“A garota que bebeu a lua”
Kelly Barnhill
Galera Record – 2018 – 308 páginas

Todo ano o povo do Protetorado deixa um bebê como oferenda para a Bruxa que vive na floresta, na esperança de que o sacrifício a impeça de aterrorizar sua pequena cidade protegida pelos muros e pela Torre das Irmãs da Guarda. Mas, Xan, a Bruxa na floresta, ao contrário do que eles acreditam, é bondosa. Ela vive em paz com um Monstro do Pântano muito inteligente e um Dragão Perfeitamente Minúsculo.

Todo ano ela resgata o bebê deixado pelos Anciãos e o leva em segurança para uma família adotiva em uma das Cidades Livres do outro lado da floresta. Durante a longa viagem, quando a comida acaba, Xan alimenta os bebês com luz estelar. Em uma dessas ocasiões ela acidentalmente oferece a um deles a luz do luar, dotando a menininha de uma magia extraordinária.

A bruxa então decide criar a menina “embruxada”, a quem chama de Luna. Conforme o aniversário de treze anos da menina se aproxima, sua magia começa a aflorar – e pode colocar em perigo a própria Luna e todos à sua volta.

Antes de começar a falar desse livro, preciso deixar claro que ele é uma fabula. Se você não gosta desse tipo de livro, ele realmente não é pra você, o que é uma pena. Eu até já falei sobre esse livro AQUI, na nossa coluna de Lançamentos Literários brasileiros de fevereiro.

A Garota que bebeu a Lua” é um livro que fala sobre um mundo fantástico. Lá existe a cidade de Protetorado, aonde, uma vez por ano, o bebê mais novo é deixado às beiras da flores para aplacar a ira de uma bruxa maligna. Na cidade, cuidando de toda essa cerimonia e dos rumos da população, existe o Conselho dos Anciãos, do qual o Guardião Gherland é o Grão-Ancião e também tio de Antain, um Guardião em treinamento. A cidade parece sofrer com uma tristeza que paira por ela, aonde sempre mães estão sofrendo e é rodeada de muros, tudo para se proteger dessa ameaça tão grande.

Mas, na verdade, não existe bruxa raivosa nenhuma: isso tudo é uma “lenda” criada pelos anciões para deixar o povo em seu domínio através do medo (e isso não é spoiler, é logo explicado no livro, podem ficar tranquilos). A situação começa a desenhar paralelos ai, nos fazendo refletir o quanto um governo pode manipular seus cidadãos através do medo, que é uma emoção poderosa.

Todos os anos, um bebê é abandonado na floresta, em um mesmo lugar, para morrer. Todos os anos, eu levava o bebê pela floresta para uma nova família que o amaria e o manteria em segurança. Cometi o erro de não ser curiosa. Cometi o erro de não questionar. Mas a tristeza pairava sobre aquele lugar, como uma nuvem, e eu saía de lá o mais rápido possível.

No meio disso, Antain começa a fazer pequenos questionamentos, como, por exemplo, como se sabe que não há como negociar com a bruxa, já como deixam o bebê na beirada da flores e não a esperam chegar? As suas perguntas e atitudes são freadas pelo acontecimento que ninguém esperava: uma mãe tem sua filha escolhida e simplesmente não aceita entregar a pequena recém-nascida com essa facilidade assim. Gherland e seus companheiros tomam a criança à força, não sem notar que a mulher tem algo em sua testa: uma marca de nascimento em forma de meia lua. Mas um homem tão cheio de si como Gherland não acredita em superstições e definitivamente não acredita que aquela mulher tenha algo mais.

Todos os dias, ao alvorecer, sua primeira tarefa do dia era ler as reclamações e os pedidos dos cidadãos que foram escritos com cacos de giz na grande parede de ardósia, e escolher quais mereciam atenção e quais deveriam ser simplesmente lavadas e apagadas.
(“Mas e se todas forem importantes, tio?”, perguntara Antain certa vez ao Grão-Ancião.
“Mas isso seria impossível. De qualquer maneira, ao negar acesso, damos ao povo um presente. As pessoas podem aprender a aceitar sua sina na vida. Podem aprender que nem toda ação tem importância. Seus dias continuam nublados, como devem ser. Não há maior presente que esse. Agora, onde está o meu chá?”)

E então aqui temos dois pontos de virada: na floresta existe sim, uma bruxa – Xan, que não é nada raivosa e muito menos má – e a mãe que tem a marca em sua testa é sim, especial. O destino das duas são unidos através de Luna, a pequena recém-nascida que é salva por Xan, que tem o costume de salvar as crianças que são deixadas para morrerem. Xan levava as crianças para outras cidades mais felizes, e durante o trajeto de dias, levava mamadeiras para os bebês, os quais acabavam algumas vezes. Como boa bruxa que era, usava a luz estrelas para alimentar as crianças, que se tornavam especiais, mas, com a pequena Luna, foi da luz da lua que Xan a alimentou, a tornando um ser poderoso, repleto de magia. Ainda preciso falar sobre os seres Glerk e Fyrian, sendo um primeiro um ogro mais velho do que a magia e o segundo um dragão que não cresce. A jornada deles é maravilhosa e não são somente “bichinhos fofinhos que ajudam a garotinha” – não mesmo.

— A morte é sempre repentina — disse Glerk. Seus olhos começaram a arder. — Mesmo quando não é.

Ainda preciso falar das personagens feminina desse livro, todas extremamente importantes, tridimensionais e complexas. Não há nenhuma personagem feminina que não te surpreenda, de Xan à Luna, da louca (não posso dizer quem é!) à Irmã Ignatia, e aqui uma menção especial para Ethyne, que eu pensei, a principio, que se relegaria ao papel de interesse amoroso de determinado personagem masculino, mas eu estava muito, muito enganada, já como a personagem aparece pouco perto do que poderia, mas a força dela está em uma guinada grande que acontece no livro, justamente guiada pelo fator mais importante desse livro: o conhecimento.

— Você — disse enfim uma das Irmãs.
— Você nos deixou — declarou outra.
— Jamais ninguém nos deixou antes — afirmou uma terceira.
— Eu sei — respondeu Ethyne. — Conhecimento é realmente um poder terrível.

O ponto chave desse livro é a questão do conhecimento. Tudo nesse livro gira em torno do poder do conhecimento: o quanto ele tem a capacidade de te mudar e te fazer perguntar coisas que normalmente você não perguntaria. A tristeza e a forma como nos consome, nos lançando em uma nevoa de desespero e aceitação, está presente no livro, além do que o amor é capaz de fazer: dar coragem, força, de curar e de fazer com que nos tornemos melhor.

Eu sinto que existe tanto sobre esse livro que não estou falando, talvez porque ele vá direto ao ponto, talvez por ele ser tão precioso. O enredo de desenvolvimento do Antain também é maravilhoso e eu sinto que precisaria falar bem mais sobre todos os personagens, mas, se eu fizer isso, estarei entregando spoilers e esse livro merece ser lido sem ter sido afetado por eles. O livro é Vencedor de 2017 da Medalha Newbery e fica muito claro por que, já como o amor, compreensão e aceitação são temos recorrentes no livro de uma forma magistral, que fazem com que nosso coração aqueça ao termina a leitura. Se você gosta de livros desse tipo, com um toque de magia, leveza e bastante lúdico, esse é seu livro.

“De um grão de areia
Surgiu a luz
Surgiu o espaço
Surgiu o tempo infinito
E para o grão de areia
Todas as coisas hão de retornar.”

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