Infiltrado na Klan (2019)

Direção: Spike Lee

Elenco: John David Washinton, Adam Driver

Gênero: Biografia; Policial

Sinopse: Em 1978, Ron Stallworth (John David Washington), um policial negro do Colorado, conseguiu se infiltrar na Ku Klux Klan local. Ele se comunicava com os outros membros do grupo através de telefonemas e cartas, quando precisava estar fisicamente presente enviava um outro policial branco no seu lugar. Depois de meses de investigação, Ron se tornou o líder da seita, sendo responsável por sabotar uma série de linchamentos e outros crimes de ódio orquestrados pelos racistas.

 

Duas coisas incomodam o espectador minimamente atento logo no início de ‘Infiltrado na Klan’: o discurso racista e a óbvia repetição de argumentos que perduram até hoje. Se o filme retratada a época do aparthaid estadounidense, mesmo que nos estados do Norte tal política de separação, onde a história se desenrola, não estivesse em vigor, é impossível não associar as falas, discursos e atitudes a episódios recentes da história dos EUA. Obviamente, nenhum desses paralelos são por acaso.

 

A narrativa gira em torno de Ron Stallworth, primeiro policial negro de Colorado que, num impulso, resolveu entrar e contato com o núcleo loca da Klu Klux Klan para investigar suas ações contra negros na cidade. Por motivos óbvios, ele precisa da ajuda de um policial branco para o personificar diante os membros dA Organização. Entra em cena então, Flip Zimmerman, um judeu sem muita ligação com suas origens – mas que também engloba como grupo atacado pela KKK.

 

Com uma direção decidida, ágil, com um toque de humor e muitos tons de emoção, Spike Lee consegue a proeza de atacar o discurso racista sem nunca atacar o racista em si. Ele deixa bem claro as fontes e causas desse discurso discriminatório, sempre jogando na tela como comportamentos nocivos são repetidos sem reflexão e quando unidos a algumas características pessoais ou ensinamentos distorcidos, se tornam cada vez mais perigosos.

 

Sem medo, o diretor também faz críticas pontuais ao discurso anti-racista que, por mais justificado que seja, por vezes assume as piores nuances daqueles a quem combatem. Essa ‘guerra’ de discursos é a força motriz da projeção. Sem nunca esconder de qual lado do debate se encontra, a história segue sempre através de como ideias positivas e/ou negativas são transformadas em palavras de ordem e consequentemente, ações.

 

A clara oposição entre os ideias pregados por cada lado atinge seu ápice numa sequência maravilhosamente construída no início do terceiro ato em que tanto a KKK quanto o Movimento Negro estão simultaneamente em eventos importantes e seus discursos vão se sobrepondo numa montagem que só é possível ser descrita como genial. Emotiva e confrontadora, Lee mete o dedo na ferida e faz sangrar a essência dos grupos retratados.

 

As atuações não são nem de perto protocolares mas estão adequadas à narrativa. Claro que a dupla protagonista se destaca porém todos os esteriótipos – sim, há uma diversidade de esteriótipos – estão aqui retratados cheios de sutilezas, complexidades e até humor. O roteiro entrega arcos bem desenvolvidos a cada persona em tela, mesmo às que possuem menos tempo de tela.

 

Dito isto, é impossível negar a carga dramática, muito bem carregada por Adam Driver e John David Washington. Eles demonstraram uma química inegável e jamais ousaram considerar qualquer cena como “menor”. A equidade entre eles é tão absurda que se torna impossível distinguir quem é o protagonista e quem é coadjuvante. A única exceção a essa afirmação talvez se encontre num pequeno monólogo em que o personagem de Driver reflete sobre sua identidade étnica, em que a câmera permanece imutável em seu rosto sem nunca perder a atenção absoluta do espectador.

 

E se há alguma dúvida sobre sua intenção com o discurso proposto pelo filme, Spike Lee faz uma colagem de cenas atuais, retiradas da internet e das notícias, com situações assustadoramente similares com as que, há décadas, já vitimizavam pessoas por apenas nascerem fora de um certo padrão. Incluindo uma sequência de pequenas vitórias em sua conclusão, o filme deixa claro um chamado à luta que parece não ter fim ou esperança de sucesso, e por isso mesmo, é a mais importante de ser lutada.