18.12


“Querido Edward”
Ann Napolitano
Paralela – 2020 – 304 páginas

Como sobreviver e continuar vivendo? Esta é a história de um menino obrigado a seguir em frente depois de perder tudo. Mas também é a história de personagens inesquecíveis e de como pessoas salvam umas às outras de inúmeras maneiras. Acima de tudo, este livro é um retrato sensível e inspirador de um coração partido aprendendo a amar de novo.

Em uma manhã de verão, Edward Adler e sua família embarcam em um voo junto com outros 183 passageiros. Entre eles há um prodígio de Wall Street, uma jovem grávida, um veterano de guerra e uma mulher fugindo do marido controlador. Pouco depois, porém, todas essas histórias são interrompidas pela queda do avião ― menos uma. Edward foi o único sobrevivente.

Depois da tragédia, o garoto vai morar com seus únicos parentes em uma cidadezinha de Nova Jersey. É lá que ele conhece sua nova melhor amiga e passa a frequentar o consultório de um psicólogo, tentando construir uma nova vida.

Ainda assim, ele não se sente tão vivo: é como se uma parte de si continuasse sentada na poltrona ao lado do irmão, para sempre voando com desconhecidos. Quando Edward descobre uma série de cartas enviadas a ele desde o acidente, essa sensação começa a mudar, e ele é levado a procurar respostas para uma pergunta que ninguém deseja responder: depois de uma tragédia, como seguir adiante e encontrar um novo sentido para a vida?

Já falei em outras resenhas que gosto sempre de resenhar o livro assim que termino de lê-lo, mesmo que falte semanas para a minha resenha ser publicada (porque temos uma agenda certinha de resenhas, quais dias quem postará, coisas do tipo). Entretanto, em alguns livros, eu preciso de um momento para poder conseguir realmente respirar e colocar as ideias em ordem sobre como escrever sobre aquele livro. Aqui, com “Querido Edward”, eu inauguro uma nova categoria: precisei de tempo para saber o que eu iria escrever sobre esse livro.

Me parece muito simples resumir “Querido Edward” somente a um livro sobre luto. Ele não é. Também não é um livro somente sobre o caminho para a cura. Ele também não é mesmo. Acho que o melhor que posso deixar claro, desde começo, é que “Querido Edward” é um livro sobre pessoas. Pessoas simples, com defeitos, com qualidade, pessoas que você encontra quando vai no mercadinho perto da sua casa ou na rua, passando por elas. Ou pessoas que você encontra dentro de um avião, desconhecidos que tem sua vida no curso da sua enquanto vocês ficam dentro de uma caixa de metal que voa pelo céu, levando todos a um destino em comum. Algumas pessoas ficarão naquele lugar, outras não. E, nesse caso, infelizmente, todos permanecerão em um mesmo lugar para sempre – todos, menos Edward.

Edward mal registra o que ela disse. Lembranças do irmão o atingiram de surpresa. Isso acontece às vezes, e ele sabe que deve aguentar. Elas só vão embora se ele as encarar. Edward se lembra de Jordan no beliche em cima dele, com a cabeça meio enterrada no travesseiro. Se lembra de Jordan compondo músicas, com a testa franzida concentrado. Vê Jordan ao seu lado no avião, e sabe que o verdadeiro motivo pelo qual nunca mais vai voar, ainda que trivial, é que a última poltrona de avião em que vai se sentar na vida precisa ser aquela ao lado do irmão.

Como a sinopse deixa claro, Edward é o personagem principal. Em 12 de junho de 2013, às 7:45 da manhã, conhecemos um Edward com 12 anos e sendo carinhosamente chamado de Eddie por sua família: Jane Adler, sua mãe, roteirista; Bruce Adler seu pai matemático e Jordan, seu irmão mais velho de 15 anos. A família inteira está no voo 2977, que vai de New York para Los Angeles. A família está se mudando, saindo da cidade na qual os garotos cresceram. Enquanto Jordan está na fase da rebeldia adolescente, se descobrindo e tendo uma namorada secreta, Eddie é o filho calmo, carinhoso, que toca piano e está sempre à sombra do mais velho e sem qualquer ressentimento disso porque ele ama Jordan. Os pais, que também se amam, aceitaram se sentar separados dentro do avião: o pai iria com os meninos na classe econômica enquanto a mãe iria na 1ª classe para trabalhar na revisão do roteiro que estava trabalhando no momento.

No avião também somos apresentados a outros personagens (lembra que falei que este livro é um livro sobre pessoas, antes de tudo?). Conhecemos Linda, uma jovem que se sente meio perdida e que descobriu que está grávida, indo de encontro ao namorado Gary para contar as novidades e, quem sabe, receber um pedido de casamento, depois de um relacionamento a distância? Também conhecemos Flórida, uma mulher um tanto quanto peculiar que está deixando o marido, Bobby. Ainda há Mark Lassio, um jovem empresário cheio de si que se encanta com a aeromoça Veronica, uma mulher bonita e bastante carismática. Há ainda Benjamin, um militar voltando para encontrar sua avó depois de um trágico acontecimento, e há Crispin Cox, um velho bastante arrogante que viaja com uma enfermeira, a maltratando a ponto de fazê-la chorar, indo enfrentar uma luta contra o câncer – mas, nem assim, você consegue simpatizar e esquecer as ações do velho. Claro que isso é somente uma pequena gama dos personagens que viajam, já como, completando o que a sinopse diz, há 183 passageiros – mas as mortes chegam a 191, junto com a tripulação do avião. Todos mortos em uma queda que Edward irá testemunhar e sobreviver, milagrosamente.

Os adultos cutucam Edward e o olham de soslaio coletivamente. Sua linguagem corporal diz: A crise passou. Você precisa seguir em frente para que possamos seguir em frente com a nossa vida.
Mas como a crise pode ter passado se ele ainda tem dificuldade para dormir, e se precisa usar as roupas do irmão para se sentir intacto, e se nunca mais vai ver sua família?

O livro não tem uma estrutura linear, o que significa que ele fica entre a manhã do voo até ele cair e o futuro desde que Edward é resgatado. Conhecemos Lacey e John, seus tios, que agora cuidarão do garoto que se machucou fortemente no acidente, mas, mais do que isso: Edward agora tem seu espirito quebrado. Ele perdeu sua família inteira naquela queda – não, mais do que isso, bem mais: ele deixou de ser uma criança na pré-adolescência para saltar fases que nenhuma pessoa deveria, perdendo fases ao ter que lidar com o luto e a dor, tanto física quanto emocional, nas consequências daquele terrível evento.

Ao se mudar para a casa dos tios, Edward logo conhece Besa e sua filha, Shay, as vizinhas que passarão a fazer parte de sua vida. Shay tem a mesma idade que Edward e parece acreditar que ele tem alguma espécie de super poderes a la Harry Potter. Ainda há a presença do Dr. Mike, o terapeuta de Edward, e o diretor Arundhi, do colégio de Edward e Shay, um homem que dá uma especie de trabalho para o garoto. Lacey e John queriam desesperadamente ter um filho e nunca conseguiram levar uma gravidez até o final, e agora lidam com essa criança que precisa de muita atenção, amor, e cuidado, mas, ao mesmo tempo, está tendo de reaprender a se abrir e é ótimo ver que o garoto começa, de alguma forma, a mover seu corpo, ainda repleto de traumas e se curando fisicamente, para começar a criar relacionamentos que podem lhe ajudar a curar mais um pouco sua alma também.

No caminho para casa, Edward identifica diferentes gramados nos jardins. Nuvens cobrem o céu, e ele consegue perceber onde uma acaba e outra começa. Em sua fadiga, vê os limites que separam uma coisa da outra. A árvore retorcida na esquina de sua casa é feita de muitas partes: raízes, galhos maiores e menores, os diferentes veios na casca. Edward pensa na fachada externa — na casca — da escola, com tantas partes internas compondo o organismo. Cadeiras, armários, crianças pequenas que choram quando alguém as insulta. Professores, funcionários, todo o barulho, o rebanho de humanos crescendo. Os alunos que o odeiam, que sentem que têm mais problemas que ele, embora toda a vida de Edward tenha desabado do céu. Percebe que não fica bravo que o odeiem. Talvez seja mesmo pior ter o pai preso, ser negro numa cidade cuja maioria é branca, ter dificuldades com a lição de casa mesmo se esforçando ao máximo. Como ele poderia saber?

Confesso que no começo da trama toda a parte da trama que se passa dentro do avião é bem mais interessante do que Edward chegando na casa dos tios e começando esse processo. No avião, temos a sensação de estar vendo um filme que foi filmado sem cortes, a câmera se movendo pelos assentos do avião, indo de uma personagem para outra, mostrando mais quem ela era e depois se movendo pelo corredor, indo para os passageiros da 1º classe que seguimos. Vamos aprendemos mais sobre como Jordan está tentando encontrar quem ele é, questionando até mesmo o pai, o deixando em uma posição desconfortável, enquanto vemos Mark decidido a conseguir um pouco de atenção de Veronica. Os personagens do avião são humanos, muito humanos, com pensamentos e decisões de pessoas que vivem sua vida sem ter a menor ideia da tragedia que as aguarda, afinal, quem poderia esperar algo assim?

Embarquei na leitura porque ela era fácil e fluía muito, muito bem, mas até o meio do livro eu não estava investida completamente nele. Não pelos personagens, não pelo sofrimento de Edward, eu só estava achando que era um bom livro sobre como aprender a viver com um trauma gigantesco – e então chegamos em outro fato que também é falado na sinopse: Edward descobre que o tio, John, está fazendo sua própria investigação sobre o acidente e tem escondido dele as cartas que recebe, vemos a dupla de adolescentes (porque Shay e Edward são inseparáveis, mesmo, e vou falar sobre isso mais a frente) lidando com coisas maiores do que eles são capazes de entender: o luto. Toda essa parte começou a crescer dentro de mim de uma forma que foi impossível parar de ler o livro mais, e a partir dai, eu soube que tinha uma perola em minhas mãos.

Sinto que deveria ter superado a essa altura”, ele diz. “Todo mundo já esqueceu o acidente. De modo geral, pelo menos. Mas sinto como se ainda pensasse nisso o tempo todo.
O dr. Mike mexeu seu café por um longo minuto. Pessoas vagam do outro lado da vitrine. Três homens de barba passam um atrás do outro, bem curvados, de olho no celular. Uma mulher grávida caminha lentamente, ao lado de uma criança bem pequena com cabelo afro. Edward sente o coração bater dentro do peito, sente o calor do chá passar da xícara para a pele de sua mão.
O terapeuta diz: “O que aconteceu está impresso em seus ossos, Edward. Vive sob sua pele. Nunca vai desaparecer. É parte sua e será parte sua em todos os momentos até sua morte. O que você tem feito, desde a primeira vez que o vi, é aprender a conviver com isso.

O livro foi lançado em janeiro deste ano lá fora e já tinha sido publicado aqui na TAG inéditos, mas somente agora está chegando a todos pela Paralela. Claro que só achamos elogios a essa narrativa tão sensível e tão tocante, que a autora, Anna Napolitano, que nos agradecimentos, confessa que foi “inspirada” por dois acidentes reais de aviões: o do voo 771 da Afriqiyah Airways em 2010 (o qual também teve somente um sobrevivente) e o voo 447 da Airfrance em 2009. Ela definitivamente tem minha atenção para suas futuras publicações porque sua escrita realmente me cativou.

Não digo que “Querido Edward” é um livro fácil ou para todas as pessoas. A narrativa traz muita dor, muita reflexão e muito, muito crescimento. Em um ano repleto de desafios, me peguei fazendo um paralelo sobre o valor das coisas que parecem pequenas e que deixam de ser quando perdemos algum que amamos. Eu já lidei com o luto em minha vida, obviamente que não nas mesmas situações que Edward, mas você entende o que ele está passando, você entende a dor visceral que ele passa, você entende as dores do corpo dele, a falta de sono, a sensação de que tudo está definitivamente fora do lugar, por mais que os tios dele estejam tentando, de todas as formas, fazerem com ele se enquadre em sua “nova” vida, mas que vida ele acha que ainda tem? O que é preciso encarar e fazer para começar a superar algo que você claramente não irá superar? São tantas perguntas que o livro nos faz fazer que, no final das contas, o que eu queria mesmo era abraçar Edward e falar que, eventualmente, tudo iria continuar e que ele iria ficar, dentro do possível, bem. As cicatrizes iriam ficar, mas o avião iria parar de cair. Espero que vocês deem uma chance a esse livro tão tocante que merece ser conhecido e debatido.

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