15.09

“It: A Coisa”
Stephen King
Suma – 2014 – 1104 páginas

Durante as férias de 1958, em uma pacata cidadezinha do Maine, Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly aprenderam o real sentido da amizade, do amor, da confiança… e do medo. O mais profundo e tenebroso medo. Naquele verão, eles enfrentaram pela primeira vez a Coisa, um ser sobrenatural e maligno que deixou terríveis marcas de sangue em Derry. Quase trinta anos depois, os amigos voltam a se encontrar. Uma nova onda de terror tomou a pequena cidade. Mike Hanlon, o único que permaneceu em Derry, dá o sinal. Precisam unir forças novamente. A Coisa volta a atacar e eles devem cumprir a promessa selada com sangue que fizeram quando crianças. Só eles têm a chave do enigma. Só eles sabem o que se esconde nas entranhas de Derry. O tempo é curto, mas somente eles podem vencer a Coisa. Neste clássico de Stephen King, os amigos irão até o fim, mesmo que isso signifique ultrapassar os próprios limites.

Essa resenha é fruto da Leitura Coletiva que a Editora Suma ofereceu com a tag #SumaLendoIt e participamos, com partes editadas para poder tirar os spoilers que eram permitidos. Você pode ler nossas impressões originais clicando AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI.

It: A coisa” é um livro grande, realmente grande. Com mais de 1.100 páginas e dividido em 5 partes, a 1º parte é realmente uma grande introdução e ambientação de todo cenário do livro e da história que virá a seguir. Somos apresentados a George Denbrough, um garotinho de 6 anos, que em um dia de chuva, sai para brincar com seu barquinho de jornal feito por seu irmão mais velho, Bill, pelas ruas da cidade de Derry, no Maine (Sim, King gosta de ambientar seus livros no estado!). O que acontece é algo tão assustador que o próprio garotinho acredita ter saído de seus pesadelos: um palhaço está na galeria de esgosto subterrânea e resgatou seu barquinho, levado pela correnteza – mas o palhaço, na verdade, mata George de um jeito que mistura terror puro com gore, arrancando o braço do pequeno. Isso tudo se dá em 1957.

O livro então salta para o ano de 1984, ano no qual os acontecimentos “no presente” se desenrolam. Damos de cara com um assassinato horrendo de Adrian Mellon, que estava simplesmente passeando com seu namorado e foi brutalmente espancado e jogado de cima de uma ponte. Mas, para incredulidade dos investigadores, um dos assassinos diz ter visto um palhaço lá embaixo e que havia sido esse palhaço que realmente matou Adrian. Claro que ninguém leva a sério a confissão, já como era obvio que o homem morrera da queda – mesmo o namorado de Adrian dizendo que também viu a sinistra figura desse palhaço. Dai sim, somos apresentados aos personagens principais do livro: William “Bill” Denbrough, um escritor e roteirista casado com uma beldade do cinema e que está na Inglaterra, que sofreu anos por sua gagueira quando criança; Richie Tozier, com seus óculos e seu cérebro rápido para ótimas tiradas que se tornou um locutor de rádio de bastante sucesso em Los Angeles; Eddie Kaspbrak, que se casou com uma cópia de sua mãe, a quem viveu sempre dominado quando os eventos em 57/58 aconteceram mas que encontrou certo conforto sendo motorista de celebridades e ricos em New York; Ben Hanscom, um arquiteto de sucesso que vive basicamente solitário e sem ninguém, era terrivelmente gordinho quando criança; Stanley Uris, que é o judeu do grupo e sofreu bastante bullying com isso, se casou com uma mulher que ama e se tornou rico, mas não conseguem ter um filho; Beverly Rogan, outrora Marsh; a única garota do grupo, com seus cabelos ruivos e um corpo incrível, que se tornou modelista e está em um casamento abusivo, replicando o mesmo relacionamento que tinha com seu pai quando criança e no início de sua adolescência; e, por fim, temos Mike Hanlon, bibliotecário e único que continuou a morar em Derry e que sofreu tanto bullying quanto todos seus amigos.

O piano recomeçou a tocar “Für Elise”. Bill Gago nunca esqueceu essa melodia, e mesmo muitos anos depois, ela sempre lhe deixava com a pele dos braços e das costas arrepiada; seu coração ficava apertado e ele lembrava: Minha mãe estava tocando isso no dia que Georgie morreu.

Mike é o catalizador de tentar reunir seus amigos porque justamente foi o único a continuar a morar em Derry e se lembrar de tudo que aconteceu entre os anos de 57 e 58. Ele começa a ligar para todos seus outrora amigos, sendo que alguns nem ao menos se lembram dele até ele mencionar a cidade, já como a maior parte das pessoas parece simplesmente esquecer o que acontece na cidade quando se afasta de lá. Todos amigos começam a se lembrar a medida que a conversa com Mike vai acontecendo no telefone, e todos decidem que vão voltar a cidade devido a uma promessa que fizeram quando tudo aconteceu: que voltariam se tudo voltasse a acontecer. Bem, tudo estava voltando a acontecer e Mike estava anotando tudo, rezando para não precisar contatar seus antigos amigos, o que obviamente não aconteceu como ele esperava. Todos cumpriram sua palavra, encontrando um jeito de voltar para Derry, deixando seus conjugues e suas vidas em pause – menos Stanley.

Mesmo ainda no começo, já deu pra sentir que o coração de “It: A Coisa” é o relacionamento entre os amigos e o valor da palavra que eles deram ainda no começo de suas vidas, todos decididos a retornarem para o seu pior pesado e da cidade que tanto tentaram fugir há mais de 25 anos atrás. Se fica fácil entender o fascínio que o livro provoca há 3 décadas em todos leitores: é a amizade formada entre essas crianças sofridas e traumatizadas que faz a narrativa lhe prender. Por diversas vezes me peguei entendendo a pureza dos sentimentos dos personagens uns pelos outros, no alto de seus 11, 12 anos e da forma como eles se tornaram amigos. Como Ben, um garoto tão solitário começa a se aproximar de Bill e Eddie, que já eram grandes amigos, como Bev, tão traumatizada com seu pai encontra consolo na amizade do grupo que lhe faz ter certeza de que ela não está ficando louca; como Richie, com sua boca frouxa, encontra amigos o suficiente para rirem de suas piadas e como Stan se encontra entre eles. Fatos sobrenaturais começam a acontecer com essas crianças, que entendem rapidamente que estão lutando contra algo muito maior do que eles.

Afinal, há mais nesta história do que seis garotos e uma garota, nenhum deles feliz, nenhum deles aceito pelos colegas, que tropeçaram em um pesadelo durante um verão quente quando Eisenhower ainda era presidente. É uma tentativa de afastar um pouco a câmera, para ver a cidade inteira, um lugar onde quase 35 mil pessoas trabalham e comem e dormem e copulam e compram e dirigem e andam e vão para a escola e vão para a cadeia e às vezes desaparecem no escuro.

O livro fica indo e voltando no tempo, entre o tempo atual e o passado, quando os personagens eram crianças, ainda com trechos do diário de Mike, que foi anotando tudo que podia durante todos aqueles anos, e é ainda no final da segunda parte que Mike conta o que seu pai, Will, lhe contou sobre o desastre de Black Spot – e acredite, você vai ter pesados com essa parte porque é um crime de ódio capaz de arrepiar qualquer pessoa.

Quando, enfim, o Clube dos Otários se reúne novamente, em suas versões adultas, você vibra. Em um almoço repleto de sentimentos (tanto para os personagens quanto para o leitor, que se apega cada vez mais aos personagens), até o ato final do almoço, mostrando que A Coisa está bem ciente da volta deles a cidade e que vai de encontro a eles, apesar dos personagens ainda não se lembrarem de tudo que precisam, sendo bastante angustiante porque o livro vai se aproximando de sua metade e os personagens ainda estão lutando para tentar se lembrar do seu inimigo mortal, enquanto o leitor vai recebendo pequenos pedaços de informações aqui e ali, mas ciente de que o que quer que A Coisa seja, ela é um terror capaz de mudar de forma e que se alimenta as pessoas na cidade, que parecem conviver com ela de uma forma que não entendemos ainda completamente, apesar de já conseguimos compreender que A Coisa está em toda parte em Derry, seja desde sua torre d’água até o Rio Kenduskeag, que corta a cidade; do Barrens a estrada que levava à saide de Derry. Em sua ameaça invisível e constante, aquela “coisa” vai se tornando mais e mais real, fazendo com que deixe de ser uma coisa impalpável para se tornar algo real, algo a se temer, algo que estava matando crianças e fazia os adultos não perceber o que acontece.

“…O que aconteceu naquela noite no Black Spot, por pior que tenha sido… Não acho que tenha acontecido porque éramos negros. Nem porque o Spot ficava perto da West Broadway, onde os brancos ricos de Derry moravam e ainda moram hoje. Não acho que a Legião da Decência Branca tenha crescido tão bem aqui porque os integrantes odiavam os negros e os vagabundos com mais intensidade em Derry do que em Portland ou Lewiston ou Brunswick. É por causa do solo. Parece que coisas ruins, coisas cruéis, se dão bem no solo desta cidade. Pensei nisso várias vezes ao longo dos anos. Não sei por que é assim… mas é.”

Ainda preciso assinalar a presença de Henry Bowers, um dos maiores valentões que infernizou a infância do Clube. Descobrimos que Henry estando preso em Juniper Hill (É o hospital psiquiátrico que está presente em diversas obras de King, e até mesmo no seriado “Castle Rock” – que, alias, indico!) durante esses 27 anos. O grupo de Henry, durante os eventos em 1958, é um dos grupos mais difíceis de ler que eu já li sobre: enquanto alguns, como Victor, conseguem enxergar que há algo de errado com o líder, ele ainda encontra pessoas piores do que ele: Patrick é um exemplo disso, que é descrito como um sociopata. Também há que se levar em conta dois fatos sobre o odioso personagem que Henry é: a influência de seu pai e a própria Derry, que obviamente exerce um grande papel em seu carácter maligno e sombrio. Assim como Pennywise é o grande vilão estabelecido desde começo, Henry toma o posto de antagonista valentão ensandecido.

Vamos aprendendo mais sobre A Coisa e como o Clube dos Otários conseguiu pará-la a pela primeira vez. O enredo vai caminhando para seu final enquanto vamos tendo mais e mais mais informações sobre A Coisa – temos direito até mesmo a seu ponto de vista de tudo que aconteceu e está para acontecer – enquanto o Clube dos Otários recupera suas memórias e se prepara para ir de encontro a seu maior inimigo. É bastante interessante ler a visão da Coisa sobre os garotos, como eles conseguiram realmente machucá-la em 1958, e ainda tivemos a sua própria percepção de si mesma. A proximidade do fim não foi motivo para King começar a correr com o enredo, afinal, ele tinha mais de 1.000 páginas para dar todas explicações da mitologia que queria, além de deixar claro a interação sobre os Otários, o que realmente me prendeu. A personalidade deles e a forma como eles se apoiam e estão juntos naquela batalha final realmente me segurou por todas as páginas do livro. Eu entendi perfeitamente o encanto e o fascínio que esse livro traz ao longo de suas décadas, desde seu lançamento: o grupo de crianças que sofreu traumas ainda muito jovens e se tornaram adultos com reflexos do que lhe aconteceu, aprendendo a se superar e enfim derrotando o que mais tinham medo em suas vidas – parece até mesmo algo metafórico, em algum nível. Me pego pensando bastante sobre isso, mas isso fica pra outra ocasião porque acredito que seja uma visão bem diferente do livro. Não posso não mencionar a (e confessar que estava com receio de ler sobre) já “famosa” cena de sexo que o livro traz com eles crianças, mas, lendo, preferi escolher levar pelo lado sentimental da coisa, já como não era sexo realmente que eles precisavam e muito menos me apegar aos detalhes físicos das descrições, e sim levar o sentimento e a forma como eles demonstraram como que se amavam. Não deixa de ser desconfortável de ler e me senti inquieta.

…e por uma sensação de que Derry era fria, de que Derry era dura, de que Derry estava cagando se qualquer um deles vivia ou morria, e muito menos se eles triunfariam sobre Pennywise, o Palhaço. O povo de Derry vivia com Pennywise em todos os seus disfarces havia muito tempo… e talvez, de alguma forma louca, tivesse até passado a compreendê-lo. A gostar dele, precisar dele. Amá-lo? Talvez. Sim, talvez isso também.

A luta final continua, aquele grupo de pessoas lutando contra algo tão maior e mais forte, levando a um final que muitos não gostam. Provavelmente se o final não fosse daquela forma, eu não tivesse amado tanto o último capítulo de “It: A Coisa”: aquele final agridoce, exatamente como a batalha final, me deixou mais do que satisfeita com o livro, que apesar de não ter se tornado meu favorito de King (“O Cemitério” ainda continua em 1º lugar), me fez entender completamente o poder dessa obra, que sim, tem seus problemas: é prolixa demais e poderia ter um número menor de páginas em determinados pontos, mas a verdade é que eu leria todas 1000 páginas da obra novamente só para ler sobre esses personagens, que são fortes, quebrados e, acima de tudo, fortes, mostrando o poder da amizade e como amor entre os amigos é capaz de destruir até mesmo uma criatura com tanto poder. Uma leitura mais do que indicada e que certamente valeu a pena cada página.

Em tempo: Já vi todas as adaptações, tanto o seriado antigo (que foi meu primeiro contato com a história) quanto as duas partes da versão cinematográfica atual. A 2º parte do filme atual divergiu bastante do livro, principalmente na parte final – mas a parte 1 foi bastante fiel aos personagens, apesar de obviamente haver sim, mudanças em comparação ao livro. Indico a todos irem no cinema conferir “It: parte 2” também, foi um filme que valeu a pena ir conferir no conferir – mas ah: leiam o livro, sempre!

“Mas é bom pensar assim por um tempo no silêncio limpo da manhã, pensar que a infância tem seus segredos doces e confirma a mortalidade, e que a mortalidade define toda a coragem e todo o amor. Pensar que o que já ansiou pelo futuro também precisa olhar para trás, e que cada vida faz sua própria imitação da imortalidade: uma roda.”

A Edição da Suma é aquela excelência que já conhecemos: não encontrei erros e a edição atualmente vem com uma jacket com o cartaz do filme. Você pode ver a capa e a jacket em nossas fotos lá no Instagram – clique AQUI.

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