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Resenha: Os clãs da lua Alfa – Philip K. Dick


“Os clãs da lua Alfa”
Philip K. Dick
Tradução: Braulio Tavares
Arte de Capa: Celso Longo
Suma – 2026 – 264 páginas

Parte comédia de erros, parte delírio e aventura espacial, Os clãs da lua Alfa é um romance que combina sátira política, crítica social e ficção científica. É uma obra exemplar no vasto universo de Philip K. Dick, com seus telepatas viscosos, criaturas quitinosas e simulacros de humanos, em que personagens insólitos enfrentam situações profundamente perturbadoras.

Durante anos, uma lua isolada no sistema Alfa serviu como hospital psiquiátrico da Terra. Após uma guerra entre terrestres e alfanos, os pacientes ali internados são abandonados à própria sorte. Com o tempo, organizam-se em clãs, cada qual orientado por um transtorno mental específico, criando uma sociedade regida por regras próprias, em equilíbrio sempre precário.

Duas décadas depois, a Terra decide retomar o controle da lua. Depressivos, esquizofrênicos, paranoicos e maníacos, que convivem em relações delicadas e frequentemente conflituosas, unem-se para resistir ao que percebem como uma tentativa inaceitável de submissão.

Paralelamente, na Terra, acompanhamos a trajetória de Chuck Rittersdorf, funcionário da CIA cuja vida pessoal entra em colapso após a separação de Mary, psicóloga especialista em aconselhamento conjugal. Quando Mary se torna peça central da expedição à lua Alfa, Chuck vê uma oportunidade de se vingar.

Os clãs da lua Alfa é uma obra menos conhecida no universo de Philip K. Dick, mas não menos admirável. É um romance de grandes momentos cômicos, e também profundamente perturbador.

Me senti pessoalmente atacada por “Os clãs da lua Alfa”, mas o principal que quero deixar claro é que um autor do quilate de Philip K. Dick mesmo errando, acerta – e quando falo aqui que ele “errou” é simplesmente pela época de publicação desta obra, em 1964, quando a pesquisa sobre saúde mental ainda não estava avançado como nos tempos atuais, é claro. Mesmo que algo pareça fora do lugar se levarmos em conta o que sabemos hoje em dia sobre depressão ou ansiedade ou qualquer tipo de transtorno, ainda assim é incrível ver que Dick conseguiu entender que a principal patologia da humanidade não era o que acreditavam e sim a construção de nossa sociedade com uma ganância e belicosidade sem fim, a necessidade por status social sempre aumentando. Ainda gostaria de dizer que gostaria que a proteção financeira a ex-esposa e os filhos fossem como mostrado durante o divórcio de Chuck e Mary, mas sabemos que, na realidade dos tempos atuais, infelizmente ainda não é assim. Dito isso, tudo que está neste livro, principalmente no cenário da lua Alfa III M2, é nada menos do que espetacular.

A mulher se dirigiu a Omar com toda cautela.
Com licença. Uma coisa em que eu sempre pensei: existe vida após a morte?
Omar respondeu:
Não existe a morte. — Estava atônito pela imensa ignorância que aquela pergunta demonstrava. — O que você vê e chama de morte é apenas o estado de germinação no qual a vida nova ainda jaz adormecida, esperando ser chamada para assumir a próxima encarnação. — Ele ergueu os braços, apontando para o céu. — Vê? O dragão da vida não pode ser morto. Mesmo que seu sangue se derrame vermelho sobre a campina, novas versões dele brotarão à existência por todos os lados. — E ele apertou o passo, deixando o casal para trás.

Há dois cenários principais aqui: A lua Alfa III M2, é claro, e a há também uma trama acontecendo na Terra. Apesar de sermos apresentados de cara, na abertura da trama, do que está acontecendo na lua Alfa, a trama da Terra é claramente o fio condutor da trama, onde Chuck Rittersdorf precisa enfrentar o fracasso de seu casamento com Mary, que o vê como alguém sem ambição alguma. Chuck trabalha para a CIA programando simulacros (basicamente robôs) para a agência, basicamente um escritor de roteiros de propagandas. Bastante orgulho de seu trabalho, Chuck não entende que a esposa quer uma filha financeira melhor do que tem, já como tem status como uma grande Conselheira Matrimonial.

Formada em psicologia, Mary decide se separar e aceitar o convite para uma missão a lua Alfa III M2 na qual ela mapeará o lugar que foi abandonado. Antes de aceitar ir sem pagamento algum, Mary deixa claro que exigirá que Chuck aceite trabalhar para um comediante bastante conhecido e que tem um programa de TV de sucesso, para que passe a ganhar mais. Chuck, é claro, começa a se ressentir da futura ex-esposa e, com a ajuda de alguns novos vizinhos, começa a planejar uma vingança contra a mulher.

A ironia da crise de seu casamento era enorme. Porque a profissão de sua esposa, e uma profissão na qual ela era muito boa, era o aconselhamento conjugal. De fato, ali em Marin County, California, onde tinha seu escritório, ela era considerada a melhor. Só Deus sabia quantos relacionamentos em crise ela tinha recuperado. E no entanto, por um golpe fatal de injustiça, esse mesmo talento e essa habilidade o tinham jogado ali, naquele conapt decadente. Porque Mary, tão bem-sucedida em sua própria carreira, não podia deixar de sentir decepção, uma decepção que só fizera aumentar com o passar dos anos, em relação a ele.

Falando agora sobre o cenário em Alfa III M2, o lugar serviu como um grande hospital psiquiátrico, com centenas de pacientes no lugar. Quando uma guerra explode, a lua fica sem controle terreno e, claro, os pacientes precisam encontrar um meio de sobreviverem, sem a ajuda e as ordens de quem fossem considerados mentalmente são, e é aqui a grande genialidade da trama: a sociedade que se controi. Não sei como sequer imaginar como Dick teve a ideia, mas é simplesmente perfeito, já como cada uma dos problemas mentais que os pacientes apresentavam é capaz de contribuir para uma sociedade que funciona a ponto de fazer frente a retomara da Terra.

Divididos entre Paras, os paranoicos; Manes, os maníacos; Skitz, os esquizofrênicos; Heebes, os hebrefrênicos; Deps, os depressivos; Polis, os Polimorfos e Obs-Comp, os obsessivo-compulsivos, essa sociedade que surgem tem um conselho com representares de cada um dos grupos, entre eles, Howard Straw, um mane; Omar Diamond, um skitz; Ingred Hibbler, uma obs-comp; Annette Golding, uma poli; Jacob Simion, um Heebe e ainda Gabriel ­Baines, um para. Vemos como essa sociedade passou a funciona e a forma como entraram de resolverem seus problemas e colocar aquela lus para funcionar a ponto de se defenderem. Tudo sobre estes personagens e outros é fascinante, sem contar toda atmosfera futuristica, mas, ao mesmo tempo, retrô do livro. É uma aula de uma ficção cientifica movida por sentimentos humanos, alterados ou não, embalada em uma pequena opera espacial com diversos eventos que levam alguns ao limite.

Havia uma demanda por psicólogos, segundo a avaliação do Serviço de Saúde e Bem-Estar Social Interplanetário, porque a lua tinha sido originalmente uma área hospitalar, um centro de tratamento psiquiátrico para imigrantes terrestres no sistema de Alfa, indivíduos cuja mente fraquejou devido às pressões espantosas, excessivas, da colonização intersistemas. O lugar fora abandonado pelos alfanos, com exceção dos comerciantes.
Tudo que se sabia sobre o estado atual da lua vinha das informações desses comerciantes. De acordo com eles, tinha surgido ali uma espécie de civilização, durante as décadas em que o hospital ficou isolado das autoridades da Terra. Era difícil avaliá-la, no entanto, porque o conhecimento dos comerciantes sobre os usos e costumes terrestres era insuficiente. Em todo caso, havia na lua de Alfa uma produção e comercialização de bens manufaturados; havia uma ­indústria local, e Chuck ficou imaginando por que razão o governo da Terra sentia a necessidade de se intrometer. Ele podia visualizar muito bem Mary num ambiente dessa natureza. Ela era precisamente o tipo de pessoa que a terplan, a agência internacional, iria selecionar. Pessoas como Mary sempre se davam bem.

A medida que a trama vai se desenrolando (e é uma trama curta, aviso), a pergunta que começou mais e mais a aflorar em minha mente era: “Mas quem aqui são realmente os loucos?” porque Chuck com sua vontade de se vingar de Mary, o governo com sua mania de perseguição e controle e ainda a ganancia de Bunny Hentman, o tal comediante que Mary deseja que Chuck trabalhe para, parecem estar mais doentes do que aquelas pessoas presas em uma lua e que possuem atestado, levando ao leitor a pensar sobre a nossa definição de sociedade e ainda sobre o que realmente adoença a nossas almas e mentes. Seja qual a resposta para as perguntas quase filosoficas que Dick apresenta neste livro, o que posso afirmar é que ele era o tipo de autor que realmente deixou o seu nome gravado em nossa história – sã ou não.Para comprar “Os clãs da lua Alfa”, basta clicar no nome da livraria:

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