Resenha: A guerra sem fim (A ponte entre reinos #4) – Danielle L. Jensen

“A guerra sem fim”(A ponte entre reinos #4)
Danielle L. Jensen
Tradução: Guilherme Miranda
Seguinte – 2026 – 480 páginas
Recém-coroado rei de Maridrina, Keris assistiu, impotente, à revelação de seu relacionamento proibido com Zarrah. Mas, quando Zarrah é aprisionada pela imperatriz de Valcotta, ele sabe que só há uma maneira de salvá-la: aliar-se ao reino que quase destruiu.
Na temida Ilha do Diabo, Zarrah luta para sobreviver entre prisioneiros e traidores, dividida entre a lealdade à imperatriz que a condenou e a chama do amor que ainda arde em seu coração. Porém, ao ouvir murmúrios de uma rebelião, ela enxerga uma nova chance de conquistar não só sua liberdade, mas também sua vingança.
Enquanto a imperatriz prepara uma guerra capaz de devastar reinos inteiros, Keris e Zarrah precisam descobrir se o sentimento que os une é capaz de superar a dor e a culpa que os separam. Porque, se falharem, talvez a guerra não acabe nunca.
Se tem uma coisa que Danielle L. Jensen sabe fazer é criar personagens que parecem destinados a se sacrificar por algo em que acreditam, mas que acabam encontrando em outra pessoa um motivo para questionar tudo aquilo em que acreditavam. Vide o primeiro volume dessa série, sobre a qual explicarei mais uma vez: os volumes 1 e 2 da série “A Ponte Entre Reinos” trazem Lara e Aren como protagonistas de uma guerra entre os reinos de Maridrina (reino de Lara, onde seu pai é o rei e um grande vilão) e Ithicana, reino de Aren, que controla a tal ponte que dá nome à série. E, para não tomar o tempo de vocês com tudo isso de novo, deixo aqui os links das resenhas sem spoilers. Então, leiam a resenha de “A Ponte Entre Reinos” AQUI e a de “A Rainha Traidora” AQUI.
O terceiro e o quarto volumes apresentam a continuação direta da trama da guerra entre os reinos, mas com Zarrah e Keris no centro. Keris é irmão de Lara e um personagem incrível, enquanto Zarrah é a herdeira de Valcotta, que perdeu a mãe, foi criada pela tia e é consumida pela vontade de se vingar do rei Silas Veliant. O que começa entre os dois como uma atração vai se desenvolvendo até se transformar em sentimentos reais, que terminam explodindo no final do terceiro volume, “O Herdeiro Inadequado” (leiam a resenha sem spoilers clicando AQUI) e cujas consequências veremos agora, em “A Guerra Sem Fim”. E, se preciso resumir o que acontece aqui, vou ficar com o título de “incrível”, porque Danielle L. Jensen entregou tudo o que prometeu e um pouco mais.
Zarrah se encolheu, tentando se afastar, mas não conseguia se apoiar com os punhos atados. O assoalho de madeira rangeu como se alguém se aproximasse. Ela torceu para que a pessoa se apressasse, porém o corredor permaneceu vazio.
— Mas, apesar de tudo que você fez, eu ainda te amo. — A voz de sua tia estava trêmula de emoção. — Você é tudo para mim, a filha que nunca tive, Zarrah, então, enquanto outros me aconselham a executar você, estou lhe dando a chance de reconquistar seu lugar ao meu lado. De provar que é digna de voltar a ser a herdeira de Valcotta. A cada dificuldade que suportar, saiba que é por causa dele que você sofre. E, a cada momento que sobreviver, saiba que é por causa do meu amor que você vive.
A corrente da âncora chacoalhou, descendo para as profundezas, e o coração de Zarrah pulsou com mais uma onda de medo.
— Você está louca se acha que pretendo lutar pelo seu perdão.
— Dizem que o amor é uma forma de loucura — a tia murmurou. — E, apesar de toda a dor no meu coração, não há ninguém que eu ame mais do que você, minha querida. Nada que eu queira mais do que encontrá-la novamente.
Não havia como negar a leve pontada no coração de Zarrah, a saudade de um tempo em que sua tia era um bastião contra toda dor, a guerreira que a salvou do inimigo e prometeu vingança contra aqueles que destruíram o mundo delas. Por mais que sua tia distorcesse as palavras para servir aos próprios interesses, eram as verdades contidas nelas que tinham o maior poder.
Zarrah foi enviada para a Ilha do Diabo pela própria tia, a imperatriz Petra. Claro que o lugar é uma prisão não só para pessoas perigosas, mas também para toda e qualquer pessoa que ousou se levantar contra a voz de Petra. À medida que vemos Zarrah ter de se virar em mil para conseguir sobreviver na ilha, vamos entendendo que Petra é uma vilã do quilate de Silas — ou seja, os dois poderiam se matar, né? Enquanto Zarrah tenta encontrar um jeito de sair do lugar viva, o que parece impossível, porque a ilha foi feita para ser realmente uma prisão e a maré impede que qualquer pessoa que esteja lá fuja, na corte, Keris precisa encontrar uma maneira de ajudá-la sem colocar seu próprio reino em uma situação ainda mais perigosa.
Keris agora é o rei de Maridrina e continua sendo o personagem mais interessante desse universo. A inteligência de Keris se destaca. Longe do estereótipo do príncipe guerreiro que resolve tudo com uma espada, ele tem tudo isso embalado por sarcasmo e pela capacidade de enxergar possibilidades que outras pessoas não conseguem ver. E, aqui, ele tem de se virar nos 30 para conseguir pensar em uma alternativa para salvar sua amada, mesmo que ela o odeie atualmente, porque Zarrah acredita que Keris a usou e a enganou para ascender ao trono. A resposta à pergunta de Keris chega na forma de sua irmã e de seu cunhado: sim, o nosso herdeiro antes inadequado, que chegou ao trono, vai pedir ajuda à sua irmã, a rainha Lara, e a Aren, que aqui tem participação intensa no plano para chegarem até Zarrah e tentarem terminar uma guerra que não tem fim e parece estar longe de acabar.
— É um redemoinho mesmo?
— É — Daria respondeu. — Embora seja mais um ralo para aqueles que não aguentam mais a pena. Eu mostraria para você onde a água escoa, mas fica no território de Kian. Não existe nada parecido no mundo.
Porque a Ilha do Diabo não era uma criação da natureza.
Não, assim como a ponte de Ithicana, aquela ilha foi construída pelas mãos gigantes de um deus com um único propósito.
Garantir que os condenados a suas praias nunca, jamais, escapassem.
Já Zarrah é alguém marcada pela dor, pelo ódio e pela vontade de se vingar, tudo o que lhe foi ensinado enquanto crescia, e a vingança parecia ser a própria identidade dela. Como comandante da guarda e guerreira, aprendeu a transformar sofrimento em força e a acreditar que combater Maridrina era uma obrigação. Mas conhecer e se apaixonar por Keris mudou a forma como ela via o mundo e a si mesma, levando-a a se questionar, presa naquela ilha, sobre quem era e sobre todas as certezas mais profundas que tinha — muitas delas relacionadas à vingança, mas ela também precisava entender quem era sua tia. Sem a ajuda de ninguém, nem mesmo de seu primo, filho de Petra, Zarrah começa a acreditar que vai morrer naquela ilha, que tem basicamente duas facções lá dentro. Mas, claro, a nossa protagonista não vai ficar presa lá durante toda a narrativa, que caminha para um confronto familiar que abala o leitor.
E acho isso uma coisa bastante interessante em toda essa trama de guerra entre os reinos: a evolução da forma como uma guerra fomentada por mentiras e ressentimentos se tornou algo tão grande, mas vai se esvaindo à medida que a verdade começa a surgir e as novas gerações entendem que aquela guerra vai terminar destruindo todos, e não apenas os “perdedores”. Lara compreendeu que estava sendo manipulada, Keris parece ter uma visão mais clara sobre isso desde antes de ascender ao trono por destino, e agora é a vez de Zarrah compreender isso e tentar, de uma vez por todas, com a ajuda daqueles que se importam, terminar essa guerra. Então, sim, há uma guerra acontecendo, mas há muito mais desenvolvimento emocional e cenas fortes do que somente sangue e mortes.
— E você tinha? Você traiu minha confiança e usou as informações que compartilhei com você para fazer seus próprios planos, depois foi à Ilha de Guarda Sul e me avisou o que aconteceria. Vir me repreender agora é hipocrisia. Pior que hipocrisia, porque ao menos eu não o traí.
— Não? — A voz dele era fria, mas sua pulsação estava acelerada. — Planejamos juntos como acabar com a guerra. Como estabelecer a paz entre nossos reinos para que as futuras gerações pudessem crescer sem a sombra da violência. Se eu tivesse ficado de braços cruzados e você tivesse levado seus navios a um confronto direto para expulsar meu pai de Ithicana, isso teria jogado lenha na fogueira da Guerra Sem Fim. Não que você fosse sobreviver para ver o motivo, pois, se não conseguisse se tornar um mártir em batalha, teria sido executada como traidora por não seguir as ordens de Petra. Eu teria ficado vivo, com o coração em pedaços, entre as cinzas de um futuro queimado por você, e a desafio a me dizer que essa porra não é uma traição, Valcotta.
Ela se encolheu, mas enfrentou a pancada das palavras dele com sua própria fúria.
— Você não me traiu por Maridrina. Me traiu por você. Porque não suportava me deixar partir.
— Quanta hipocrisia. Afinal, nós dois sabemos que você não me traiu porque era o único caminho a seguir nem porque era o melhor, mas porque satisfazia sua honra, sua necessidade de redenção e seu desejo de vingança.
Os lábios de Zarrah se entreabriram para negar, negar e negar, mas nenhuma palavra saiu, pois não havia fôlego suficiente.
— Eu… — ela conseguiu dizer antes de parar para puxar ar. — Fiz aquilo porque era a coisa certa a fazer.
Silêncio.
— Não sei — Keris disse, por fim — se você está mentindo para mim ou para si mesma.
O instinto ordenava que ela contra-atacasse. Que cravasse a faca das falhas dele e torcesse, mas, em vez disso, Zarrah se forçou a fazer a mesma pergunta ao próprio coração. A verdade que saiu das profundezas de sua alma fez seus olhos arderem de lágrimas.
— Também não sei.
Já mencionei na resenha anterior que não entendo como essa série não está fazendo um sucesso estrondoso, e A Guerra Sem Fim me deu ainda mais certeza disso. Não faz o menor sentido para mim que todos não estejam amando esses personagens e toda essa construção, que vai desde intrigas até mentiras palacianas, boas personagens coadjuvantes (Sarhina, estou olhando para você — uma das meias-irmãs de Lara e Keris) e um mundo que realmente intriga o leitor, com uma ponte exercendo um papel fundamental, em uma trama bem amarradinha e com ritmo intenso, sem nunca não estar acontecendo algo, sem qualquer tipo de enrolação.
Mas, mais do que isso, temos uma história sobre mudar quem você aprendeu a ser, não por amor, mas pelo que é certo, em uma narrativa que poderia não dar certo ao mudar os protagonistas a cada dois livros — porque, sim, Zarrah e Keris não serão os protagonistas dos livros 5 e 6, os últimos da série, mas já entendemos quem serão os protagonistas desses volumes. Quem gosta de uma boa uma romantasia fundamentada, com bons personagens, construção de universo clara e quer sofrer e se envolver, que se jogue nessa série e venha conversar comigo.
Para comprar “A guerra sem fim”, basta clicar no nome da livraria:
Amazon.
Mercado Livre.
Magalu.

