Resenha: Vida doçura – Natércia Pontes

“Vida doçura”
Natércia Pontes
Arte de Capa: Flávia Castanheira
Companhia das Letras – 20260 – 176 páginas
Jocasta é uma escritora que leva uma vida isolada e desregrada em um apartamento bagunçado no centro de São Paulo. Enquanto tenta se dedicar a escrever seu novo livro de contos, mergulha nas lembranças provocadas pelo trauma de ter perdido a mãe aos sete anos.
Ao longo desse processo dolorido e caótico, desenvolve uma compulsão nada óbvia pelos vídeos de Jovana, uma youtuber que apresenta sua rotina perfumada, organizada e alegre, em um estereótipo de como a vida deveria ser.
Ao se deparar com o oposto radical de sua própria existência, a protagonista se vê atormentada pela solidão em uma trama a um só tempo comovente e tragicômica, com toques de suspense policial.
Sabe aquele tipo de leitura que quando você termina parece que se abriu um buraco no seu peito que não dá pra ignorar? Foi assim que me senti com “Vida Doçura”, o novo livro de Natércia Pontes, que já tinha me dado um soco com seu livro anterior “Os tais caquinhos” (leia a resenha sem spoilers clicando AQUI), mas aqui não posso dizer que foi um soco porque sinto mais que fui atropelada pela quantidade de sentimentos que tive, principalmente a tristeza.
(…)O que sempre ficou claro foi a distância e a impossibilidade de estarmos juntas. Então, meu sotaque ia se fazendo diferente do teu, minhas convicções machistas e provincianas iam constituindo meu caráter tão diferente do teu, mulher linda, talentosa, enorme e iluminada feito Brasília. parecidas, não acha? Eu era aquela menina magrelinha que amava a Xuxa, mãe. O Sérgio Mallandro era o meu ídolo, mãe. Meu vestido de organdi era feito pela costureira da tia Diana, mãe. E, por mais que você tentasse, tuas censuras violentas, teus gritos cenográficos não mudaram o curso da minha vida. Hoje vejo, através do espelho, que o que você fazia era gritar pra si que era uma mãe incompetente, doente e sozinha que calhou de ter uma filha que revelava, sadicamente, o teu desligamento absurdo da vida. Mãe, eu quero a casa da Barbie, eu quero a casa da Barbie, mãe. Foi assim antes da tua morte trágica, que se me anunciou feito bruxa às gargalhadas no frio das férias de julho. Teu leite materno virou coca-cola. Tua presença ficou amarelada. Teu nome no túmulo da família. Foi simples assim: minha mãe não existia mais. Como que para atestar uma condição verdadeira da nossa história: você pouco existiu pra mim. A menina magrelinha, sem tônus de bailarina, agora mentia para as amigas nordestinas que a mãe, aquela aparição cabeluda com sotaque de tv Globo, tinha morrido do coração, porque assim era mais novela, assim ficava mais bonito. Feio era ter aprendido a palavra “suicídio”. Feio era o Dia das Mães cor-de-rosa do colégio ter virado um dia funesto, dia escuro de tanta vergonha de dizer: minha mãe morreu. Eu agora era a cara de uma defunta. Somos parecidas, não acha?(…)
Todo livro é uma experiência única e individual, então o que eu sinto lendo provavelmente nunca será o que você possa vir a sentir. Mas, acima disso, há sentimentos universais: Amor, nojo, ódio, repulsa, tristeza, com o luto entre esses sentimentos – e toda narrativa deste livro é galgada em cima do luto que Jocasta, nossa protagonista disfuncional, sente pela perda precoce da mãe, uma perda que marcou todas suas escolhas e decisões que a levaram até o apartamento minusculo , bagunçado e sujo no centro de São Paulo, causando pena no leitor porque como pode alguém ter desistido de si própria assim? A resposta está na própria trama.
Jovana é uma mulher que saiu de casa aos 16 anos para ir para São Paulo tentar se manter sozinha e ter mais oportunidades. Agora casada e com uma filha pequena, Duda, ela se tornou uma YouTuber com certo destaque, mostrando a limpeza de sua casa e a rotina de cuidar do marido e da filha. O marido motoboy não a apoia em sua empreitada, mesmo sendo o dinheiro que a mulher ganha a maior fonte de renda da casa e sempre aparece em vídeos usando o capacete que usa com sua moto. Já Duda é uma tipica criança timida que ainda esta tentando se encontrar mais.
Som de música pop. Jovana dispõe com cuidado os produtos de limpeza no armário, como se estivesse expondo esculturas luxuosas. O móvel está repleto de garrafas com líquidos coloridos e cremosos. Diante do armário aberto, surge seu rosto brilhando de suor, resultado do esforço que estava fazendo para guardar os produtos. “Oi, pessoal! Tudo bem com vocês? Estamos começando mais um vídeo do nosso canal. Se você é nova ou novo por aqui e ainda não faz parte da nossa família, seja muito bem-vinda, muito bem-vindo. Não esqueça de se inscrever no canal, deixar seu like e ativar o sininho de notificação. Agora chega de falar e vamos pro vídeo!”
Enquanto está no seu pequeno apartamento com seu gato Argos Panoptes, Jocasta escreve contos que espelham ela, sua mãe morta e sua tia. Estes contos estão presentes no livro, mostrando a profundidade do desespero da mulher que é perdida no que ela própria sente. O luto é algo que nunca realmente passa e que você aprende a viver com ele, como uma cicatriz que está lá, marcada em sua pele, a qual tem dias você sequer se lembra, e então um dia você olha, a vê e tudo volta, a ardência, o repuxo – a falta de alguém que nunca mais voltará. O ponto fora da curva é que Jocasta é viciada em acompanhar os vídeos de Jovana a ponto de começar a ser uma stalker da outra mulher. E, por alguns momentos, o leitor pode até se questionar porque duas mulheres tão diferentes poderiam desenvolver qualquer tipo de relacionamento, mesmo que seja um parasitário como é na trama com uma resposta nada bonita: Jocasta vê na vida de Jovana uma possível vida que ela nunca teve com a mãe.
A medida que a obsessão de Jocasta vai se tornando mais real (e perigosa também), vamos entendendo que ela está no limite da dor, presente e passado se misturando através dos seus contos e de personagens borram a linha do que aconteceu com ela. Por mais delicado que seja falar sobre luto, a narrativa escolhe ser crua, direta, visceral de uma forma que chega a incomodar. Comparações sobre momentos com a falta que sentimos de algumas pessoas e, principalmente, do que não tivemos. A idealização de momentos que nunca aconteceram e nunca poderão acontecer. A saudade de alguém que não está lá e nunca esteve. A mãe que nunca esteve lá.
Jocasta não mudaria nada, a morte de sua mãe a deixou exatamente como ela é, contribuiu para todos os aspectos que constituem o que ela é hoje. Mas o que ela é exatamente hoje contradiz a opinião que tem de si mesma, de que ela não é lá grandes coisas aos quarenta e nove anos, vivendo numa espelunca com um gato meio sujo, tendo abandonado os amigos, sem lembrar do último namorado ou namorada que teve, sonhando constantemente com os seios fartos da mãe e colecionando cáries. Não pratica nenhum esporte, se alimenta basicamente de salgadinhos e bebe no máximo 300 ml de água por dia. Levanta do sofá e volta a fazer o jogo de espelhos, três Jocastas pálidas, nove Jocastas pálidas, oitenta e uma Jocastas pálidas. Argos Panoptes percebe que ela tem um pelo grosso na ponta do queixo; ela vasculha a gaveta do banheiro atrás de uma pinça, encontra, mas ela está cega. Deixa o pelo ali como enfeite. De rosto fresco e peludo, vai à cozinha, prepara um café. Busca com sede as três caixas de sapato, seu tesouro: Criança, Bicho, Montanha. Não acredita no que vê. Argos fez xixi na Montanha. Deu para salvar alguns textos, mas um deles, escrito à máquina, se perdeu na nódoa de urina. Sente uma contração no peito, como se alguém estivesse esmagando seu coração com mãos grossas. Não se lembra direito o que estava escrito lá. Sabia que era bom, não ia dar para recuperar. O texto foi parar no buraco dos que não voltam mais, no buraco da mãe.
A perseguição de Jocasta toma parte do livro, levando a própria Jovana a desconfiar, mas há o marido que não a apoia e a vida fora dos vídeos que grava que começam a sufocar a mulher. Não há como não se sentir vazia e perdida quando a narrativa termina porque você vê duas mulheres tão diferentes, em lugares opostos da vida e na sociedade, mas que, de alguma forma irônica, terminam sofrendo por pessoas de formas diferentes. Vida, doçura, esperança nossa – e acho que é isso que as duas protagonistas aqui perderam, mesmo que de formas muito diferentes, cada uma em uma ponta de uma régua da dor.
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