19.09

DEUSES CAÍDOS
Gabriel Tennyson

Páginas: 300
Editora Suma

SKOOB

Um serial killer com poderes paranormais está assassinando evangelistas famosos — e os vídeos de cada um deles sendo torturados ganham cada vez mais público na internet. O assassino se proclama o novo messias, e os pecadores devem temer sua justiça. O que a Sociedade de São Tomé teme, no entanto, é que ele acabe com o trabalho de séculos de manter o sobrenatural bem afastado da consciência da população, embora seres mágicos povoem o submundo da cidade.

Para garantir que o assassino seja capturado e o máximo de discrição mantida, a Sociedade convoca Judas Cipriano — um padre indisciplinado, descendente de são Cipriano e herdeiro de alguns poderes celestiais. Veterano nesse tipo de caso, o padre é enviado para trabalhar como consultor da Polícia Civil e fica responsável por apresentar à jovem inspetora Júlia Abdemi o lado místico da cidade.

Para resolver o caso — e sobreviver —, os dois precisarão de toda ajuda que puderem encontrar… O que inclui se unir a uma súcubo imortal, um dragão chinês traficante de armas mágicas e um gárgula que é a síntese da sociedade carioca.

Deuses Caídos é o livro de estreia de Gabriel Tennyson, morador do Rio de Janeiro, semifinalista no concurso FANTASY, e finalista no Concurso BANG! e eu não teria como dizer de outra forma: Começou MUITO BEM!

No livro, seguimos o padre Judas Cipriano (que de padre só têm as roupas) enquanto ele segue a missão incumbida por uma instituição secreta dentro da Igreja para resolver misteriosos assassinatos e ataques à famosos religiosos. Até ai eu achei que leria um livro alá Dan Brown com um certo toque de fantasia, com muitas menções a religiosidades e trechos bíblicos. Afinal, perseguição de crimes, menção à Bíblia e instituições secretas o mundo da literatura já está acostumado.

Entretato, não foi pouca a minha surpresa -acreditem- quando me deparei com um universo fantástico bem construído e explicativo – o que pra mim muitas vezes têm um peso maior que a história em si. Inegável é dizer que no decorrer da leitura você não se lembre de outros grandes exemplares da literatura moderna. Arrisco dizer que é possível traçarmos muitos paralelos aqui.

A princípio o personagem princial, Judas Cipriano, nos remete muito a um famoso investigador de crimes sobrenaturais muito conhecido e presente nos universos das HQs: John Constantine. Conhecedor do submundo e irrevogavelmente um péssimo seguidor dos dogmas da Igreja, Cipriano e Constantine dividem pouco mais do que a profissão e a inicial. Primeira diferença notória? Cipriano é descendente de São Cipriano, o que lhe confere algumas habilidades celestiais em decorrência de possuir o sangue de um Santo Católico.

Além disso o teor da história segue pelos rumos de um verdadeiro suspense gore. Pessoas fracas e com imaginação forte podem se sentir um pouco incomodadas com as descrições realmente pesadas e detalhadas dos horrores de uma orgia ou um ferimento de batalha nas paginas escritas por Tennyson. Em contrapartida, a escrita é impecável, conseguindo até mesmo incluir dezenas de incursões de palavrões e como bem estamos acostumados na vida real, aqueles interjeições que deixariam avós puritanas de cabelos-em-pé.

Até aqui acredito que seja bom ressaltar, as referencias só continuam aparecendo. Leitor de Percy Jackson? sim temos Demideuses à vista. Fan de X-man? pois temos algumas coisas ali que podem se enquadrar como mutantes. Gostou muito de HellBoy? Pois é….

Mas vale de aviso também: Essa mistura foi feita em doses (inacreditavelmente) precisas. Chego a ficar bobo em dizer como cada um desses elementos já vistos por nós em outras tantas sagas combinaram com o universo criado para a história e geram um senso de pertencimento; de forma que nada, repito NADA, se sobressai ou parece estar deslocado do andamento da história. E outro ponto que para mim possui um valor imenso? Ambientação.

“Eu tenho minhas divergências com a Igreja. – Cipriano deu de ombros e olhou para Siri. Depois de fazer o pedido, concluiu: – Deus exige de criaturas imperfeitas o código moral que ele, uma entidade supostamente perfeita, não segue. – Cipriano forçou uma voz de barítono: – “Se você não me amar, vou te mandar para o inferno”. Isso não é livre-arbítrio, certo? Se um cara ameça a namorada para amá-lo, esse cara seria trancafiado como um psicopata, mas quando o assunto é Deus, tudo é mistério em nome de seu plano divino. Não há nada de transcendental nessa atitude, parece a velha e humana hipocrisia. Acho que as escrituras são apenas uma versão daquilo que o homem pensa sobre o Deus. Temos essa mania de personalizar divindades.”

O livro se passa, como já foi dito na sinopse, no Rio de Janeiro. Então os personagens precisam estar de acordo com o ambiente no qual a história é narrada e isso é muitíssimo respeitado. Seja respeitando a cultura ou na construção do universo. Então como se tratando de universo de ficção e fantasia ambientado no Rio de Janeiro, Tennyson utiliza MUITO na cultura nacional em seus personagens. Mais interessante que isso, ele reconstrói o universo do folclore brasileiro em seu livro. Dando uma perspectiva diferente e ainda sim completamente justificável para a suas “re-imaginações”. Elementos da cultura Africana também estão presente, uma vez que são grande parte do que hoje se constitui uma “Fantasia Brasileira”.

Gostaria de deixá-los na expectativa de conhecer Júlia, a parceira de Cirpiano nesta missão: uma policial negra do Rio de Janeiro que possui um poder curioso, cuja explicação faria com que o Riordan escrevesse mais algumas sagas; Narciso (Um gárgula) que faria com que os coadjuvantes de O Corcunda de Notre Dame exigissem sua própria animação e por fim os Sacis – que foram incrivelmente apresentados da forma mais natural possível, apostando na compreensão do leitor para as suas referências e ainda sim completamente diferente de tudo o que já havia sido explorado em relação a utilização de folclore nacional em livros sobre fantasia.

Por seguirmos constantemente enfurnados em livros que exploram mitologias, histórias e enredos no velho mundo, um livro que trás a história para terra Tupiniquins me deixa com um pé atrás. E isso foi o que, dentre todos os item que já listei, me forcei a prestar atenção no livro. É comum lermos referências europeias sobre personagens europeus desenvolvendo uma linha narrativa na Europa (ou Asia, se for cabível. Ou ainda América do Norte, se convier melhor aos livros que fazem sucesso mundialmente). Então normalmente não reparamos que isso é devido ao uso de referências locais. O que estaria um descendente de um Santo Europeu, fazendo no Brasil acompanhado por personagens bíblicos e entidades são famosas do outro lado do mundo? Bem, o autor sabiamente responde isso no livro, justificando não só a história como a vida dos personagens.

Admito, em justificativa, que peguei o livro sem saber o que esperar. Um Padre Caçador de Sombras no Rio de Janeiro? É. Mas melhor que isso porém igualmente apto a possuir continuações como nossas Crônicas dos Caçadores de Sombras.

O que de fato espero que aconteça.

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