Resenha: Toda caixa-preta é laranja – Jeovanna Vieira

“Toda caixa-preta é laranja”
Jeovanna Vieira
Arte de Capa: Alceu Chiesorin Nunes, Mariana Metidieri
Companhia das Letras – 2026 – 352 páginas
Nas ruas do Rio de Janeiro, às vésperas de uma mudança para se tornar a primeira mulher negra a comandar o maior avião de passageiros do mundo, a narradora de Toda caixa-preta é laranja precisa encontrar o pai, Viola, que viajou para ajudá-la a fechar o apartamento, mas desapareceu. O marido e os filhos já estão de malas prontas, mas ela vê seus planos de embarcar sendo adiados à medida em que cai no que chama de “buraco dos Viola”.
Quando as vias legais se mostram insuficientes, a protagonista aceita a oferta de um policial-miliciano para uma investigação “por fora”. Nessa busca frenética, ela esmiúça memórias como a perda da mãe, a morte do irmão e o momento em que passa a ser criada pela babá ― uma adolescente “apanhada” no sul da Bahia para cuidar da casa e “olhar a menina” ―, e a forma como Viola enfrenta as próprias sequelas.
Ao colocar em perspectiva a perpetuação de traumas e nossas estratégias de redenção, este romance vulcânico explora a formação do vínculo entre pai e filha, as tentativas de conversa e o legado transgeracional que reside no não dito, mas aparece intermediado por letras de sambas e ditados populares.
Como já falei em diversas resenhas anteriores, livros ressoam nos leitores de acordo com suas vivências de vida, seguindo a forma como o leitor vê o mundo, construindo pontos e relacionamentos com aqueles personagens. Outros livros, infelizmente, não funcionam para o leitor por diversos motivos, desde não compreensão e motivação da personagem principal – e foi exatamente o que aconteceu comigo e “Toda caixa-preta é laranja”. Joana, a protagonista, é uma personagem complexa e repleta de sentimentos contraditórios sobre o pai, que lhe criou sozinho desde a morte da mãe aos seus 4 anos, mas isso a levou por caminhos aos quais não consigo compreender, não consigo me relacionar e nem sentir empatia por. Em toda trama, o que não funciona para mim é a personagem principal, mas, toda trama, toda estrutura, tudo que acontece é muito, muito bem construído. Calma que vou tentar explicar melhor.
A memória, tal qual o sistema imunológico, é nossa linha de defesa. Quando a bactéria contamina o tecido, o corpo dispara uma resposta inflamatória. Meus glóbulos brancos foram a própria fantasia e o esforço de uma criança pra fazer um elo. Adornei, enfeitei, brinquei de faz de conta contra sua incapacidade de me enxergar, de me escutar e de me responder. Os porquês deviam vir dos adultos, mas em casa os adultos tinham apenas uma resposta, e esta, insuficiente pra mim: essa é a vida.
Querer atribuir a você toda a responsabilidade de me dizer como atravessar os dias, uma incumbência que poderia ter sido dividida com a mamãe, também não foi lá muito justo. Quando me dou conta, estou fazendo isso de novo: te perdoar sem que ao menos haja um pecado. O ataque é meu e a defesa também, é automático que eu cale a acusação porque você era só um jovem enlutado, outra vítima. Um pai que deu aquilo que conseguiu quando ganhou os títulos de viúvo e… que palavra dá conta de dizer que era pai de um menino morto? Um desfilhado?
Começando do começo (piadinha velha), a trama não se passa em ordem cronológica e começa com um prelúdio que me deixou sufocada e nervosa porque ele é escrito sem virgula alguma, mostrando os pensamentos da personagem principal, que narrará a trama. Ai já fica estabelecido que o relacionamento com Viola, seu pai, não era o melhor relacionamento do mundo, já como ele se comunicava com ela basicamente por frases de efeito. Muito do homem fica vago nessa parte, e com o decorrer da trama entendemos mais sobre ele, só preciso lembrar à todos que a caixa preta é basicamente o coração (ou cérebro) de um avião, onde todas as conversas dentro da cabine e pontos no sistema que ajudam em investigações caso (infelizmente) aconteça um acidente com um avião, mas, para ser facilmente encontrado entre destroços, a caixa-preta é laranja, e é realmente uma caixa-preta, com diálogos e erros no sistema de um relacionamento entre pai e filha que vamos analisar neste livro.
Quando a narrativa realmente se inicia, é uma segunda-feira, às 12:06. Joana está com o pai desaparecido desde sexta-feira, quando ele chegou em seu apartamento e saiu sem mais voltar, e só na segunda que ela consegue realmente fazer um boletim de ocorrência sobre o caso. Joana já é uma mulher adulta, casada com Tomás e mãe de duas crianças (José e Amélia) prestes a se mudar para o oriente médio para trabalhar para a companhia de aviação Emirates, onde irá ser a primeira mulher preta a pilotar o maior avião com passageiros do mundo. É a realição de um sonho dela, que veio de uma empresa família de transportes de caminhões para conseguir pilotar aviões, algo que almejou por anos. Mas para entender o estado que ela se encontra com o sumiço do pai, claro que temos de voltar no passado e entender o relacionamento de uma família que lidou com o luto de uma forma imensa, com a morte da mãe no parto de um bebê de Joana.
“Minha filha, você devia comprar um gato. Um gato tem sete vidas, mais a sua vida, mais a vida do seu marido, mais a vida das crianças, mais a vida de Taninha, são doze vidas, doze vidas, minha filha, aí você me deixa tranquilo pra viver a minha.”
Todo mundo ri. Até eu rio, porque na sua boca eu sou personagem de uma anedota da tristeza. Pra isso você tem jeito. Graça e deboche. Até escorregar e ir direto para o fundo do poço, escorregar e sumir, ser engolido pela terra, talvez queimado pelo fogo, talvez ainda vivo e rastejando na lama e perdendo a graça. Não tem graça agora, tem?
E Joana, que é uma personagem ansiosa, vivendo no limite e tentando de todas as formas entender melhor como se aproximar do pai, conta como foi sua infância em Vila Velha, Espirito Santo, com o homem, ex-jogador de futebol, que saiu do nada para ter uma vida bem melhor financeiramente, acompanhado do padrinho de Joana, Bira, que é o homem que conta que o avô da garota sempre foi um homem violento que fez o filho viver a vida toda quase sem amor família. No meio disso, temos a presença de Taninha, a jovem de 17 anos que trabalhava na casa do homem quando a esposa morrer, e basicamente tomou o lugar de figura materna para Joana enquanto ela crescia – quero dizer, deveria ter tomado porque Joana se recusa a ver Taninha assim, por diversas vezes me causando real repulsa em suas atitudes de criança, adolescente e jovem mulher. Não tenho como falar mais sem entregar a trama, mas foi difícil, com minhas vivências, sequer tentar entender Joana, que se der conseguir me aproximar dela.
Enquanto isso, Álvaro, o policial que deveria cuidar da ocorrência, basicamente cobra “por fora” a investigação em um Rio de Janeiro, levando a uma descida maior em busca do homem enquanto Joana desce mais e mais em seu espiral de pensamentos a ponto de não cuidar de uma ferida na perna que tem. A ferida está infecionando, assim como diversas outras coisas ao redor dela, mas Joana está determinada a não cuidar de nada que não seja encontrar seu pai, sua própria mudança sendo adiada e seu casamento parece fora do lugar, ela e Tomás em compassos diferentes, enquanto uma explosão parece se aproximar mais e mais do horizonte, embalado em erros e o abafamento de todos sentimentos que não deveria estar sendo ignorados.
Ele me prometeu, sim, entregar a chave do carro vendido, acompanhar os caminhões de mudança indo cada um pra um canto, conforme as etiquetas coloridas, fechar a casa por último, entregar a chave do meu apartamento para a corretora. Não pode ser só uma negligência, uma molecagem, ele não faria isso com José, ele sabe, a gente não fala disso, mas ele sabe que essa mudança transatlântica é ainda mais delicada por causa de José. Ele sabe o quanto a gente tomou cuidado para que fosse o mais suave possível para o menino dele, ele fala, “José é o meu menino”. Tem que ter acontecido alguma coisa grave. Ele não faria isso, não agora. Ele teria feito antes, só comigo, mas José é o menino dele.
A sensação que tenho é que analiso “Toda caixa-preta é laranja” sob duas óticas: a de uma personagem que tentou a vida inteira preencher um buraco deixado por um pai que a criou, mas, ainda assim, conseguia ser ausente – mas também como alguém que sofreu e decidiu que iria ser a pior versão que poderia ser de si mesma, conscientemente, e é isso que não suporto. Consigo me relacionar com o trauma de perder uma mãe ainda criança, consigo entender toda jornada para se aproximar do pai, mas não consigo entender porque ansiar por algo que o homem lhe demonstrou estar aberto para. Isso é algo meu, claro, mas as minhas experiências influenciam na minha aborção da trama, além do meu envolvimento. Enfim, não é um livro que considero “ruim”, mas não foi um livro para mim, que não encontrei empatia dentro de mim para oferecer a Joana, apesar de entender que sim, ela precisa de empatia – e mais terapia.
Para comprar “Toda caixa-preta é laranja”, basta clicar no nome da livraria:
Amazon.
Magalu.
Mercado livre.

