
Stephen King
Tradução: Fabiano Morais
Suma – 2011 – 400 páginas
Ao cair da noite é o momento em que nada é o que parece. A hora perfeita para ler Stephen King.
Embora seja mais conhecido por seus romances, Stephen King também é um mestre das narrativas curtas. Em Ao cair da noite, o autor reúne treze de seus contos, histórias impactantes que envolvem o leitor rapidamente e demoram para serem esquecidas. Nelas, a fronteira que separa os vivos dos mortos é muitas vezes enganosa, e os fios que mantêm os indivíduos presos à realidade podem se romper a qualquer momento.
Tais histórias partem de premissas aparentemente simples ― em “A corredora”, uma mulher vai para uma casa de praia em um lugar deserto e acaba sendo perseguida; em “Posto de parada”, um homem se depara com um conflito ao parar na estrada para ir a um banheiro de posto de gasolina; em “Mudo”, um vendedor dá carona para um homem silencioso, sem saber que ele escuta bem até demais; em “N.” (que teve adaptação para história em quadrinhos pela Marvel), um homem com transtorno obsessivo-compulsivo não consegue parar de contar um círculo de pedras, sem conseguir decidir se são sete ou oito. No entanto, para King, nada é tão simples assim; com sua narrativa tensa, seu desenvolvimento (rápido, mas poderoso) dos personagens e suas pinceladas de sobrenatural, o autor é capaz de transformar qualquer situação cotidiana em algo impressionante. Ao final do livro, ele escreve: Obrigado por ler minhas histórias. Espero que pelo menos uma delas faça você ficar acordado por um tempo depois do apagar das luzes.
Não consigo expressar em palavras o prazer que é ser fã de Stephen King. Claro que, como todos autores e seres humanos deste planeta, há falhas nele e sua escrita, mas, em regra, é sempre um prazer inenarrável ler seus contos e livros porque sempre há algo de verdadeiro e profundo, mesmo nas histórias mais surreais que o leitor possa imaginar – um ser maligno vindo do espaço que toma a forma de um palhaço que se alimenta de crianças, um hotel que traz a tona o que há de pior em um homem que enfrenta seus próprios demônios internos ou ainda um gêmeo que foi absorvido ainda no útero pelo outro e que cria personalidade própria dentro do cérebro do irmão que vingou – talvez porque ele simplesmente usa muito do que vive, viu e aprendeu em seus contos, e aqui não é diferente. Ao final de “Ao cair da noite”, King apresenta notas falando sobre como cada conto nasceu e, mais uma vez, mostra porque ele é realmente um Rei.
Já li e resenhei diversos livros de contos de King, entre eles “Com sangue” (leia a resenha sem spoilers clicando AQUI), “Terror a bordo” (leia a resenha sem spoilers clicando AQUI), “Escuridão total sem estrelas” (leia a resenha sem spoilers clicando AQUI), “Mais sombrio” (leia a resenha sem spoilers clicando AQUI), e, sem nenhuma dúvida “Ao cair da noite” se tornou meu favorito. A qualidade dos contos aqui é insanamente alta, com contos sobre luto, lida após a morte, luta pela vida e até mesmo sobre os sobreviventes do 11 de setembro – mas confesso que teve um conto que ganhou meu coração pelos motivos mais dolorosos existentes: me identifiquei com a personagem principal e acho que qualquer pessoa ai fora que passou pela perda de alguém que ama também sentirá o mesmo. O nível dos contos aqui são tão altos que um dos contos ganhou uma adaptação pela Marvel e ainda um curta metragem, o tipo de coisa que King merece na maior parte de seus trabalhos. Mesmo sendo contos, há emoção verdadeira, há peso, há desespero e há o que existe de mais assustador em todo universo: o ser humano.
À medida que ela continuava ali — explorando os supostos limites da sua resistência —, os sonhos ou cessaram, ou passaram a se desenrolar longe dos olhos da sua memória. Ela começou a acordar não exatamente revigorada, mas sentindo um relaxamento profundo, que parecia ir até o seu âmago. E, embora todos os dias fossem essencialmente iguais ao anterior, cada um deles parecia algo novo — algo independente —, em vez de uma extensão do que tinha acontecido antes. Um dia, ela acordou e percebeu que a morte de Amy havia começado a ser uma coisa que aconteceu, e não uma coisa que estava acontecendo.
Já na Introdução do livro, King mesmo muito a que veio com essa antologia, contando uma passagem de sua vida com sua esposa Tabitha no longínquo ano de 1972 e sendo um fofo como sempre (ele é um romântico, mas poucos sabem disso!). Como diz a sinopse, são 13 contos e o primeiro se chama “Willa”, sobre um grupo de pessoas presas em uma estação ferroviária. Willa é a namorada de David, que se dá conta que a namorada não se encontra no lugar e deve ter ido caminhando até o mais próximo vilarejo. Ao mesmo tempo que parece atrair a simpatia e compaixão dos outros por ser completamente apaixonado por Willa e ela não corresponder da mesma forma, David parece estar começando a despertar para a situação deles – quando iriam embora? Quando outros trens chegariam? O que vem a partir dai é um exercício do King sobre a vida e a mortalidade das pessoas.
Mas foi em “A Corredora” que soube que esse livro seria bem mais do que somente uma leitura. Leio King há muitos e muitos anos, muito antes de ter idade para compreender o que os livros dele realmente queria passar, e tenho “O Cemitério” como um dos meus livros favoritos dele (e não se foque no terror, se foque na pergunta central: você aceitaria a pessoa que você ama de volta, mesmo se não fosse ela exatamente?), ate que “Dolores Claiborne” roubou o primeiro lugar do pódio para mim (uma história sobre violência doméstica com mulheres se ajudando sempre terão um lugar especial no meu coração) e sendo o incrível “A Vida de Chuck” meu conto favorito, mas esse conto aqui se superou a trazer Emily, uma mulher casada com Henry e que acabaram de perder a filha Amy de um mal súbito. Um dia eles acordaram e encontraram a filha bebê morta no berço, e desde então Emily começou a correr simplesmente porque sim, mas é obvio que ela está tentando fugir da dor, do luto e da sensação de impotência. Enquanto sua vida e seu casamento colapsam a ponto dela literalmente sair correndo sem parar, Emily se vê forçada a ir para uma casa na praia dos seus pais para tentar começar a juntar seus cacos – até que se depara com um mal pior: um vizinho que não é o que parece. A luta pela vida e as corridas de Emily se misturam com uma metáfora para dor, que parece morrer e depois volta para nos assombras, entregando um conto repleto de dor, renascimento e tensão. Você pode enxergar a metafora ou pode simplesmente se entregar à bela trama policial que este conto nos entrega, mas, seja como for, Emily é, sem sombras de dúvidas, uma das melhores protagonistas do King, uma verdadeira final girl.
— E isso faz de você o quê? — perguntou Berkowitz. — Já parou para pensar nisso? Ou vai me dizer que não é possível existir um mundo maior lá fora em algum lugar? Nada impede que você não passe de um pensamento aleatório passando pela cabeça de um contador público enquanto ele está sentado na privada, lendo o jornal e dando sua cagada da manhã.
Sifkitz abriu a boca para dizer que aquilo era ridículo, mas algo nos olhos de Berkowitz fez com que ele a fechasse de volta. Vá em frente, diziam seus olhos. Faça uma pergunta. Vou lhe contar mais do que você gostaria de saber.
Já o terceiro conto, “O Sonho de Harvey” é realmente um conto curto de terror. Sem seres sobrenaturais malignos, sem sustos inesperados, somente o medo de perder e o curso da vida que não deveria acontecer, tudo em uma conversa na conversa entre Harvey e sua esposa Janet. “O posto de parada” é um conto que também apresenta o terror de uma forma bem diferente do que qualquer pessoa que lê este livro espera: em uma parada em um posto de gasolina para reabastecer, John Dykstra, um professor que também escreve sob um pseudônimo, ve um casal brigando e o homem batendo na mulher. O que fazer quando nos deparamos em uma situação de violência domestica em nossa frente? A escolha de Dykstra conduz o conto. Em “A bicicleta ergométrica” temos acontecimentos fantásticos acontecendo com Richard, depois de receber o resultado de seus exames e descobrir que está com o colesterol alto e, por isso, seu médico indica exercícios físicos. Comprando a tal da bicicleta e a colocando em seu porão, Richard começa a sentir como se estivesse em outros lugares e começa a expressar isso em arte, mas logo começa a ficar claro que ele não está somente imaginando estar em outros lugares.
E então chegamos em “As coisas que eles deixaram para trás”, que foi um verdadeiro soco. Depois de ajudar uma vizinha muito bonita e casada, Scott Staley encontra em seu apartamento objetos que eram de seus colegas de trabalho e que, obviamente, não deveriam estar em sua casa. O conto mais emotivo e com significado deste livro, também entrega muitas perguntas para o leitor, tanto dentro do conto quanto ao que aconteceu com quem sobrevive de grandes tragedias na vida real. “Tarde de formatura” mostra Janice na casa da família do seu namorado, Buddy, lidando com a família dele que são pessoas extremamente soberbas, até que algo imaginável (ou não) acontece, mostrando que você pode ser bastante cheio de si mesmo, mas, no final das contas, se um desastre imenso acontecer, o destino de todos nós será o mesmo. Ou não também.
Charlie, eu desconfio que meu irmão estivesse planejando um livro, algo popular, estilo Oliver Sacks. A julgar por esse manuscrito, seu foco inicial era o comportamento obsessivo-compulsivo, e, quando somo a isso o suicídio dele (se é que foi suicídio!), eu me pergunto se a sua inspiração não terá vindo daquele velho provérbio: “Médico, Cura-te a Ti Mesmo!”
Seja como for, achei perturbadores o relato de N. e as anotações cada vez mais fragmentadas do meu irmão. Quão perturbadores? O suficiente para eu encaminhar este manuscrito — do qual não tirei cópia, por sinal, esta é a única versão — para um amigo que ele passara dez anos sem ver e que eu mesma não vejo há 14. Em um primeiro momento, pensei: “Talvez isto pudesse ser publicado. Poderia servir como uma espécie de memorial vivo para o meu irmão.”
O oitavo conto, “N.”, é o maior da antologia e confesso que a medida que fui lendo, mais elemento de Lovecraft se revelavam, uma “que” de terror cósmico ganhando mais força. Começa com uma cara de Scheila para um homem chamado Charlie, falando sobre o suicídio de seu irmão, Johnny Bonsaint, um psiquiatra, que deixou um manuscrito e anotações sobre sessões com um paciente que a intrigaram. Pedindo ajuda a seu amigo de infância, mesmo que não o visse há muitos anos, a trama passeia cronologicamente, mudando o ponto de vista para o próprio Johnny enquanto fazias anotações das sessões com N., o paciente e personagem central da trama. Com um transtorno compulsivo intenso, que o levava a contar e a rearrumar coisas em pares o tempo inteiro, N. conta sua história de como aquilo começou: ao visitar o Ackerman’s Field, um campo perto da cidade natal dos 3, e viu 7 rochas, mas que se tornavam 8 ao olhar pela tela da sua câmera. O que vem a partir dai é um conto de loucura, um espiral que vai mostrando mais e o inferno pessoal ao que N. passou e que parece estar fadando ao seu psiquiatra a também enxergar monstros, vozes e a salvar o mundo. O conto ganhou um destaque tão grande no meio que ganhou uma adaptação da Marvel e até mesmo uma animação disponível no Youtube, mas sem legendas em português– você pode assistir clicando AQUI – só tenha certeza de que quer assisti-lo porque é bastante fiel e irá entregar todos spoilers.
“O gato dos infernos” foi um conto difícil de ler porque sou gateira e eles são meus animais favoritos, mas, em linhas gerais, não espere a versão felina de “Cujo” porque o cachorro tinha raiva (a doença, é claro!) enquanto aqui, o fofo Sam, que tem a metade do rosto coberto de pelos pretos e a outra metade de pelos brancos, parece literalmente um gatinho dos Infernos – só que hey, ele tem motivos, porque a empresa farmacêutica do Dr. Drogan matou muitos, muito gatos em suas pesquisas. Depois de causar mortes (ou, pelo menos, é o que Drogan acredita), o senhor idoso contrata Halston para o matar, mas vocês podem imaginar o que vem pela frente. “The New York Times a preços promocionais imperdíveis” foi o conto que me surpreendeu com a forma delicada e gentil que fala sobre morte e o pós-vida, tema que parece recorrente nesta seleção de contos. Começa com Anne recebendo a ligação de James, seu marido por 30 anos na vida, tudo bastante corriqueiro se não fosse o fato de que James morreu há 2 dias em um acidente aéreo. King entregou aqui uma pequena perola de sensibilidade ao lidar com a morte e falar sobre o futuro e as escolhas que podemos (ou não) fazer depois que deixarmos este corpo para trás. Tudo depende do que o leitor se permite acreditar. “Mudo” é um conto que também coloca os humanos no centro de um tipo de terror bastante comum: Monette dá uma carona para um homem que segura uma placa afirmando ser mudo. Sofrendo pela traição e abandono de sua esposa, o homem de 55 também lida com crimes que sua esposa praticou, então começamos a narrativa com ele procurando um padre para se confessar, contando sobre tudo que sua esposa e também sobre o passageiro mudo que queria levar até Derry (claro que essa cidade seria mencionada!), mas o homem some antes de chegarem até lá, entregando uma reviravolta que não vimos acontecer, tudo em um ritmo muito rápido.
Ela ri por um bom tempo, então coloca sua roupa e desce para encontrar seus parentes, que vieram dividir seu luto com o dela. Mas eles parecem estar em outra categoria, porque ele não telefonou para nenhum deles. Ele telefonou para ela. Para o bem ou para o mal, ele telefonou para ela.
“Ayana” é o decimo segundo conto e tem uma áurea de bondade e calma que é raro ver em contos de King. Aqui temos uma garotinha que pode literalmente fazer milagres e que salva o pai de nosso protagonista e que me deixou encantada, querendo saber mais sobre a garotinha, a quem praticamente não temos qualquer informação. É um conto sobre redenção, sobre acreditar, sobre milagres e sobre encontrar conforto em momentos nos quais a vida nos cobra bastante, um respiro no meio de tanta coisa ruim que podemos fazer uns com os outros. E chegamos no último conto: “No maior aperto” me causou tantos sentimentos que fica dificil explicar: dois vizinhos, Curtis Johnson e Tim Grunwald brigam há anos por um terreno na rua de ambos depois que o falecido dono vendeu o terreno para os dois. O que começa sendo somente uma disputa entre dois homens com alto poder aquisitivo foi escalando até que Betsy, a amanda cadela de Curtis, morre eletrocutada em uma cerca instada por Grunwald, tudo explicado no começo da trama, quando o outro deixa um recado querendo encontrar Curtis e encerrar a biga, mas que talvez não seja exatamente o que acontece. Nojo, claustrofobia, desespero e raiva é entregue no conto que mais mostra que os seres humanos sempre são os piores monstros de todos, estampado em nossa cara a homofobia que Grunwald cospe em seu vizinho.
Ainda temos “Notas do cair a noite”, páginas nas quais King fala sua inspiração para cada um desses contos. É simplesmente maravilhoso ler o que King presencio inspirar um conto no quilite de qualquer um aqui ou até mesmo o que um sonho vira naquela cabeça abençoada. Digo com tranquilidade que é uma coletânea muito direcionada ao que pode nos esperar enquanto a noite vai chegando, mas não só sobre isso: envolvendo perguntas e não respostas, ao inexplicável, possível vida após a morte e, principalmente, escancarando o que podemos fazer uns contra os outros, esses 13 contos se tornaram um livro imperdível e que, definitivamente, se tornou minha antologia favorita. Recomendo a qualquer hora do dia, não só ao cair da noite.
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