19.03


“Será que sou feminista?”
Alma Guillermoprieto
Tradutora: Eliana Aguiar
Zahar – 2021 – 120 páginas

Escrito por uma das principais jornalistas da América Latina, um manifesto corajoso, livre de doutrinas, para que possamos cada vez mais pensar (e viver) o feminismo em toda a sua diversidade.

Alma Guillermoprieto dedicou grande parte de sua carreira a cobrir conflitos e movimentos sociais por toda a América Latina. Ao longo de sua trajetória retratou em crônicas e reportagens a história de mulheres comuns, sobreviventes dos mais diversos tipos de violência.

Neste livro, ela reflete sobre sua própria posição como mulher e se questiona: Será que sou feminista? Sem a pretensão de ter todas as respostas, ela relata suas memórias quando jovem na machista sociedade mexicana e suas referências feministas; relembra encontros com líderes e ativistas; expõe sua visão da estrutura machista, racista e homofóbica que assassinou Marielle Franco; e tece ainda considerações a respeito do movimento #MeToo.

Ao mesmo tempo em que evoca experiências pessoais, Guillermoprieto faz uma releitura das lutas históricas das mulheres, destacando avanços tão significativos quanto a pílula anticoncepcional e o direito ao voto, sem nos deixar esquecer do caminho árido que ainda há pela frente.

Anotei mentalmente tantas coisas para falar nessa resenha que estou realmente tendo dificuldade de saber por onde começar, mas acho que preciso afirmar, logo de inicio, que esse seria o livro que eu daria para todas as mulheres em minha vida, absolutamente todas. Esse não é um livro que eu possa sentar e fazer uma resenha linear sobre a trama porque ele nem ao menos tem uma: temos aqui um livro para ler e discutir cada uma das ideias que há nele. Nem eu mesma, que amei o que li, concordo com tudo que li nele, mas afirmo, com todas as letras que não é preciso você concordar com tudo para você entender a pergunta titulo e a responder também. Você só precisa ser mulher mesmo.

Vou situar um pouco como o livro nasceu: Alma Guillermoprieto é uma jornalista mexicana (que já morou no Brasil, preciso assinalar isso) que cobriu todos assuntos da America Latina. Mulher forte e intensa, com uma vasta experiência jornalisticica foi chamada para entrevistar Chimamanda Ngozi Adichie (a escritora que dispensa apresentações, claro). Alma leu todas obras de Chimamanda, acreditando estar fazendo seu papel e voltando sua conversa para os livros escritos pela outra mulher, mas, qual foi surpresa, ao receber diversas criticas sobre sua condução da conversa e a falta do feminismo durante a mesma. Alma demorou para saber o que estava acontecendo online e essa revolução sobre sua falta de engajamento no assunto feminino com uma autora deveras conhecida por seu engajamento com o movimento essencial para as mulheres. Alma poderia se revoltar com o linchamento que estava sofrendo, mas chegou a conclusão de que dúvida era tão válida que ela mesma se fez a pergunta: “Será que sou feminista?”. E assim temos esse livro que, na verdade, é uma especie de carta repleta de pensamentos com a resposta dessa pergunta. E, sinceramente, que livro maravilhoso.

Na época, a imagem do grande fotógrafo Nacho López era vista como uma prova de como a beleza feminina pode ser irresistível. A modelo tinha dezessete anos quando López pediu que percorresse uma calçada da Cidade do México e foi retratando seu passeio sem que ela percebesse. A primeira coisa que me chama a atenção é como devia ser apertada a cinta que ela usava para ter uma cinturinha daquelas. Será que conseguia respirar direito? Será que todas as cantadas que ouviu eram elogiosas? Ou seriam os insultos e insinuações infames que conheço tão bem? Se cantadas e assobios fossem substituídos pela agressão física, será que, com uma cinta assim, ela teria fôlego para fugir? Será que a foto não é tão grave assim porque a mulher que caminha é defendida por sua beleza? Será que, apesar de linda, ela se sentia imperfeita e, sendo imperfeita, feia, e, sendo feia, submissa? Quando saía à rua, sentia-se assediada? Ou feliz por ser tão admirada? Afinal, em que ponto se abre o abismo entre a admiração e o assédio?
Tenho certeza das respostas? Não. Tenho certeza das perguntas.

O trecho acima está no livro e, junto com ele, a fotografia citada. É de extrema importância poder ligar a comparação que a autora fez a imagem e fica claramente ilustrada todas as suas perguntas.

Um dia, em uma loteria genética, eu recebi dois genes iguais, e, por isso, nasci mulher. Me identifico com o gênero que tenho, o que me faz uma mulher cis. Até ai, tudo sorte. O que vem depois disso não tem nada a ver com sorte: para poder votar, trabalhar, existir no mundo que estamos hoje em dia, milhares de mulheres em anos passados tiveram de lutar e abrir o caminho para que a minha falta de sorte com os genes me desse uma liberdade que emulasse a liberdade masculina – e digo só emular porque não sou iludida e não acredito que tenhamos a mesma liberdade que os homens. Em um mundo aonde o patriarcado é tão forte e vem de seculos de construção, parece claro que temos de lutar em dobro para termos o mesmo salário em uma multinacional que nos contrata ou sermos levadas à sério em momentos nos quais estamos falando sério. E não me deixe nem começar com as “cantadas” que todas mulheres já receberam no meio da rua em algum ponto de sua vida.

Falo tudo isso porque é isto que este livro nos provoca: uma desconstrução de nossas ideias para que possamos entender que precisamos do feminismo mesmo quando não acreditamos que estamos sendo feministas. Se escrevo aqui, se tenho uma voz em público, é porque o feminismo é necessário – e aqui precisamos deixar claro para quem confunde: feminismo não é a elevação do sexo feminismo a um degrau acima do masculino e sim a EQUIPARAÇÃO de poder dos dois. Não queremos ser especiais, não queremos mais: queremos ser iguais.

Ao lado da imagem do nosso rosto, do nosso corpo, aparece o fantasma das modelos, das atrizes, das misses conforme o estereótipo físico da temporada, um estereótipo desenvolvido pelas agências de publicidade para convencer também os homens de que essa é a mulher que dá prestígio desejar e possuir. Ao contrário do que me ensinaram, a imensa maioria dos homens é capaz de se apaixonar por mulheres que não se parecem em absoluto com modelos, misses ou atrizes. Mas ainda não consegui desaprender: quando me olho no espelho é com elas que me comparo e sempre saio perdendo, e quando acendo a luz do espelho de aumento é para ir à caça dos defeitos que posso ver ali. Não nasci com a noção de como devo ser, que aparência e que atitudes devo ter para ser mulher; como todas nós, fui aprendendo pelo caminho.

Como comecei falando, não há como se fazer uma critica a estrutura do texto ou das ideias que há nele e sim um momento de profunda analise sobre quem somos, o que aceitamos e como vemos nosso papel como mulher dentro de nossa sociedade. Há muito, muito tempo não lia nada sobre feminismo que me provocou e mexeu tanto comigo – acho que desde justamente “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir, obra citada no livro. Há muito sobre o que se esperam de uma mulher, mas há bem mais sobre o que nós mesmas esperamos de nós. E é isso que Alma faz muito bem: lembrando de sua tragetória e tudo que já fez (e fez como podia) para lutar por seu lugar e pelo feminismo, entendemos que essa batalha é lutada todos os dias, em diversas frente e situações.

Também já falei que nem tudo que li concordei, e foi justamente na parte que começa a se tornar mais atual, quando a autora fala sobre o movimento #MeToo. Movimento que nasceu por causa da indústria cinematográfica que ultrapassou as barreiras digitais, temos mais um grande exemplo de como as mulheres são sexualizadas e tratadas em diversas areas nas quais trabalham. Foi um movimento que toda nossa geração viu nascer e se expandir, e fazer com que livros de autoras como Chimamanda Ngozi Adichie se tornassem mais vendidos ao redor do mundo – e então chegamos ao começo de como este livro foi escrito: de um embate das expectativas de todas as pessoas que foram ver o painel e do que a autora realmente queria abordar naquele momento. Será que isto a faria não feminista?

Penso, então, que para ser feminista é preciso ser duplamente corajosa. Corajosa para resistir à prisão, às pedradas, aos divórcios que acompanharam as mulheres que lutaram pelo direito ao voto, ao divórcio, ao aborto ou, como na Arábia Saudita, ao direito de sair sozinha na rua — mesmo que cobertas da cabeça aos pés, sim, mas desde 2018 elas podem finalmente sair sozinhas, sem a escolta permanente e obrigatória de um marido ou parente próximo. E corajosa também para resistir ao risinho castrador de tantos homens, às piadas grosseiras e aos estereótipos com que tentavam e ainda tentam desarmar aquelas que dizem: sou feminista.

A medida que vamos lendo e pensando em nossas próprias vidas e experiências, vamos também conhecendo os exemplos reais e concretos que Alma teve em sua vida, que passam de Estger Chávez à Marielle Franco, mulheres fortes, muito fortes, que deixaram exemplos. Exemplos de luta, de coragem, de vida, de desconstruções que podemos aprender com. E é atraves desse sentimento de aprender através das outras que vamos sentindo a conversa se desenvolver, da autora para nós, do outro lado: quantas vezes procuramos defeitos em nós mesmas por uma sociedade, com padrões irreais, colocam em nós? Quantas vezes somos levadas a acreditar que sabem o que é melhor para nós mesmo que não seja o nosso desejo? Alma diz que nunca quis ter filhos, e admiro nisso nela: ela soube o que queria e se ateve a isso, mesmo que seja algo contra a maior parte da construção da imagem dada as mulheres em nossa sociedade.

Se você nunca leu nada sobre o feminismo e deseja começa, seja para ler e aprender o que quer e o que você não quer, eu indico “Será que sou feminista?” com toda força possível para você, porque você pode até terminar o livro sem saber responder a esta pergunta, mas, em alguma atitude sua do dia a dia, você se fará essa pergunta, e, inevitavelmente, um dia a resposta surgirá. E então saberemos qual será.

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