BlogLivros

Resenha: Fuja comigo – Brian Selznick


“Fuja comigo”
Brian Selznick
Tradução: Rafael Mantovani
Arte de capa: Caroline Bogo
Seguinte – 2025 – 320 páginas

Em seu primeiro romance jovem, Brian Selznick, autor best-seller de A invenção de Hugo Cabret, usa palavras e ilustrações para tecer uma história de amor que nasce num verão italiano ― mas é capaz de mudar a vida inteira.

Danny, um jovem de dezesseis anos, está passando as férias de verão em Roma por conta do trabalho da mãe. Enquanto ela decifra livros antigos misteriosos em um museu, ele vaga, solitário, pelas ruas da cidade. Certo dia, porém, Danny encontra uma sombra, que se transforma numa voz, e depois num garoto: Angelo.

Danny e Angelo se tornam inseparáveis e começam a desvendar os segredos de Roma ― e de si mesmos. Por um tempo, os dias repletos de sol, gelatos e confissões parecem intermináveis, mas conforme o fim da viagem se aproxima os garotos terão que desenhar os próprios caminhos.

Fuja comigo nos lembra que as histórias nunca se perdem ― apenas aguardam o momento certo para serem redescobertas.

A sensação que tive ao ler “Fuja comigo” é que me deparava com um conto com história completa envolto em uma nevoa de fábula, lirico e rico. Parece que estava ouvindo um amigo pessoal contar como se apaixonou a primeira vez, o momento em sua vida mudou, a forma como a paixão o atingiu como um raio em meio a uma cidade maravilhosa, ao relacionamento dele com sua mãe e os problemas que enfrentavam, tudo aos 16 anos, em 1986, sem telefones celulares ou tecnologia na qual poderia se descobrir muitas com um simples. Era uma vida diferente, mais lenta, e, agora, lendo, parecendo mais mágica – afinal, muito do mistério que acontece nesta narrativa seria respondida nas redes sociais.

Desde que tínhamos chegado a Roma, alguma coisa estranha vinha acontecendo comigo, como se a cidade estivesse me observando e uma presença invisível me perseguisse, exigindo que eu continuasse em movimento, embora não soubesse o que essa coisa era nem aonde queria que eu fosse. Era uma sensação muito difícil de descrever, como se um relógio estivesse tique-taqueando bem acima do meu ombro, ou um motor misterioso, girando embaixo do chão, me levasse para algum destino desconhecido. Onde quer que eu estivesse. fosse jantando com minha mãe no apartamento, após comprar os ingredientes em lojas onde ninguém falava inglês, ou perambulando sozinho pelas ruínas da cidade, eu me sentia inquieto. Mesmo sentado dentro da igreja, era acometido pela sensação de que precisava continuar andando. Geralmente, o que eu mais queria era achar um lugar para fincar raízes, para ficar imóvel. Mas era como se toda as moléculas do meu corpo estivessem vibrando e algo profundo e fundamental em minha natureza quisesse mudar Abri a porta da igreja, dei adeus aos anjos e mergulhei na dilúvio a minha frente, pensando o tempo todo: “Estou sendo levado até o quê?”

Se você está se perguntando qual ilustração é essa acima, preciso te explicar que o livro tem dezenas de cenas desenhadas pelo próprio autor, que mostra desenhos de lugares em Roma, onde a história se passa e de Angelo, o garoto que ele conhece como uma mágica e que rouba seu coração e seus pensamentos. A principio pensei que seria uma graphic novel, mas não, além de dezenas de ilustrações há também a narrativa, que se passa por dias em uma contagem regressiva para Danny voltar aos Estados Unidos já como ele estava passando somente uma temporada na Itália com sua mãe trabalhando no Museu Monda, um misterioso museu que cuida de livros recuperados e raros. O relacionamento de Danny e da mãe é um dos pontos que apontaria como algo que ficou a desejar porque queria ler mais sobre eles, mas toda construção do romance é nada menos do que perfeita.

Tenho tantas coisas para te mostrar.
Mas… não estou entendendo. Eu nem te conheço.
E daí?
E dai que o que voce poderia querer me mostrar?
Tudo. Vamos.
Espera. Não sei nem o seu nome.
Não tenho nome.
Como assim? Todo mundo tem nome.
Então me dá um. Dá um nome para mim – pediu ele.
Não posso te dar um nome.
Então eu vou te dar um nome.
Eu já tenho nome.
Não um nome que importe – concluiu ele. Então parou para pensar por um instante. Olhou para o céu atrás de mim, onde as nuvens tinham se entreaberto, revelando um arco-íris muito acima do obelisco no elefante. Sorriu e disse: – Danny. Seu nome é Danny.
Não, não é.
Agora é.
Danny?
Tipo o assistente do Bernini.
Dante – repeti
Mas vou te chamar de Danny. – Ele abriu um sorrisinho malandro. – Então, Danny… que nome você vai me dar?
Tirei os óculos e os enxuguei de novo. Sabia que devia só ir embora. Tinha aprendido minha lição sobre fazer novos amigos muito tempo antes, mas havia algo naquele menino impossível que exigia minha atenção, e eu só conseguia pensar no teto da igreja e nos dois anjos de cabelos cacheados e asas esquecidas. Então me lembrei de como eles pareciam se entreolhar naquele espaço vazio, jamais capazes de se mover de verdade.
Antes que eu pudesse mudar de ideia, dei um nome a ele.
Angelo – falei.

Quando Danny conhece Angelo, fica estabelecido, a vontade deste último, que eles não se chamarão pelo nome verdadeiro e sim com os apelidos que escolheram respectivamente. Parece tudo surreal demais para ser verdadeiro, mas o charme da trama é justamente se passa no verão do hemisfério norte de 1986, em todo contexto que falei no começo desta resenha. Mesmo quando Angelo some por alguns dias, deixando Danny à beira do desespero, o fio vermelho liga os dois jovens, que começam a se envolverem mais e mais a medida que pessoas por toda Roma vão acontecendo, tudo com Angelo servindo de guia para Danny. Quero também assinalar que, assim como não há as tecnologias de hoje nesta trama, também há o fantasma da AIDS e a grande homofobia que acontecia à época. O fim parece próximo, o tempo inteiro se mostrando, mas o amor pulsante que os jovens sentem não deixa margens para pensamentos racionais. Sei que pode parecer que haverá um final capaz de quebrar qualquer coração ou tão feliz que parece irreal, mas acho que o final deste livro foge muito a regra quando ele entrega o final que a trama merece – e sem mais comentários sobre por motivos óbvios de spoilers.

No topo da última escada, Angelo virou para mim. Havia algo de estranho na expressão dele, algo que levei um instante para decifrar. Finalmente me dei conta: ele me entendia. Entendia de verdade e com profundidade o que eu estava dizendo. E havia em seus olhos uma empatia tão verdadeira que, de repente, eu não soube o que fazer. Ninguém nunca olhara para mim daquele jeito. Bom, talvez Adam e eu tivéssemos compartilhado algo parecido, mas éramos mais novos, e tudo parecia menos tenso naquela época, menos perigoso. – – Sortudo, você – disse Angelo.
Essa era a última coisa que eu esperava ouvir de Angelo. Nada do que eu lhe contara fazia eu me sentir sortudo. Não falei mais nada, mas Angelo deve ter entendido minha expressão, pois respondeu o que eu não tinha chegado a perguntar.
Ter tido um amigo – disse. – Mesmo por pouco tempo. Isso é importante.

Todas as ilustrações se encontram no começo do livro, então depois de terminar minha leitura, voltei e apreciei cada uma, assim como os mapas que estão na versão física. Deu uma sensação incrível de preenchimento ver as ilustrações e ainda conhecer estes dois personagens que cativaram um lugar especial em meu coração com um romance singular, puro, intenso e determinante na vida, exatamente como um primeiro amor merece e deve ser. Assim como Danny perdeu seu coração para Angelo, eu perdi o meu para “Fuja comigo” e indico você a fazer o mesmo.

Para comprar “Fuja comigo”, basta clicar no nome da livraria:

Amazon.
Magalu.