19.11

Sinopse: Além de enfrentar anos de bullying na escola, Charlotte Davis perde o pai e a melhor amiga, precisando então lidar com essa dor e com as consequências do Transtorno do Controle do Impulso – um distúrbio que leva as pessoas a se automutilarem. “Viver não é fácil”. Quando o plano de saúde de sua mãe suspende seu tratamento numa clínica psiquiátrica – para onde foi após se cortar até quase ficar sem vida -, Charlotte Davis troca a gelada Minneapolis pela ensolarada Tucson, no Arizona (EUA), na tentativa de superar seus medos e decepções. Apesar do esforço em acertar, nessa nova fase da vida ela acaba se envolvendo com uma série de tipos não muito inspiradores.

Cansada de se alimentar do sofrimento, a jovem se imbui de uma enorme força de vontade e decide viver e não mais sobreviver. Para fugir do círculo vicioso da dor, Charlotte usa seu talento para o desenho e foca em algo produtivo, embarcando de cabeça no mundo das artes. Esse é o caminho que ela traça em busca da cura para as feridas deixadas por suas perdas e os cortes profundos e reais que imprimiu em seu corpo.

[AVISO DE GATILHO: Depressão, automutilação]

Charlotte é uma garota que teve muitos problemas na vida. Ela perdeu o pai muito novinha, que se matou, e então passou a viver apenas com a mãe que batia nela e a maltratava, além de sofrer bullying no colégio. Então um dia ela conheceu Ellis, que era uma garota super descolada e ela não conseguia entender porque a garota quis ser amiga logo dela, mas aceitou isso. Elas se tornaram inseparáveis de uma forma que lembra muito o filme “Aos Treze” (se você não viu ainda, veja, vale a pena!) e começaram a fazer todo o tipo de coisa juntas e enquanto o relacionamento de Charlie com a mãe piorava, ela sabia que tinha a amiga do lado e poderia contar com ela pra tudo – mesmo sendo frequentemente deixada de lado pelo namorado que a amiga arrumou e que não prestava em nada.

Então um dia, a briga com a mãe culmina na mulher a expulsando de casa e Charlie vai buscar abrigo na casa de Ellis que a aceita de braços abertos até o dia em que os pais da garota encontram as drogas do namorado dela no chão da casa e Ellis permite que Charlie leve a culpa por tudo isso, a deixando sem ter onde morar ou o que fazer. Nisso Charlotte se junta a uma dupla de garotos que não querem nada com a vida além de usar drogas e que moram na rua e passa a morar na rua com eles. Nesse meio tempo na rua, Ellis tenta entrar em contato com ela quando o namorado a abandona e Charlie não responde, então a garota tenta se suicidar, resultando num estado que deixou ela bem acabada e fez com que os pais de Ellis fossem embora da cidade com a garota. Charlie, ainda morando na rua e ficando embaixo de viadutos para se proteger enquanto dorme, fica assim até eles encontrarem uma casa onde podem ficar, mas para isso, Charlie teria que pagar com o próprio corpo, sendo vendida para qualquer homem que quisesse ela. E é essa a gota d’agua pra garota e que leva ela a quase por fim na própria vida, indo parar em uma clinica – e é aí que o livro começa de vez.

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“Eu me lembro das estrelas naquela noite. Eram como sal no céu, como se alguém tivesse virado o saleiro em cima de um tecido muito escuro.
Isso teve importância para mim, essa beleza acidental. A última coisa que achei que veria antes de morrer na grama fria e molhada.”

Quando o livro começa com Charlotte na clinica, nós não sabemos o que aconteceu direito, tudo pequenas peças de um quebra cabeça que começa a se encaixar conforme os dias dela lá vão passando e nós vamos entendendo quais são as pessoas que fazem parte da vida da garota e quais foram as coisas que aconteceram com ela pra chegar naquele ponto em que chegou. Charlie não conversa com ninguém na clinica. Nem com as pacientes, nem com a médica, ficando sempre no mais absoluto silencio, sem contar para ninguém além de nós, leitores, o que se passa na cabeça dela, já como o livro é todo no ponto de vista da garota.

Chega um dia em que a represa finalmente estoura (porque ela sempre estoura) e Charlie começa a falar enfim, apenas para descobrir semanas depois que será mandada embora para casa, para viver junto com a mãe que a maltratou grande parte da infância e da adolescência porque o seguro não cobriria mais os atendimentos a ela ali na clinica. Então entra outro personagem aqui: Michael. Ele era amigo de Charlie e de Ellis quando as duas estudavam juntas e quando ele sabe que ela está para sair da clinica, ele vai até a mãe da garota e deixa com ela passagens para que Charlie se mudasse para a cidade onde ele está, assim ele poderia ajudar ela no que fosse preciso.

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“Eu me corto porque não consigo lidar com as coisas. É simples assim. O mundo se torna um oceano, o oceano cai em cima de mim, o som da água é ensurdecedor, a água afoga meu coração, meu pânico fica do tamanho do mundo. Preciso de libertação, preciso me machucar mais do que o mundo pode me machucar. Só assim posso me reconfortar.”

A mãe de Charlie atende o pedido do garoto e quando a tira da clinica, entrega para ela todos os documentos que ela precisa para ir embora, além de dinheiro, um dinheiro que ela e Ellis juntavam para viajarem o mundo como sempre quiseram fazer e que os pais de Ellis encontraram nas coisas da garota quando arrumaram a mudança e achavam que seria melhor ser entregue a Charlie. Com o dinheiro e os documentos em mãos, ela enfim parte para uma nova cidade, longe de toda a bagunça que era a vida dela ali, em busca de enfim recomeçar, mas como todos nós sabemos, isso nunca é fácil assim.

Ao chegar na cidade, Charlie já encontra a decepção de saber que o amigo dela não estará lá com ela por um bom tempo, já como ele trabalha com bandas, ele está ajudando na turnê de uma delas e demorará para voltar ainda, então resolvendo se virar como pode, ela vai em busca de um emprego na cidade que ela acaba encontrando em uma cafeteria como lavadora de pratos e lá ela conhece o charmoso Riley, além de Julie, Linus e Tanner, que são outras pessoas que se tornam cruciais na vida da menina.

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“Seguir em frente. Continuar a batalha. Estou ficando cansada de todo mundo pensar que é tão fácil viver. Não é. Nem um pouco.”

Com Riley, ela começa um relacionamento muito conturbado e eu diria até mesmo que é toxico, visto que ele é um dependente químico e alcoólatra e é exatamente desse tipo de confusão que a garota precisa manter toda a distancia possível para poder ficar limpa e resistir ao impulso que ela ainda sente de se cortar sempre que as coisas dão errado. Ela carrega com ela algo que ela chama de “kit do amor” que consiste em uma caixinha com esparadrapo, gaze e vidros que ela pode usar para se cortar.

Linus, que é outra personagem tão importante quanto Riley, é uma ex-alcoólatra que trabalha três turnos na cafeteria e que perdeu o direito de ver os filhos para o ex por conta da bebida e ela ajuda muito Charlie em toda a recuperação dela que é demorada, triste e pesada.

Além deles, em certo ponto do livro, Blue que é uma das meninas que morava na clinica com Charlie, é liberada e resolve ir atrás da garota para elas tentarem juntas serem o apoio uma da outra – mas eu não vou dizer se isso dá certo ou errado, porque isso é um spoiler bem grande, assim como qualquer outra coisa que eu pudesse falar aqui.

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“— Esse coração partido (…) Acho que você está tendo um tipo diferente de coração partido. Talvez coração partido por estar no mundo quando não sabe como estar nele. Isso faz algum sentido? Todo mundo tem esse momento, eu acho, o momento em que uma coisa tão… crucial acontece e que parte seu ser em pedacinhos. E aí, você tem que parar. Por um tempo, para recolher os pedaços. E demora tanto, não para juntá-los novamente, mas para montá-los de um jeito novo. Não necessariamente melhor, mas de um jeito com o qual você possa viver até ter certeza de que essa peça devia ficar ali e aquela outra aqui.”

Esse livro me deixou com muitos pensamentos conflitantes e confusos. Eu não consegui odiar Riley, não sei se alguma das coisas que acontece entre os dois tem realmente esse objetivo, mas eu achei ele um personagem real demais e cheio de problemas, assim como a própria Charlotte e por isso o relacionamento deles era da forma conturbada quanto era, por isso eles não faziam bem um para o outro e é triste porque todos podiam ver isso, menos os dois – ou pelo menos eles não queriam acreditar nisso.

E nesse mesmo passo, eu fiquei bem incomoda com o amigo de Charlie, Michael, porque ok, ele não tinha nenhuma obrigação com ela, mas existe uma coisa chamada “responsabilidade afetiva” e ele não parece ter noção disso. Não acho que ele em momento algum levou ela a acreditar que teria algum envolvimento romântico com ela não, mas ele deixou ela acreditar que estaria ali para ela se apoiar nele e na primeira oportunidade ele simplesmente a deixou a mão, indo embora e seguindo a vida dele no meio dos rockstars e até se casava com uma namoradinha (!!!), enquanto a garota que ele chamava de amiga estava claramente definhando ali.

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“O corte é uma cerca que você constrói no próprio corpo para manter as pessoas do lado de fora, mas depois você chora para ser tocada. Mas a cerca é de arame farpado. E agora?”

Se eu pudesse usar apenas uma palavra para descrever esse livro, seria justamente essa: pesado. Ele não é um livro impossivelmente triste que me fez querer chorar a cada pagina lida, mas ele é incrivelmente pesado, com algumas cenas que eu certamente vou demorar pra esquecer. Mas isso não faz dele um livro ruim, muito pelo contrario. A vida é assim muitas vezes e é uma realidade que existem muitas pessoas por aí como Charlie, que não suportam a própria dor e precisam de cortes e marcas para que elas possam suportar a dor de viver. Eu sei porque já fiz isso.

Foi meio dolorido para mim ler um livro assim e entender muitas das coisas que se passavam na cabeça de Charlotte quando ela pensava sobre se automutilar e isso não é algo que eu desejo pra ninguém. É triste e dá vergonha na gente, como ela mesma faz questão de frizar em certo ponto do livro. Mas também acredito muito que uma cicatriz é mais uma prova de batalha vencida, seja da forma que for.

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“As pessoas deviam saber sobre nós. Garotas que escrevem a dor que sentem nos corpos.”

Eu gostei muito da escrita do livro, achei bem tocante e quando cheguei no final e me deparei com a nota da autora, falando sobre a propria vida, aí sim eu senti muita vontade de chorar e vou até colocar aqui um pequeno pedaço do que ela fala:

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“Quando Charlie Davis vê a colega de quarto Louisa tirar a blusa, ela fica perplexa e pensa: “É que eu nunca tinha visto uma garota com a pele igual à minha”.
Anos atrás, eu não queria escrever esta história.
Anos atrás, no ônibus da cidade, tomando notas para outra história que estava escrevendo, eu levantei o rosto quando senti alguém se sentar ao meu lado. Planejava lançar o olhar mais breve do mundo para ela e voltar para as minhas anotações, mas minha respiração entalou na garganta.
A pele dela era igual à minha. Ao sentir meu olhar, ela puxou a manga rapidamente, cobrindo as cicatrizes finas e recentes.
(…)
Anos atrás, eu não queira escrever a história das minhas cicatrizes, nem sobre como é ser uma garota com cicatrizes, porque já é difícil o suficiente ser apenas uma garota no mundo. Experimente só ser uma garota com cicatrizes na pele, neste mundo.
Deixei aquela garota sair do ônibus sem lhe dizer nada. E não devia ter feito isso. Eu devia ter mostrado para ela que, ainda que presa nas profundezas dela mesma, ela não estava sozinha.
Porque ela não está.
(…)
A automutilação não é uma tentativa de obter atenção. Não quer dizer que você é suicida. Quer dizer que você está lutando para resistir a uma confusão muito destrutiva guardada na cabeça e no coração, e que esse é seu mecanismo para lidar com isso. Quer dizer que você ocupa um pequeno espaço no grande cânion real de pessoas que sofrem de depressão ou doenças mentais.
Você não está só. A história de Charlie Davis é a história de mais de dois milhões de jovens mulheres nos Estados Unidos. E essas jovens vão crescer, como eu cresci, carregando a verdade do nosso passado no próprio corpo.
(…)
Charlie Davis encontra sua voz e seu consolo nos desenhos. Eu encontro os meus na escrita. Qual é seu consolo? Você sabe? Encontre-o e não pare nunca de fazê-lo. Encontre a sua gente (porque você precisa falar), sua tribo, seu motivo para existir, e juro que o outro lado da coisa vai começar a emergir, de forma lenta, mas segura. Não faz sempre sol e nem sempre é um mar de rosas, e às vezes a escuridão fica bem sombria, mas estamos cercados de pessoas capazes de entender e de nos provocar gargalhadas suficientes para aliviar as pontas afiadas e nos ajudar a chegar ao dia seguinte. Por isso: vá.
Vá ser absoluta e positivamente angelical pra caralho.”

E sempre se lembre do mais importante de tudo: VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO (A). Se a vida está difícil, procure ajuda, não carregue o peso do mundo nos seus ombros. Converse com seus familiares e amigos e se acha que não consegue se abrir com nenhum deles, procure ajuda especializada, procure um lugar onde você possa ser ouvido. Não aguente barra nenhuma sozinho (a), porque assim, nós não conseguimos chegar a lugar nenhum.

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