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Resenha: O tenebroso brilho do sol – Ana Paula Maia

Resenha: O tenebroso brilho do sol – Ana Paula Maia

“O tenebroso brilho do sol”
Ana Paula Maia
Arte de Capa: André Hellmeister
Companhia das Letras – 2026 – 112 páginas

A lama levou tudo: casas, pessoas, famílias, um vilarejo inteiro. Eliote é o único remanescente do desastre, atuando como vigia da represa e escavando obsessivamente a terra em busca do corpo dos filhos. No entanto, fenômenos que desafiam o senso comum começam a ocorrer.

Antes de ser tragado pela lama, o vilarejo tinha seus ritos peculiares, como a “coberta da alma”, na qual, durante uma semana, uma pessoa vivia como um morto, usando suas roupas e conversando como ele. A estranheza desse ritual ainda assombra Eliote, por tê-lo ensinado a conviver com as ausências. Agora, sua única companhia são os manequins que ele coleciona em meio à devastação. Tudo muda quando acontecimentos difíceis de descrever começam a ser captados pelas câmeras, como um orbe luminoso de origem desconhecida.

Depois de completar sua Trilogia do Fim, Ana Paula Maia mergulha mais diretamente no terror, em especial a vertente folk horror, que seduz por seu diálogo com crendices, superstições e os resíduos de um país arcaico. O tenebroso brilho do sol é uma narrativa breve, mas de impacto imenso, que constrói pouco a pouco, sob um terreno movediço, uma história pavorosa, de final chocante.

Ana Paula Maia consegue fazer terror como pouquíssimos autores nacionais e temos aqui mais uma narrativa dela repleta de momentos que arrepiam e fazem com que o leitor se questione se o que está acontecendo é sobrenatural ou somente um grande estresse pós-traumático, instaurando a sensação de paranoia em sua forma mais pura, tudo isso ambientado no sul de nosso pais, um verdadeiro terror folk em sua forma clássica – e para os que não sabem, terror folk é aquele nascido de tradições e crenças de uma comunidade, e, neste caso especifico, é a coberta da alma, a qual meu queixo caiu no chão ao pesquisar sobre.

Nada parece estar diferente nesta manhã. As horas frias da noite maldormida ecoam em seu humor e lhe atravessam o peito com uma palpitação. Assim o foi na manhã anterior. Sente os olhos arderem e dei­­xa-os cerrados mesmo com a pouca iluminação que entra no subsolo.
Eliote se dirige à cozinha, que fica a poucos passos de sua cama. A boca do fogão entope no inverno. Ele retira a trempe enferrujada e o queimador. Com uma agulha longa, cutuca a engrenagem de onde sai o gás para acender o fogo. Reajusta a trempe e o queima­dor no fogão. Risca um fósforo e fica satisfeito com o volume da chama. Enche um caneco de alumínio com água da torneira e deixa-o sobre o fogo, até que atinja o ponto de fervura para seu café.
Veste um casaco pesado e calça seu par de botas de inverno. Repara no musgo preso ao solado. Sobe os poucos degraus que o fazem sair do subsolo onde mora. Abre a porta e respira o ar frio da manhã. O rigor do inverno é proporcional ao rigor do último verão. As águas torrenciais que desabaram na região o fizeram ir para as montanhas. O lugar pode ser visto assim que as brumas se dissipam. Lá embaixo, no vale, é onde Eliote morava.

A narrativa já abre depois de todo desastre que aconteceu na comunidade, situada em um vale, que foi varrida depois que a represa Jinkins estourou e liberou sua água por todo lugar. Apesar de não especificar nominalmente, fica claro que a trama se passa no extremo sul do pais, já como é mencionado que o lugar faz fronteira com Uruguai a ponto de ser afetado por uma grande tempestade que se formava no país vizinho. Essa chuva foi tão torrencial que fez a represa transbordar, que foi levando a morte e destruição a todo vale.

Eliote ficou no lugar, basicamente um caseiro, morando na única casa que sobrou em pé intacta no lugar, vistoriando caso a água fosse subir novamente e alertar as outras comunidades próximas em um caso novo desastre. Eliote perdeu a esposa e os dois filhos, junto com a mãe, na noite do desastre, assim como vizinhos e toda sua comunidade, mas ficou no lugar não só movido pela necessidade de alertar as pessoas, mas para encontrar os corpos dos filhos, nunca resgatados, enquanto sua mãe e sua esposa já foram enterradas. E é aqui que me peguei pensamento se o que ele estava vendo era real ou se ele estava sofrendo de estresse pós-traumático, já como ele vê algo nas câmeras que não deveriam estar lá, além de uma orbe luz. Não fica claro o que está acontecendo e é claro que faz parte do clima da trama, a dúvida começando a se infiltrar.

Sentado à mesa, Eliote observa os óculos. Bebe um chimarrão quente enquanto a lenha estala na la­reira. Gostaria de ter uma foto de sua família, mas na­da restou. Sua casa de madeira foi arrastada e lançada no rio, como tantas outras. Foi parar a dezenas de quilômetros de onde estava. Sucumbiu nas águas. Pas­sado o desespero dos primeiros dias, Eliote entendeu que estava errado. Sempre esteve. O último resquício cristão que habitava em sua moral havia se dissipado fazia algum tempo. Estava condenado a va­gar solitário pela terra carregando apenas suas memórias, pois estas nunca se apagam, nunca vão embora. Não é possível recomeçar, porque não acabou.

A procura de Eliote pelo corpo dos filhos é desesperadora. Ele pensa nas duas crianças e chega a encontrar óculos de uma literalmente cavando a lama, e nessa altura eu estava profundamente mexida com a cena porque não dá pra descrever a sensação desesperadora que é imaginar que um pai, sofrendo com o luto, ainda tinha de cavar na lama para encontrar os corpos dos filhos. Mas, enquanto isso está acontecendo no presente da trama, também vamos ter acesso aos pensamentos e história de Elliote: na noite que tudo aconteceu, ele estava vestido como o irmão, Endrick, morto há algum tempo, porque isso faz parte da coberta da alma. E meu choque foi grande ao descobrir que é real e é realmente uma crença no Sul do país, mais precisamente no Rio Grande do Sul, trazida para nosso país por tradições portuguesas. Fiquei lendo sobre e há um documentário feito sobre, o qual sinto que preciso assistir.

O ritual consistia em basicamente se vestir e agir como o falecido por uma semana durante um ano, na tentativa de “cobrir” a alma, que havia perdido o corpo – ou seja, Eliote não só se vestia como Endrick, ele agia, comia as coisas que o irmão gostava e se portava como ele. Naquela fatídica noite, era a última noite como Endrick, e em pistas dadas aqui e ali, fica claro que Anabel, a esposa de Eliote, estava desconfortável com algo enquanto o desastre que eles não esperavam se aproximavam. Todo passado de Endrick também é revelado através dos olhos de Eliote, que continua sua procura pelos corpos dos filhos enquanto vive isolado no porão da casa.

Uma noite, acordou Eliote de um sono profundo e ficou até o amanhecer contando em detalhes um sonho que havia tido nas primeiras horas de repouso. Ele estava profundamente tocado. Endrick afirmava que o mundo como todos conheciam não era exatamente como imaginávamos. A partir daquela noite, não foi mais o mesmo. Acreditava estar sendo observado por algo que saía da floresta. Dizia que um dia as águas cobririam o vale.
Eliote preferiu não contar aos pais o que Endrick estava pensando. Imaginou que sua imaginação estivesse aflorada pelo uso de alguma droga ou psicotrópico. No fim do ensino médio, Eliote e outros garotos fizeram uso de chá de cogumelo psilocibina, que causava alucinações desafiadoras para qualquer jovem no final da adolescência. Era o mais perto que poderiam chegar das drogas ilícitas, pois nada de ilícito ou amoral entrava no vale; talvez porque já houvesse amo­ralidades silenciosas escondidas em cada família dali.

A narrativa é curta, mas é tão abafada, tão claustrofóbica, que acho que se tivesse mais páginas, seria quase impossível se concluir. A medida que Eliote consegue uma escavadeira para remexer a lama, segredos vão sendo revelados, entregando um final trágico e forte, mas construído com magistral por Ana Paula, autora de “Enterre seus mortos” (que ganhou uma adaptação em formato de filme) e também criadora da série “Desalma”, da globo. “O tenebroso brilho do sol” entrega exatamente o que se espera de uma leitura do genero, mostrando que até mesmo o sol brilhando sobre a lama pode apresentar mais terror do que esperamos.

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