BlogLivros

Resenha: Terra à deriva: Contos – Cixin Liu


“Terra à deriva: Contos”
Cixin Liu
Tradução: Leonardo Alves
Arte de Capa: Rafael de Castro, Jean-Michel Trauscht
Suma – 2026 – 360 páginas

Ao coletar dados do Sol, astrofísicos descobrem que o interior da estrela está se transformando e, dentro dos próximos quatrocentos anos, irá explodir de forma violenta, engolindo a Terra. A solução? Construir doze mil turbinas de tamanho inimaginável em toda a Ásia e América do Norte, com a função de primeiro refrear o movimento de rotação do planeta para, a seguir, tirá-lo de órbita. A ideia ― e ponto de partida de “Terra à deriva”, conto que abre este volume ― é fugir do Sistema Solar rumo a Proxima Centauri, a “apenas” 4,3 anos-luz de distância, não em naves, mas carregando o próprio planeta consigo.

Nas histórias de Cixin Liu, catástrofes e feitos de tecnologia costumam ser surpreendentes, e também colossais. Em “Montanha”, uma nave alienígena de “massa equivalente à da Lua”, suga o mar com sua força gravitacional, na “cena mais aterradora, impressionante e magnífica jamais vista pela humanidade”.  Já “Sol da China” narra a história de um limpador de janelas que verá seu destino se alterar radicalmente ao ser apresentado ao projeto de um enorme satélite de espelhos, “o maior projeto de engenharia ecológica desde a Grande Muralha Verde”, criado para controlar o clima planetário.

Na obra de Cixin Liu, a ciência e a tecnologia são ferramentas de progresso e destruição; os contatos extraterrenos trazem surpresa ou morte. Mas, em todas as narrativas, a dimensão humana é seu principal motor: seus personagens são impetuosos e frágeis, capazes de amar e de cometer erros, e ditam os destinos dessas histórias fantásticas.

Para quem ainda não ligou os nomes, Cixin Liu é o autor do livro “O problema dos três corpos”, que foi adaptado na 1º temporada da série da Netflix – e que fez tanto sucesso que ganhará em breve sua 2º temporada, que será inspirada no segundo livro da trilogia (e você pode ler a resenha sem spoilers do livro e que também falamos sobre o seriado clicando AQUI). O principal ponto sobre o autor chinês é que ele é fã da alta ficção a ponto de misturar estes 10 contos com a também hard fiction, que é um ramo da ficção na qual os conceitos de física e química são respeitos dentro da trama, não importando o tamanho da grandiosidade da trama Você precisa usar seus conhecimentos de física nas obras dele, e confesso que para alguém de humanas como eu, é sempre um pedaço. Mas há algo de interessante nas tramas de Liu é que bastante simples: a humanidade, seja a que carregamos dentro de nós, seja como um todo, e aqui, nestes 10 contos, tudo isso fica mais evidente ainda.

Terra à Deriva” é uma coletânea com 10 contos escritos em diferenças epocas da vida do autor e aqui reunidos em uma Edição nacional pela minha Editora facorita da vida, a Suma, e que mostra exatamente o que podemos fazer como indivíduos em circunstancias aterrorizantes (porque sermos invadido sempre causa pânico) quanto como coletividade em decisões impossíveis (deixar nosso planeta ou embarcar em outra opção aparentemente absurda?) contra forças que são mais inteligentes, maiores e mais fortes do que a humana? Sim, há o problema que é necessário embarcar na parte da física que o autor exploda, mas você também se encontrará questionando o que faria se sua família tivesse que cuidar de Deus em sua velhice – calma que já chegamos lá.

Não foi mesmo fácil para vocês. Tiveram que passar muitos anos explorando só para chegar ao nosso ponto de partida! — exclamou Fan, admirado.
>> É por isso que vocês deveriam se considerar uma civilização de muita sorte.
Nesse momento, o tamanho das nuvens de cristais de gelo formadas pela atmosfera que ia escapando aumentou drasticamente. O firmamento cintilava, e a luz da nave alienígena se refratou no gelo e formou uma intensa coroa iridescente. Lá embaixo, o poço do ciclone gigantesco continuava dando voltas turbulentas. Fan achou que a cena parecia uma máquina colossal que pulverizava o planeta com estrépito um pedaço de cada vez. Já no topo da montanha, tudo agora estava completamente imóvel. Até as marolas tinham sumido da superfície do pico. O oceano estava liso como um espelho. Mais uma vez Feng Fan se lembrou dos lagos montanhosos no norte do Tibete…
Com um tranco, forçou a mente a voltar à realidade.
Por que vocês vieram até aqui? — perguntou à esfera acima.
>> Estávamos só de passagem e queríamos ver se aqui havia vida inteligente com quem conversar. Decidimos falar com quem escalasse essa montanha primeiro.

O conto que abre a coletânea é justamente o que dá título ao livro: “Terra à Deriva” traz o inimaginável: o Sol está literalmente condenado a se explodir e com isso a humanidade precisa deixar o sistema solar. Só que claro que não será algo fácil, já como somos bilhões de pessoas e não há como construir uma nave tão grande, então por que não transformar a própria Terra em uma nave? E o problema desse conto é que o autor tentar mostrar como propulsores funcionariam, aonde seriam construídos e ainda tenta explicar como a humanidade sobreviveria com a Terra sendo forçada a parar sua rotação para poder se mover pelo espaço, trazendo uma é a Ficção Hard em toda sua glória. Já em “Montanha”, o segundo conto, uma gigantesca nave alienígena e provoca estragos com sua própria gravidade, fazendo a água dos oceanos se elevarem em sua direção – a tal montanha ao qual o título se refere. Feng Fan é um homem que lida com suas escolhas passadas e que acredita que o melhor que pode fazer é subir aquela montanha, mesmo que seja a última coisa que faça, resultando em um contato inesperado, porém necessário.

A terceira história se chama “Sol da China” e foi uma das que mais me pegou porque apresenta a jornada de Shui Wah, que sai de sua minuscula vila e vai em busca de empreso e sustento, idelizando uma vida melhor. O que termina acontecendo é uma sucessão de acasos que o leva a se tornar lavador de janelas de arranha-céus. Em um futuro onde os prédios são mais altos ainda, Wah termina sendo requisitado para levar algo mais alto ainda: o segundo sol que a China construíra no espaço, levando assim prosperidade para todo país. Como é somente um conto, não espere desenvolvimento emocional, mas a ideia de um homem simples conseguir subir até os céus realmente pega pelo emocional e pelas decisões que vão sendo tomadas ao longo de sua vida, com a ajudinha do destino – ou sorte, depende do que você acredita.

Tem um negócio que eu não entendi. Como um sol a mais vai aumentar as chuvas?
Esse sol artificial pode empregar vários métodos diferentes para influenciar o clima. Por exemplo, ao interferir no equilíbrio termodinâmico da atmosfera, vai afetar a circulação atmosférica, aumentar a evaporação oceânica ou deslocar frentes climáticas — respondeu Zhuang. — Mas isso não explica tudo, exatamente. Na verdade, o refletor orbital é só uma das partes do Projeto Sol da China. A outra é um modelo complexo de movimentos atmosféricos, que será executado por vários supercomputadores. Ele vai fazer simulações precisas da movimentação em qualquer área da atmosfera e identificar pontos críticos. Se o sol artificial lançar calor nessas áreas, o efeito será drástico a ponto de transformar completamente o clima de determinada região por um tempo. — Ele parou de falar um instante. — O processo é extremamente complicado e não é da minha área de conhecimento. Eu mesmo não entendo direito como funciona.
Shui decidiu fazer outra pergunta que Zhuang certamente saberia responder. Ele sabia que era uma pergunta boba, mas respirou fundo e fez mesmo assim:
Como é que uma coisa tão grande assim fica no céu sem cair?

Para ser sincera, o quarto conto, “Pelo bem da humanidade”, me parece mais uma tentaativa de provocar um questionamento filosófico do que realmente se jogar na ficção, como todos contos foram até essa altura. Um assassino chamado Alma Lisa é contratado para matar pessoas. Que pessoas? Pessoas que parecem não importar realmente, já como estão basicamente em situação de rua. Enquanto aproveita para aumentar o seu próprio conhecimento, o assassino descobre segredos que sequer conseguia compreender a principio, mas também entende que a edução pode nos salvar – ou destruir. O quinto conto se chama justamente “Maldição 5.0” e traz a história mais próxima da realidade, em minha opinião: em 2009, uma mulher desconhecida, que ganha a alcunha de “Primogenitora”, criou um vírus para atingir seu ex-namorado. Nenhum computador afetado tinha grandes complicações, somente mandava uma única vez uma notificação com: “Morra, Sa bi!”, o nome do tal ex, e apresentava algumas informações sobre ele, como onde estudava, número do quarto no dormitório e afins. O que mais me pega neste conto, é que Cixin Liu se torna uma personagem em sua própria trama, que vai escalando rapidamente até chegar em sua versão 5.0 em um curto bastante curto.

A microera” é a sexto narrativa e confesso que é um conto que me deu todos os tipos de sentimentos, talvez por já haver um filme com a mesma premissa, mas como o conto é anterior ao filme (sim, pesquisei), mas por motivos diferentes, já como aqui temos uma possível catástrofe com o Sol emitindo uma pequena descarga elétrica que causaria uma grande destruição em nosso planeta. Tentando ainda salvar a humanidade, diversas naves foram enviadas pela galáxia para encontrar um planeta que seja capaz de recepcionar a humanidade. Depois de anos viajando pelo espaço (e em anos que nem conseguimos contar), um Precursor (como humanos que foram passaram a ser chamado) acredita ter se tornado o último humano ao voltar para a Terra e a encontrar destruída. Mas, para sua surpresa, a humanidade encontrou um jeito de sobreviver de uma forma que o leva a se questionar sobre muitas coisas, causando no leitor a confusão sobre as decisões tomadas pelo homem e também a reflexão sobre como a humanidade sempre encontra meios de se agredir, mesmo quando está em um lugar no qual deveria se preservar.

Você se encanta mesmo com essas coisas comuns — falei para ela quando estávamos voltando para a cabana. Já era noite, e as estrelas brilhavam no céu.
Por que você não se encanta? — perguntou ela. — Viver de verdade é isso.
Essas coisas não me trazem muita satisfação. Nem para a maioria das pessoas. Hoje em dia é fácil demais ter as coisas que a gente quer. Não digo só coisas materiais. Dá para se cercar de céu azul e águas cristalinas assim. Se quiser a paz e o sossego do campo ou de uma ilha remota, é quase que só estalar os dedos. Até o amor. Pense na dificuldade que era para as gerações do passado, no desespero com que as pessoas tentavam encontrá-lo; agora ele pode ser acessado pela realidade virtual, pelo menos por períodos curtos.

Devoradores” é o sétimo e é um conto de horror cósmico, que começa de um jeito que parece também uma história de um filme: uma presença chega para avisar a humanidade que A Devoradora está chegando em aproximadamente um seculo. Nave gigantesca capaz de se acoplar a Terra e sugar todo nossas provisões, sistemas e água, a nave envia antes para a Terra o capitão B’kar, que é um largarto imenso que, quando ereto, chega á quase 10 metros de altura. Vindo na frente para mostrar que a humanidade se tornará basicamente gado para ser devorado, B’kar se depara com pessoas que podem até aceitar o destino que querem nos impor, mas talvez a humanidade não seja tão passiva quanto os outros planetas por onde andaram, levando a uma revelação chocada em seu final. O conto mais ficção, do tipo que é capaz de dar um quentinho no coração de quem adora o genero, como eu, de tão ficção cientifica que é. Já “Deus sob Comando”, o oitavo conto, é realmente o tipo de conto que é mais uma provocação, um exercício de pergunta, que deixa a resposta para um leitor pensar ao seu final. No futuro, dezenas de naves espaciais chegam a Terra trazendo milhões de idosos que afirmam serem Deus – cada um deles é Deus – porque nos criaram a sua semelhança agora precisam de nós em sua velhice para serem cuidados. A humana fica perplexa e tenta se organizar para receber os novos participantes, mas será que seriamos as pessoas certas para cuidar deles? É uma reflexão sincera que deixa uma última sentença como uma bomba em nossa mente.

Nono conto, “Com os olhos dela”, é curto e melancólico, mostrando um jovem que leva olhos que fazem uma jovem mulher que está presa em algum lugar, poder ver o que ele mesmo vê. Coisas simples como ver o por e nascer do sol, a chuva e simplesmente uma paissagem se tornam raras para alguém que não pode por motivos superiores. Um conto delicado sobre a tregedia de não poder escolher o que quer. E, encerrando o livro com seu décimo conto, “Bala de Canhão” nos apresenta Shen Huabei, homem que acorda depois de dezenas de anos em hibernação. Quando foi colocado para dormir motivado por uma doença, Shen via a Terra em uma corrida para dominar a Antartida, única terra ainda capaz de produzir insumos para a humanidade. Casado e com um filho, o homem acredita ser somente mais um, mas há pessoas dispostas a fazer com que ele pague um crime, mesmo que não tenha sido ele que o cometeu. Um conto sobre tempo, responsabilização e sobre a humanidade que cada um carregamos em uma Terra que não é mais a mesma.

Nós também trabalhamos muito. Senão, como é que vocês teriam surgido? — disse Deus, com cuidado.
Já chega disso de “como é que vocês teriam surgido”. Chega! Já cansei de ouvir isso. Se você é tão poderoso assim, crie outros filhos obedientes para te sustentar! — disse Yulian, e jogou a toalha no chão.
Deixa pra lá. Deixa pra lá — respondeu Qiusheng. Era sempre ele que apaziguava os ânimos. — Vamos comer.
Bingbing se levantou. Bocejava quando desceu a escada.
Mãe, pai, Deus tossiu a noite inteira. Não consegui dormir.
Você é feliz e não sabe — disse Yulian. — Seu pai e eu estávamos no quarto ao lado do dele. Está vendo a gente reclamar?
Como se fosse uma resposta, Deus voltou a tossir. Ele tossia como se estivesse praticando seu esporte favorito com muita concentração.

O que fica claro em todos contos é que o coração de tudo, apesar do amor do autor pela ficção hard e todas suas explicações sobre química e fisica, é realmente o homem e a sua humanidade, a qual deveria carregar dentro de si, mas nem todos a deixam à mostra. Não há como não se enxergar os paralelos entre a evolução da ciência e sua racionalidade e crescente falta de empatia que a humanidade sempre parece demonstrar, seja com ela própria, seja com possíveis civilizações que apareçam, mesmo que hipoteticamente.

No final das contas, a pergunta que fica ao terminar de ler “Terra à deriva” é se, ao final do dia ou de uma rotação em seu próprio eixo, a Terra pode não estar à deriva, mas talvez os homens possam vir a estar, justamente ao perder o que faz de nós a humanidade.

Para comprar “Terra à deriva: Contos”, basta clicar no nome da livraria:

Amazon.
Magalu.
Mercado Livre.