Green Book – O Guia (2019)

Direção:Peter Farrelly

Elenco: Viggo Mortensen; Mahershala Ali

Gênero: Biografia; Drama; Comédia

Sinopse: Quando Tony Lip (Viggo Mortensen), um segurança ítalo-americano, é contratado como motorista do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista negro de classe alta, durante uma turnê pelo sul dos Estados Unidos, eles devem seguir o “O Guia” para leva-los aos poucos estabelecimentos que eram seguros para os afro-americanos. Confrontados com o racismo, o perigo – assim como pela humanidade e o humor inesperados – eles são forçados a deixar de lado as diferenças para sobreviver e prosperar nessa jornada.

 

Green Book começa apresentando seu personagem principal como um perfeito estereótipo: o típico malandro com lábia pra convencer qualquer um a fazer o que ele quer e que, se não resolve as coisas no papo, usa os braços. Tony Lip só não personifica o ‘jeitinho brasileiro’ porque é um ítalo-americano nascido e criado em Nova York . O carcamano – expressão usada pelo próprio várias vezes durante a projeção, fica temporariamente sem emprego após a boate em que trabalha (que por coincidência se chama ‘Copacabana) é fechada para reformas e recebe a proposta de ser o motorista de um certo Dr. Shirley.
 

O doutor é o pianista Don Shirley, um dos maiores musicistas da sua época e erudito, o musicista precisa de alguém que o leve ao sul segregacionista em segurança pois, sendo negro,apesar de mundialmente famoso, as leis – e o preconceito – não lhe permitiam viajar sem seguir o ‘Livro Verde’ que dá nome ao filme e é um guia com os locais que aceitam em suas dependências “pessoas de cor”.

 

Essa combinação incomum – baseada numa história real – é a força motriz do filme que combina críticas sociais com um leve toque de humor num ‘road trip movie’ dos mais protocolares possível, que parece seguir não só o Guia supracitado como também uma apostila de “Como Fazer Um Filme” no seu desenvolvimento: apresentação de personagens, formação do vínculo entre os dois, cadência das cenas, ritmo das sequências e encerramento da narrativa seguem padrões pré-estabelecidos que, se não deixam o filme ruim, também em nenhum momento surpreende o espectador.
 

Essa falta de coragem em ousar também é está no roteiro: no centro de uma realidade que parece absurda, nenhum dos temas propostos jamais se aprofundam: o racismo estrutural é retratado de forma protocolar e o sentimento de revolta em relação a ele parte de quem assiste, não é insuflado pelas cenas sempre rasas. Assim como a homossexualidade de Don Shirley cria apenas um leve desconforto entre os personagens, sendo resolvido com um frase que deveria ser de efeito mas que soa vazia diante da imutabilidade das atitudes dos mesmos ao longo da projeção.
 
Se Viggo Mortensen cativa com uma simpatia inata em sua interpretação, ele é desmerecido por uma caricatura que do início ao fim, permanece com as mesmas ideias e senso-comum manifestados desde sua apresentação no começo da projeção. Depois de certo ponto da projeção, já não há diferença entre Tony Lip e Joey Tribbiani – sim, aquele de ‘Friends’. Mahershala Ali se esforça pra colocar sentimento num personagem que sempre se esforça para demonstrar uma calma quase inexpressiva porém sua atitude blassé e superior apenas torna o personagem aborrecido sendo a melhor cena da projeção a única em que ele perde o controle diante dos comentários inapropriados de seu companheiro de viagem e tem um pequeno monólogo já no início do terceiro ato.
 

Com uma direção morna, figurino e fotografias bem ambientadas mas que não se destacam, ‘Green Book – O Guia’ é sim um bom filme mas surpreende ao aparecer na lista do Oscar pois não é nem de longe memorável o suficiente para estrelar entre os melhores do ano.