradora, contando em primeira pessoa para alguém (que você só descobre no final da trama quem é) as tais sete únicas mentiras que ela contou, em toda sua vida, para Marnie, sua melhor amiga.

Como Jane muito bem define, ela é a escuridão enquanto Marnie é a luz. Amigas desde a infância, Jane é quase uma sombra na vivacidade que Marnie irradia para todos ao redor delas. Sempre parecendo estar um passo atrás de sua melhor amiga, Jane é contemplada ao conhecer Jonathan, o amor de sua vida. O casamento e a vida alegre que se inicia em seguida parece que irá perdurar a vida inteira e ela deseja o mesmo para Marnie, que conhece Charles, um cara bem-sucedido, bonito, rico e com um futuro brilhante pela frente. E claro que o cara é um cretino porque é isso que podemos esperar do personagem, o que fica claro desde sua primeira aparição.

Agora, fico pensando, assim como na maioria dos dias: se eu não tivesse contado a primeira mentira, contaria todas as outras? Gosto de dizer para mim mesma que a primeira mentira foi a menos importante de todas. Mas, ironicamente, isso é mentira. Se eu tivesse sido sincera naquela noite de sexta, tudo poderia ter — tudo teria — sido diferente.

Quero que você saiba disso agora. Achei que estivesse fazendo a coisa certa. Amizades antigas são amarradas como cordas velhas, gastas em algumas partes e grossas e volumosas em outras. Eu tinha medo de que aquele fio do nosso amor fosse fino demais, puído demais, para aguentar o peso da minha verdade. Porque claro que os fatos — de que eu nunca tinha odiado ninguém como o odiava — teriam destruído nossa amizade.

O começo da história é maravilhoso porque abre caminhos para você criar suas próprias teorias (o que não foi tão bom para mim no final das contas, e logo mais você irá entender o motivo). Enquanto a vida de Jane parece se desintegrar, a vida de Marnie começa a desabrochar mais e mais. Jane despreza Charles, mas Marnie parece não enxergar e foi ai que o livro perdeu o encanto pra mim: enquanto crianças e adolescentes, a forma como elas se apoiaram e estiveram lá uma para a outra pareceu deixar de existir por causa de um homem. Claro, já vimos essa história na vida real, mas, sinceramente, desejei do fundo do meu coração que não fosse o caso aqui.

Jane, como personagem principal, já como dá a voz a qual seguimos na narrativa, é uma personagem que desperta pena porque ela claramente está obcecada com a vida de sua melhor amiga, levando o relacionamento delas para o mais puro suco de toxicidade. Não entendo bem como ela podia continuar investindo em algo que claramente não poderia terminar bem, mas encontrei alento em pensar que ela provavelmente estava passando por um momento bem ruim de sua vida por conta de uma tragédia (a qual obviamente não podei comentar por motivos óbvios de spoilers), mas ai culpei a Marnei por sequer ver a dor que sua melhor amiga passava e não dar a atenção que ela precisava, e cheguei a conclusão que as duas eram ruins uma para a outra e isso me incomodou bastante porque hoje em dia vejo mais atrativo ler enredos com mulheres fortes se apoiando do que mulheres se afastando dessa forma.

Você entende, não é, que eu não tinha opção? O que eu poderia ter dito? Se tivesse sido sincera, ela talvez tivesse se sentido obrigada a escolher. De qualquer modo, eu estava comprometida, a qualquer custo. E, na época, eu achava que isso significava manobrar a verdade para fazê-la feliz, para mantê-la feliz. Para proteger nossas raízes.

A coisa desanda de um jeito que culmina no dia do casamento de Marnie com o seu príncipe encantado (que de encantado não tem nada) e tudo que eu gritava mentalmente enquanto eu lia era: POR QUE VOCÊ NÃO CONVERSA COM A MARNIE, JANE?. E eu entendo, entendo mesmo, o medo que Jane tinha de perder a melhor e mais antiga amiga, a pessoa que realmente a entendia, mas não dá pra ficar frustrada com o rumo que Jane decide lidar com aquela situação. Lá pelo meio do livro, eu comecei a criar uma teoria que era tão boa, mas tão boa (sem falsa modéstia) que eu queria demais que fosse o que acontecesse, mas, infelizmente, o livro vai pelo caminho mais simples e fácil de todos. Se é para resumir as coisas como eu vi no final, digo que uma das personagens é uma cretina e a outra uma idiota.

A narrativa vai em uma crescente de desencontros, desconfianças e falta de dialogo que lá pelas tantas eu só queria que a Jane largasse mão de tudo e fosse cuidar de sua própria vida, mas, para meu desespero, o livro entrega um dos piores finais que li esse ano (o 2º pior, pra ser sincera). O final me frustrou tanto que quase me arrependi de ter lido o livro, mas, lembrando da trama para escrever essa resenha, eu me lembrei do quanto me diverti no começo da leitura, cheia das teorias e isso terminou “salvando” alguma coisa para mim.

Você escolhe um primeiro emprego. Nunca vai ter outro primeiro emprego. Você escolhe um apartamento e sempre terá morado naquela parte da cidade, não importa o que vem depois, não importam as escolhas posteriores. Nunca acaba. As decisões sempre limitam. Você escolhe alguém. Talvez se case com essa pessoa. Talvez essa pessoa se torne o pai dos seus filhos. Ele sempre vai ser o pai dos seus filhos, independente de todas as escolhas que você faça daquele momento em diante; seja lá o que você faça depois, essa escolha sempre existirá.

É sufocante. Não consigo fugir da angústia eterna das minhas próprias escolhas.

E não me entenda errado, mas este é o tipo de resenha que eu detesto fazer. Prefiro muito mais fazer uma resenha morrendo de amores pelo livro do que essa sensação gigantesca de decepção que estou sentindo. E o pior é que eu sei e entendo que a culpa foi toda minha: eu criei expectativas demais em cima desse livro. Falei dele na coluna de lançamentos literários do mês de abril (clique AQUI para ler) e não menti, eu realmente queria demais ler este livro, e assim que pude colocar minhas mãos em cima dele, cai como uma louca na leitura. Fiz teorias, imaginei, criei caminhos e, no final, me senti traída pela minha expectativa. Talvez você leia e não se sinta como eu me senti, já como cada leitura é uma experiência individual e sentida solitariamente, então comenta comigo se você leu e o que achou do livro!

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