25.02


“A Última Palavra”
Tamara Ireland Stone
Rocco – 2020 – 352 páginas

SE VOCÊ PUDESSE LER MINHA MENTE, NÃO ESTARIA SORRINDO…

Samantha McAllister esconde de todos o que se passa em sua cabeça. Sam sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo caracterizado por pensamentos intrusivos. Seus pensamentos não param um segundo do dia, cada passo e palavra suas são controladas, e esconder isso tudo faz com que viver seja um grande esforço. Tudo piora quando suas amizades começam a se tornar tóxicas e ela é julgada por conta de pequenos erros com suas roupas, comida ou o garoto por quem ela se interessa. Mesmo assim, Sam sabe que ela estaria verdadeiramente louca se deixasse de ser amiga das garotas mais populares da escola.

Por causa disso, Sam é constantemente aconselhada por sua psiquiatra a conhecer novas pessoas e fazer novos amigos, pessoas que não lhe provoquem crises de ansiedade e pânico constantes. Em um primeiro dia de aula assustador, Sam conhece Caroline, uma menina que vai levá-la para uma sala secreta em que um grupo de pessoas que são ignoradas pelo resto da escola se reúne. Ela rapidamente se identifica com eles, especialmente com um talentoso garoto que toca violão, e começa a descobrir uma nova versão de si mesma. Aos poucos ela passa a se sentir mais normal do que nunca, coisa que jamais tinha se sentido antes… até ela encontrar um novo motivo para questionar sua sanidade e tudo o que ama.

Eu gostaria de poder ter tido livros que falem sobre saúde mental quando eu era adolescente. Já falei isso em outra resenha minha (de um livro que me é muito caro e amo demais), porque teria aberto meus olhos para o meu transtorno de ansiedade com o qual eu convivi toda minha vida, mas não tinha a menor ideia do que era e acreditava que todas as pessoas eram assim. Mais de uma vez ouvi médicos me falando: “Nossa, você é ansiosa!”, e eu não tinha a menor ideia do que era o transtorno que me fazia ter os pensamentos acelerados e a insônia que me atacava. Só quando sofri a pior perda da minha vida e que minha ansiedade saiu do controle, eu enfim entendi que minha mente trabalhava de forma diferente das outras (por mais que eu suspeitasse, é difícil aceitar isso) e comecei a cuidar de mim de todas as formas indicadas. Por que estou falando tanto de mim, você que lê pode pensar, mas preciso falar que esse livro é necessário para pessoas ai fora como eu, acreditando que é normal viver pensando o tempo inteiro, sem conseguir desligar um segundo sequer, e por isso livros como esse são tão IMPORTANTES (em caps mesmo): porque o leitor lê por diversos motivos, e se identificar é um deles. Você lendo sobre a Sam, você começa a se identificar se você precisa cuidar de sua saúde mental.

Como alguém que lida com pensamentos intrusivos, tive bastante identificação com a Sam, e pude embarcar na história dela em sua totalidade. Acho que nem todos vão conseguir isso porque podem pensar que o livro foi “fantasioso” demais, mas também acredito que não foi porque a nossa mente opera de modos misteriosos e, por fim, faz a gente acreditar em coisas que não estão lá e não são verdades. A mente é o órgão mais poderoso que temos, e, mesmo assim, duvidamos do que ele nos leva a acreditar e como nos faz sentir.

— Quantos pensamentos o cérebro processa automaticamente por dia?
Minha mãe apela para os fatos para me ajudar a ficar calma.
— Setenta mil — sussurro, lágrimas caindo na minha calça jeans.
— Isso. Você age de acordo com setenta mil pensamentos por dia?
Sacudo a cabeça.
— Claro que não. Esse pensamento foi um em setenta mil. Não é especial.
— Não é especial.

Começando bem do começo, Sam é uma garota que anda com o grupo popular do colégio desde muito cedo. Sam – Samantha, na verdade, já como as amigas a chamam pelo nome completo – faz parte desse (atualmente) quinteto que são as verdadeiras “mean girls” do colégio, e tudo que ela faz, toda a forma como se comporta, o que fala, com quem sai, tudo isso é direcionado a manter seu TOC controlado e escondido dessas amigas – Hailey, Alexis, Kaitlyn e Olivia. Aqui preciso fazer um parêntese para falar que eu não conhecia o tipo de TOC que a protagonista tem, já como sempre associamos o TOC ao modelo exterior, pessoas repedindo gestos e ações, mas, o dela é interno: os pensamentos a dominam, a levando a um ataque de pânico, exatamente como acontece bem no começo do livro, mostrando que ela vive em seu limite interno, tudo para se manter “normal”.

A psiquiatra de anos de Samantha realmente acha que o fardo de ser amiga do grupo é demais para a garota, mas ela se nega a sequer cogitar se afastar de suas amigas, afinal de contas, ela acredita que são suas amigas e que ela não pode viver sem elas, mesmo que isso a deixa no limite para tentar sempre esconder tudo que acontece com ela. E então algo diferente acontece, porque Sam descobre uma nova amiga, alguém que ela precisava e que é capaz de diminuir o peso que carrega em seus ombros porque pode simplesmente ser ela mesma com Caroline. Mas tudo, absolutamente tudo, está prestes a mudar mais ainda em sua vida.

— Você não está exagerando — diz.
— Tem certeza? Porque você pode me dizer se estiver. Tenho uma tendência a pensar demais, especialmente sobre minhas amigas, e não sei… Levo as coisas para o lado pessoal. Quer dizer, não é sempre culpa delas. Às vezes o problema sou eu. Só que nem sempre sei quando são elas e quando sou eu, sabe?

Caroline tem um efeito imediato em Sam, até porque, juntas, elas descobrem um pequeno e secreto clube dentro do colégio. Sim, isso mesmo, um pequeno grupo de alunos que não andam juntos pelos corredores do colégio, mas que compartilham entre si o amor pelas palavras em todas suas formas, se apoiando durante o tempo difícil que é o colégio (alguns que lerem isso definitivamente vão concordar comigo). O problema é que para entrar no grupo, Sam terá de ficar cara a cara com Andrew Olsen, também como conhecido como AJ, garoto que claramente a odeia, e o problema aqui é que Sam nem ao menos se lembra do motivo pelo qual fez o outro a odiar. Aquele velho ditado: “Quem bate, esquece; quem apanha, não.” levado a máxima potência possível.

Apesar dos problemas iniciais, é claro e óbvio que Sam conseguirá entrar no pequeno clube, como também é claro que nenhuma das duas amigas populares está no clube, o que começa a se tornar um segredo pesado para Sam manter já como está sempre sumindo durante o almoço agora. Suas amigas começam a cobrar aonde ela está e o que está fazendo. Então um dia Sam descobre através de Kaitlyn o motivo pelo qual Andrew a odeia, e nesse ponto, eu também senti demais o efeito que temos na vida das outras pessoas. Brincadeiras muitas vezes são inofensivas, mas também muitas vezes não, e Andrew sofreu bastante na mão daquelas garotas, incluindo Sam. Mas, assim como é claro e óbvio que Sam entrará no clube secreto de poesia, é também que Sam e Andrew irão se envolver.

— Todo mundo tem alguma questão — diz.
— Tem?
— Claro que sim. Algumas pessoas só atuam melhor que as outras.

A chata dos romances aqui já avisa que o romance não me empolgou ao máximo, mas também acredito que ele poderia ter sido bem pior: Andrew e Sam tem química e a medida que Caroline e Andrew vão tendo mais influência em sua vida e em tudo que está acontecendo, Sam vai perdendo o medo de assumir suas escolhas e sua paixão pelo garoto, mesmo que isso cause desgosto em suas amigas. Não há o velho plot de “escondendo-que-estou-com-o-garoto-nerd-do-colégio” em desenvolvimento aqui, mas, apesar disso, me perguntei diversas vezes como Andrew pode perdoar Sam (talvez ele simplesmente seja uma pessoa melhor do que eu) depois do bullying passado. Entretanto, o romance não é foco do livro e nem o fator “salvação” de Sam: ela não se estabiliza e decide tudo por amor ao Andrew, e isso é muito, muito bom de se ler. Caroline tem total influência sobre Sam, e as mudanças que acontecem na garota é devido a amiga.

A Última Palavra” ainda traz uma grande reviravolta no enredo, e eu não sei como todos podem se sentir lendo, mas também estou ciente de que a mente é capaz de muito: de fazer com que acreditemos que nossos amigos não gostam da gente, que nosso namorado está nos traindo, de nos fazer acreditar que estamos tendo um ataque cardíaco ou tendo um AVC sem estarmos tendo nada fisicamente. Como falei acima, a nossa mente nos guia, nos faz acreditar em coisas que podem nem ao menos estar lá, e, muitas vezes, faz com que pensemos exatamente como Sam: “E se eu for louca?”

— Acontece sempre, desde que eu me lembro. Não consigo desligar meus pensamentos. Não consigo dormir sem remédios. Minha cabeça só… nunca para. Eu fui diagnosticada com TOC aos onze anos. Desde então, tomo ansiolítico. Tenho uma psiquiatra incrível chamada Sue que, tipo, me mantém viva, e eu a vejo toda quarta de tarde.

Um dos temas mais importantes do livro é justamente a amizade que Sam desenvolve com Caroline, mas também te faz pensar sobre o peso de amizades tóxicas e o quanto nos esforçamos muitas vezes para as pessoas gostarem da gente. A insegurança faz com que não nos mostremos por inteiro, e não formos quem realmente somos, esse relacionamento é uma amizade real? É isso que Sam passa muito com as Oito (Como falei acima, agora é somente um quinteto e nãos mais Oito, apesar de ainda se chamarem assim) e sua falta de confiança nelas é levada e muito pela própria falta de aceitação com ela mesma e a sua vontade de ser “normal”, sem nem ao menos notar o quanto esses relacionamentos a estão levando cada vez mais para mais inseguranças e, por consequência, mais pensamentos intrusivos. Temos de aprender a ficar próximos de quem é importante para nossas vidas e, principalmente, quem nos faz bem. Muitos pontos positivos para o livro por abordar esse assunto.

O livro não me atingiu como um soco na cara (como “O Fundo é Apenas o Começo” e “Todas as Coisas Belas”), mas ele é um bom livro para aprender mais sobre saúde mental (me peguei lendo sobre TOC com pensamentos intrusivos e aprendi mais sobre o tema) e também para fazer com que possamos entender que nossa mente é repleta de mistérios e momentos desafiadores. Isso não significa que a pessoa seja louca: isso significa que vamos continuar lidando com nossas mentes e pensamentos até o último dia, até a última palavra.

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