01.01


“A Fazenda dos Animais”
George Orwell
Companhia das Letras – 2020 – 248 páginas

A história é conhecida: cansados da exploração a que são submetidos pelos humanos, os animais da Fazenda do Solar se rebelam contra seu dono e tomam posse do lugar, com o objetivo de instituir um sistema cooperativo e igualitário. Mas não demora para que alguns bichos voltem a usufruir de privilégios, fazendo com que o velho regime de opressão regresse com ainda mais força.

Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945, A Fazenda dos Animais é uma alegoria satírica sobre os mecanismos do poder e tudo aquilo que leva à corrosão de grandes ideias e projetos de revolução. Pela primeira vez no Brasil, o clássico de George Orwell é publicado com seu título original. Com nova tradução, de Paulo Henriques Britto, e projeto gráfico especialíssimo ― com capa em tecido, corte impresso e obras da artista brasileira Vânia Mignone ―, este A Fazenda dos Animais conta também com uma série de ensaios que cobrem a recepção crítica do livro desde o seu lançamento até os dias de hoje.

A primeira vez que li “A Revolução dos Bichos” foi no começo da faculdade de direito – e sim, aqui temos a mesma “fábula” (como muitos vezes meus professores se referiram ao texto), o mesmo texto, mas agora com o nome real com o qual foi escrito e criado. Apesar de já saber disso, que Orwell escreveu esta história com um nome claro: “A Fazenda dos Animais”, que é onde a trama realmente se passa. Mas agora temos uma edição completa com tanta informação que merece ser lida e analisada somente por eles – podem confiar em mim que sim, vale a pena.

Para quem ainda não conhece ou não se aventurou em uma leitura que é tida como clássica, a história é bastante simples: O Sr. Jones tem uma fazenda na qual cria animais, que se sente explorados e mal tratados pelo homenzinho vil. Um dia, os animais escutam o velho porco Major que teve um sonho, e, bom base nesse sonho, se unem e decidem colocar um fim naquela situação toda, tomando o controle do lugar para si. Assim a fazenda, outrora conhecida como Fazenda do Solar, passa a ser a Fazenda deles, com trabalhos divididos e também todos benefícios – e por benefícios digo comida e uma ideia de um futuro mais sereno e calma na velhice dos animais. Nessa época, a vida na Fazenda beirou a um sonho perfeito, tudo regido sobe as sete leis que os animais criaram em uma das suas assembleias para regirem sua sociedade como uma grande irmandade, já como tinham um inimigo em comum: os homens. O Animalismo era real e era o sistema dos animais. Eram iguais e acreditavam que eram mais felizes assim. E, por um tempo, eles estiveram certos.

OS SETE MANDAMENTOS


1. Tudo o que anda com duas pernas é inimigo.
2. Tudo o que anda com quatro pernas ou tem asas é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.

Então os suínos começam a tomar a liderança da fazenda nas figuras dos porcos Bola de Neve e Napoleão, seja dividindo o trabalho, seja começando a mostrar que podiam, de todas as formas possíveis, gerar dúvidas e “guiar” os outros animais e suas opiniões em determinadas direções. Por mais que outros animais trabalhassem muito mais do que os próprios porcos (vide o exemplo de Guerreiro, o cavalo) e outros fossem capaz de começarem a entender que algo estranho e já visto antes estava começando a acontecer (aqui, no caso, somente um foi capaz: Benjamim, o burro), vamos ver a degradação da sociedade dos animais por ganância e pela total falta de empatia, compaixão e, principalmente, ganância do seu atual líder, que nem ao menos foi escolhido para tal e sim deu um golpe.

Os porcos começam a usar a velha e já conhecida tática usada através dos seculos em quase todas sociedades humanas: o medo de um inimigo em comum e a implantação de um “exercito”, aqui na forma de “cães de guarda”, para resguardar os poderes dos porcos, tudo sempre com aquela aura de: “Estamos fazendo isso em prol do melhor para nossa sociedade!”. Claro que também há o porco Guincho, que começa sempre a plantas a ideia que é mais conveniente aos porcos entre os outros animais. Dá um desespero entender que tudo está se repetindo e os porcos aqui estão quebrando todas as leis que eles mesmo ajudaram a criar, mas a medida que você sente essa “dor”, você entende que eles não se importam simplesmente porque eles estão em cima na cadeia animal novamente, e isso era o que eles queriam e gostavam. Por que, você pode se perguntar, e eu vou lhe responder da forma mais direta: Pelo mesmo motivo que alguns homens gostam da posição de poder e de manter os outros abaixo.

Bravura não basta”, disse Guincho. “Lealdade e obediência são mais importantes.

Assim que temos um total paralelo com a nossa sociedade atual e é motivo pelo qual um livro que foi escrito em 1947 ainda é atual e estudado: a humanidade continua andando em círculos, acreditando que alguns são melhores do que os outros, usando a mesma técnica do medo e histéria coletiva contra um inimigo em comum para manter aqueles governantes no poder e assim se perpetuarem e, principalmente, os que estão em posição de poder poderem coletar mais beneficias para si mesmo do que nunca. Há uma certa passagem do livro que Guincho usa o fato dos porcos “precisarem” comerem as maçãs e tomarem o leite para poderem trabalhar “com a mente” e assim evitar que o Mr. Jones voltasse ao poder. Parece surreal que os outros animais aceitassem essa desculpa, mas é exatamente isso que acontece.

É catártico ler um livro aonde você vê animais se juntando para lutarem juntos, lado a lado, por uma vida melhor. Quando eles entendem que o poder está do lado deles porque são eles que fazem todo trabalho na fazenda e, por isso, merecem uma vida melhor, é absolutamente inebriante. Mas, assim como também é uma alegria ler a subida, é desesperador ler a queda da Fazenda porque você entenda que Orwell está simplesmente reproduzindo nos animais a própria inabilidade humana de enxergar que os outros são seus pares e que precisam, acima de tudo, se apoiarem e escolherem o destino de todos juntos, em uma sociedade sem alguns estarem no topo e outros não. É simplesmente assim que o ser humano funciona, infelizmente, e é isso que Orwell fez aqui: recriou a revolução Russa por meio de uma fazenda.

Mas se era necessário suportar privações, elas eram em parte compensadas pelo fato de que a vida agora tinha mais dignidade do que antigamente. Havia mais canções, mais discursos, mais desfiles.

Essa informação é dada pelo próprio autor no prefácio dessa edição de especial – e agora falo sobre o material extra que mencionei na introdução desta resenha. Orwell também deixa claro aonde veio a inspiração para a história e ainda temos diversos textos extras que acrescentaram tanto a leitura que eu mal posso explicar: há textos de Northrop Frye, Raymond Williams, Daphne Patai, Edmund Wilson e outros, além de ensaio visual de Vânia Mignone e um posfacio do professor Marcelo Pen, escrito especialmente para a Edição. Mas, acima de tudo, o que mais aprendi nessa edição foi o motivo pelo qual o nome original, “A Fazenda dos Animais” é tão mais correto do que o nome que conhecemos o livro, “A Revolução dos Bichos”. Só por esse motivo, eu já indicaria essa edição – porque não se iluda, há um motivo por trás disso e ele pode não ser o que você pensa.

Eu sei que muitos podem achar o preço desta edição cara, mas como alguém que já tinha lido o livro e agora teve a oportunidade de ler um eBook desta edição completíssima, eu afirmo que vale demais a pena ter um exemplar desse. Se você não conhece essa história de uma revolução que tinha tudo para dar certo e fazer uma sociedade melhor e foi corrompida pelos próprios participantes, você precisa ler e entender mais sobre a própria história da humanidade contada aqui em uma metáfora bastante clara e fácil de entender.

”Todos os animais são iguais
mas alguns são mais iguais que os outros.”

Há tanto para se pensar e falar sobre a trama de “A Fazenda dos Animais” que uma resenha só me parece até um descaso com uma edição dessa qualidade, por isso tudo que posso fazer é realmente dizer que essa história tem chegado nas pessoas por mais de 70 anos por um motivo simples: nós, humanos, continuando replicando essa história, repetindo nossas ações e fazendo a mesma coisa de novo e de novo e de novo. E, ao que tudo indica, vamos continuar fazendo isso por muitos e muitos anos ainda, em muitas e muitas fazendas.

Para comprar “A Fazenda dos Animais” basta clicar no nome da livraria:

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Submarino.
Travessa.

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