05.01


“Terror a bordo: 17 histórias turbulentas”
Stephen King, Bev Vincent e mais
Suma – 2020 – 288 páginas

Apertem os cintos para esta antologia de contos turbulentos, com curadoria do mestre do terror e autor best-seller mundial, Stephen King, e do colunista da famosa revista de terror Cemetery Dance, Bev Vincent.

Stephen King odeia voar.

E agora, junto com seu coeditor Bev Vincent, ele está pronto para compartilhar esse medo com você.

Bem-vindos a Terror a bordo, uma antologia sobre tudo que pode dar terrivelmente errado quando se está a 20 mil pés de altura, cortando os céus a 800 km/h, preso em uma caixa de metal com centenas de desconhecidos.

Aqui você vai encontrar todas as maneiras como sua agradável viagem pelos ares pode se transformar em um pesadelo, incluindo algumas formas que você nunca imaginou… mas que vai imaginar da próxima vez em que estiver atravessando a ponte de embarque e entregando sua vida nas mãos de um estranho.

Incluindo histórias inéditas de Joe Hill e Stephen King, além de catorze contos clássicos e um poema de mestres como Richard Matheson, Ray Bradbury, Roald Dahl, Dan Simmons e muitos outros, Terror a bordo é, nas palavras de Stephen King, “perfeito para ler em aviões, principalmente durante aterrisagens turbulentas”.

Estou de volta a minha programação normal com um belo livro de contos editado pelo Rei do terror, Stephen King, e confesso que contos sempre me deixam frustrada. Não é que eu não goste deles, mas eu simplesmente gosto de histórias longas (tanto que escrevo demais nas minhas resenhas aqui, eu sei, eu sei) e de desenvolvimento de personagens. Normalmente eu termino um conto e fico: “Tá, mas e o personagem X? E a personagem Z? E o que aconteceu com eles? Como assim?”. São poucos os livros de contos curtos que realmente me satisfazem, e é com prazer que digo que a coletânea que King compilou é, sem sombras de dúvidas, a melhor que eu já li, tanto pela sua diversidade de cenários e “medos” dentro de um espaço pequeno, um avião, quanto pela qualidade dos contos.

Já sobre o outro medo, que é viajar de avião, eu não compartilho dele. Normalmente não sou do tipo que entra e dorme, mas não tenho medo de cair e (ainda bem, claro) nunca peguei um voo com grandes problemas no ar, então talvez por isso eu tenha embarcado tanto nos contos e na forma como eles se propõe a brincar e a elevar os medos de quem viaja a novos níveis. Seja como for, eu realmente gostei e comprei o livro com uma facilidade que até me deixou espantada.

Quando o tubo de metal e plástico está vedado (como um… bem, como um caixão) e saindo da pista de decolagem, deixando uma sombra cada vez menor para trás, só há uma certeza, uma coisa tão positiva que ultrapassa as estatísticas: você vai descer. A gravidade exige. As questões são onde e por quê e em quantos pedaços, sendo um o ideal.

Como na própria sinopse já assinala, são dezessete contos (sim, tudo isso), e todos com tamanho curto – realmente curtos. Estranhei bastante e pensei que contos assim não iriam se desenvolver tanto, mas me enganei completamente. Os contos foram editados e compilados por Stephen King e Bev Vincent, que é seu editor há anos, além de haver contos dos dois também (e inédito do King). Sinto que preciso falar um pouco sobre a diversidade dos autores para explicar exatamente como esses contos vão do fantástico a uma história de assassinato dentro de um avão, passando por nomes como Arthur Conan Doyle (sim, ele mesmo, o autor de Sherlock Holmes) até Dan Simmons (autor de “O Terror”, o livro que inspirou a série que está no ar atualmente). Claro que com autores tão diversos e alguns obviamente já mortos, as datas nas quais os contos se passam são diversas e, por isso mesmo que passam por tantos gêneros, somente agregando valor a obra final.

No final do livro, Bev Vicent conta que King se aproximou dele durante a turnê de lançamento do filme “A Torre Negra” (inspirado no livro do autor) e que falou sobre sua ideia deste livro. Achei curioso esse ponto, até porque todos assinalam o quão King odeia andar de avião. Como bom autor que é, ele resolveu brincar com seu medo e o estender a todos seus leitores, aproveitando para unir contos que eu provavelmente nunca leria se não estivessem nessa coleção – e eu sou bastante grata por isso.

— Esse cara e a maldita esposa estão no avião conosco. Nós estamos todos no avião. — Ela olha para Bobby e para a esposa, que estão ouvindo o que ela diz. — Independentemente de como viemos parar aqui, estamos todos neste avião agora. No ar. Com problemas. Correndo o máximo que podemos. — Ela sorri. Parece o sorriso do pai dela. — Na próxima vez que tiver vontade de jogar sua cerveja em alguém, dá pra mim. Eu gostaria de algo pra beber.

Como assinalei acima, os contos se passam nos mais variados cenários temporais, desde 1911, passando pelos anos 70 do século passado e culminando nos dias atuais em um conto que me marcou demais, justamente o de Joe Hill, o filho de King, é inédito e escrito especialmente para a obra. “Vocês estão liberados” é, definitivamente, o conto mais aterrorizador do livro pelo simples fato de ser uma possibilidade real para qualquer pessoa: um grupo de pessoas viajando, em pleno ar, quando acontece um ataque nuclear com um contra-ataque do seu país de origem, os Estados Unidos. Pego no meio do envio de misseis de contra-ataque, o conto vai narrando os acontecimentos mudando de personagens (e ainda temos tempo para saber o passado dos personagens e ver personagens LGBT+ se apoiando no meio disso tudo) enquanto o pânico vai crescendo, o que é mais do que compreensível. Fiquei bastante impressionada como Hill conseguiu surfar em tantos pontos de vistas em um conto tão curtos e tão envolvente. Definitivamente chamou minha atenção mais do que suficiente para começar a ler as obras dele com mais atenção.

Já o conto de Richard Matheson, “Pesadelo a vinte mil pés”, é um conto incomodo a ponto de deixar o leitor com uma sensação desconfortável, como assistir a um bom filme de terror: um passageiro, o Sr. Wilson, está vendo uma figura grotesca fora da aeronave, pela janela – mas ele está vendo mesmo ou está tendo um ataque nervoso justamente por não gostar de viajar de avião? O conto aqui se passa em 1961, então claro que o medo e a desconfiança nos aviões estavam em outro patamar, além da forma como se voava era diferente também (podia-se fumar dentro do lugar apertado, imagina isso). No final das contas, fica ao leitor pegar as pistas e tentar entender exatamente o que estava acontecendo, mas a sensação de angustia ficou comigo mesmo depois de terminar o conto. No quesito terror, ainda aponto o conto “A Carga”, de E. Michael Lewis, por envolver caixões, mortos, crianças e muito, muito terror por falar em Jonestown, um dos maiores suicídios coletivos da história da humanidade, tudo sobre as ordens do pastor Jim Jones (se você não conhece essa história real e for sensível, não incentivo a pesquisar sobre ela, que fique claro), tudo bastante psicológico, mas… será mesmo só psicológico?

Uma fúria repentina e sufocante tomou conta dele, e Wilson teve vontade de gritar, de quebrar alguma coisa, de bater em alguém. Os dentes tão trincados que o maxilar doía, ele empurrou a cortina com uma mão trêmula e olhou com fúria assassina pela janela.
Do lado de fora, viu as luzes da asa piscarem, os rastros sinistros de fumaça saindo da cobertura do motor. Ali estava ele, pensou Wilson; vinte mil pés acima da terra, preso em um casco ululante da morte, se movendo pela noite congelante em direção a…

Ainda falando um pouco sobre os contos que realmente chamaram minha atenção, aponto um pequeno primor da ficção científica que está ali no meio dessa seleção de contos: “Lúcifer!”, de E.C. Tubb, é um conto premiado em 1972 que é curto e delicioso: apesar do nome, ele não é de terror e sim de ficção, como falei. Adorei demais esse conto e quanto o terminei, dei uma gargalhada porque nem sempre o que queremos é o melhor e tentar passar a perna nos outros pode ser nossa ruína e a estória prova isso claramente. O conto do também Editor Bev Vincent é o “Zumbis a bordo”, inspirado pelo filme “Serpentes a bordo”, um filme com o Samuel L. Jackson (que não é tão bom quanto a premissa promete, que é literalmente o nome do filme), e foi divertido de se ler. O conto de King é inédito, como já falei, se chama “O especialista em turbulência” e é exatamente o que King é: uma mistura de sobrenatural com uma organização que cuida do destino de aviões. Fiquei até intrigada quando terminou.

Mas não vou encerrar essa resenha sem falar do meu segundo conto favorito do livro: “Assassinato nas alturas”, de Peter Ellis (aqui assinando como Peter Tremayne), é, como o próprio nome já entrega, um conto de mistério sobre a morte dentro do avião. O que parece a princípio ter sido um suicídio, se transforma em uma investigação de assassinato com a ajuda do Dr. (em criminologia!) Gerry Fane. Claro que há reviravoltas na investigação, e o conto se mostra ter sido escrito com mais absoluto primor em sua explicação final. Sei que sou inclinada a gostar de mistérios (adoro um bom livro de suspense), mas esse conto realmente é bom de se ler. Fica a minha dica pra quem também gosta desse tipo de leitura.

Fane se recostou e ouviu a amargura na voz do homem.
— Ele era o tipo de homem que tinha vários inimigos, então?
Tilley sorriu com o comentário.
— Ele era o tipo de homem que não tinha amigos.

Vou me repetir aqui e falar que sim, essa coletânea de contos me ganhou única e exclusivamente pela qualidade de seus contos, mesmo todos se passando em basicamente o mesmo cenário: aviões. De paranoia a organizações malignas, surtos e assassinatos, eu nunca pensei que poderia me divertir tanto lendo sobre uma grande maquina de metal. E com a ajuda de Stephen King. Mas quem sou para duvidar do potencial dele, não é mesmo?

Somente para assinalar, os contos do livro e seus respectivos autores são: “A carga” (de E. Michael Lewis), “O horror das alturas” (de Arthur Conan Doyle), “Pesadelo a vinte mil pés” (de Richard Matheson), “A máquina voadora” (de Ambrose Bierce), “Lúcifer!” (de E.C. Tubb), “A quinta categoria” (de Tom Bissell), “Dois minutos e quarenta e cinco segundos” (de Dan Simmons), “Diablitos” (de Cody Goodfellow), “Ataque aéreo” (de John Varley), “Vocês estão liberados” (de Joe Hill), “Pássaros de guerra” (de David J. Schow), “A máquina voadora” (de Ray Bradbury), “Zumbis a bordo” (de Bev Vincent), “Eles não vão envelhecer” (de Roald Dahl), “Assassinato nas alturas” (de Peter Tremayne), “O especialista em turbulência” (de Stephen King) e “Caindo” (de James L. Dickey).

Para comprar “Terror a bordo” basta clicar no nome da livraria:

Amazon.
Submarino.
Travessa.
Magazine Luiza.

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