12.07

“Nightflyers”
George R. R. Martin
Suma – 2019 – 144 páginas

Nas fronteiras do universo, uma expedição científica composta de nove acadêmicos dá início à missão de estudar os volcryn, uma misteriosa raça alienígena. Existem, no entanto, mistérios mais perigosos a bordo da própria nave. A Nightflyer, única embarcação que se dispôs à missão, é uma maravilha tecnológica: completamente automatizada e pilotada por uma única pessoa. O capitão Royd Eris, porém, não se mistura com a tripulação – conversando apenas através de comunicadores e se apresentando somente por holograma, ele mais parece um fantasma do que um líder. Quando Thale Lassamer, o telepata do grupo, começa a detectar uma presença desconhecida e ameaçadora por perto, a tripulação se agita e as desconfianças aumentam. E a garantia de Royd sobre a segurança de todos é posta à prova quando uma entidade malévola começa uma sangrenta onda de assassinatos.

Sim, é um livro do George R. R. Martin, o autor das “Crônicas de Gelo e Fogo”, série de livros que inspirou o seriado e fenômeno cultura “Game of Thrones” e ainda não terminada. Para quem está estranhando o número de páginas dessa edição, é preciso explicar que na verdade o que temos aqui é um conto – que é grande, mas é um conto. Escrito por George R. R. Martin em 1980, bebendo nos melhores anos que a ficção científica teve em nossa cultura, “Nightflyers” mistura terror e ficção, gênero que estava em alta e bastante popular com o lançamento do filme “Alien, o 8º passageiro” em 1979. O conto foi publicado pela primeira vez em 1981 em um livro de contos, e novamente publicado no ano de 1985 em um livro com o mesmo nome, repleto de contos também de Martin. O enredo de “Nightflyers” se passa no mesmo universo que diversos outros contos do autor.

Já houve um filme gravado em 1987 (que não vi, mas vou procurar ver, então quando essa resenha for publicada, muito provavelmente eu já terei assistido) e uma série fracassada em 2019. Eu confesso que o que me chamou atenção, a princípio, foi justamente saber que haveria uma série de TV inspirada no conto, mas também estou profundamente aliviada agora ao saber que a série foi inspirada no filme de 87 e não no conto, porque… a série é ruim. Não prende e não te deixa tensa como a narrativa do livro faz, além de mudar o foco dos personagens, seus lugares na trama e suas personalidades (mentira que uma adaptação fez isso… rs). Não fico feliz que tenha sido cancelada já (nem ganhou uma 2º temporada), mas também não posso dizer que continuaria assistindo. Agora chega de contexto e vamos ao que interessa: o conto e como se tornou um livro aqui!

Não sei quem ou o que ele é, não sei se aquela história que nos contou é verdade, e não ligo. Talvez ele seja uma mente hrangan, o anjo vingador dos volcryn ou o segundo advento de Jesus Cristo. Que diferença isso faz, porra? Ele está nos matando! — Ele olhou para cada um deles. — Qualquer um de nós pode ser o próximo. Qualquer um de nós. A não ser… Temos que fazer planos, fazer alguma coisa, acabar com isso definitivamente.

Em um futuro sem data, os humanos já ganharam o espaço e conquistaram outros planetas, mas essa sociedade já está em decadência e agora a humanidade está espalhada por diversos planetas em cantos distantes (esse mesmo universo também é palco de outros contos, como falei acima já). No meio disso tudo, existe uma espécie chamada Volcryn, que talvez não exista realmente – a “lenda” diz que eles viajam pelo espaço, sem parar, em uma nave. Não há registro de contato com essa espécie, mas o objetivo da vida do cientista Karoly d’Branin é encontrar essa espécie, e junto com outros 8 cientistas, sendo um deles um telepata poderoso de nome Thale Lasamer e uma aperfeiçoada de nome Melantha Jhirl, contratam a nave de nome Nightflyer, que tem por capitão o misterioso Royd Eris.

Completando a equipe, temos ainda o casal de linguistas Dannel e Lindran, em um relacionamento descrito como bastante complicado. Temos a Dra. Agatha Marij-Black, uma psíquico-analista, que segundo Eris, era hipocondríaca. Lommie Thorne era a especialista em computadores enquanto Rojan Christopheris é o exobiólogo do grupo, e, para completar, Alys Northwind – que segundo a narração, nunca tomava banho. O grupo era bastante diverso em personalidades e nas primeiras páginas, aprendemos bastante sobre eles de um jeito bem “não legal”, por assim dizer, já como eles estão sendo observados em todos momentos, até em suas intimidades. Em um grupo de cientistas, não é difícil imaginar que eles começam a entender que existe algo bem sinistro acontecendo dentro daquela nave, apesar de não saber o que e nem por quê.

— Mas, falando sério, você sabe alguma coisa sobre ele? De onde vem esta nossa Nightflyer?
— Não sei — admitiu D’Branin. — Eu… eu nunca pensei em perguntar.
Os membros da sua equipe de pesquisa se entreolharam, incrédulos.
— Você nunca pensou em perguntar? — reagiu Christopheris. — Como escolheu esta nave?
— Estava disponível. O conselho administrativo aprovou meu projeto e me deu pessoal, mas não podia dispor de uma nave da Academia. Também havia restrições orçamentárias.

Já a bordo da nave, o grupo de descobre que seu capitão Eris nunca apareceria em pessoa para eles, somente através de hologramas. Isso começa a insuflar uma certa paranoia na tripulação, afinal, por qual motivo o homem não apareceria? Ele existe realmente? Estão se colocando em uma situação de risco? Nesse ponto do livro é bastante natural e você entende os personagens que estão confinados no espaço, em uma tripulação tida como pequena, em uma nave que também é pequena, começarem a se sentirem inquietos – ainda mais quando o primeiro “acidente” acontece. A medida que os personagens vão ficando inquietos, o ritmo da narrativa também se torna incerta e inquietante, levando o leitor a se sentir incomodado com o suspense que está sendo criado, ou, melhor falando: alcançando o objetivo de estabelecer um clima tenso com maestria, ainda mais com Thale afirmando que há um perigo entre eles. Está formada a receita para o desastre.

Enquanto todos começam a querer forçar Eris a dar respostas, Melantha começa a se afeiçoar ao holograma do homem. Mesmo quando ela descobre que ele observa todos o tempo inteiro pelas câmeras do lugar, ainda assim ela o defende, sempre confiando bastante em si mesma e em suas opiniões. Melantha é uma personagem difícil: em parte você adora o jeito forte da mulher, ciente de seus poderes, afinal, ela é uma aperfeiçoada (basicamente uma humana com mais velocidade, força, visão, inteligência) e sabe de seus limites, você começa a ser automaticamente afastada do sentimentos de simpatia pela personagem pela arrogância que ela demonstra ter em muitos momentos. Enquanto tudo dentro da nave vai se deteriorando, Melantha continua fazendo suas escolhas, o que faz o leitor ter vontade de gritar com a personagem de frustração.

— Entende o quê? — perguntou D’Branin, perplexo.
— Você não entende — disse Royd com firmeza. — Não finja que sim, Melantha Jhirl. Não! Não é sábio nem seguro estar lances demais à frente.

E é justamente nos personagens que reside o maior ponto fraco de “Nightflyers”: Melantha se perde pela arrogância; Thale se perde pela falta de espaço dentro da narrativa (mesmo que você suponha que ele terá grande papel), Eris é um personagem complexo demais, mas que não funcionou pra mim: sua vontade de viver pelos olhos dos outros somente me causou nojo, mas acredito que seja justamente parte da dualidade do conto, que quer que você decida quem são os mocinhos e os vilões nessa fase da trama – ainda no meio. O resto dos personagens, com a exceção da Dra. Agatha, que ainda tem alguma relevância, basicamente estão lá para servirem de palco para a ameaça que ronda todos e ter as cenas necessárias para lhe fazer entender o quão grande eles correm perigo, caindo como peões em mortes gores que são incrivelmente bem descritas. Palmas para todas essas cenas!

Claro que a escrita de George R. R. Martin dá uma qualidade gigantesca a narrativa, e por isso o livro se faz tão tenso e tão bom. A tensão, o nervoso, a ameaça, a desconfiança e paranoia dos personagens fazem o leitor querer terminar de ler de uma vez só, já como é um conto e, por isso, você tem a sensação de que “só mais uma página” é real aqui. No final das contas, “Nightflyers” bebe da fonte que “Alien” e “Contatos Imediatos do 3º grau” beberam, criando uma mistura intensa e única: uma ficção científica de qualidade diluída em um terror real, coisa que hoje em dia praticamente não existe mais. Se você quiser ler um livro de qualidade e com a certeza de que é uma obra que pode te abrir um leque de gêneros quase desconhecidos, indico a se perder no universo repleto de inteligência – até a artificial.

Sobre a edição e o conto se tornar um livro: o conto fez tanto sucesso que o próprio George aumentou o conto inicial, dando nomes a personagens que antes não tinham e ganhado ilustrações, e é aqui que entra essa edição maravilhosa da Suma: capa dura, com ilustrações que acompanham a narrativa (calma que tomei maior cuidado para nenhuma das imagens postadas aqui serem de spoilers que estraguem a sua leitura!) e nenhum erro de digitação em nenhuma página. Qualidade que faz ter vontade de comprar todos os livros da Editora. Recomendado.

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