Cassie irá publicar um pequeno pedaço de conteúdo extra de “The Last Hours” por mês até um mês antes do lançamento do livro. Esse é do mês de maio de 2019.

LONDRES, 1900.

James não deveria ter saído sozinho tão tarde. Um Caçador de Sombras andando pelas ruas da cidade depois de escurecer estava essencialmente em patrulha, intencionalmente ou não — e James tinha apenas catorze anos, não chegara perto de terminar seu treinamento, não usava runas adequadas para lutar e tinha apenas uma única lâmina serafim enfiada em seu cinto.

Pior, ele não tinha nenhum motivo real para sair. Desde que Matthew, Christopher e agora Thomas retornaram a Londres com suas famílias, ele descobriu que tinha um excesso energia, uma sensação de algo importante prestes a acontecer, embora ele não pudesse dizer o quê. Ele estava deitado na cama tentando dormir e seus pensamentos voavam como pássaros agitados. Pensou em conversas que queria ter com seus amigos, pensou em Grace, pensou em sua cerimônia parabatai que se aproximava, pensou em suas visões de terras sombrias e árvores destruídas. Ele passou por complexas manobras de luta com faca em sua cabeça. Finalmente desistiu, vestiu roupas de sair e foi dar uma volta. Seus pais não ficariam felizes se descobrissem que ele tinha ido, mas ele tinha certeza de que ficaria bem, ficando a apenas alguns quarteirões do Instituto, no máximo.

O que estava em sua mente enquanto ele andava eram seus amigos, e quão frustrante era tentar ter algo tão simples quanto uma conversa particular entre eles. Ele não havia apreciado, pensou ironicamente, como era fácil na Academia, e quão irritante seria em Londres. Sua própria casa era o Instituto de Londres, e Caçadores de Sombras estranhos estavam sempre entrando e saindo de lá. A casa de Matthew, a residência do cônsul, tinha o mesmo problema. (Além disso, Charles geralmente estava lá, observando-os todos com seus olhos redondos). A casa de Thomas ficava longe, no Golder’s Green. A casa de Christopher em Bedford Square também era complicada. A tia Cecily tinha acabado de ter um menino e o tio Gabriel estava constantemente avisando para não acordarem o bebê.

“O que precisamos é de um clube de cavalheiros”, diria Matthew. Mas eles eram jovens demais para se juntarem a um clube de cavalheiros. “Começaremos o nosso, então”, Matthew retrucaria.

Perdido em pensamentos, James não notou que tinha vagado por um beco estreito com ninguém por perto, e não percebeu até ser tarde demais os três demônios Kuri que surgiram sobre o toldo de uma farmácia e, ao perceber que James podia vê-los, vieram direto para ele. Ele despachou um, feriu outro e espantou o terceiro, mas não antes de um deles ter enfiado uma presa no braço de James e ter marcado uma linha do cotovelo ao pulso.

James permaneceu no beco, segurando o braço e xingando. Muito bem feito, menino James. Parecia que um fio quente estava encravado em seu braço. Não havia nada a fazer senão voltar para casa e acordar pelo menos um membro da família. Ele não podia voltar por sua própria janela, ele teria que passar pela porta da frente. E ele teria que limpar a ferida no lavabo do andar de cima, ponto em que inevitavelmente teria que enfrentar as consequências.

Mas teria mesmo? As ruas estavam tranquilas a essa hora, mas quando ele seguiu pela Fleet Street, encontrou um pub ainda estridente de atividade. Com algum interesse, ele notou que era enfeitiçado para ficar escondido dos mundanos. Chamava-se Taverna do Diabo, de acordo com o letreiro, que mostrava um homem puxando o nariz de um demônio.

Quando ele entrou, a conversa parou por alguns instantes para que os habitantes do pub pudessem dar uma boa olhada no recém-chegado. James notou imediatamente que o lugar estava cheio de membros do submundo, o que fazia sentido. Um homem gigantesco de cabelos grisalhos, obviamente um lobisomem, estava enchendo uma caneca de sangue espumoso para um vampiro de aparência idosa no bar, mas parou quando James entrou. Houve um breve murmúrio com a aparição de um garoto, obviamente jovem demais para estar aqui sozinho, no pub deles, e então eles notaram as Marcas de James e houve um segundo murmúrio mais hostil.

Possivelmente isso tinha sido um erro, mas James pensou que virar e fugir provavelmente só pediria por mais problemas, então ele reuniu sua coragem e se aproximou da figura desajeitada que cuidava do bar.

“Olá”, ele começou. “Sinto muito, mas sofri uma espécie de ferimento e fiquei imaginando se você teria uma bacia e um pouco de água que eu pudesse usar.”

O lobisomem olhou para ele, ainda segurando a caneca de sangue. Depois de um momento, ele disse, em uma voz surpreendentemente suave: “Não recebemos muitos Caçadores de Sombras aqui, rapaz. Nós não recebemos muitas crianças também. E é extremamente raro termos a combinação dos dois.”

James se manteve firme. “Eu não quero nenhum problema. Eu só preciso de um lugar para lidar com essa ferida e então eu vou embora.”

O lobisomem notou a linha vermelha irritada ao longo do braço de James. “O que te atacou?”

“Demônio Kuri”, disse James. Quando o barman deu um olhar vazio, acrescentou: “Como uma aranha do tamanho de uma bola medicinal. Pouco maior, na verdade.”

O barman grunhiu. “Antes você do que eu.” Ele olhou mais de perto para James. “Espere, eu reconheço você. Você é o menino de Will, não é?

James piscou surpreso. “Você conhece meu pai?”

“Ei! Ernie! — o vampiro idoso interveio, batendo a mão no bar com um estrondo.

“O quê? Ah.” O barman, aparentemente chamado Ernie, colocou a caneca de sangue na frente do vampiro, que revirou os olhos e se virou para falar com seus companheiros.

“Eu o conhecia”, Ernie continuou. “Não o vejo há anos, mas ele costumava vir aqui o tempo todo. Bom homem. Caçadores de Sombras são ruins para os negócios, em sua maioria, mas seu pai era um encantador, e como era. Deixava todos à vontade. Tinha um jeito real para isso.”

James não sabia como responder. “Eu gosto dele, pessoalmente”, ele se aventurou.

Ernie rugiu de rir. “Claro que sim”, disse ele. “Olhe, há alguns quartos no andar de cima, de quando disponibilizávamos os quartos. Muito antes do meu tempo, saiba disso. Há um lavatório lá em cima que você pode usar. Não precisa ir para casa e dizer ao seu pai que você foi espancado. Sei como é isso.”

James não tinha certeza se Ernie sabia como era, mas agradeceu e seguiu suas instruções subindo as escadas. Ele encontrou um conjunto interconectado de quartos com vários móveis, todos cobertos por panos amarelados pelo tempo.

Ele lavou a ferida no lavatório e começou a se marcar para curar e aliviar a dor. Vários dos quartos eram minúsculos e pouco amistosos, mas um deles tinha sido claramente um tipo de salão, com janelas altas com vista para a rua e uma agradável lareira de azulejos em uma das extremidades. James diria que poderia ser um bom quarto se apenas fosse limpo um pouco e os móveis certos fossem colocados.

Ele voltou para o andar de baixo e agradeceu a Ernie, que lhe disse que mandasse Will para tomar uma bebida por sua conta um dia desses. James hesitou, querendo perguntar a Ernie sobre o quarto. Era insolente, e ele já estava dependendo da hospitalidade de Ernie mais do que era respeitável, mas agora ele estava em Londres, seus amigos estavam em Londres, ele estava apaixonado, e tudo era diferente. Então ele se inclinou e disse: “Olha, Ernie, posso te perguntar uma coisa sobre aquele quarto lá em cima? O grande?”

***

“Et voila”, disse James, fazendo um gesto largo na sala do andar de cima da Taverna do Diabo. Era alguns dias depois, e ele tinha reunido seus amigos para uma missão que ele se recusou a explicar. Matthew, Charles e Thomas tinham ficado desconfiados por James os levar pelo térreo de um pub do submundo, mas os seguiu corajosamente. Ernie cumprimentou James com uma saudação ao passarem pelo bar, e Thomas e Christopher trocaram um olhar perplexo.

Agora eles estavam na sala maior, que em uma tarde ensolarada acabou por ter uma luz decente caindo em camadas através de suas janelas altas e estreitas. Dramaticamente, James tirou um pano amarelo de uma poltrona grande e confortável e apontou para ela.

Matthew descobriu primeiro. “James, seu malandro!” Ele disse com uma risada. “Você nos fez um clube.”

“E agora?” Christopher disse educadamente.

“O dono disse que, se o limparmos, podemos usá-lo sempre que quisermos”, disse James. “Desde que nós peçamos bebidas enquanto estivermos aqui.”

“Eu acho”, disse Thomas, “que isso é uma troca mais do que justa.”

“Podemos guardar as coisas que não queremos no quarto ali atrás”, acrescentou James. “Há mais algumas cadeiras e coisas que podemos querer trazer aqui também.”

“E tudo vai precisar ser varrido vigorosamente”, acrescentou Matthew. “Mas maravilhoso. Isso é maravilhoso.”

Um sorriso lento estava crescendo no rosto de Thomas também. “Eu vou trazer alguns livros, eu acho. Livros fazem um lugar mais acolhedor. Eu diria, eu não tinha certeza a princípio sobre esse negócio de me mudar para Londres ”, acrescentou.

“Oh, nós vamos ser londrinos de verdade agora, com uma sala privada acima de um bar e uma cerveja esperando sempre que precisarmos.” Matthew esfregou as mãos. “James, é um prazer vê-lo em seu elemento. Você sempre esteve um pouco deslocado na Academia, mas aqui na cidade você é nosso guia e nosso líder.”

James esperou Christopher e Thomas protestarem por Matthew chamá-lo de líder deles, mas eles apenas pareciam satisfeitos.

“Estou feliz por vocês estarem aqui”, disse James. “Estou feliz por estarmos todos juntos.”

James sentiu algo se instalando nele, algo que estava inquieto desde que ele chegou pela primeira vez na Academia e agora estava, surpreendentemente, encontrando-se em casa.

[Traduzido por Equipe IdrisBR. Dê os créditos. Não reproduza sem autorização.]

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