“Os Humanos”
Matt Haig
Jangada – 2013 – 314 páginas

Quando um visitante extraterrestre chega à Terra, suas primeiras impressões da espécie humana são muito pouco positivas. AO assumir a forma do professor Andrew Martin, da Universidade de Cambridge, o visitante está ansioso por cumprir a tarefa macabra que lhe foi incumbida e voltar rapidamente para seu planeta. ELe se sente enojado pela aparência dos humanos, pelo que eles comem e por sua capacidade de matar e guerrear. Mas, à medida que o tempo passa, ele começa a perceber que pode haver mais coisas nessa espécie do que havia pensado. DIsfarçado de Martin, ele cria laços com sua família e começa a ver esperança e beleza na imperfeição humana, o que o faz questionar a missão que o levou à Terra.

Vamos lá:

 

“Um alimento embrulhado em um envoltório sintético. Esse era, mais tarde eu percebi, um planeta de coisas embrulhadas dentro de coisas. Comida dentro de embalagens. Corpos dentro de roupas. Indiferença por trás de sorriso. Tudo era escondido.”

Eu ia escrever sobre outro livro. Sobre um que eu li e me divertiu e eu amei e mal posso esperar para falar sobre ele para vocês. Mas eu não me perdoaria se não tentasse influenciar o maior número de pessoas possíveis a ler “Os Humanos”, mesmo que seja uma pessoa. Minha missão vai estar completa.

 

“Assim como a religião, a história também está cheia de coisas deprimentes, como colonização, doenças, racismo, sexismo, homofobia, esnobismo, destruição ambiental, escravidão, totalitarismo, ditaduras militares, invenções que os humanos não têm a menor ideia de como lidar com elas (a bomba atômica, a internet, o ponto e vírgula), a perseguição a pessoas inteligentes, a veneração a pessoas idiotas, tédio, desespero, colapsos periódicos e catástrofes dentro do panorama físico. E em meio a tudo isso sempre houve alguma comida realmente horrorosa.”

Fiquei horas pensando em como começar essa resenha, e gostaria de começar dizendo: se quando você terminar essa leitura ainda não se sentir atraídx pelo livro, por favor, insista.

Algumas coisas na nossa vida vêm para nos ensinar.

Esse livro com certeza, com certeza absoluta, é um desses ensinamentos.

 

“Uma vida humana dura em média oitenta anos terráqueos ou cerca de trinta mil dias terráqueos. O que significa que eles nascem, fazem alguns amigos, comem muitas refeições, casam-se, ou não se casam, têm um filho ou dois, ou não, bebem muitas taças de vinho, têm certo número de relações sexuais, descobrem um caroço em algum lugar, sentem um pouco de arrependimento, imaginando para onde foi aquele tempo todo, sabendo que deveriam ter feito tudo diferente, percebendo que teriam feito tudo do mesmo jeito, e então morrem. Caem na grande escuridão do nada. Fora do espaço. O nada mais trivial de todos os nadas. E é isso, a cambada toda. Todos confinados no mesmo planeta medíocre.”

Não vou fazer uma descrição detalhada do perfil e personalidade dos personagens como sempre faço aqui. Porque isso não é realmente importante. Quero dizer, como os personagens são e suas características em si não são realmente relevantes. O enredo não é realmente importante, nem a história, na verdade. O que realmente realmente REALMENTE importa nesse livro é o contexto. O modo como ele nos faz enxergar a nós mesmos, todas as outras pessoas e todos os outros seres vivos do planeta com olhos completamente diferentes uma vez que o terminemos.

“Os humanos estão sempre fazendo coisas que não gostariam de fazer. Na minha melhor estimativa, em qualquer momento, somente três por cento dos humanos estavam fazendo algo que gostavam de fazer, e mesmo assim sentiam tanta culpa em relação a isso que prometiam a si mesmos fervorosamente que logo voltariam a fazer algo tremendamente desagradável.”

 

“O maior ato individual de bravura ou de loucura que alguém pode praticar é o ato de mudar.
Eu era alguma coisa.
Agora sou uma coisa a mais.”

Devo avisá-lx: quando terminei “Os Humanos”, eu estava no ônibus. Eu chorei e minha vontade imediata era de dar um abraço em cada uma daquelas pessoas que estavam ali naquele ônibus comigo. Aqueles completos estranhos para mim, que tinham tantas diferenças e tantas semelhanças com quem eu sou.

 

“A vida, principalmente a vida humana, era um ato de desafio. Nunca deveria ter existido, e entretanto se espalhava por um número incrível de lugares em uma quantidade quase infinita de sistemas solares. Não existia uma coisa impossível. Eu sabia disso porque também sabia que tudo era impossível, portanto as únicas possibilidades na vida eram impossibilidades.”

 

“Os Humanos” conta a história de um ser de outro planeta, – um muito mais desenvolvido que a Terra – que vem para cá para destruir evidências de uma descoberta matemática do professor universitário e pesquisador matemático Andrew Martin. Acontece que o professor conseguiu resolver um grande problema matemático, que levaria a tecnologia humana a outro nível e, consequentemente, a morte de todos os seres humanos. Esse planeta distante, envia então, um ser para “possuir” o corpo do professor, destruir as evidências da descoberta e matar todos aqueles que tenham conhecimento dela.

 

“Eu não podia lhe contar, então a beijei. Beijar é o que os humanos fazem quando as palavras alcançaram um lugar onde não podem escapar.”

 

Veja bem, o ínicio do livro é muito lento. Devagar mesmo, quase tedioso. Mas a moral é que, esse ser (sem gênero e sem nome), detesta os seres humanos. Ele nos acha absolutamente abomináveis. De onde ele vem não existem sentimentos e roupas e animais e corpos e música e sexo e poesia. Não existe a fala e a escrita. Não existe nada. Somente a matemática. É isso que torna o livro tão INCRIVELMENTE interessante: nós acompanhamos a descoberta desse ser de todas essas coisas que o impressionam. As coisas que ele detesta e as coisas que ele odeia. O modo como ele acha a aparência física de um ser humano terrível e de repente começa a mudar sua opinião e se dá conta de que, a partir de certo momento, não consegue olhar para a mulher de Andrew, Isobel, sem achá-la linda. Não consegue matar o filho com tendências suicídas de Andrew, Gulliver. Ele se afeiçoou.

Sobre as tecnicalidades do livro, tudo que tenho a dizer é que é muito bem escrito. Talvez Matt possa ter trabalhado um pouco melhor na transição de opiniões do alienígena, mas todos os fundamentos usados no livro, todas as explicações científicas utilizadas, a escrita, divisão de capítulos, nomes dos capítulos, o final da história, os toques pontuais e frequentes de humor ácido: eu adorei tudo.

Esse ser descobre a humanidade de um jeito que todos nós deveríamos fazer. Ele observa de maneira totalmente perspicaz coisas tão obvias que fazem parte do nosso dia a dia TODOS OS DIAS, e ainda assim, não as enxergamos, não as compreendemos. Ele entende a humanidade melhor do que qualquer ser humano que já tenha caminhado por aqui.

 

“Conselhos para um humano:
1) A vergonha é uma prisão. Liberte-se.
2) Não se preocupe com seus talentos, você tem talento para amar, e isso é o suficiente.
3) Seja bom para os outros. No plano universal, eles são você.
5) Ria, é bom para você.
8) Sanduíches de pasta de amendoim harmonizam-se perfeitamente com uma taça de vinho branco. Não deixe que ninguém o convença do contrário.
9) Algumas vezes, para você ser você mesmo será preciso esquecer-se de si e tornar-se outra coisa.
14) A sua vida terá 25 mil dias. Trate de lembrar-se de alguns deles.
29) Diante de um pôr-do-sol, pare e o admire. O conhecimento é finito. Maravilhar-se é infinito.
31) O fracasso é uma ilusão de óptica.
43) Tudo é importante.
47) Uma vaca é uma vaca mesmo que a chame de bife.
53) Nunca tenha medo de dizer a uma pessoa que a ama. Há algumas coisas erradas em seu mundo, mas excesso de amor não é uma delas.”

Talvez essa seja a resenha mais curta que eu já fiz, mas é que eu não sei o que falar, não sei palavras que eu possa usar para explicar o porque de você TER QUE LER ESSE LIVRO. Eu não sou boa o suficiente para transmitir a mensagem e a moral do livro nessa resenha. Acho que ninguém seria. Por isso eu te digo: leia “Os Humanos”. Leia. Por favor, leia. Eu prometo que você vai aprender. Você pode não adorá-lo, você pode nem gostar do enredo ou dos personagens ou da história. Mas você vai aprender. Você vai descobrir, você vai pensar.

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