Resenha: Nunca as rosas – Jennifer K. Lambert

“Nunca as rosas ”
Jennifer K. Lambert
Tradução: Carolina Cândido
Arte de Capa: Cyla Costa Studio
Suma – 2026 – 288 páginas
Oneira, uma das feiticeiras mais temidas de seu tempo, abandonou as guerras da realeza e ergueu para si um refúgio ― uma fortaleza branca e gélida, feita de silêncio e arrependimento. Decidida a viver o resto de seus dias em paz, ela promete nunca mais usar magia a serviço de alguém.
Mas manter o isolamento não é tão simples. Quando o tédio se instala, ela decide fazer algo impensável: atravessar o mundo dos sonhos e invadir a biblioteca de seu inimigo mortal, Stearanos, o único feiticeiro à altura de seu poder. O roubo de um só livro desencadeia uma troca de cartas mordazes e uma curiosidade que nenhum dos dois é capaz de evitar.
Cercada de estranhos companheiros ― um lobo lendário, a gata Moriá e o falcão de uma deusa antiga ―, Oneira forma uma conexão improvável com Stearanos: dois feiticeiros marcados pela guerra, pela culpa e por escolhas irreversíveis.
Nunca as rosas é uma fantasia sobre solidão e poder, sobre o peso das escolhas e o que resta quando até a magia se torna uma forma de perdão.
Se alguém falar mal de “Nunca as rosas ” na minha frente, teremos um problema sério, e é meio contraditório eu me encontrar no lugar de fã absoluta de uma trama que tem diversas falhas que normalmente me faria dar uma nota e não ser tão fã assim do livro, mas o que temos aqui é realmente uma pequena joia rara: trama diferente, protagonistas cansados de uma vida de escravidão e mortes e que são pessoas adultas que lidam com as consequências dos seus atos atrozes, sem contar a química do casal Onira e Stearanos.
E sim, é um livro único, ou seja, infelizmente não teremos continuação da história deles dois lembrando quando terminávamos de ver um filme ou ler um livro tão bom que nos fez ansiar por uma continuação, mesmo que sabendo que esta não viria mais. Estamos acostumados com séries, trilogias, duologias e até mesmo spinoff de livros que amamos, mas aqui temos a apresentação, o desenvolvimento, a sagacidade de mostrar que quanto mais velho e mais experiente ficamos, mais afinado e apurado nosso gosto por relações ficam – e não só românticas, deixo claro. Enfim, o que quero dizer é: HINO, HINO DE LIVRO, HINO. E você também vai achar, se você gostar de um bom e velho romance com pitadinhas de magia.
Pela primeira vez desde que despejara o baú de moedas aos pés da rainha Zarja, Oneira parou para pensar no que estava fazendo. Ela havia derramado uma pilha de ouro manchado de sangue pelos degraus do trono e dito à rainha, diante de todos aqueles homens estarrecidos, que sua dívida estava paga, e, mais do que isso, que estava farta deles e de suas guerras. Mandou que a libertassem do voto de sangue e declarou que iria embora — e que eles só deveriam afrontá-la se tivessem coragem de arcar com as consequências.
— Mas e quanto a Stearanos Quebra-Tempestades? — demandou a rainha Zarja, mal contendo o tremor na voz. — Sem você aqui, não há nada que impeça as Terras do Norte de o usarem contra nós. Seremos conquistados.
— É só não dizerem a eles que fui embora — respondeu Oneira. Stearanos e o que ele poderia ou não fazer já não eram problemas dela. — Irei em segredo e permanecerei em segredo, mas irei.
A história é algo que nunca pensamos sobre: depois de grandes lutas, batalhas e mortes, como os feiticeiros reagem? Eles estão lá por sua vontade própria ou por que são basicamente escravos? E, principalmente, esses feiticeiros que ajudam Reis e Rainhas a conquistarem seus objetivos, como eles se sentem? Antes de tudo, preciso deixar claro o que a sinopse já deixa: os dois protagonistas não são jovens, são dois adultos e sem a idade precisada em nenhum momento, somente indícios que Oneira tem menos de 50 anos, já como ainda tem seu período menstrual, mas que em determinado ponto da trama diz que há muitas décadas deixou de ser criança, enquanto Stearanos é mais velho do que ela, mas também sem nenhuma precisão de idade. Se os dois personagens não tivessem a experiência de vida que tem, esse livro não serão tão bem colocado como foi. O fator “vida”, para cada um deles, é essencial para que sintam o que sentem, para que encarem a vida da forma pesada e arrastada como veem, para que sintam a responsabilidade por seus atos, coisa que somente os anos nos entregam realmente. É muito bom ver o livro de fantasia com foco em romance entre dois personagens realmente adultos e que agem como tal.
Oneira é uma feiticeira que conseguiu comprar sua liberdade – vendida ainda criança para um colégio que desenvolveu suas habilidades (já falamos sobre elas) e depois a vendeu para a Rainha Zarja, das Terras do Sul, e todo esse treinamento e depois sua venda gerou uma grande divida – e agora está aposentada. O que Oneira fez para conseguir esse tanto de dinheiro a ponto de comprar sua liberdade é um grande ponto na narrativa porque ela se sente mortalmente culpada, entregando que muitas mortes aconteceram em muitas missões para chegar até a quantia que era necessária. O fato é que Oneira conseguiu juntar o valor e assim se livrou do juramento que tinha com a Rainha, saindo do lugar e indo construir sua casa em um exato lutar entre uma praia e uma floresta atrás de sua casa. Barreiras construídas, Oneira está vivendo sua vida isolada, longe de toda e qualquer trama palaciana, quando recebe sua primeira visita: um lobo scáthcú, ser que faz parte de toda mitologia da trama, e que é um lobo imenso. Afeiçoada ao animal, ela o nomeia de Coelho, que passa a morar com ela. A segunda visita que recebe é de Adsila, um gavião que era um avatar de caça d’Aquela que Devora Ursos, uma deusa ancestral também da mitologia da trama. Por fim, a terceira visita que Oneira recebe é de Lady Moriá, uma gata que é a manifestação de magia. Todas criaturas semimíticas que resolveram se juntar a Oneira em sua aposentadoria.
— Hum. Você tem cheiro de plantas e de terra, mas também cheira a dor e a sofrimento. Morte e destruição. Oceanos de sangue — acrescentou, não exatamente em tom acusador, mas quase.
Sem mais se surpreender com o conhecimento daquela mulher, Oneira apenas assentiu com a cabeça, a vergonha viscosa envolvendo seu coração, um abismo de remorso se abrindo sob seus pés.
— Tanto que jamais será lavado.
— Talvez lavar não seja a analogia correta.
Oneira refletiu sobre isso. Lavar implicava que algo já havia sido limpo um dia e que a mancha poderia ser removida. Ela própria não era inocente desde seus saques ao Sonho quando criança. Cada ação, cada decisão havia se desdobrado a partir daquele momento. Não poderia voltar a um estado de inocência infantil, mesmo que quisesse.
— Qual é a analogia correta? — perguntou.
— Ah, eis a pergunta, Rouba-Sonhos.
Era uma pergunta, mas não a pergunta. Pelo menos, assim supôs Oneira.
Oneira é uma bruxa que é capaz de acessar o Sonho, lugar onde todos os seres vivos passam enquanto dormem, ou seja, ela é capaz de acessar este “lugar” e trazer de lá qualquer coisa que queira e ache necessário, sendo capaz de ir de um ponto a outro usando o lugar como atalho. Sua habilidade principal era bastante rara e Oneira, que sequer se lembra mais do seu nome dado por seus pais e passou a ser chamada assim causa de suas habilidade, treinou sua magia para conseguir modificar para o que traia de Sonho para se tornar mais e mais real. Uma das grandes feiticeiras de sua época a ponto de ganhar o apelido de Rouba-Sonhos, Oneira agora passava o dia cuidando de seu jardim e horta, quando o velho e bom tédio começa a realmente se instalar em sua vida, mesmo com a presença de seus 3 amigos animais.
E é ai que a trama começa, com Oneira indo aos sonhos de Stearanos Quebra-Tempestade, feiticeiro conhecido por ser o único capaz de matá-la, ligado ao Rei Uhtric, o Rei das Terras do Norte. Oneira quer ir até o castelo de Stearanos para pegar um livro da famosa biblioteca do feiticeiro, que é conhecido por sua paranoia e por ser extremamente rigido em sua própria vida. O que acontece pe que Stearanos compreende que foi alvo de algum ladrão mago e, tomado por seu ego ferido por ter tido suas barreiras e proteções quebradas, começa a ficar obcecado nisso, deixado um bilhete para quando o ladrão voltar, já como tem certeza que o que o gatuno deseja é lhe afrontar. Quanto Oneira retorna para deixar um “pagamento” pelo livro levado, encontra o bilhete do homem, a divertindo muito – o que vem a partir dai é exatamente o que você está pensando: os dois começam a trocar bilhetes quando Oneira visita a casa de Stearanos para pegar mais livros. A quimica entre os dois é clara e rápida, duas almas cansadas de carregar a solidão a qal foram confiados por não poderem confiar em ninguém e que lidam com a culpa por todo o trabalho já feito.
Em certo momento, recebera um dossiê detalhando o que havia sido verificado sobre suas habilidades, caso precisasse enfrentá-la em combate. Chamavam-na de Rouba-Sonhos, capaz de manipular o mundo onírico como ninguém, convocando dele o que quer que desejasse. As sagas poéticas insistiam nos monstros e terrores noturnos que ela podia libertar, devastando tanto inimigos mágicos quanto mundanos. Mas, como Stearanos exigira apenas fatos comprovados, os documentos continham muito pouco a respeito dela enquanto pessoa. Cabelo ruivo, sem marido, sem filhos. Um temperamento inflamado para combinar com as madeixas. E só.
Ele bufou. Ainda que tivesse pedido para saber mais, era improvável que alguém em seu reino se importasse com ela como pessoa — do mesmo modo que Uhtric não se importava com Stearanos. Ambos eram ferramentas, nascidos com poderes temíveis e meticulosamente treinados para colocá-los a serviço da base de poder, em vez de derrubá-la. Ficara até surpreso que a tivessem deixado escapar da coleira.
Era provável que ela estivesse velha e fraca, sem querer gastar os anos finais travando guerras. Talvez seus poderes tivessem diminuído com a idade e ela tenha considerado mais sensato aposentar-se do campo de batalha a arriscar uma derrota humilhante. No lugar dela, era o que ele faria.
Enquanto os dois feiticeiros começam a trocar mensagens na qual Oneira sabe com quem fala e provoca e o inverso não é verdadeiro, o Rei Uhtric descobre que Oneira se aposentou, deixando basicamente a Rainha Zarja desprotegida, já como os feiticeiros que agora estão lá são bem menos eficientes que a antiga, e decide que é a hora de conquistar as Terras do Sul. Enquanto isso, claro que Zarja imagina as intenções de Uhtric e manda um amante seu, Leskai Orynych, ir até o lar de Oneira, a seduzir e aceitar o seu convite para voltar a ativa.
E é aqui que digo que o livro tem o seu maior defeito: Leskai. Tudo sobre ele é… tá, confuso. Apresentado como um jovem que se tornou amante da Rainha, levado pela ingenua ideia de que conseguiria o que queria da mulher, mas que foi quebrado por ela e dominado por magia por Yelena, uma nova feiticeira da rainha, o homem passa a se apresentar como Tristan e vai lá tentar seduzir Oneira, um plano bobo, chato e infantil, que parece que nos levará para um triangulo amoroso, o que não acontece (ainda bem, preciso falar) simplesmente pelo fato de que Oneira não é mais uma adolescente e sim uma mulher adulta, que não vai cair na lábia de um jovem mais novo simplesmente porque sim, mas toda essa trama é desnecessária, a meu ver, roubando diversas páginas que poderiam ser voltadas a mais explicações sobre a mitologia do universo em questão, ou, simplesmente, no dar mais pontos de vistas de Stearanos.
É claro que era Stearanos, e ela só podia culpar a si mesma. Por causa de sua imprudência e do desprezo arrogante pelo bom senso — sem falar no respeito que deveria ter tido pela reputação dele —, Oneira cutucara o leão e o trouxera até sua própria porta.
— Rouba-Sonhos — saudou ele, com uma cordialidade forçada, mas com a voz cortante. — Não tenho dúvida de que me reconhece.
— Quebra-Tempestades — ela respondeu, firme, sem se mover. — A que devo esta honra duvidosa?
— Ora, creio que você sabe bem. — A voz dele soou áspera, avançando um passo de cada vez em sua direção.
Ela se recusou a recuar. Ele podia matá-la — e provavelmente o faria —, mas ela não cairia sem lutar. Não imploraria para viver, nem se ofereceria para se tornar sua escrava mágica. Muitos feiticeiros acabaram assim, sacrificando o orgulho em meio ao pavor final, só para descobrir que a morte lenta que recebiam era uma tortura tão prolongada que os fazia ansiar pela morte rápida que haviam evitado.
— Vamos deixar as aparências de lado. Você tem sido uma ladra perversa, e não apenas de sonhos, feiticeira Oneira. — A boca estreita de Stearanos se contraiu ainda mais diante da falta de resposta dela; suas tranças se ergueram no vento criado pela magia revolta dele. — Você tem algo que me pertence. Vai devolver o que roubou de mim e pagar o preço pelos insultos e danos que me causou.
Voltando a trama, Stearanos, em certo ponto, é convocado por seu Rei e dado a missão de ajudar na conquista das Terras do Sul, mas, já compreendendo que é com Oneira que tem trocado aquelas mensagens, o poderoso feiticeiro decide visitar sua “amiga”, e é ai que ele compreende que tudo que Oneira fez por ele foi despertar sua vontade de viver novamente. Em um lugar de desesperança por imaginar que nunca conseguiria sua liberdade como ouviu que a colega feiticeira conseguiu, Stearanos odeia o Rei a quem está preso e não encontra muita felicidade no mundo, perdido em um mundo de contas de objetos ao seu redor e feitiços, o levando a quase solidão, salvo os criados que tem em seu próprio castelo. A trama é simples e direta, deixando claro que os dois estão no mesmo ponto de suas vidas, talvez até procurando por coisas em comum, mas sem a liberdade, o final desta história pode se encaminhar para algo trágico.
“Nunca as rosas ” é um livro tão fora da curva que entrega quase as 100 primeiras páginas sem os protagonistas se conhecerem cara a cara, e não espere nada acelerado ou correndo. O tempo inicial da trama é entregue em fazer o leitor se afeiçoar a Oneira, mulher experiente e calejada, que convive com o sentimento de culpa por ter feito tudo que fez para conquistar sua liberdade. Você sente o peso que há na personagem, e por mais que existe magia, o que realmente temos aqui são dois personagens que procuram algo que sequer sabiam que estavam sentindo falta: afeto. Alguns corações podem ter sido partidos por nos mesmo, mas, em alguns casos, outras pessoas podem nos curar, e é isso que torcemos que aconteça com Oneira e Stearanos.
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