BlogLivros

Resenha: A solidão das aranhas – Diogo Bercito


“A solidão das aranhas”
Diogo Bercito
Arte de Capa: Mariana Metidieri
Companhia das Letras – 2026 – 160 páginas

“Existem vários jeitos de entrar em uma construção desmoronada”, começa assim A solidão das aranhas , romance sensível e sutil sobre perdas. Gabriel cresceu com pavor de perder os pais. Quando recebe a notícia de suas mortes, viaja até o povoado de São Jorge do Pomar. O que ele encontra ao passar pelo limiar são ruínas agora ocupadas pelas aranhas, pacas e lagartixas, dentre várias criaturas misteriosas soltas pela mata. E também encontra Domingos, um jovem cientista de passagem pelo interior que captura e coleciona aranhas em caixas de fósforo. Gabriel e Domingos têm mais em comum do que pensam a princípio e desenvolvem uma nova intimidade enquanto desbravam juntos as terras do sítio, à procura de pistas e verdades na natureza que toma conta de tudo ao redor.

A solidão das aranhas” é um livro suave. Suave, calmo, repleto de melancolia, mas com um propósito muito claro: mostrar a transformação de alguém através de suas escolhas e do luto. A vida nos dá escolhas e nós podemos, conscientemente, escolher nos afastar de outras pessoas, por todos os motivos que acreditamos que sejam válidos, até mesmo de nossos pais, e é atraves dos olhos de Gabriel que vemos uma história delicada sobre perda, amor e reencontro se desenrola, deixando no leitor a sensação de que mesmo a solidão é capaz de se transformar é algo muito mais poderoso.

Existem vários jeitos de entrar em uma construção des­mo­ronada. Pode-se passar pelo espaço vazio onde ficavam as pa­re­des. Já não existe nenhum motivo para pensar nelas como obs­táculos.
Gabriel preferiu entrar pela porta.

Gabriel mora na capital de São Paulo depois de deixar sua cidade, São Jorge do Pomar, no interior do estado, e ir estudar direito, ambientado no terço inicial do século passado. Sempre uma criança bastante ativa e inteligente no interior, o garoto foi apresentado a morte com o falecimento de sua adorada avó, o que desperta nele pensamentos e sentimentos que o acompanharão por toda sua vida adulta. Quase desde sempre há algo que começou a se instalar dentro dele, movendo a forma como ele via a vida simples do campo, acreditando que poderia conseguir mais fora dali. E assim o fez.

Quando a narrativa começa, Gabriel recebe a notícia de que seus pais morreram, deixando o leitor se questionar como o casal pode ter morrido junto. Voltando para o interior com o único intuito de vender a fazenda do pai para comprar algo para si na capital, Gabriel vai reencontrando amigos que foi deixando (ou tentando deixar) para trás, também conhecendo Domingos, um jovem que está pesquisando aranhas no interior. O que parece ser somente um gesto de bondade ao deixar Domingos dormir na casa da fazenda dos pais, vai tomando um caminho que Gabriel jamais esperou.

Antes de adormecer, Gabriel perguntou se Domingos sentia falta do pai.
Já vi aranhas-mães cuidando das crias. Levando os filhotes nas costas, protegendo-os das vespas. Um pai, nunca vi. Ainda assim, faria de tudo para encontrá-lo uma última vez.

Gabriel é alguém introvertido e que tentou construir uma vida diferente para si em São Paulo. Entrou para a faculdade de direito, passou a trabalhar, encontrou amigos na faculdade e chegou até mesmo a noivar – mas o amor pela noiva não chegou, o relacionamento com os amigos se transformou, a faculdade deixou de fazer sentido. Tudo parecia fora do lugar a ponto dele não manter uma conexão direta com os pais, mesmo com o pedido da mãe para que voltasse para assumir a fazenda do pai, que já estava idoso e não mais aguentava o trabalho pesado. Gabriel não se via mais naquele lugar e, por isso, fechava portas.

De alguma forma, Domingos e seu conhecimento sobre aranhas começa a quebrar a armadura de Gabriel, o fazendo falar sobre si e sua visão de vida. Também descobrimos sobre a vida de Domingos e como tudo foi bastante difícil para ele, levando a entender porque o jovem entendia as aranhas daquela forma – e calma, leitor, você não terá de se preocupar com cenas sobre aranhas caso não gostem delas porque sim, estas cenas existem, mas a narrativa as encaixa tão bem que tudo faz sentido, principalmente quando você entende a repetição de algumas frases e como elas conduzem um relacionamento com a delicadeza necessária.

Começou explicando que as aranhas são animais solitários.
Domingos falava baixo, como se contasse um segredo. As aranhas, disse, vivem sozinhas em suas teias. Toleram-se apenas para se reproduzir e mesmo isso tantas vezes acaba mal, com uma delas devorada pela outra, sua carcaça jogada fora.
Não são tão diferentes de mim — completou Gabriel.
Nem de mim. Somos animais solitários também, mesmo quando nos fecundamos.

Confesso que algumas tramas se tornam bastante dificeis de se falar sobre porque cada detalhe faz a diferença, e é este o caso de “A solidão das aranhas” com suas pequenas sutilezas e momentos que são capazes de entregar mais intensidade a trama, como a comparação das transformações que as aranhas passam, até o dia que enfim encontram seu par para a vida. E, de todas as formas, podemos aplicar isso em nossas vidas. Ainda bem.

Para comprar “A solidão das aranhas”, que está sendo publicado hoje, basta clicar no nome da livraria:

Amazon.
Magalu.