Chain of Iron: Prólogo, Capítulos 1 e 2

No dia 1º de dezembro, o site da Editora norte-americana de Cassandra Clare liberou para leitura o Prólogo e os capítulos 1 e 2 de “Chain of Iron”. Essa é a tradução destas páginas.



Para Rick Riordan. Obrigada por me permitir usar o nobre nome di Angelo.



PARTE UM

JOGUINHOS

Você vai logo ouvir sobre mim, com meus joguinhos. Eu guardei um pouco do vermelho apropriado em uma garrafa de cerveja de gengibre, após o último trabalho, para escrever com ele; mas ficou grosso como cola e não posso mais usar. Tinta vermelha é boa o suficiente, eu espero.
– Jack, o Estripador

LONDRES: EXTREMO LESTE

Era estranho e curioso ter um corpo humano novamente. Sentir o vento bagunçando seu cabelo e as frias partículas de neve picando seu rosto enquanto ele fazia seu caminho por meio dos paralelepípedos. Balançar seus braços e medir o novo alcance de seus passos.

Era logo após o amanhecer, e as ruas estavam em sua maior parte desertas. De vez em quando ele avistava um vendedor ambulante arrastando seu carrinho pela rua com neve, ou uma faxineira de avental e xale, empenhada na labuta de seu trabalho.

Ao contornar um monte de neve, ele tropeçou e franziu a testa para si mesmo. Seu corpo estava fraco. Ele precisava desesperadamente de força. Ele não poderia continuar sem isso.

Uma sombra escura passou na frente dele. Um homem velho em um macacão de trabalhador, boné puxado para baixo sobre a cabeça, deslizando para um beco fora da via principal. Enquanto ele observava, o homem se acomodou em uma caixa de madeira, recostando-se na parede de tijolos. Alcançando dentro de sua jaqueta puída, o homem tirou uma garrafa de gim e a abriu.

Ele entrou silenciosamente no beco. As paredes se ergueram em ambos os lados, bloqueando a fraca luz do sol. O homem olhou para ele com os olhos turvos. “O que você quer?

A faca de adamas brilhou na luz fraca. Ele a mergulhou no peito do homem novamente e novamente. O sangue surgiu, um fino spray de partículas vermelhas tingindo a neve suja de escarlate.

O assassino sentou-se sobre os calcanhares, inspirando. A energia da morte do homem, a única coisa útil que a criatura mortal tinha a oferecer, fluiu para ele através da faca. Ele se levantou e sorriu para o céu luminoso. Ele já estava se sentindo melhor. Mais forte.

Logo ele seria forte o suficiente para enfrentar seus verdadeiros inimigos. Quando ele se virou para sair do beco, ele sussurrou seus nomes baixinho.

James Herondale.
Cordelia Carstairs.

CAPÍTULO 1: A TEIA BRILHANTE

E ela ainda se senta, jovem enquanto a terra é velha,
E, sutilmente contemplativa de si mesma,
Desenha homens para observar a teia brilhante que ela pode tecer,
Até que o coração, o corpo e a vida estejam sob seu domínio.

A rosa e a papoula são suas flores; Para onde
Não é ele encontrado, ó Lilith, quem derrama perfume
E beijos suaves e um sono suave devem te prender?
– Dante Gabriel Rosseti, “Body’s Beauty”

Uma neblina de inverno enfumaçada se instalou no topo da cidade de Londres, alcançando suas gavinhas pálidas pelas ruas, envolvendo os prédios em fio prateados opacos. Lançava uma palidez acinzentada sobre as árvores arruinadas enquanto Lucie Herondale guiava sua carruagem pelo longo caminho abandonado em direção a Chiswick House, seu telhado se erguendo da névoa como o topo de um pico do Himalaia acima das nuvens.

Com um beijo no nariz e um cobertor sobre seu flanco, ela deixou seu cavalo, Balios, ao pé da escada da frente e partiu pelos restos do jardim do terraço. Ela passou pelas estátuas rachadas e arruinadas de Virgílio e Sófocles, agora cobertas por gavinhas de videiras, seus membros quebrados e caídos entre o mato. Outras estátuas estavam parcialmente escondidas por árvores pendentes e sebes não podadas, como se fossem devoradas pela densa folhagem.

Abrindo caminho por cima de um caramanchão tombado, Lucie finalmente chegou ao velho galpão de tijolos no jardim. Seu telhado havia muito desaparecido; Lucie se sentiu um pouco como se tivesse encontrado uma cabana de pastor abandonada no pântano. Um dedo fino de fumaça cinza estava até subindo de dentro. Se isso fosse ‘A Bela Cordelia’, um duque louco, mas bonito, viria cambaleando pelo matagal, mas nada acontecia como acontecia nos livros.

Ao redor dos galpões podiam-se ver pequenos montículos de terra onde, nos últimos quatro meses, ela e Grace enterraram os resultados malsucedidos de seus experimentos – os infelizes corpos de pássaros caídos ou ratos caçados por gatos e camundongos que elas tentaram incessantemente trazer de volta à vida.

Nada havia funcionado ainda. E Grace nem sabia de tudo isso. Ela permaneceu inconsciente do poder de Lucie de comandar os mortos. Ela não sabia que Lucie havia tentado ordenar que os pequenos corpos voltassem à vida, tentado alcançá-los para capturar algo dentro deles que pudesse atrair para o mundo dos vivos. Mas nunca funcionou. Qualquer parte deles que Lucie poderia ter sido capaz de comandar fugiu com suas mortes.

Ela não mencionou nada disso para Grace.

Lucie deu de ombros filosoficamente e foi até a enorme laje de madeira de uma porta – ela às vezes questionava qual era o sentido de ter uma porta em um prédio que não tinha telhado – e bateu em um padrão codificado: um dois, um dois.

Instantaneamente ela ouviu alguém cruzando o lugar e girando o ferrolho, e a porta se abriu. Grace Blackthorn estava parada na porta, o rosto frio e sério. Mesmo com o tempo nublado, seu cabelo solto sobre os ombros brilhava prateado. “Você veio“, disse ela, parecendo mais surpresa do que satisfeita.

Eu disse que viria.” Lucie passou por Grace. O galpão tinha um único cômodo interno com piso de terra batida, agora parcialmente congelado.

Uma mesa havia sido empurrada contra a parede sob a espada da Família Blackthorn, pendurada em ganchos de ferro grosseiramente forjados. Sobre a mesa, um laboratório improvisado foi construído: havia fileiras de alambiques e pilões, e dezenas de tubos de ensaio. Uma variedade de pacotes e latas ocupava o resto da mesa, alguns abertos, outros esvaziados e reunidos em uma pilha.

Ao lado da mesa havia uma fogueira colocada diretamente no chão, a fonte da fumaça escapando do telhado perdido. O fogo estava estranhamente silencioso, emanando não de toras de madeira, mas de um monte de pedras, suas chamas esverdeadas lambendo vorazmente para cima, como se procurassem consumir o caldeirão de ferro suspenso por um gancho acima dele. O caldeirão continha uma mistura preta cintilante que cheirava a terra e a produtos químicos ao mesmo tempo.

Lucie se aproximou lentamente de uma segunda mesa maior. Sobre ela repousava um caixão. Através da tampa de vidro, ela podia ver Jesse, exatamente como ele pareceu quando eles estiveram juntos pela última vez – camisa branca, cabelo preto caindo macio contra a nuca. Suas pálpebras eram meias-luas pálidas.

Ela não se limitou a pássaros, morcegos e ratos. Ela havia tentado ordenar que Jesse voltasse à vida também, embora ela tenha sido capaz de fazer isso apenas durante os curtos períodos em que Grace foi buscar algo e a deixou sozinha com o corpo de Jesse. Ela se saiu ainda pior com isso do que com os animais. Jesse não estava vazio, como os animais – ela podia sentir algo dentro dele: uma vida, uma força, uma alma. Mas o que quer que fosse, estava ancorado no espaço entre a vida e a morte, e ela não podia mudar isso. Mesmo tentar a fazia se sentir doente e fraca, como se estivesse fazendo algo errado.

Eu não tinha certeza se você ainda viria,” Grace disse irritada. “Estou esperando há muito tempo. Você pegou o estramônio?

Lucie enfiou a mão no bolso para pegar o pacote minúsculo. “Foi difícil escapar. E eu não posso ficar muito tempo. Vou encontrar Cordelia esta noite.

Grace pegou o pacote e o abriu. “Por que o casamento é amanhã? Mas o que isso tem a ver com você?

Lucie olhou severamente para Grace, mas a outra garota parecia genuinamente não entender. Muitas vezes Grace não parecia entender por que as pessoas agiam se a resposta era porque é assim que os amigos se comportam ou porque é isso que você faz por alguém de quem se gosta. “Eu sou a suggenes da Cordelia,” disse ela. “Eu a acompanharei até o altar, mas também forneço ajuda e apoio antes da cerimônia. Esta noite eu vou sair com ela para–

Whoosh. Grace tinha virado o pacote dentro do caldeirão. Um flash de chama lambeu em direção ao teto, então uma nuvem de fumaça. Cheirava a vinagre. “Você não precisa me dizer. Tenho certeza de que Cordelia não gosta de mim.

Eu não vou discutir Cordelia com você.” Disse Lucie, com uma pequena tossida.

Bem, eu não gostaria de mim, caso eu fosse ela,” disse Grace. “Mas nós não temos que discutir nada. Eu não a chamei aqui para conversinhas.

Ela virou os olhos para o caldeirão. Neblina e fumaça colidiam juntas na pequena sala, cercando Grace com uma aura nebulosa. Lucie esfregou suas mãos ainda enluvadas, seu coração batendo mais rápido conforme Grace começou a recitar: “Hic mortui vivunt. Igni ferroque, ex silentio, ex animo. Ex silentio, ex animo! Resurget!

Conforme Grace entoava as palavras, a mistura começou a ferver mais rapidamente, as chamas começando a assoviar crescendo e crescendo, alcançando o caldeirão. Um pouco da mistura borbulhou acima das paredes do caldeirão, respingando no chão. Lucie instintivamente deu um pulinho para trás conforme talos verdes explodiram do chão, crescendo caules, folhas e botões enquanto cresciam quase na altura de seus joelhos.

Está funcionando!” Ela arfou. “Está mesmo funcionando!

Um rápido espasmo de prazer passou pelo rosto normalmente sem expressão de Grace. Ela se moveu em direção ao caixão, e Jesse –

Tão rápido quanto haviam surgido, as flores murcharam e caíram de seus caules. Foi como ver o próprio tempo passar mais rapidamente. Lucie assistiu impotente conforme as folhas caiam e os talos secavam e quebravam sob seu próprio peso.

Grace estava congelada, encarando as flores mortas que jaziam no chão.

Ela olhou pra o caixão – mas Jesse não havia se movido. Claro que ele não havia se movido. Os ombros de Grace estavam duros com o desapontamento.

Eu vou pedir ao Christopher por espécimes mais frescas da próxima vez,” Lucie disse. “Ou reagentes mais poderosos. Tem de haver algo que não estamos entendendo certo.

Grace foi até próximo do caixão de seu irmão. Ela colocou a palma de sua mão sobre o vidro. Os lábios dela se moveram, como se ela estivesse sussurrando algo; Lucie não conseguia dizer o que. “O problema não é a qualidade dos ingredientes,” ela disse em uma voz fria e baixa. “O problema é que estamos nos baseando muito em ciência. Ativos, reagentes – ciência é miseravelmente limitada quando se trata de feitos como o que estamos tentando.

Como você saberia?

Grace a olhou friamente. “Eu sei que você me acha estúpida porque eu nunca tive nenhuma tutoria,” ela disse. “Mas eu dei um jeito de ler diversos livros enquanto eu estava em Idris. De fato, eu li a maior parte da biblioteca.

Lucie tinha que admitir que Grace estava ao menos parcialmente certa – ela nunca havia imaginado que Grace teria algum interesse em leitura, ou em algo realmente, que não fosse torturar homens e trazer Jesse dos mortos. “Se nós não nos basearmos em ciência, o que você está propondo?

O óbvio. Magia.” Grace falou como se estive instruindo uma criança. “Não isso – essa brincadeira de criança, trabalhando feitiços de um livro que minha mãe nem ao menos se preocupou em esconder.” Ela praticamente cuspiu as palavras com desprezo. “Nós devemos tirar o poder do único lugar em que ele pode ser achado.

Lucie engoliu em seco. “Você quer dizer necromancia. Retirar poder da morte e usar para fazer magia nos mortos.

Há quem considere esse tipo de magia maligna. Mas eu chamo de necessária.

Bem, eu chamaria de maligna,” Lucie disse, incapaz de manter sua frustração longe de sua voz. Grace parecia ter chegado a uma decisão sem ela, o que definitivamente não estava no espírito da parceria delas. “E eu não quero fazer coisas malignas.

Grace balançou sua cabeça com desdém, como se Lucie estivesse fazendo uma tempestade em um copo d´água. “Nós precisamos falar com um necromante sobre isso.

Lucie abraçou seus cotovelos. “Um necromante? Com toda certeza não. A Clave proibiria isso mesmo que pudéssemos encontrar um.

E tem um motivo para isso,” Grace retrucou afiadamente, juntando suas saias. Ela parecia pronta para sair da cabana. “O que precisamos fazer não é propriamente algo bom. Não… do jeito que a maioria das pessoas faria. Mas você já sabia disso, Lucie, então você pode parar de fingir ser tão melhor que eu.

Grace, não.” Lucie se moveu para bloquear a porta. “Eu não quero isso, e não acredito que Jesse fosse querer isso também. Não podemos falar com um feiticeiro? Alguém em quem a Clave confie?

A Clave pode confiar neles, mas eu não.” Os olhos de Grace estavam queimando. “Eu decidi que deveríamos trabalhar juntas pois Jesse parece gostar de você. Mas você conhece meu irmão a pouquíssimo tempo, e nunca enquanto ele esteve vivo. Você dificilmente é uma especialista. Eu sou a irmã dele, e eu vou trazê-lo de volta – não importa o que eu precise fazer, nem como eu precise fazer. Você compreende, Lucie?” Grace respirou fundo. “Já é tempo de decidir se você se importa mais com a preciosa santidade da sua própria vida do que se importa em devolver a do meu irmão a ele.

– – – – –

Cordelia Carstairs estremeceu quando Risa arrumou o pente de tartaruga melhor em seu lugar. Ele segurava um espesso espiral de cabelo vermelho escuro que a criada a tinha convencido a colocar para cima em um estilo elaborado que garantiu que era muito popular.

Você não devia ter todo esse trabalho essa noite,” Cordelia protestou. “É apenas uma festa na neve. Meu cabelo terminará em uma bagunça, não importa quantos grampos e pentes você coloque nele.

O olhar desaprovador de Risa prevaleceu. Cordelia presumiu que ela achava que sua pupila tinha que fazer um esforço para parecer bonita para seu noivo. Afinal, Cordelia estava se casando com James Herondale, um bom partido em todos os padrões da sociedade, Caçador de Sombras ou mundana — lindo, rico, com bons relacionamentos e doce.

Não adiantava dizer que não importava em como ela se vestia. James não ligaria se ela aparecesse com um vestido de ópera ou completamente nua. Mas ela não ganharia nada tentando explicar isso para Risa. De fato, era arriscado demais explicar isso a qualquer um.

Dokhtare zibaye man, tou ayeneh knodet ra negah kon”, Risa falou, segurando um espelho de mão prateado para Cordelia. Minha linda filha, olhe no espelho.

Está lindo, Risa.” Cordelia teve que admitir. Os pentes de pérolas brilhavam contra seu cabelo vermelho escuro. “Mas como superar isso amanhã?

Risa apenas piscou. Pelo menos alguém estava ansiosa para o dia seguinte, Cordelia pensou. Toda vez que ela pensava em seu casamento, ela queria pular de uma janela.

Amanhã ela sentaria pela última vez naquele quarto, enquanto sua mãe e Risa trançariam flores de seda em seu longo e pesado cabelo. Amanhã ela deveria parecer tão feliz quanto uma noiva vestida de maneira elaborada. Amanhã, se Cordelia tivesse muita sorte, a maior parte de seus convidados de casamento estariam distraídos com as roupas dela. Sempre se podia ter esperança.

Risa bateu levemente no ombro dela. Cordelia levantou obedientemente, respirando fundo uma última vez antes que Risa apertasse os laços de seu espartilho, puxando seus seios para cima e endireitando sua coluna. A natureza do espartilho, pensou Cordelia com irritação, era fazer com que a mulher percebesse a cada minuto que sua forma era diferente do ideal impossível da sociedade.

Chega!” Ela protestou quando o espartilho ficou firme contra sua pele. “Eu espero me alimentar na festa, você sabe.

Risa revirou os olhos. Ela ergueu um vestido verde de veludo e Cordelia entrou nele. Risa guiou as mangas longas e justas em seus braços, ajustando a renda branca espumosa nos pulsos e pescoço. Então veio o processo de abotoar cada um dos pequenos botões que subiam pelas costas de seu vestido. O ajuste era bem arranjado; sem o espartilho, Cordelia nunca teria conseguido. O anel Herondale, o sinal visível de seu noivado, brilhou em sua mão esquerda quando ela ergueu o braço para que Risa pudesse arrumar Cortana nas costas dela.

Eu deveria descer.” Cordelia disse quando Risa entregou a ela uma pequena bolsa de mão de seda e um regalo para aquecer suas mãos. “James raramente se atrasa.

Risa acenou com a cabeça vivamente, o que para ela era o equivalente a um abraço caloroso de despedida.

Era verdade, Cordelia pensou, enquanto descia as escadas. James raramente se atrasava. Era o dever de um noivo escoltar uma lady para festas e jantares, buscar limonadas e leques, e geralmente dançar. James cumpria seu papel com perfeição. Toda a temporada ele fielmente se juntou a ela em todos os tediosamente lacrimejantes eventos do Enclave, mas fora dessas ocasiões, ela raramente o via. Algumas vezes ele se juntou a ela e ao resto de seus amigos para excursões que eram divertidas — tardes na Taberna do Diabo, chá no apartamento de Anna — mas mesmo lá ele parecia distraído e preocupado. Eram poucas chances de conversarem sobre o futuro deles, e Cordelia não tinha certeza do que diria se conversassem.

Layla?

Cordelia tinha chegado na entrada com ladrilhos de espadas e estrelas, e primeiramente não viu ninguém ali. Ela percebeu um tempo depois que sua mãe, Sona, estava na frente de uma janela, tendo baixado uma das cortinas com sua mão estreita. A outra mão estava em sua barriga arredondada.

É você.” Sona falou. Cordelia não pode deixar de notar que as sombras abaixo dos olhos de sua mãe pareciam ter se aprofundado. “Onde você vai mesmo?

A festa de neve dos Ponceby no Parliament Hill.” Cordelia falou. “Eles são cansativos, realmente, mas Alastair irá e eu pensei que poderia me distrair de amanhã.

Os lábios de Sona se curvaram em um sorriso. “É bem normal ficar nervosa antes do casamento, Layla joon. Eu estava apavorada na noite antes de casar com seu pai. Eu quase fugi em um trem que carregava leite para Constantinopla.

Cordelia respirou fundo e o sorriso de sua mãe vacilou. Oh, céus, Cordelia pensou. Tinha passado uma semana desde que seu pai, Elias Carstairs, tinha sido liberado de seu confinamento nas Basilias, o hospital Shadowhunter em Idris. Ele tinha estado lá por meses — muito mais do que o esperado previamente — para se curar de seu problema com álcool, um fato que todos os outros três membros da família Carstairs sabiam, mas nunca tinham mencionavam.

Eles tinham esperando ele chegar em casa cinco dias atrás. Mas não tiveram notícias além de uma concisa carta da França. Nenhuma promessa de que ele retornaria para o dia do casamento de Cordelia. Era uma situação infeliz, ficando mais infeliz ainda pelo fato de que nem a mãe e nem o irmão de Cordelia, Alastair, queriam discutir isso.

Cordelia respirou fundo. “Mâmân. Eu sei que você ainda está esperando que o pai chegue a tempo para o casamento —

Eu não espero; eu sei.” Sona falou. “Não importa o que o atrasou, ele não perderia o casamento de sua única filha.

Cordelia quase balançou sua cabeça com espanto. Como a mãe dela conseguia ter tanta fé? O pai dela tinha perdido tantos aniversários, mesmo a primeira runa de Cordelia, por causa de sua “doença”. Era uma doença que o fez ser preso no final e mandado para as Basilias em Idris. Ele devia estar curado agora, mas sua ausência até agora não era promissora.

Botas fizeram barulho nas escadas e Alastair apareceu no hall da entrada, cabelo escuro esvoaçando. Ele estava lindo com um novo casaco de inverno, mesmo que estivesse carrancudo.

Alastair,” Sona falou. “Você também irá para essa festa de neve?

Não fui convidado.

Isso não é verdade.” Cordelia falou. “Alastair, eu só estava indo porque você também ia!

Eu decidi que meu convite tristemente se perdeu no correio.” Alastair falou, com um aceno de mão desdenhoso. “Eu posso me distrair sozinho, mãe. Alguns de nós tem coisas para fazerem e não podem sair dançando todas as horas.

Honestamente, vocês dois.” Sona repreendeu, balançando sua cabeça. Isso pareceu bem injusto para Cordelia. Ela apenas corrigiu a inverdade de Alastair.

Sona colocou as mãos no final de suas costas e suspirou. “Eu tenho que falar com Risa sobre amanhã. Ainda tem muito a ser feito.

Você devia estar descansando.” Alastair disse, enquanto sua mãe saia pelo corredor na direção da cozinha. No momento que ela saiu da visão deles, ele virou para Cordelia, sua expressão tempestuosa. “Ela estava esperando o pai?” ele exigiu saber em um tom de sussurro. “Ainda? Por que ela se atormenta?

Cordelia encolheu os ombros desamparadamente. “Ela o ama.

Alastair fez um som deselegante. “Chi! Khodah margam bedeh.” Ele falou, o que Cordelia achou muito rude.

O amor nem sempre faz sentido.” Ela falou, e com isso, Alastair rapidamente desviou o olhar. Ele não tinha mencionado Charles na presença de Cordelia faziam alguns meses, e mesmo que ele tivesse recebido cartas com a cuidadosa escrita de Charles, Cordelia encontrou mais de uma jogada sem abrir na lata de lixo. Depois de um momento, ela acrescentou: “Ainda assim, eu queria que ele avisasse pelo menos que está bem —pelo bem de mamãe.

Ele voltará em seu próprio tempo. No pior momento possível, se eu o conheço.

Cordelia acariciou o macio pêlo de cordeiro de seu regalo com um dedo. “Você não quer que ele volte, Alastair?

O olhar de Alastair estava opaco. Ele passou anos protegendo Cordelia da verdade, inventando desculpas para as “ondas de doença” e frequentes ausências de seu pai. Alguns meses atrás, Cordelia aprendeu o custo emocional dessas intervenções de Alastair, as cicatrizes invisíveis que ele tentava tanto esconder.

Ele parecia prestes a responder quando do lado de fora da janela, o som de cascos de cavalo ecoaram, seu cavalgar abafado pela neve que ainda caía. A forma escura de uma carruagem parando iluminada pelo poste na frente da casa deles. Alastair afastou a cortina e franziu a testa.

É a carruagem dos Fairchild.” Ele comentou. “James não podia se incomodar em vir te buscar e então mandou seu parabatai fazer seu trabalho?

Isso não é justo.” Cordelia disse rispidamente. “E você sabe disso.

Alastair hesitou. “Acho que sim. Herondale tem sido respeitoso o bastante.

Cordelia observou enquanto Matthew Fairchild saia calmamente da carruagem do lado de fora. Ela não pode evitar um segundo de medo — e se James tivesse entrado em pânico e mandado Matthew para acabar com tudo na noite anterior ao casamento?

Não seja ridícula, ela disse a si mesma firmemente. Matthew estava assobiando enquanto subia os degraus da frente. O chão estava branco com a neve, marcado aqui e ali com pegadas de botas. Flocos já estavam se acumulando na gola de pele do sobretudo de Matthew. Cristais brilhavam em seu cabelo loiro, e suas maçãs do rosto estavam coradas com o frio. Ele parecia um anjo pintado por Caravaggio e coberto de neve. Ele certamente não estaria assoviando se tivesse más notícias.

Cordelia abriu a porta da frente e encontrou Matthew no primeiro degrau, tirando neve de suas botas. “Olá, minha querida,” Ele disse a Cordelia. “Eu vim para levá-la para uma grande colina onde nós dois vamos escorregar em cima de pedaços de madeira frágeis e fora de controle.

Cordelia sorriu. “Parece maravilhoso. O que faremos depois disso?

Inexplicavelmente,” Matthew falou, “nós vamos voltar ao topo da colina para repetir. É um tipo de loucura relacionada a neve, eles dizem.

Onde está James?” Alastair interrompeu. “Você sabe, aquele de vocês dois que devia estar aqui.

Matthew olhou para Alastair com desagrado. Cordelia sentiu o aperto familiar no coração. Era sempre assim que as coisas eram agora quando Alastair interagia com qualquer um dos Ladrões Alegres. Do nada, alguns meses atrás, todos ficaram com muita raiva de Alastair, e ela não tinha ideia do porquê. Ela não conseguia perguntar. “James foi chamado para um negócio importante.

Que negócio?” Alastair perguntou.

Nenhum que te diga respeito.” Matthew falou, claramente feliz consigo mesmo. “Caiu nessa sozinho, hm?

Os olhos escuros de Alastair brilharam. “Melhor não colocar minha irmã em confusão, Fairchild.” Ele falou. “Eu sei o tipo de companhia que você anda.

Alastair, chega.” Cordelia falou. “Agora, você realmente não irá à festa dos Pounceby ou você estava apenas incomodando a mãe? E se for o segundo caso, você gostaria de ir com Matthew e comigo na carruagem?

Alastair voltou a olhar para Matthew. “Por que”, ele disse, “você não está usando um chapéu?

E cobrir esse cabelo?” Matthew indicou seus cachos loiros com um floreio de mão. “Você apagaria o sol?

Alastair ficou com uma expressão que indicava que nem rolar os olhos seria suficiente. “Eu”, ele disse, “vou dar uma caminhada.

Ele saiu para a neve da noite sem nenhuma outra palavra, o efeito de sua saída amortecida pela neve engolindo a marca de suas botas.

Cordelia suspirou e começou a descer com Matthew. South Kensington era um conto de fadas de casas brancas congeladas com um gelo cintilante, o brilho das lâmpadas da rua envoltas em auréolas de névoas embranquecidas pela neve. “Eu sinto que sempre tenho que me desculpar por Alastair. Semana passada ele fez o rapaz do leite chorar.

Matthew a ajudou a subir no assento da carruagem. “Nunca se desculpe por Alastair para mim. Ele me providencia um adversário para afiar minha inteligência.

Ele subiu logo depois, próximo dela e fechou a porta pesada. O interior forrado de seda da carruagem era aconchegante com suas almofadas macias e cortinas de veludo nas janelas. Cordelia recostou-se no banco, a manga do sobretudo de Matthew roçando seu braço de modo tranquilizador.

Eu sinto que tem anos que não te vejo, Matthew.” Ela falou, feliz de mudar de assunto. “Ouvi que sua mãe voltou de Idris? E Charles de Paris?” Como Cônsul, a mãe de Matthew, Charlotte, estava quase sempre longe de Londres. Seu filho Charles, irmão de Matthew, tinha pego uma posição de assistente no Instituto de Paris, onde ele estava treinando política: todo mundo sabia que Charles esperava ser o próximo Cônsul, algum dia.

Matthew passou os dedos pelos cabelos, tirando os cristais de gelo. “Você conhece minha mãe — do minuto que ela sai da carruagem, ela já está por aí e correndo de novo. E é claro que Charles não perdeu tempo em vir para casa vê-la. Lembrar o Instituto de Paris o quão próximo ele é da Consulesa, o quanto ela confia nos seus conselhos. Dando suas opiniões pomposas para o Pai e Martin Wentworth. Quando eu saí, ele tinha interrompido a partida de xadrez deles para tentar começar uma discussão sobre as políticas dos membros do Submundo na França. Wentworth estava um pouco desesperado, na verdade — provavelmente esperando que Christopher causasse outra explosão no laboratório para dar a ele uma oportunidade de escapar.

Outra explosão?

Matthew sorriu. “Kit quase queimou as sobrancelhas de Thomas no último experimento. Ele disse que está próximo de fazer pólvora funcionar mesmo na presença de runas, mas Thomas não tem mais sobrancelhas para dar para a causa da ciência.

Cordelia tentou achar algo para comentar sobre as sobrancelhas de Thomas, mas não conseguiu pensar em nada. “Tudo bem,” Ela falou, cruzando os seus braços. “Eu desisto. Onde está James? Ele se assustou e correu para a França? O casamento foi cancelado?

Matthew tirou um frasco prateado de seu casaco e tomou um gole antes de responder. Ele estava comprando tempo? Ele pareceu um pouco preocupado, Cordelia pensou, porque ansiedade e Matthew eram coisas que raramente estavam juntas. “Eu sinto que isso é minha culpa.” Ele admitiu. “Bom, minha e do resto dos Ladrões Alegres, para ser justo. No último minuto nós não podíamos deixar que James se casasse sem dar a ele uma festa e é meu trabalho ter certeza que você não saiba nada sobre os procedimentos escandalosos.

Alívio passou por Cordelia como uma onda. James não estava abandonando ela. Claro que não. Ele nunca faria isso. Era James.

Ela endireitou seus ombros. “Como você acabou de me dizer que os procedimentos são escandalosos, isso não significa que você falhou em sua missão?

Claro que não!” Matthew tomou mais um gole da bebida no frasco antes de colocar em seu bolso. “Eu apenas falei que James está passando a véspera de seu casamento com seus amigos. Até onde você sabe, eles estão tomando chá e estudando a história das fadas na Bavaria. Devo ter certeza que você não descobrirá outra coisa.

Cordelia não pode deixar de sorrir. “E como você pretende fazer isso?

Te escoltando para os seus próprios procedimentos escandalosos, é claro. Você não pensou que nós estávamos mesmo indo para a festa dos Pounceby, certo?

Cordelia afastou a cortina da carruagem e olhou para a noite. Ao invés das árvores alinhadas nas ruas de Kensington, escondidas pela neve do inverno, eles estavam do outro lado de West End. As ruas eram estreitas e densas com a névoa, e grupos de pessoas apertadas nelas, falando várias linguas, esquentando suas mãos em fogos feitos em barris de óleo.

Soho?” Ela perguntou curiosamente. “O que — Hell Ruelle?

Matthew ergueu uma sobrancelha. “Onde mais?” A Hell Ruelle era um clube e salão dos Membros do Submundo, funcionando algumas noites durante a semana em um edifício aparentemente indeterminado na Berwick Street. Cordelia já tinha ido outras duas vezes, meses antes. Suas visitas tinham sido memoráveis.

Ela deixou a cortina cair e olhou para Matthew, que a estava encarando atentamente. Ela fingiu suprimir um bocejo. “Sério, a Ruelle de novo? Eu já estive lá tantas vezes que pode ter se transformado em um clube de bridge para garotas. Certamente você deve conhecer lugares mais escandalosos?

Matthew sorriu. “Está me pedindo para te levar para a Pousada do Lobisomem Raspado?

Cordelia bateu nele com seu regalo. “Esse lugar não é real. Me recuso a acreditar.

Acredite quando eu digo que tem poucos lugares mais escandalosos que a Ruelle, e nenhum eu poderia levar você e esperar que James me perdoasse.” Matthew falou. “Corromper a noiva do parabatai não é considerado esporte.

A risada de Cordelia sumiu; ela repentinamente se sentiu muito cansada. “Oh, Matthew, você sabe que é um casamento falso.” Ela falou. “Não importa o que eu faça. James não se importa.

Matthew pareceu hesitar. Cordelia havia rompido o fingimento e ele ficou claramente surpreso. Ele não ficou sem fala por muito tempo, entretanto. “Ele se importa.” Ele disse enquanto a carruagem virava na Berwick Street. “Não, talvez, do jeito que todos imaginam. Mas eu não acho que será ruim ser casada com James, e é apenas por um ano, não é?

Cordelia fechou os olhos. Esse foi o arranjo que ela fez com James: um ano de casamento, para salvar a reputação dos dois. E então ela pediria o divórcio. Eles se separariam amigavelmente e continuariam amigos.

Sim,” Ela falou. “Apenas um ano.

A carruagem parou, embaixo de uma lâmpada de poste que iluminou em amarelo o rosto de Matthew. Cordelia sentiu uma pequena fisgada em seu coração. Matthew sabia tanto quanto todos, até James sabia, mas tinha algo em seus olhos — algo que fez ela temer por um momento que ele suspeitava da última peça do quebra-cabeças, um pedaço que ela escondeu de todos, menos dela mesma. Ela não aguentaria que tivessem pena dela. Ela não aguentaria que todos soubessem como ela amava James desesperadamente e desejava que o casamento fosse real.

Matthew abriu a porta da carruagem, revelando a calçada da Berwick Street, brilhosa com a neve derretida. Ele saltou e, após uma rápida conversa com o cocheiro, estendeu a mão para ajudar Cordelia a descer da carruagem.

Foram ao Hell Ruelle pelo estreito beco da Tyler Court. Matthew pegou o braço de Cordelia e o entrelaçou no dele, e juntos caminharam pelas sombras. “Ocorreu-me,” disse ele, “Que embora possamos saber a verdade, o resto do Enclave não sabe. Lembre-se de que pragas eles foram quando você chegou pela primeira vez a Londres – e agora, no que diz respeito a esse bando de presunçosos, você está se casando com um dos solteiros mais cobiçados do país. Olhe para Rosamund Wentworth. Ela noivou com Thoby Baybrook só para provar que você não é a única se casando.

Sério?” Cordelia estava muito divertida; nunca lhe ocorreu que ela tivesse algo a ver com o anúncio repentino de Rosamund. “Mas eu presumo que aquele casamento seja uma união por amor.

O momento levanta questões, é tudo o que estou dizendo.” Matthew moveu a mão alegremente. “Meu único ponto é que você pode muito bem se alegrar em ter a inveja de toda Londres. Todos que foram maliciosos quando você chegou – todos que te foram descorteses por causa de seu pai, ou murmuraram fofocas – eles estarão se remoendo de inveja, desejando que eles fossem você. Aproveite.

Cordelia deu uma risadinha. “Você sempre encontra a solução mais decadente possível para qualquer problema.

Eu acredito que a decadência é uma perspectiva valiosa que sempre deve ser considerada.” Eles haviam chegado à entrada da Hell Ruelle e passado por uma porta particular para um corredor estreito forrado com tapeçarias pesadas. O corredor estava aparentemente redecorado para o Natal (embora que o feriado em si ainda estivesse algumas semanas de distancia); as tapeçarias eram adornadas com ramos verdes enrolados com rosas brancas e papoulas vermelhas.

Eles encontraram o caminho por um labirinto de pequenos salões até a sala octogonal principal da Ruelle. Ela estava diferente; árvores cintilantes, seus galhos nus e troncos pintados de branco erguiam-se a intervalos enfeitados com grinaldas verde-escuras e globos de vidro vermelhos pendurados. Um mural brilhante retratava uma cena de floresta: uma geleira cercada por um bosque de pinheiros cobertos de neve, corujas espiando das sombras entre as árvores. Uma mulher de cabelo preto com o corpo de uma serpente enrolada em uma árvore atingida por um raio; suas escamas brilhavam com tinta dourada. Na frente da sala, Malcolm Fade, o Alto Feiticeiro de Londres de olhos roxos, parecia estar liderando um grupo de fadas em uma dança intrincada.

O chão estava cheio de montes do que parecia ser neve, mas em um exame mais atento mostrava papel branco delicadamente cortado, levantados em montes por seres do submundo dançando. Nem todo mundo estava dançando, é claro: muitos dos convidados do salão estavam amontoados em pequenas mesas circulares, as mãos envolvendo canecas de cobre com vinho quente. Perto dali, um lobisomem e uma fada estavam sentados juntos, discutindo sobre o governo irlandês. Cordelia sempre se maravilhou com a mistura de seres do submundo que compareciam ao Hell Ruelle; inimizades no mundo entre vampiros e lobisomens, ou entre diferentes cortes de fadas, pareciam ser suspensas por causa da arte e da poesia. Ela podia entender por que Matthew gostava tanto dali.

Olha só, se não é minha Caçadora de Sombras favorita.” disse uma voz familiar. Virando-se, Cordelia reconheceu Claude Kellington, um jovem músico lobisomem responsável pelo entretenimento na Ruelle. Ele estava sentado a uma mesa com uma mulher fada com longos cabelos verde-azulados; ela olhou com curiosidade para Cordelia. “Vejo que você trouxe Fairchild,” Acrescentou Kellington. “Convença-o a ser mais divertido, sim? Ele nunca dança.

Claude, eu sou crucial para o seu entretenimento.” Disse Matthew. “Eu sou aquela coisa insubstituível, que deixa o público ansioso.

Bem, traga-me mais artistas como esta.” Disse Kellington, indicando Cordelia. “Se acontecer de você encontrar algum.

Cordelia não pôde deixar de se lembrar do desempenho que tanto impressionou Kellington. Ela dançou no palco da Ruelle de forma tão escandalosa que até se chocou. Ela tentou não corar agora, mas sim parecer uma sofisticada garota preparada para dançar como Salomé a qualquer segundo.

Ela indicou com a cabeça para os ramos decorados. “Então o Natal é celebrado na Hell Ruelle?

Não exatamente.” Cordelia se virou para ver Hypatia Vex, a patrona da Hell Ruelle. Embora Malcolm Fade fosse o dono do lugar, os convidados eram convidados por Hypatia; qualquer pessoa que ela desaprovasse nunca passaria pela porta. Ela usava um vestido vermelho cintilante, e uma peônia banhada em dourado estava enfiada em sua nuvem de cabelo escuro. “A Ruelle não celebra o Natal. Os seus participantes podem fazer o que quiserem nas suas próprias casas, claro, mas em dezembro a Ruelle homenageia antes a sua padroeira com o Festum Lamia.

Sua padroeira? Você quer dizer… você?” disse Cordelia.

Havia um toque de diversão nos tão característicos olhos de Hypatia com suas pupilas em forma de estrela. “Sua padroeira cósmica. Nossa ancestral, chamada por alguns de mãe dos feiticeiros, chamada por outros de Mãe dos Demônios.

Ah,” Disse Matthew. “Lilith. Agora que você comentou, você tem muito mais corujas na decoração do que o normal.

A coruja é um dos símbolos dela,” disse Hypatia, deslizando a mão pelas costas da cadeira de Kellington. “Nos primeiros dias da Terra, Deus fez para Adão uma esposa. O nome dela era Lilith e ela não era subserviente aos desejos de Adão, então ela foi expulsa do Jardim do Éden. Ela se juntou com o demônio Sammael, e com ele teve muitos filhos demônios, cujos descendentes foram os primeiros feiticeiros. Isso irritou o Céu, e três anjos vingativos – Sanvi, Sansanvi e Semangelaf – foram enviados para punir Lilith. Ela foi esterelizada pelos anjos, banida para o reino de Edom, um deserto de criaturas noturnas e corujas, onde ela ainda reside. Mas às vezes ela estende a mão para ajudar os feiticeiros que são fiéis à sua causa.

A maior parte da história era familiar para Cordelia, embora nas lendas dos Caçadores de Sombras, os três anjos fossem heróis e protetores. Oito dias após o nascimento de uma criança Caçadora de Sombras, um ritual era realizado: os nomes Sanvi, Sansanvi e Semangelaf, entoados como feitiços, eram ecoados sobre a criança pelos Irmãos do Silêncio e pelas Irmãs de Ferro. Era uma forma de fechar a alma da criança, Sona explicara uma vez a Cordelia, a tornando uma porta fechada para qualquer tipo de possessão ou influência demoníaca.

Provavelmente melhor não mencionar isso agora, ela pensou. “Matthew me prometeu um escândalo,” ela disse, “Mas eu suspeito que a Clave desaprova os Caçadores de Sombras participando de festas de aniversário para demônios bastante conhecidos.

Não é aniversário dela,” Disse Hypatia. “É apenas um dia de celebração. Acreditamos que foi a época em que ela deixou o Jardim do Éden.

As quinquilharias vermelhas penduradas nas árvores,” Disse Cordelia, percebendo. “São maçãs. A fruta proibida.

A Hell Ruelle se delicia,” disse Hypatia, sorrindo, “com o consumo do que é proibido. Acreditamos que seja mais delicioso por ser tabu.

Matthew deu os ombros. “Eu não consigo ver porque a Clave se importaria. Eu não acredito que precisamos celebrar Lilith, ou algo assim. É realmente só decoração.

Hypatia parecia divertida. “Claro. Nada mais. O que me lembra …

Ela olhou significativamente para a companheira fada de Kellington, que se levantou e ofereceu a Hypatia seu assento. Hypatia o pegou sem uma segunda olhada, espalhando suas saias por ele. A fada voltou a se misturar à multidão enquanto Hypatia continuava: “Meu Pyxis está desaparecido desde a última noite em que você esteve aqui, Srta. Carstairs. Matthew também estava aqui, eu me lembro. Estou me perguntando se eu poderia tê-lo dado inadvertidamente de presente para vocês?

Ah não. Cordelia pensou no Pyxis que eles roubaram meses atrás: ele explodiu durante uma batalha com um demônio Mandikhor. Ela olhou para Matthew. Ele deu de ombros e pegou uma caneca de vinho com especiarias da bandeja de um garçom fada que passava. Cordelia pigarreou. “Eu acredito que sim, na verdade. Eu acredito que você me desejou muita sorte para o meu futuro.

Não foi apenas um presente atencioso,” Acrescentou Matthew, “foi muito útil para salvar a cidade de Londres da destruição.

Sim,” Cordelia concordou. “Muito útil. Uma ajuda absolutamente necessária para prevenir um desastre completo.

Sr. Fairchild, você é uma má influência para a Srta. Carstairs. Ela está começando a desenvolver uma quantidade preocupante de respostas.” Hypatia se virou para Cordelia, sem poder ler seus olhos estrelados. “Devo dizer, eu estou um pouco surpresa em vê-la esta noite. Eu teria pensado que uma noiva Caçadora de Sombras iria querer passar a noite antes de seu casamento afiando suas armas, ou decapitando manequins.

Cordelia começou a se perguntar por que Matthew a trouxe para a Ruelle. Ninguém queria passar a noite anterior ao seu casamento sendo desprezado por feiticeiros arrogantes, por mais interessantes que fossem os arredores. “Eu não sou uma noiva Caçadora de Sombras comum.” Ela disse brevemente.

Hypatia apenas sorriu. “Como você diz.” Disse ela. “Eu acho que há alguns convidados aqui que estavam esperando por você.

Cordelia olhou pela sala e viu, para sua surpresa, duas figuras familiares sentadas a uma mesa. Anna Lightwood, linda como sempre em um sobrecasaco justo e polainas azuis, e Lucie Herondale, linda e elegante em um vestido marfim com contas azuis e acenando com energia.

Você as convidou?” Ela disse a Matthew, que tinha entornado seu cantil novamente. Ele o levou a boca, fez uma careta ao descobrir que estava vazio e o enfiou de volta no bolso. Seus olhos estavam brilhantes.

Sim.” Disse ele. “Eu não posso ficar – preciso ir para a festa do James – mas eu queria ter certeza de que você estaria bem acompanhada. Elas têm instruções para dançar e beber a noite toda com você. Aproveite.

Obrigada.” Cordelia se inclinou para beijar Matthew na bochecha – ele cheirava a cravo e conhaque – mas ele virou o rosto no último momento, e o beijo dela roçou os lábios dele. Ela se afastou rapidamente e viu Kellington e Hypatia olhando para ela com olhos penetrantes.

Antes de ir, Fairchild, vejo que seu cantil está vazio,” Disse Kellington. “Venha comigo para o bar; vou preenchê-lo com o que você quiser.

Ele estava olhando para Matthew com uma expressão curiosa – um pouco do jeito que Cordelia se lembrava de Kellington olhando para ela, depois de sua dança. Uma espécie de olhar faminto.

Nunca fui de recusar a oferta de ‘qualquer coisa que você goste’“, disse Matthew, permitindo-se ser levado embora por Kellington. Cordelia considerou gritar atrás dele, mas decidiu contra isso – e de qualquer maneira, Anna estava gesticulando para que ela se juntasse à mesa.

Ela se despediu de Hypatia e estava no meio da sala quando algo chamou sua atenção nas sombras: duas figuras masculinas, juntas. Ela percebeu com um choque que eles eram Matthew e Kellington. Matthew estava encostado na parede, Kellington – o mais alto dos dois – curvado sobre ele.

A mão de Kellington se ergueu para segurar a nuca de Matthew, seus dedos no cabelo macio de Matthew.

Cordelia viu Matthew balançar a cabeça no momento em que mais dançarinos se juntaram à multidão na pista, interrompendo sua visão; quando eles passaram, ela viu que Matthew havia partido e Kellington, parecendo tempestuoso, estava voltando para o outro lado da sala em direção a Hypatia. Ela se perguntou por que tinha ficado tão chocada – não era novidade para ela que Matthew gostava tanto de homens quanto de mulheres, e Matthew era solteiro: suas decisões eram dele mesmo. Ainda assim, a expressão de Kellington a desconcertou. Ela esperava que Matthew fosse cuidadoso –

Alguém colocou a mão em seu braço.

Ela se virou para ver uma mulher parada diante dela – a fada que estava sentada com Kellington antes. Ela usava um vestido de veludo esmeralda e ao redor de seu pescoço havia um colar de pedras azuis brilhantes.

Perdoe a intrusão.” Disse ela sem fôlego, como se estivesse nervosa. “Você – você é a garota que dançou para todos nós alguns meses atrás?

Sou.” Disse Cordelia com cautela.

Eu pensei ter reconhecido você.” Disse a fada. Ela tinha um rosto pálido e intenso. “Eu admiro muito sua habilidade. E a espada, é claro. Eu estou certa em pensar que a lâmina que você carrega é a própria Cortana?” Ela sussurrou esta última parte, como se apenas invocar o nome precisasse de coragem.

Oh, não.” Disse Cordelia. “É falsa. Apenas uma réplica bem feita.

A fada olhou para ela por um momento, e então caiu na gargalhada. “Ah, muito boa!” Ela disse. “Às vezes, esqueço que os mortais fazem piada – é uma espécie de mentira, não é, mas com a intenção de ser engraçado? Mas qualquer fada verdadeira conheceria o trabalho de Wayland, o Ferreiro.” Ela olhou para a espada com admiração. “Se assim posso dizer, Wayland é o maior ferreiro vivo das Ilhas Britânicas.

Isso interrompeu Cordelia. “Vivo?” Ela repetiu. “Você está dizendo que Wayland, o Ferreiro, ainda está vivo?

Ora, é claro!” disse a fada, batendo palmas, e Cordelia se perguntou se ela estava prestes a revelar que Wayland, o Ferreiro, era na verdade o goblin um tanto bêbado no canto com o abajur na cabeça. Mas ela apenas disse: “Nada do que ele fez passou pelas mãos humanas em muitos séculos, mas dizem que ele ainda opera sua forja, sob um túmulo em Berkshire Downs.

De fato.” disse Cordelia, tentando chamar a atenção de Anna na esperança de ser resgatada. “Que interessante.

Se você tiver vontade de encontrar o criador da Cortana, eu poderia levá-la até ele. Passando pelo grande cavalo branco e sob a colina. Por apenas uma moeda e uma promessa de –

Não.” Disse Cordelia com firmeza. Ela podia ser tão ingênua quanto a clientela da Ruelle presumia que ela fosse, mas até ela sabia a resposta certa para uma fada tentando fazer um acordo: ir embora. “Aproveite a festa.” ela acrescentou, “Mas preciso ir.

Quando ela se virou, a mulher disse, em voz baixa: “Você não precisa se casar com um homem que não a ama, você sabe.

Cordelia congelou. Ela olhou para trás por cima do ombro; a fada estava olhando para ela com todo devaneio tendo desaparecido de sua expressão. Estava tenaz, afiada e vigilante agora.

Existem outros caminhos,” Disse a mulher. “Eu posso ajudar.

Cordelia virou seu rosto para o nada. “Minhas amigas estão esperando por mim.” Disse ela, e foi embora com o coração martelando. Ela afundou em uma cadeira em frente a Anna e Lucie. Elas a saudaram com vivas, mas sua mente estava a quilômetros de distância.

Um homem que não te ama. Como aquela fada poderia saber?

Daisy!” Anna disse. “Preste atenção. Nós estamos cuidando de você.” Ela estava bebendo de uma taça cônica de champanhe claro e, com um aceno de seus dedos, uma segunda taça apareceu, que ela entregou a Cordelia.

Viva!” Lucie gritou com alegria, antes de voltar a ignorar sua cidra e seus amigos completamente, alternando entre rabiscar furiosamente em um caderno e olhar para a meia distância.

A luz da inspiração atingiu você, querida?” Cordelia perguntou. Seu coração estava começando a desacelerar. A fada estava falando várias bobagens, ela disse a si mesma com firmeza. Ela deve ter ouvido Hypatia falando com Cordelia sobre seu casamento e decidiu brincar com as inseguranças de qualquer noiva. Quem não se preocupava que o homem com quem ia se casar não a amasse? No caso de Cordelia, pode ser verdade, mas qualquer uma temeria, e as fadas atacavam o medo dos mortais. Não significava nada – apenas um esforço para conseguir de Cordelia o que ela havia pedido antes: uma moeda e uma promessa.

Lucie acenou com a mão manchada de tinta para chamar sua atenção. “Há muito material aqui.” Disse ela. “Você viu Malcolm Fade ali? Eu adoro o casaco dele. Oh, eu decidi que em vez de ser um elegante oficial da Marinha, Lord Kincaid deveria ser um artista cujo trabalho foi proibido em Londres, então ele fugiu para Paris, onde ele faz da bela Cordelia sua musa e é bem-vindo em todos os melhores salões—

O que aconteceu ao duque de Blankshire?” Disse Cordelia. “Eu pensei que a fictícia Cordelia estava prestes a se tornar uma duquesa.

Ele morreu.” Disse Lucie, lambendo um pouco de tinta do seu dedo. Em torno de seu pescoço, uma corrente dourada brilhava. Ela estava usando o mesmo medalhão de ouro liso há vários meses; quando Cordelia perguntou a ela sobre isso, Lucie disse que era uma antiga herança de família que dava sorte. Cordelia ainda conseguia se lembrar de sua presença, um clarão dourado na escuridão, a noite em que James quase morreu com o veneno de demônio no cemitério Highgate. Ela não se lembrava de ter visto Lucie usar o colar antes dessa época. Ela poderia ter pressionado Lucie sobre isso, ela supôs, mas ela sabia que guardava seus próprios segredos de sua futura parabatai – ela dificilmente poderia exigir saber todos os de Lucie, especialmente sobre um assunto tão pequeno quanto um medalhão.

Parece um romance trágico.” Disse Anna, admirando a maneira como seu champanhe refletia a luz.

Oh, não é!” Disse Lucie. “Eu não quero a Cordelia fictícia amarrada a apenas um homem. Eu quero que ela tenha aventuras.

Não é bem o sentimento que se poderia esperar na véspera de um casamento,” Disse Anna, “mas aplaudo mesmo assim. Embora se espere que você continue tendo aventuras mesmo depois de casada, Daisy.” Seus olhos azuis brilharam quando ela ergueu o copo em um brinde.

Lucie ergueu sua caneca. “Ao fim da liberdade! Para o início de um cativeiro alegre!

Bobagem,” Disse Anna. “O casamento de uma mulher é o início de sua libertação, Lucie.

E como é isso?” Perguntou Cordelia.

Uma lady solteira,” disse Anna, “é vista pela sociedade em um estado temporário de não estar casada e na esperança de se casar a qualquer momento. Uma mulher casada, por outro lado, pode flertar com quem quiser, sem prejudicar sua reputação. Ela pode viajar livremente. De e para meu apartamento, por exemplo.

Os olhos de Lucie se arregalaram. “Você está dizendo que alguns de seus casos de amor foram com ladies que já são casadas?

Estou dizendo que esse é o caso na maioria das vezes.” Disse Anna. “É simplesmente o caso de uma mulher casada estar em uma posição mais livre para fazer o que quiser. Uma jovem solteira dificilmente pode sair de casa desacompanhada. Uma mulher casada pode fazer compras, ir a leituras, encontrar amigos – ela tem uma dúzia de desculpas para estar longe de casa usando um chapéu bonito.

Cordelia deu uma risadinha. Anna e Lucie sempre eram capazes de animá-la. “E você gosta de uma senhora com um chapéu bonito.

Anna levantou um dedo pensativo. “Uma senhora que pode escolher um chapéu que realmente combina com ela provavelmente terá prestado atenção a cada camada de seu conjunto.

Que observação sábia“, disse Lucie. “Você se importa se eu colocar no meu romance? É exatamente o tipo de coisa que Lord Kincaid diria.

Faça como quiser, pequena gralha” disse Anna, “você já roubou metade das minhas melhores falas.” Seu olhar percorreu a sala. “Você viu Matthew com Kellington? Espero que não comece de novo.

O que aconteceu com Kellington?” Lucie perguntou.

Ele partiu o coração de Matthew, mais ou menos um ano atrás“, disse Anna. “Matthew tem o hábito de ter o coração partido. Ele parece preferir um amor sem esperanças.

Ele prefere?” Lucie estava rabiscando em seu livro novamente.”Oh, céus.

Saudações, adoráveis senhoras“, disse um jovem alto com pele branca e cabelos castanhos cacheados, aparecendo na mesa delas como por mágica. “Qual de vocês, belezas deslumbrantes, deseja dançar comigo primeiro?

Lucie saltou. “Vou dançar com você“, disse ela. “Você é um vampiro, não é?

É — sim?

Perfeito. Vamos dançar, e você vai me contar tudo sobre o vampirismo. Você persegue belas damas pelas ruas da cidade na esperança de tomar um gole de seu sangue refinado? Você chora porque sua alma está condenada?

Os olhos escuros do jovem olharam ao redor preocupados. “Eu realmente só queria valsar“, disse ele, mas Lucie já o havia agarrado e arrastado para a pista de dança. A música cresceu rapidamente e Cordelia brindou com Anna, ambas rindo.

Pobre Edwin” disse Anna, olhando para os dançarinos. “Ele tem um temperamento nervoso em seus melhores momentos. Agora, Cordelia, por favor, me diga todos os detalhes dos planos do casamento, e eu vou buscar um pouco de champanhe.


CAPÍTULO 2: TUDO O QUE GIRA

Mas se porventura, nas escadas de um palácio, na verde
relva de um fosso, na solidão morna do vosso quarto, vós vos
acordardes, a embriaguez já pequena ou esquecida, perguntai
ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que
flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a
tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a
estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de vos
embriagar! Para não serdes os escravos martirizados do
Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! Com
vinho, poesia ou virtude, ao vosso modo.”
— Charles Baudelaire, “Enivrez-vous”

Cuidado, atrás de você!” Christopher gritou em alarme. James se esquivou rapidamente para fora do caminho. Dois lobisomens passaram voando por eles, travados em um combate bêbado e caíram no chão. Thomas segurou o copo acima da cabeça para mantê-lo a salvo da multidão que se acotovelava.

James não tinha certeza se a Taverna do Diabo era o lugar certo para aquela festa, já que ele ficava lá vários dias por semana de qualquer maneira, mas Matthew havia insistido, dando a entender que havia organizado algo especial.

James olhou ao redor para o caos e deu um suspiro interno silencioso. “Tinha imaginado uma noite mais calma.

As coisas não estavam tão tumultuadas quando eles chegaram. A Taverna estava fazendo seus costumeiros negócios noturnos, animados e amigáveis​, e James teria ficado feliz em subir as escadas para seus quartos privados, como fizera tantas vezes antes, e simplesmente relaxar com seus amigos mais antigos.

Matthew, no entanto, imediatamente subiu em uma cadeira, exigiu a atenção de todo o pub ao bater sua estela contra o lustre de metal e gritou: “Amigos! Esta noite meu parabatai, James Jeremiah Jehoshaphat Herondale, comemora sua última noite como um homem solteiro!

O pub inteiro gritou e aplaudiu.

James acenou com a mão para agradecer e dispensar seus simpatizantes, mas parecia que não haviam terminado. Membros do submundo de todos os tipos se aproximaram para apertar sua mão, bater em suas costas e desejar-lhe felicidades. Para sua surpresa, James percebeu que conhecia quase todos os presentes — que conhecia muitos deles, na verdade, desde que era um menino, e eles o viram crescer.

Lá estava Nisha, a “vampira mais antiga da parte mais antiga desta antiga cidade”, como ela sempre dizia. Havia Sid e Sid, os dois lobisomens que sempre discutiam sobre qual deles poderia ser “Sid” e qual deveria ser “Sidney”. O estranho aglomerado de goblins germânicos que conversavam entre si nunca falavam com ninguém, mas periodicamente enviava bebidas grátis para outros clientes, aparentemente ao acaso. Eles cercaram James e exigiram que ele terminasse o uísque em sua mão para que pudesse beber o uísque que trouxeram para substituí-lo.

James ficou genuinamente tocado pela manifestação de sentimentos, mas isso só o fez se sentir ainda mais desconfortável sobre a natureza de seu casamento. Tudo acabará em um ano, ele pensou. Se vocês soubessem disso, não estariam comemorando.

Matthew havia desaparecido escada acima logo após seu discurso e deixou o resto deles cercado pelos farristas turbulentos que ficavam cada vez mais bêbados em homenagem a James, até, é claro, o momento inevitável em que Sid deu um soco em Sid e um rugido de aprovação e zombaria em partes iguais surgiram da multidão.

Thomas, com uma carranca no rosto, usou seu corpo largo e músculos consideráveis ​​para manobrar os três para um canto menos lotado da sala.

Saúde, Thomas“, disse Christopher. Seu cabelo castanho estava despenteado, seus óculos empurrados até a metade da cabeça. “O entretenimento especial de Matthew deveria começar…” Ele olhou esperançosamente para as escadas. “A qualquer minuto.

Quando Matthew planeja algo especial, geralmente é terrivelmente encantador ou terrivelmente terrível“, disse James. “Algum de nós quer apostar em qual será?

Christopher sorriu um pouco. “Algo de beleza insuperável, de acordo com Matthew.

Pode ser qualquer coisa“, disse James, observando Polly, a garçonete, marchar para o meio da briga para separar os Sids enquanto Pickles, o kelpie, fazia apostas sobre quem seria o vencedor.

Thomas descruzou os braços e disse: “É uma sereia.

É o quê?” disse James.

Uma sereia“, Thomas repetiu. “Encenando algum tipo de… performance sensual de sereia.

Alguma amiga dele do ‘demimonde’, você sabe“, disse Christopher, que parecia satisfeito em conhecer a palavra “demimonde”. Era certo que os encontros frequentes de Matthew com poetas e cortesãs estavam muito longe dos extratos e tubos de ensaio de Christopher, ou da extensa biblioteca de Thomas e seu regime de treinamento intensivo. Mesmo assim, os dois pareciam aliviados por terem revelado o segredo.

O que ela vai fazer?” disse James. “E… onde vai fazer?

Em um grande tanque de água, espera-se.“, disse Christopher.

Quanto ao que ela fará“, disse Thomas, “algo boêmio com sinos, castanholas e véus. Eu imagino.

Christopher parecia preocupado. “Os véus não vão ficar molhados?

Será uma experiência inesquecível“, continuou Thomas. “É o que Matthew diz. Beleza extraordinária e tudo mais.

Sem pensar, James se pegou pegando o bracelete de prata em seu pulso, passando os dedos distraidamente por sua superfície. Ele mal notou sua presença depois de todo esse tempo que Grace Blackthorn lhe confiou quando ele tinha apenas quatorze anos. Mas James estava se esforçando para não pensar em Grace quando seu casamento se aproximava.

Um ano, James pensou. Ele teria que tirar Grace de sua mente por mais um ano. Essa foi a promessa que eles fizeram. E ele prometeu a Cordelia, também, que não veria Grace sozinha ou pelas costas dela: se alguém descobrisse, ela ficaria humilhada. O mundo deveria pensar que seu casamento era um casamento de verdade.

A ideia de ir adiante com seu casamento com Cordelia enquanto ainda usava o bracelete o deixava pouco à vontade. Ele lembrou a si mesmo de tirá-lo quando voltasse para casa. Tirá-lo poderia ser uma desfeita para Grace. Mas deixá-lo parecia uma desfeita para Cordelia. Ele tinha decidido quando tudo aconteceu que ele não trairia seus votos de casamento através de palavras nem ações. Ele podia não ser capaz de controlar seu coração ou seus pensamentos, mas ele podia tirar o bracelete. Isso estava em seu poder.

Do outro lado da sala, Polly estava dando ordens para uma pequena equipe de duendes escoceses. Eles haviam montado um palco na outra extremidade da sala, sobre o qual estava, de fato, um grande tanque de vidro com água. Um par de duendes movia candelabros para fornecer iluminação teatral, e outros corriam, limpando o chão para abrir caminho para uma audiência.

As escadas chacoalharam, Matthew estava descendo apressado, seu cabelo brilhante da cor da luz de velas na névoa do bar. Ele havia tirado o paletó e estava de camisa e um colete listrado de verde e azul. Ele se jogou sobre o corrimão da escada e pousou no palco. Atrás do tanque, ele ergueu as mãos pedindo silêncio.

O barulho continuou inabalável, entretanto, até que o primeiro Sid juntou os punhos enormes acima da cabeça e gritou: “Ei! Quietos ou vou esmagar seus crânios sarnentos!

Isso mesmo!” concordou o outro Sid, aparentemente eles haviam deixado suas diferenças para trás.

Houve alguns resmungos, e um lobisomem próximo murmurou, “Sarnento! Bem!” Mas, eventualmente, a multidão se acalmou.

Esperem um pouco,” sussurrou James. “Como uma sereia vai descer as escadas?

Houve uma pausa e Christopher, que havia tirado os óculos para limpá-los, disse: “Como a sereia subiu as escadas?

Thomas encolheu os ombros.

Boa noite, meus amigos!” Matthew chamou, sob alguns aplausos educados. “Esta noite temos algo verdadeiramente excepcional para apresentar a vocês em homenagem a um velho amigo da Taverna do Diabo. Vocês foram gentis o suficiente em tolerar a presença de nós, Ladrões Alegres, por vários anos —

Nós simplesmente pensamos que vocês, Caçadores de Sombras, estavam invadindo o lugar,” Polly falou com um sorriso malicioso, “e sem pressa.

Amanhã, um de nós — o primeiro de nós — marchará para sua condenação e se juntará às categorias de vocês, pobres coitados casados,” Matthew continuou, “vamos mandá-lo embora em grande estilo!

Assobios e vivas acompanharam piadas gritadas e batidas nas mesas. Um sátiro e uma criatura atarracada com chifres perto da frente se levantaram e fingiram um abraço obsceno, até que alguém jogou uma linguiça neles. No piano, um dos goblins germânicos começou a tocar uma leve melodia cômica. A música encheu a sala, e Matthew ergueu sua luz enfeitiçada. Cintilando, iluminou uma figura descendo as escadas.

James se perguntou por um momento se esta era a primeira vez que alguém usava uma pedra enfeitiçada como iluminação de palco antes de perceber para o que estava olhando e sua mente ficar em branco. Christopher fez um pequeno ruído no fundo da garganta e Thomas encarou com olhos arregalados.

A sereia tinha pernas humanas. Elas eram longas e realmente bem torneadas, James teve que admitir, frouxamente envoltas em saias diáfanas feitas de algas marinhas exóticas tecidas.

Infelizmente, da cintura para cima ela era a metade frontal de um peixe boquiaberto e que olhava fixamente. Suas escamas eram de um prateado metálico brilhante e refletiam a luz de uma forma que quase, mas não totalmente, distraía de seus olhos amarelos do tamanho de pratos de jantar, que não piscavam.

O público enlouqueceu, aplaudindo e assobiando duas vezes mais alto do que antes. Um dos lobisomens uivou: “CLARIBELLA!” em uma voz triste e ansiosa.

Apresento a vocês,” Matthew gritou com um sorriso, “Claribella, a Sereia!

A multidão assobiou e deu sua aprovação. James, Christopher e Thomas lutaram para encontrar palavras.

A sereia está invertida,” disse James, tendo recuperado parte de seu vocabulário – embora talvez não todo.

Matthew contratou uma sereia reversa“, Thomas concordou. “Mas por que?

Eu me pergunto que tipo de peixe ela é“, disse Christopher. “As sereias são um tipo específico de peixe? Tubarões, ou arenque, ou algo assim?

Eu comi peixe defumado no café da manhã.” disse Thomas tristemente.

A sereia invertida começou a balançar os quadris para os lados, com a facilidade de uma dançarina de cabaré experiente. Sua boca se abria e fechava no ritmo da música. Suas pequenas nadadeiras, de cada lado de seu corpo, batiam.

Para mérito de Matthew, o resto da multidão da Taverna do Diabo parecia ser de admiradores irônicos de Claribella e de sua performance. Quando sua dança terminou, ela recuou para trás do tanque, pelo menos em parte para se proteger de seus devotos mais ardentes.

Ela tem um certo jeitinho“, disse Christopher. Ele olhou para James esperançosamente. “Hein?

Devíamos ter ido à festa na neve dos Pounceby.“, disse James.

Talvez uma noite tranquila lá em cima?” disse Thomas com simpatia. “Vou abrir um caminho no meio da multidão.

Enquanto eles seguiam Thomas pela onda de Membros do Submundo, Matthew, que estava vendendo ingressos para sessões privadas com Claribella, os viu e saltou do palco.

Procurando o belo consolo da solidão?” Matthew perguntou, pegando o braço de James. Ele cheirava como Matthew sempre cheirava — colônia e conhaque, chamuscado com um pouco de fumaça e serragem.

Vou subir com vocês três,” disse James. “Eu não chamaria isso de ‘solidão’.

Quietude, então“, disse Matthew. “‘Tu ainda inviolada noiva da quietude, filha adotiva do silêncio e do tempo lento…’”

Quando eles alcançaram os degraus, Ernie, o dono da taverna, pulou no palco e tentou dançar com Claribella — mas com apenas um par de barbatanas atarracadas, ela o evitou facilmente e saltou de cabeça na banheira de gim habitada por Pickles, o kelpie. Ela emergiu um segundo depois, soprando um jorro de gim enquanto Pickles relinchou de alegria.

Eles chegaram a seus quartos privados no andar de cima, Thomas trancando as portas firmemente atrás deles. Estava frio e um vazamento constante gotejava água do teto para os tapetes gastos, mas James achou que era uma vista acolhedora de qualquer maneira. Este era o quartel-general dos Ladrões Alegres, sua toca, seu lugar longe do mundo, e o único lugar onde James queria estar agora. A neve tinha aumentado e estava caindo em rajadas brancas contra as janelas de vidro chumbado.

Enquanto Thomas carregava uma panela vazia para coletar o vazamento, Christopher se ajoelhou na frente da lareira e examinou as toras colocadas dentro dela, úmidas com neve derretida. Ele tirou um objeto do bolso, um tubo de metal preso a um pequeno frasco de vidro — um método de produção de um acendedor químico de fogo inventado por ele mesmo, no qual estivera trabalhando nas últimas semanas. Ele acionou um interruptor e o frasco se encheu com um gás rosado. Houve um pequeno estalo e um breve lampejo de uma chama saindo pela extremidade do tubo, mas ela se extinguiu rapidamente e uma espessa fumaça negra entrou na sala.

Eu não esperava isso“, disse Christopher, tentando tapar o tubo com a ponta do lenço. James trocou um olhar exasperado com Matthew, e eles correram para abrir as janelas, tossindo e arfando. Thomas agarrou um livro esfarrapado das prateleiras e tentou espalhar a fumaça na direção da janela. Eles abriram o resto das janelas e portas e agarraram o que estava à mão para abanar a fumaça acre pela sala até ela finalmente se dissipar, deixando um fedor amargo e uma dispersão de fuligem negra em todas as superfícies.

Eles fecharam as janelas com força. Thomas foi para a sala ao lado e voltou com lenha seca: desta vez, quando Christopher tentou acender o fogo — com fósforos de vesta comuns — funcionou. Os quatro se amontoaram ao redor da mesa circular no meio da sala, todos tremendo. Matthew pegou as mãos de James e as esfregou entre as suas.

Bem, esta é uma ótima maneira de passar a véspera do seu casamento.“, disse ele se desculpando.

Não preferiria estar em nenhum outro lugar,” disse James, batendo os dentes. “Vocês são os únicos que sabem a verdade sobre este casamento, para começar.

Assim nos livrando da expectativa usual de que esta penúltima noite deve ser agradável.” disse Matthew. Ele soltou as mãos de James e serviu quatro xícaras. Pegando a garrafa de conhaque, ele despejou uma medida em cada uma.

Seu tom era leve, mas havia um tom agudo em sua voz, e James se perguntou quanto Matthew bebeu antes mesmo de chegar à taverna esta noite.

Os frequentadores pareciam gostar do desempenho de Claribella“, disse Thomas. “Você sabia que ela era uma sereia reversa?” Christopher perguntou, seus olhos lilases arregalados com uma curiosidade inocente.

Eh,” disse Matthew, enchendo sua caneca, “dessa forma, não. Quero dizer, o agente dela disse que ela era inferior, mas eu só pensei que ele quis dizer que ela não tinha tido uma boa educação, e eu não queria ser esnobe.

Thomas bufou.

Você deveria ter pedido para vê-la antes de agendá-la.”, James disse. Ele tomou um gole de sua caneca, a bebida começando a esquentá-lo por dentro como fogo, agora se espalhando, começando a aquecê-lo por fora.

Ele falou como uma brincadeira, mas Matthew pareceu magoado. “Eu fiz um esforço,” ele protestou. Para Thomas e Christopher, ele falou: “Eu não escutei nenhuma ideia magnífica vindo do resto de vocês nesta noite.

Apenas porque você disse que daria conta.” disse Thomas.

A coisa importante,” disse Christopher, parecendo alarmado com o potencial para se tornar um conflito, “É que tudo deu certo. E que nós trouxemos James para cerimonia na hora, claro.

Claro, porque o noivo está ansioso para se casar.” Matthew falou pausadamente, e eles todos se olharam, tão alarmado como Christopher. Os quatro discutiam e brigaram muito raramente, e James e Matthew quase nunca.

Até mesmo Matthew pareceu se dar conta que seu comentário foi bem próximo do limite, o esqueleto da verdade brilhando como uma luz branca através da sujeita. Ele pegou seu cantil de dentro de seu casaco e o virou, mas estava vazio. Ele o jogou no sofá próximo e olhou para James, seus olhos brilhando.

Jamie,” ele disse. “Meu coração. Meu parabatai. Você não tem que fazer isso. Você não tem que passar por isso. Você sabe disso, não sabe?

Tanto Christopher quanto thomas ficaram sentados imoveis.

Cordelia –“ James começou.

Cordelia pode não querer isso também.” disse Matthew. “Um casamento falso – não é algo que uma jovem sonha, com toda certeza –

James ficou em pé. Seu coração tamborilou estranhamente dentro de seu peito. “Para me salvar de ser preso pela Clave por um incêndio criminoso, destruição de propriedade e o Anjo sabe o que mais, Cordelia mentiu por mim. Ela disse que passamos a noite juntos.” Seu tom era duro, cada palavra clara e precisa. “Vocês sabem o que isso significa para uma mulher. Ela destruiu sua reputação por mim.

Não foi destruída.” Christopher disse. “Você –

Me ofereci para me casar com ela.” James disse. “Não, corte isso, eu disse a ela que nós iriamos nos casar. Porque Cordelia teria realmente sido a primeira a rejeitar uma união assim. Ela nunca iria querer que eu me sentisse obrigado a fazer algo, nunca quis me fazer infeliz pelo bem dela.

Você está?” Os olhos de Thomas estavam claros e firme. “Se fazendo infeliz por ela?

Eu estaria mais infeliz se ela fosse arruinada,” James disse. “E eu fosse o culpado disto. Um ano de casamento com Daisy é um preço pequeno para nos salvar.” Ele soltou o ar. “Lembram-se? Nós todos dissemos que seria uma boa diversão? Uma pegadinha?

Eu acho que quando quanto mais se aproxima do dia, mais sério parece.” Christopher disse.

Não é algo leve,” Thomas disse. “As runas do casamento, os votos –

Eu sei.” James disse, se virando na direção das janelas. A neve parecia ter engolido toda Londres. Eles estavam sentados em um ponto de luz e calor no meio de um mundo de gelo.

E Grace Blackthorn.” Matthew disse.

Um silêncio curto se seguiu. Nenhum deles falou o nome de Grace na frente de James desde a festa de noivado dele e de Cordelia, quatro meses atrás.

Eu não sei o que Grace pensa, na verdade.” James disse. “Ela estava muito estranha depois do noivado –

A boca de Matthew se torceu. “Apesar dela mesma já estar comprometida e não tinha nada a ver –

Matthew.” Thomas disse calmamente.

Eu não falo com ela por meses.” James disse. “Nem uma palavra.

Você não esqueceu que você queimou aquela casa por ela, esqueceu?” Matthew disse, enchendo seu cálice novamente.

Não.” Disse James firmemente. “Mas não importa. Eu fiz uma promessa a Daisy, e eu vou manter essa promessa. Se vocês queriam me impedir de fazer a coisa certa, deveriam ter começado a campanha um pouco antes da noite do meu casamento.

Tudo ficou quieto por um momento. Os quatro ficaram parados, mal respirando. A nave batia no vidro como uma leve explosão de branco. James podia se ver refletido no vidro: seu próprio cabelo preto, seu rosto pálico.

Finalmente Matthew disse: “Você está certo, claro; é que apenas talvez nós nos preocupamos que você seja muito sincero – muito bom e a bondade pode ser uma lâmina afiada o suficiente para cortar, você sabe, tanto quanto uma má intenção.

Eu não sou tão bom assim de forma nenhuma.” James disse, se virando da janela –

– E então de repente a sala e seus amigos sumiram, e ele teve a sensação de cair, girando e caindo através de uma grande extensão de nada, apesar dele estar parado sem se mover.

Ele pousou em um pedaço de terra duro.

Não, não agora, não pode ser. Mas James se levantou, ele se achou em um terreno baldio, sob o céu coberto de cinzas. Não era possível, ele pensou – ele tinha visto este reino das sombras desmoronar, enquanto Belial berrava de ódio.

A última vez que ele esteve neste lugar, ele tinha visto Cordelia enfiar sua espada no peito de Belial. Uma imagem dela dando o golpe apareceu espontaneamente em sua mente, sua espada empunhada e seu cabelo brilhando como se ela fosse uma Deusa capturada em uma pintura: Liberdade ou Vitória guiando o povo.

E então o próprio mundo tinha se aberto enquanto o céu se partia e luzes vermelho-negras tinham coberto a terra. E James tinha visto o rosto de Belial desabar e seu corpo se partir em milhares de pedaços.

Belial não estava morto, mas ele tinha estado tão enfraquecido por Cortana que Jem tinha tido que ele não seria capaz de retornar por, pelo menos, cem anos. E certamente desde aquele momento, tudo tinha estado quieto. James não tinha visto seu avô, nem uma pista do reino das sombras do seu avô. Mas para onde mais Belial poderia ter puxado James agora?

James olhou ao redor, estreitando os olhos. Algo sobre este lugar, o que ele tinha visto tantas vezes em seus sonhos e visões, estava diferente. Aonde estavam as pilhas de ossos esbranquiçados, as dunas de areia, as árvores retorcidas e nodosas? Distante, através da extensão desolada de cascalho coberto de ervas daninhas, James viu o contorno de uma imensa estrutura de pedra, uma imponente fortaleza erguendo-se acima das planícies.

Apenas mãos humanas – ou inteligentes, pelo menos – poderiam ter construído tais coisas. James nunca tinha visto um indicio de tal história na desolação do Reino de Belial.

Ele deu um passo cauteloso, apesar para sentir o ar bater nele como uma onda. Ele ficou sem enxergar nada, forçado a ficar de joelhos e foi puxado para uma escuridão sem fim. Ele se lançou novamente através do nada, girando e caindo até cair em um chão de madeira duro.

Ele se forçou a se apoiar nos cotovelos, inalando o fedor de produtos químicos queimados misturados à parede úmida. Ele escutou vozes antes de sua visão clarear, a voz de Matthew se sobressaindo acima das outras duas: “James? Jamie!

James tossiu fracamente. Ele sentiu gosto de sal e tocou sua mão com a ponta dos seus dedos. Eles voltaram escuros e vermelhos. Mãos agarraram seus pulsos, ele foi levantado rudemente, um braço em volta de suas costas. Brandy e colónia.

Matthew.” ele disse, com uma voz seca.

Água.” Christopher disse. “Nós temos água?

Nunca toque nas coisas,” Matthew disse, sentando James no sofá comprido. Ele se sentou do lado, olhando James tão intensamente que, apesar de tudo, James teve de sufocar uma risada.

Eu estou bem, Matthew.” James disse. “Além disso, eu não sei o que você espera descobrir olhando dentro do meu globo ocular.

Eu trouxe água.” Thomas disse, passando por Christopher para oferecer uma caneca a James: as mãos de James estavam tremendo tanto que seu primeiro gole foi metade pra sua garganta e a outra metade para a frente de sua camisa. Christopher deu tapinhas em suas costas até que ele conseguiu inalar e respirar, e beber propriamente.

Ele deixou a caneca vazia no braço do sofá. “Obrigada, Thomas –

Ele foi pego, de surpresa, por um forte abraço de Matthew. As mãos de Matthew agarraram as costas de sua camisa, a bochecha gelada de Matthew contra a sua. “Você ficou sombreado,” Matthew disse, sua voz baixa, “Como se você fosse desaparecer, como se eu tivesse desejado que você sumisse e você estivesse desaparecendo –

James se afastou o suficiente para tirar o cabelo de sua testa. “Você desejou que eu desaparecesse?” ele disse provocativamente.

Não. Eu só desejo que eu mesmo suma, às vezes.” Matthew disse em um sussurro e era a coisa mais rara no que se dizia respeito a Matthew, uma afirmação inteiramente verdadeira sem zombaria, provocação ou humor.

Nunca deseje isso.” James disse e se sentou direito o suficiente para ver os outros dois Ladrões Felizes e suas expressões preocupadas. “Eu me tornei em uma sombra?

Thomas consentiu. Matthew estava encostado contra o encosto do sofá agora, apenas sua mão direta segurando o pulso de James, como se ele estivesse assegurando a si mesmo que James ainda estava lá.

Eu pensei que essa porcaria tivesse terminado.” James admitiu.

Já fazem meses.” Christopher disse.

Eu pensei que não aconteceria mais com você.” Thomas disse. “Eu pensei que o reino de Belial tivesse sido destruído.

James olhou para seus amigos, querendo assegurar para eles – não significa nada, pode haver qualquer tipo de razão para isso ter acontecido, eu tenho certeza de que não é importante – mas as palavras morreram em seus lábios. A desolação do lugar ainda estava muito próxima dele, o gosto ácido do ar, a fortaleza distante envolta em fumaça.

Alguém haveria querido que ele visse, ele pensou. E não era provável que fosse alguém que quisesse o bem dele.

Eu sei.” Ele disse, por fim. “Foi o que eu também pensei.

– – – – – –

O ar lá fora estava tão frio que parecia brilhar enquanto Cordelia, tonta e rindo, desceu com esforço da carruagem do instituto e acenou vigorosamente tchau para Lucie. Atras dela, Cornwall Gardens estava escura e com as cortinas fechadas. “Obrigada pela festa surpresa!”, ela falou, fechando a porta da carruagem. “Eu nunca esperei passar a noite anterior a meu casamento jogando acerte o copo com lobisomens.

Você acha que eles estavam roubando? Eu pensei que eles estavam roubando. Mas foi terrivelmente divertido, de qualquer forma.” Lucie se inclinou pela janela aberta e jogou um beijo dramaticamente para Cordelia. “Boa noite, minha querida! Amanhã eu serei sua suggenes! Nós seremos irmãs.

Cordelia pareceu momentaneamente ansiosa. “Apenas por um ano.

Não.” Lucie disse firmemente. “O que quer que aconteça, nós sempre seremos irmãs.

Cordelia sorriu e se virou para entrar na casa. A porta da frente se abriu, e Lucie pode ver Alastair no vão da porta, segurando uma lâmpada erguida, como Diogenes procurando por um homem honesto. Ele acenou para Lucie antes de empurrar a porta, a fechando atrás de sua irmã; Lucie bateu no lado da carruagem e Balios trotou novamente, o som de seus cascos como chuva abafada contra o chão repleto de neve.

Com um suspiro ela afundou contra o assento de seda azul, repentinamente cansada. Tinha sido uma longa noite. Anna tinha escapulido uma hora ou mais depois da meia noite com Lily, uma vampira de Pequim. Lucie aguentou firme – ela queria ficar na Ruelle enquanto Cordelia estivesse se divertindo; ela sabia que sua amiga estava meia temerosa com o dia seguinte. Ela não podia culpá-la. Não que as pessoas não se casavam por todas as razões convenientes em vez de amor, mas mesmo que temporariamente, era bastante dramático. Cordelia teria de fazer uma grande performance no dia seguinte, assim como James.

Um centavo por seus pensamentos.” Disse uma voz baixa. Lucie levantou o olhar, sua boca se curvando em um sorriso.

Jesse. Sentado em frente a ela, seu rosto iluminado pelo brilho rosado que a carruagem filtrava das lâmpadas através da janela. Ela tinha treinado a si mesma para não se assustar quando ele aparecesse repentinamente entre um momento e outro; naqueles quatro meses desde que eles tinham se tornado conhecidos, ela o tinha visto quase todas as noites.

Ele sempre parecia o mesmo. Ele nunca ganhava um centímetro de altura, ou seu cabelo um centímetro de comprimento. Ele estava sempre vestido de forma reconfortante com as mesmas calças pretas e camisa branca. Os olhos dele eram sempre profundos e verdes, como verdigris em uma moeda manchada.

E a presença dele sempre a fazia sentir como se delicados dedos estivesse subindo por sua coluna. Trêmulo e quente, tudo ao mesmo tempo.

Um centavo é muito pouco.” Ela disse, mantendo sua voz leve com esforço. “Meus pensamentos são muito interessantes e requerem um gasto maior de dinheiro.

Pena que eu estou profundamente quebrado.” Ele disse, indicando seus bolsos vazios. “Você se divertiu na Ruelle? As roupas de Anna são realmente espetaculares; Eu queria que ela pudesse me dar conselhos com coletes e polainas, mas, você sabe…” Ele levantou seus braços, mostrando seu traje que nunca mudava.

Lucie sorriu para ele. “Você estava espiando? Eu não vi você.

Era raro que ela não visse Jesse se ele estivesse presente na sala. Quatro meses atrás ele tinha dado seu último suspiro – que estava aprisionado em um colar dourado que agora ela usava em seu pescoço – para salvar a vida de James. Lucie tinha ficado preocupada que aquela perda significasse que Jesse fosse sumir ou desaparecer; enquanto ele continuava incomodavelmente insubstancial, ele ainda era bastante visível, ao menos para ela.

Ele encostou sua cabeça negra contra o estofamento azul e dourado. “Eu posso ter aparecido para garantir que você entrou na Ruelle com segurança. Existem muitos tipos suspeitos perto da Berwick Street à noite: ladrões, batedores de carteiras, malandros…

Malandros?” Lucie estava encantada. “Isso soa como algo de ‘A Bela Cordelia’.

Falando disso.” Ele apontou o dedo acusadoramente para ela. “Quando você vai me deixar ler?

Lucia hesitou. Ela tinha permitido que ele lesse alguns de seus livros antigos, como ‘Princesa secreta Lucie é salva de sua terrível família’, que ele tinha gostado bastante, especialmente o personagem do Cruel Príncipe James. Mas ‘A Bela Cordelia’ era diferente. “Eu estou lapidando o livro.” Ela disse. “Ele requer lapidamento. Todos os livros precisam ser lapidados, como diamantes.

Ou sapatos.” Ele disse secamente. “Eu tenho pensado em escrever um livro eu mesmo. É sobre um fantasma muito, muito entediado.

Talvez,” Lucie sugeriu. “Você devesse escrever um livro sobre um fantasma que tem uma irmã muito devota e uma muito devotada… amiga que passam uma grande parte de seus tempos tentando descobrir como não fazê-lo mais ser um fantasma.

Jesse não respondeu. Ela quis soar divertida, mas os olhos dele tinham escurecido e se tornado sérios. Que estranho que, mesmo quando alguém era um fantasma, os olhos eram a janela da alma. E ela sabia que Jesse tinha uma alma. E estava viva como qualquer outra coisa, desesperada para ser livre no mundo mais uma vez, sem estar sentenciada a uma meia-existência de consciência somente à noite.

Jesse olhou pela janela. Eles estavam passando por Piccadilly Circus, praticamente deserta aquela hora da noite. A estátua de Eros no centro estava levemente empoeirada com neve; um único homem em situação de rua solitário dormia nos degraus abaixo dela. “Não tenha muita esperança, Lucie. Algumas vezes, esperança é perigosa.

Você disse isso a Grace?

Ela não escutará. Nem uma palavra. Eu – eu não quero que você se decepcione.

Lucie estendeu sua mão, ainda em sua luva de pelica azul. Jesse parecia estar olhando para ela no reflexo ténue traçado no interior da janela, embora, é claro, ele também não pudesse se ver. Talvez ele preferisse assim.

Ele virou a própria mão com a palma para cima. Tirando a luva, ela pousou os dedos levemente nos dele. Oh. A sensação dele – a mão dele era fria, mas levemente imaterial, como a memória de um toque. E ainda assim enviava faíscas por suas veias – ela quase podia vê-los, como vaga-lumes no escuro.

Ela limpou sua garganta. “Não se preocupe comigo me desapontando,” ela disse. “Eu estou terrivelmente ocupada com coisas importantes, e eu tenho um casamento para organizar amanhã.

Então ele olhou para ela, sorrindo quase relutante. “Você é a única planejando este casamento?

Ela balançou a cabeça, fazendo as flores no seu chapéu tremerem. “A única competente.

Oh, de fato. Eu me lembro da cena em Princesa Secreta Lucie É Resgatada de Sua Terrível Família na qual a Princesa Lucie supera o Cruel Príncipe James na arte de fazer arranjos de flores.

James ficou muito irritado com esse capítulo.” disse Lucie, com alguma satisfação. A luz brilhava na carruagem conforme eles passavam pelos postes das ruas: lá fora, um policial solitário fazia sua batida sozinho em frente ao Portico Coríntio do Teatro Haymarket.

Ela não conseguia mais sentir a mão de Jesse contra a dela. Ela olhou para baixo e viu que parecia estar descansando seus dedos contra nada – ele parecia ter ido de um pouco para totalmente substancial. Ela franziu o cenho, mas ele já havia retirado sua mão, deixando-a pensando se ela havia imaginado coisas.

Eu suponho que você irá ver a Grace amanhã.” Jesse disse. “Ela não parece incomodada pelo casamento e parece desejar tudo de bom ao seu irmão.

Lucie não conseguia não pensar sobre isso. Grace era um assunto sobre o qual ela e Jesse podiam conversar pouco. Ela nunca via os dois ao mesmo tempo, já que Jesse dormia inconsciente durante o dia e Grace tinha dificuldade de fugir de Bridgestocks e de Charles durante a noite; Jesse a visitava com frequência, mas ela nunca falou com Lucie sobre as conversas deles. Mesmo que Grace e Lucie estivessem trabalhando juntas para salvar Jesse, o assunto da forma como ele existia agora, era estranho.

Jesse parecia entender que Grace havia aceitado se casar com Charles com o intuito de se proteger da influência de Tatiana, e que James e Cordelia estavam se casando para proteger a reputação de Cordelia. Ele parecia até acreditar que era a coisa certa a se fazer. Mas Jesse amava sua irmã de maneira protetora, e Lucie não tinha nenhuma vontade de dizer para ele que achava que Grace havia partido o coração de James.

Especialmente não enquanto ela ainda precisava da ajuda de Grace.

Bem, fico feliz de ouvir isso.” ela disse alegremente. Virando na Shoe Lane, eles entraram pelos portões de ferro do Instituto até o pátio. A catedral surgia diante deles, escura e imponente contra o céu. “Quando – quando eu verei você novamente?

Ela imediatamente desejou não ter perguntado. Ele sempre aparecia, raramente perdendo mais de uma noite de seus encontros. Ela não deveria pressioná-lo.

Jesse sorriu, um pouco triste. “Gostaria de poder aparecer no casamento. É uma pena. Eu gostaria de vê-la em seu vestido para levar Cordelia ao altar. Parece com as asas de uma borboleta.

Ela havia mostrado o material a ele – uma seda pêssego-lavanda iridescente anteriormente. Mesmo assim, ela estava surpresa que ele se lembrasse. As luzes do Instituto estavam acesas; Lucie sabia que logo seus pais sairiam para recebê-la de volta. Ela se afastou de Jesse para pegar sua luva, quando a porta do Instituto se abriu, derramando uma luz amarela contra os paralelepípedos.

Talvez amanhã à noite…” ela começou, mas Jesse já havia partido.


[Traduzido por Equipe IdrisBR. Dê os créditos. Não reproduza sem autorização.]

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