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Resenha: Filho – Thallys Braga


“Filho”
Thallys Braga
Arte de Capa: Elisa Von Randow
Companhia das Letras – 2026 – 232 páginas

Com uma prosa que transita entre a franqueza, a raiva e a ternura, Filho é um livro de memórias que narra a busca pelo direito de existir sem medo ― da fome, da pobreza, da violência e da homofobia ― e as inevitáveis marcas que se ganha durante a rota de fuga.

Thallys Braga percorreu um caminho similar ao de outros trânsfugas de classe, ascendendo social e financeiramente por meio dos estudos. Mas, como ele narra neste Filho, a distância entre o subúrbio de Inhoaíba, onde nasceu, e a Zona Sul carioca é muito maior do que os sessenta quilômetros que separam os dois lugares.

Thallys cresce com a família materna. A mãe, Luciana, passa a vida se desdobrando para sustentá-los e encontra na Igreja evangélica apoio emocional e material nos momentos mais difíceis. Fio condutor do relato, a relação com a mãe ― complexa, conturbada, amorosa, incondicional ― marca toda a vida de Thallys e ganha novos contornos quando Luciana descobre que o filho é gay. Num ambiente de homofobia arraigada e de poucas expectativas para o futuro, deixar Inhoaíba parece ser a única saída para o autor. Mas, afinal, é realmente possível se afastar da pessoa que mais nos ama, daquela que mais amamos? Até que ponto essa liberdade é permitida para quem tem a obrigação de cuidar dos que ficam para trás?

Com voz própria, Thallys Braga se inscreve na tradição de narrar em primeira pessoa a complexidade das trajetórias de mobilidade social, percorrendo, à sua maneira, um caminho aberto por nomes como Annie Ernaux, Didier Eribon e Édouard Louis. Ao tratar de uma realidade ainda pouco abordada na literatura brasileira, Filho é um ensaio autobiográfico duro e honesto sobre o preço de partir.

Sinceramente, resenhar “Filho” vai ser uma das missões mais difíceis dos últimos tempos porque o livro me provocou todos os tipos de sentimentos que um livro pode provocar, de raiva à amor, compaixão ao ressentimento, e tudo isso por pessoas reais, já como é um livro de memórias. Não é fácil de se expor da forma como a história de Thallys é exposta aqui e só isso me faria bater palmas sem parar para ele, mas o livro consegue levar o leitor para dentro de uma família que é o retrato de tantas outras famílias que existe por todo o país, provocando todos sentimentos que já falei, mas também nos mostra seus pensamentos mais profundos e a dualidade de se amar mas, ao mesmo tempo, querer se distanciar de tudo que se lembra as pessoas que se ama. De um testemunho de alguém que sofreu homofobia pela própria família até alcançar parte de seus objetivos, é uma jornada repleta de sensações, tudo enquanto ele descobre o que o torna filho de sua mãe e tudo que não o torna filho de seu pai – e o inverso também é verdade.

Mais tarde, ao descobrir a dimensão da nossa pobreza, vou precisar lidar, também, com a raiva pela sujeição da minha família. Como eles puderam viver uma vida de privações sem se revoltar contra nada e ninguém? Por que aceitaram passivamente exercer funções degradantes, tal como os seus pais e avós, em troca de um salário pífio? O que limitava a sua leitura do mundo a ponto de se agarrarem a hipóteses tão ingênuas, como um curso de conserto de geladeiras, para pensar em como a vida poderia ter sido melhor?
Para chegar ao postinho do bairro, tínhamos que passar em frente a uma oficina de carros que pertencia a um homem que a minha mãe namorou na adolescência. Ao vê-lo sujo de graxa e atarefado com uma fila de carros esperando conserto, minha mãe dizia: “Sou uma boba. Se tivesse ficado com ele, hoje estaria bem de vida”. Depois, para não me machucar, completava: “Mas, se es­ti­vesse com ele, você não teria nascido, meu filho. No fim das con­tas, eu tive sorte”.

Thallys é um homem branco filho de mãe branca e um pai preto, um relacionamento que não deu certo. Afastado do pai desde cedo, cresceu com a mãe, Luciana, na casa dos avós maternos no bairro de Inhoaíba, no Rio de Janeiro. O avô materno trabalhou por muitos e muitos anos na Varing, uma grande empresa de linhas aéreas nacional que já fechou as portas, e, com isso, a vida de Luciana e dos dois irmãos foi mais folgada que a de Thallys. Crescendo com uma mãe que o amava profundamente e que também queria mais do que tinha, o garoto estudou em colégios particulares desde sempre, o que o ajudou a pavimentar seu caminho acadêmico, mesmo que no começo não se concentrasse nos estudos como esperado, afinal, a família fazia o sacrifício para pagar um bom colégio particular e deveria retribuir o esforço da família.

Além da vida que, até ai, era apertada, mas que não levava o garoto a se questionar sobre pobreza e classes sociais, Thallys se descobriu gay cedo. Seu tio, S, também mora na casa com a irmã e os pais, enquanto o tio B construiu uma edicula no fundo da casa para ele, a esposa e a filha, mas um ponto crucial na vida do garoto foi a homofobia que o tio lhe fazia passar antes mesmo dele conseguir compreender que era realmente gay. Essas cenas são difíceis de ler e compreender que isso acontece e muito por todo país. Já tendo suas primeiras experiências sexuais, a homofobia do tio sempre o colocava em um lugar defensivo, até o momento que a mãe realmente descobre suas amizades online e termina em uma apoteose de dor e ao mascaramento de quem Thallys realmente era, mostrando, mais uma vez, o que muito acontece em diversos lares por nosso país, muito chancelado pelo poder da religião.

Tudo bem, eu não convivia com ele, não sofri com a morte”. Eu não mentia. Não convivemos o suficiente. Não chorei pela perda do Marcelo. Nunca amei meu pai. Chorei porque eu era uma criança descobrindo que a vida tem seus limites; que as pessoas estão aqui e, de uma hora para outra, não estão mais.

Por que sim, depois de sair de casa algumas vezes para tentar encontrar o amor, Luciana se via em necessidades reais de comida para ela e para o filho, e foi assim que ingressou em uma igreja pentecostal. Integrada a este universo, claro que a ideia de ter um filho gay se tornou mais pesada para a mulher, mas muito mais pesava nela: as desilusões amorosas, a eterna vontade de ter um lugar só dela e do filho, a vontade de ser mais e de ter deixado muito de si de lado, tudo isso a transforma em uma pessoa complexa, capaz de entregar o maior amor possível para o filho e também infligir em quem tanto ama uma dor profunda. Anos de trabalho arduo como empregada doméstica e babá levaram a mulher ao limite, com uma saúde não cuidada por depender do sistema público de saúde, o qual sabemos que é essencial, mas que carece de celeridade, tudo isso levando a mulher à um fim doloroso.

Se há algo que Thallys nunca fez foi desistir, mesmo que com todas as adversidades. Primeiro ingressa na faculdade de Pedagogia, mas quando perde seu estágio, já levado por um encontro com uma grande jornalista, o jovem foi atrás do seu desejo e estudou, ingressando assim na faculdade de jornalismo. Continuando a fazer seu caminho, mesmo que quebrado, Thallys consegue o emprego que desejava na revista Piauí, onde, tempos depois, fez uma reportagem que realmente mudou sua vida (e que você provavelmente vai identificar ao ler o livro. Eu sei que eu li esta reportagem) enquanto também lhe deu mais espaço, o levando até o convite para este livro, ao mesmo tempo no qual vivia um relacionamento pleno com alguém que lhe despertava sentimentos conflitantes por ter vindo de uma realidade completamente oposta da sua. O amor não é suficiente, sempre acreditei nisso, e por isso tudo que acontece aqui é tão, tão real.

Vou conhecer casais de burgueses que se vangloriam por serem “pais modernos”, que saem para beber com os amigos na sex­ta­-feira à noite e deixam os filhos em casa com a babá. E vou me per­guntar o que há de moderno em privar uma mulher negra do convívio com a própria família no fim de semana e remunerá-la com um extra, duzentos reais, para cuidar dos filhos dos outros.
E eu verei a minha mãe brincando com os filhos deles. Todas as vezes.

A revisão do relacionamento e a busca de Thallys pelo que o faz filho de Luciana e de Marcelo, o pai com o qual nunca teve muito contato, é realmente o fio condutor da história contada aqui, mas é mais do que isso, é uma construção do que o fez ser quem ele é agora. Da homofobia que o fez abafar quem realmente era até mesmo uma vontade de pertencer à outros círculos sociais e mudar seu gosto de cantoras pop para algo mais “cult”, Thallys se abre com uma coragem, mostrando seus pensamentos mais íntimos e até condenáveis, e por isso foi tão dificil pensar em como colocar em palavras tudo que senti lendo este livro. Mas então me lembrei de é isso que um grande livro faz: te tira da zona de conforto, te mostra coisas que não era esperado, te faz pensar e sentir o que quem está nas páginas sente e não há nada dessas coisas que este livro não faça sentir. Impecável.

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