27.02

Em uma resposta a um post que sua amiga e co-escritora em As Crônicas de Bane, Sarah Rees Brennan, fez no Tumblr, onde respondeu a pergunta de uma fã sobre fanfic, Cassie esclareceu como foi a reação que obteve ao passar de escritora de fanfic para escritora publicada. Leia abaixo o post (parte da Cassie) traduzido:

*Fanfic/fanfiction/fic: história escrita pelos fãs sobre personagens fictícios de séries/filmes/livros/etc.

Isso é meio que uma resposta muito grande, mas o post da Sarah deve ser visto. Então aviso logo que é grande!
É difícil pra mim pensar o que dizer sobre o que responder a esse post da Sarah, porque muita coisa cai no Código de Silêncio: coisas sobre as quais a gente nunca fala na internet porque não tem como fazer isso de modo seguro.

“4) Uma repórter disse e depois discutiu comigo sobre isso que eu consegui o contrato do meu livro por causa da minha fanfic, apesar de já nos conhecermos antes e ela saber exatamente como foi o processo que passei. (Eu falei que eu tinha escrito fanfic, porque quando você tem um hobby que as pessoas acham que é estranho, você fala dele caso ele se torne um problema. E você fala sobre isso positivamente – ‘Oi, eu sou nerd, eu adoro escrever!’ porque… por que não gostaria?)”

Eu estava no mesmo artigo, e a repórter falou o mesmo de mim. Também já nos conhecíamos. Aí nos distanciamos e ela escreveu um post enorme sobre como eu virei uma vadia horrível. Depois que eu assinei meu primeiro contrato com a Simon and schuster, alguém enviou centenas daquele post para a minha editora, e o post não era sobre a minha escrita mas sobre a opinião dela de que eu era pessoalmente uma vadia e uma má amiga. Felizmente eles foram espertos o suficiente para ignorar isso – editoras não ligam pra sua vida pessoal, mas foi o meu primeiro contrato, e eu estava tão animada, vocês podem imaginar como foi humilhante. (Talvez não possam. Mas acho que provavelmente podem.)
Eu (e Sarah) estávamos meio que liderando uma leva de escritoras de fanfic que venderam material original e que não esconderam que escreviam fanfic. Eu recebia, e ainda recebo, críticas por não ter mudado o meu nome quando vendi meu original: me disseram que eu estava me beneficiando do meu nome de fanfiction. Mas não tem como vencer, porque Sarah mudou o nome dela e eu vi ela receber o mesmo número de comentários que eu recebi, mas dizendo que ela estava tentando esconder que havia escrito. (Ela não estava). E eu sei que mesmo se eu tivesse mudado o meu nome, tinham várias fotos minhas e várias informações sobre mim – tipo que eu era amiga da Holly Black – que não demoraria muito pras pessoas perceberem que “Jezebel Smith” era na verdade eu, e aí teria um monte de pessoas tentando divulgar isso ao máximo, do mesmo jeito que as pessoas tentaram descobrir e divulgar meu nome verdadeiro, meu endereço, a localização do meu casamento. Eu não queria viver com medo do dia que as pessoas descobririam, então decidi ser aberta em relação a isso desde o começo, mesmo sabendo que seria diferente e horrível.

Sarah:
“…É tçao estranho que as pessoas que leem e escreve fanfics fazem isso quando decidem que ex escritoras de fanfics não podem escrever os seus próprios personagens. Porque são essas pessoas que dizem isso. Ninguém que leu os meus livros e não leu minhas fics nunca nem pensou que eu baseei meus personagens em outros. Não porque essas pessoas não tenham lido Harry Potter – quem nunca leu? – mas porque não tem motivo para eles pensarem que Harry é uma garota detetive, ou que Gina é uma gótica de cabelo rosa, ou que Rony é uma morena lésbica anti social que tem uma maquiagem incrível.”

Bom, esse é o meu headcanon pro Rony.
Brincadeiras a parte, como as de Sarah, essas são experiências com as quais sou familiar. O que dizem sobre o que você fez muda, mas sempre dizem que se você escreveu fic você é incapaz de originalidade. Eu já vi pessoas se matando para provar que os meus livros dos Caçadores de Sombras são Harry Potter, mas eles tem pouco em comum exceto alguns clichês básicos de fantasia. Jem é o Harry, de algum jeito (porque ele é legal?…) então eu acho que o Harry é um asiático alto de cabelo cinza que luta contra demônios, é viciado em drogas e toca violino. Quem sabia? Harry tem várias facetas. Jace é o Draco (loiro!) e Magnus é – não sei quem eles acham que é. Talvez Dumbledore. Um Dumbledore que é um indonésio bissexual sexy.
Eu passei anos desenvolvendo a mágica dos Caçadores de Sombras e é absurdamente diferente da mágica de Harry Potter, mas Clary e Gina são ruivas, então… Elas são a mesma pessoa.
Mas, de qualquer jeito. O que é tão interessante sobre isso é que quem diz isso é quem lê/escreve fanfic. Eu nunca vi ninguém que não sabia que eu escrevia fic dizer que o Jem é parecido com o Harry ou que o Will é obviamente o Draco. Eles nunca fazem isso.

Eu sei que vou ver as pessoas nos comentários dizendo: “Mas isso é diferente, veja bem, você é uma pessoa horrível/ /uma plagiadora de fanfiction/uma cyberbully/uma pessoa que merece esse tratamento [como John Scalzi uma vez disse a alguém em seu blog que disse que eu merecia as ameaças de morte que eu tenho, porque eu tinha ‘Banido as pessoas do Fandom (não é uma coisa que você pode fazer, fandom não é um país): “Sim, ela não deveria ter usado esse vestido.”]
Porque é assim que a misoginia trabalha – dividimos as mulheres, as dividimos em boas e más, usamos o comportamento de algumas mulheres para envergonhar as outras mulheres, e nós usamos as consequências causadas a elas para aterrorizar outras. Eu não consigo contar a quantidade de vezes que as disseram para as minhas amigas que elas não poderiam ser minhas amigas, porque eu sou uma pessoa terrível, e que, se elas não me denunciassem publicamente seriam mulheres terríveis também. É parte de um padrão colocar mulheres umas contra as outras e muitas vezes eu vejo isso refletido nas mentiras estranhas que aparecem sobre mim e minhas amigas escritoras:
1) Meu editor pagou Holly Black e Sarah Rees Brennan para serem minhas amigas. Isso pressupõe um nível muito mais elevado de organização por parte das publicações do que realmente existe. E também, eu já era amiga delas antes de ter um editor.
2) Libba Bray me odeia e fez seu marido, meu ex-agente, me despedir (Agentes na realidade não te demitem, eles trabalham para você.)
3) Holly Black está apaixonada por mim. E eu meio que estou dentro dessa. Mas isso me faz lembrar de Meninas Malvadas.
4) As Crônicas de Bane são fanfiction quando Sarah as escreve, mas não quando Maureen escreve.
5) Holly escreveu Magisterium inteiro sozinha, mas, aparentemente, decidiu fingir que eu a ajudei por que ela queria uma sinopse vinda da minha parte, mesma ela já tendo uma sinopse de mim.
6) Eu continuo a escrever secretamente fanfiction com outro nome. Quer dizer, seria bom se eu realmente escrevesse, mas eu não escrevo. Eu me arrependo de ter escrito fanfiction mais do que eu me arrependo de qualquer outra coisa que já fiz. Eu realmente não posso lê-las ou vê-las sem se sentir um pouco insegura e assustada. Eu acabo me lembrando de como quando fui a DragonCon no ano anterior ao lançamento do meu livro, e eles receberam tantas ameaças sobre minha presença que eles precisaram me garantir seguranças, o qual eu nunca pedi. Lembro- me de sair do país na data de publicação do meu livro. Eu não aguentaria ficar lá. Eu lembro da fandom mandando tanto spam com criticas negativas de Cidade dos Ossos para a Amazon e o Goodreads, admitindo que nem ao menos leram o livro. Eu me lembro de pessoas dizendo repetidamente que “tudo ficaria bem se você apenas tivesse se desculpado” apesar de eu pedir desculpas várias vezes em um fandom, uma década atrás, e isso nunca me ajudou ou fez diferença.

Como Sarah ressalta, escrever fanfic é na maior parte um lugar feminino, e portanto ridicularizado e desprezado por causa disso como “hordas de mulheres escrevendo”. E desprezo pelas mulheres, e pelo que elas vezes, é, como sempre, muito doloroso e se torna parte de como as mulheres se veem. Algo como tipo “Eu nunca teria um lugar num clube que me aceita.” Eu já fui criticada por usar a palavra “feels”(sentimentos) porque prova que eu sou parte do fandom – pelas pessoas do fandom… que também dizem feels.
Fanfic só cresce. Mais e mais jovens mulheres estão começando a escrever. Eu recebo perguntas o tempo todo sobre a transição de escrever fanfic e escrever profissionalmente e um monte de vezes eu não sei o que dizer. “Na minha primeira turnê de um livro as pessoas ameaçaram jogar ácido em mim e as livrarias tiveram que contratar seguranças?” “Pessoas do fandom descobriram o telefone do meu avô (ele tinha 90 anos) e ligaram para ele e disseram que a neta dele era uma puta e vadia?” (Ele morreu antes que eu pudesse vê-lo de novo depois daquela ligação). “Ok, mas aceite que as pessoas sempre vão presumir que os seus livros são a sua fic, porque aparentemente isso é como crack e depois que voc/ê começa não consegue fisicamente parar e você vai se sentar num canto e dizer MEU DEUS SE EU CONSEGUISSE RESISTIR AO DRACO POR 5 MINUTOS EU PODERIA ESCREVER UM LIVRO MAS NÃO CONSIGO”?

Acho que não sou a pessoa certa para comentar coisas encorajadoras 🙂 Acho que vou encerrar com o que a Holly (que viveu tudo isso comigo por uma década, como a Sarah), disse no seu post:

Esse é um post muito importante, especialmente pra todos vocês, jovens escritores que estão começando agora, porque eu vi isso acontecer com os escritores mais inteligentes e estudados que eu conheço, escritores que se dedicam muito ao ofício, que são generosos e espertos e bons. E eu vi isso acontecer repetidas vezes… Escritores que já escrveram fanfic não são uma raça diferente de escritores. Não são menos originais. Não são piores. Não são piores em nada. Eles são escritores, ponton final.

Esperamos que o fandom todo leia isso e entenda de uma vez por todas a mensagem que essas escritoras passam =)

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2 comentários em “Cassie fala sobre fanfiction e o preconceito que os (ex)autores desse gênero sofrem”



  1. Lah disse:

    Isso aí Cassie!!! Arrasou!!!!

  2. Lara disse:

    “sempre dizem que se você escreveu fic você é incapaz de originalidade.”
    Raziel, olha as merdas que o povo pensa mds





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