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Resenha: A inquilina – Freida McFadden


“A inquilina”
Freida McFadden
Tradução: Irinêo Baptista
Record – 2026 – 350 páginas

Não há nada como o nosso lar…

Blake Porter estava em franca ascensão ― até não estar mais. Depois de ter sido demitido de uma hora para outra de seu cargo como vice-presidente em uma agência de marketing, ele fica sem condições de pagar as prestações do financiamento da casa no Upper West Side, onde mora com a noiva em Nova York. A solução para essa conta que não fecha? Alugar um dos quartos.

Depois de conhecer alguns candidatos a inquilino um tanto peculiares, Blake conclui que será difícil encontrar a pessoa certa. E é aí que surge Whitney. Simpática, educada, sem frescuras e precisando muito de um lugar para morar. Ela é exatamente o que o casal procura.

Será?

Porque, assim que ela se muda para a casa, coisas sinistras começam a acontecer. A cozinha exala um cheiro de comida podre, mesmo após várias faxinas. Os vizinhos passam a tratar Blake de um jeito diferente. Barulhos estranhos o acordam no meio da noite. Até a roupa que ele usa parece lhe dar alergia. De repente, Blake passa a desconfiar de que seus piores segredos podem ter sido descobertos…

O perigo mora na sua casa, e, quando Blake se der conta, será tarde demais. A armadilha já está pronta.

2025 foi meu ano com Freida McFadden: li todos os livros dela já publicados no Brasil e comecei a acompanhar todos os lançamentos dela. Em 2023 eu tinha lido “A Empregada” levada pelo sucesso e barulho que ele fazia lá fora, até mesmo antes da adaptação ter sido anunciada, e o li levando à sério, o que me levou a achar a trama bastante… mais-do-mesmo. Não vi grandes pontos positivos e continuei minha vida de bookstan, lendo meus suspenses, gênero que gosto bastante, mas em 2025 o barulho em torno da autora estava tanto que pensei que estava na hora de ler algo mais dela. E foi ai que cai em um buraco que parece que não tem fim porque Freida parecia lançar um livro por mês aqui, então fui pesquisar e vi que ela tem 28 livros publicados, 4 novelas e ainda um livro que faz parte de uma série de livros de suspense da Amazon, tudo isso em inglês. Só preciso pontuar algo para ficar bem claro: quando li “A Empregada” e levei a trama a sério, não achei nada inovador. Mas quando li “Nunca minta” em 2025 e não o levei a sério, foi ai que um universo novo se abriu: Freida tem o dom de escrever coisas tão absurdas, mas tão absurdas, que juntas formam uma trama de suspense, normalmente com alguma morte e muitas reviravoltas, culminando com mais uma reviravolta no epilogo – por regra, todos os livros dela tem algo assim.

Claro que ela não começou a publicar em 2023 – na verdade, seu primeiro livro, “The Devil wears Scrubs” (“O Diabo veste jaleco”, em tradução livre) foi publicado em 2013, teve uma continuação e não tem nada de suspense, sendo algo mais um romance com pitadas de humor negro. Esses dois livros aproveitam o conhecimento pessoal de Freida sobre hospitais e médicos, já como ela é uma neurocirurgiã que usa um pseudônimo e ainda perucas para ninguém realmente a conhecer (você pode ver um video no qual ela própria fala sobre isso clicando AQUI, legendado em inglês). Por aqui no Brasil, Freida está tendo seus livros publicados por duas editoras simultaneamente: A Arqueiro e a Record e as duas tem publicado os livros mais novos, muitos dos antigos ainda não tendo sido publicados aqui, salvo algumas exceções, e é assim que chegamos em “A Inquilina”, o mais novo lançamento da autora por aqui – mas podem esperar mais que ela tem um livro novo programado para esse ano chamado “Dear Debbie” (“Querida Debbie”, em tradução livre). Mas vamos falar um pouco sobre a formula de Freida e sobre ser chamada de “A Agatha Christie da atualidade”.

Será que acredita mesmo? Eu e Krista estamos juntos há dois anos, mas nosso relacionamento ainda é relativamente novo. Tanto que bastou uma charlatona se passando por vidente que usa roupões e coloca papel-alumínio na cabeça para semear dúvidas na mente da minha noiva. E, convenhamos, sei que não estou mandando muito bem nos últimos tempos.
Quebro a cabeça, tentando pensar no que dizer para tranquilizá-la. Mas, antes que consiga encontrar as palavras, alguém toca a campainha.
Meu Deus, é mais uma.

Blake Porter começa a trama no auge de sua vida. Com anos de formado em publicidade, agora vice-presidente da empresa na qual deu duro para subir e se tornou “amigo” do chefe, aproveitou a oportunidade depois do antigo vice-presidente ter tentado se matar se jogando do alto andar na sala que agora ocupa. Noivo de Krista Marshall, por quem é bastante apaixonado, Blake toma uma rasteira do destino quando seu chefe o acusa de ter vendido uma campanha para uma empresa rival. Claro que Blake fica arrasado, mas, mais do que isso, sua vida tem um impacto direto porque ele não tem como pagar o financiamento da sua bela casa geminada de tijolos marrons em New York. A beira do desespero, Blake quase aceita a sugestão de Krista de vender o belíssimo anel com que propôs casamento para ela, mas, levado pelo orgulho e assombrado pelas lembradas da vida apertada financeiramente que viveu com seus pais, Blake não aceita vender o anel e sim alugar um dos 3 quartos de sua belíssima casa.

Entrevistando pessoas para alugar o quarto que fica no terceiro andar e é basicamente um sótão, decorado como um quarto de hóspedes, o casal, que tem na casa dos 30 anos, recebe uma senhora que se diz vidente e se chama Quillizabeth, que, ao tocar Krista, tem uma visão horrível com a mulher morta na sala da casa, ensanguentada, e a conclusão parece obvia: Blake vai matar Krista. Irritado com a mulher maluca, o homem ainda se mantêm firme ao receber a próxima candidata que logo chega: Whitney. A mulher é tão normal e pé no chão que Black acredita que aquilo ali pode funcionar, e Krista logo oferece o quarto para a nova amiga, que é linda e isso não passa despercebido a Blake. Mas calma que se você pensa que essa história vai para traições e afins entre Blake e Whitney, me permita dar esse pequeno spoiler: não, não vai – o que acontece aqui é uma loucura sem fim e do melhor tipo.

Pego meu celular e digito o nome “Whitney Cross” no ­Google. Fiz uma pesquisa rápida depois da nossa primeira ­conversa, mas, como não encontrei nenhum sinal de alerta, não continuei procurando. Mas, desta vez, pesquiso mais a fundo.
O primeiro resultado é de uma historiadora americana chamada Whitney Rogers Cross, que morreu em 1955, então acho que essa pessoa não tem nenhuma ligação com ela. Passo por pelo menos dez páginas de resultados e nenhum deles se refere à Whitney que eu conheço. Confiro as redes sociais e encontro alguns perfis com o nome de Whitney Cross, mas nenhum com foto nem com informações públicas.
Isso é muito estranho. A maioria das pessoas da minha idade é minimamente ativa nas redes sociais. Mas Whitney, não. Não existe nenhum rastro dessa mulher na internet.
É desconcertante.
Por que será que ela não está em nenhuma rede social? Whitney não parece ter nenhuma aversão à tecnologia — não desgruda do celular. Será que ela está tentando esconder alguma coisa do passado?

O que a principio parecia que iria dar certo logo se mostra que não aconteceria porque Whitney come todo o precioso cereal de Blake, e aqui preciso fazer uma nota para a tradução que foi maravilhosa e meteu um “sucrilhos” para deixar claro que o cereal a que Blake tanto ama é o ç e não o comum (amo quando traduções abrasileiram as coisas, mostrando referências diretas). Blake estava para começar um novo emprego como temporário depois de meses de procura porque seu antigo chefe o queimou para toda cidade, então a sanidade dele parece estar ficando ao longo do caminho enquanto ele tenta se reencontrar, sem aceitar a ideia de ter de voltar pra cidade do pai para assumir a loja de ferramentas que um dia foi de seu avô e que passou para o pai. E esse é um dos trunfos da trama porque enquanto Blake vai se afundando em seu próprio orgulho em um espiral de dúvidas, parece que o cara só está jogando tudo na “garota nova”: a pobre da Whitney.

Depois de a enfrentar em seu trabalho por ela ter comido todo seu cereal (sim!), as coisas entre eles vão ladeira abaixo. Whitney começa a se mostrar debochada (no melhor sentido da palavra), intrometida e ainda conhecedora de seus direitos (não sabia disso, mas em New York um inquilino não pode simplesmente ser mandado embora: precisa ser notificado com antecedência de pelo menos 30 dias e se não tiver para onde ir, pode se recusar a sair!!!) a ponto de enfrentar Blake. Frutas pobres largadas pela casa e roupas sendo lavadas com substâncias que dão alergia em Blake o estão levando a beira da loucura, junto com a sensação de ter falhado na vida, já como seu emprego é muito pouco pra ele, ele acredita. Você não torce por Blake hora nenhuma, mas, se serve de parâmetro, é raro um livro da Freida no qual você realmente goste da personagem protagonista: você lê porque quer ver até onde aquela loucura ali vai, e aqui não é nada diferente.

— Então — diz Becky —, quer dizer que a inquilina de vocês já se mudou?
Krista faz que sim com a cabeça.
— A Whitney se mudou na semana passada.
— Ela é simpática? — pergunta Malcolm.
— Muito simpática — responde Krista. — Ela é uma querida. E mal faz barulho. Para falar a verdade, acho que ela é perfeita.
— Ela é bonita? — pergunta Becky.
Ela olha para mim ao fazer a pergunta. Na verdade, todos olham para mim de repente. E eu olho para as torradinhas que não posso comer.
— Não — digo, porque não sou idiota.

O que vem na sequência nada mais é do que acontece em todo livro da Freida: uma personagem em procura de respostas que são dadas da forma mais novelesca possível. Viajando e tentando descobrir quem Whitney realmente é porque fica claro que a mulher está escondendo algo e talvez Blake tenha uma resposta que jamais esperou porque é obvio que vem uma reviravolta gigantesca na cara do coitado (nem tanto), do jeitinho que a autora sempre gosta de fazer. Sempre há pistas do que aconteceu e da motivação para o que acontecendo com quem quer que seja a vitima da vez, e aqui não foi diferente: Blake guarda segredos e isso é o tempo inteiro apontado, desde a ideia de que ele tenha realmente vendido a campanha da empresa na qual trabalhava até mesmo com Krista perguntando como ele conseguiu dinheiro para dar a entrada na casa que agora moram.

Mas verdade seja dita: Freida só consegue deixar esse ar de “O que está acontecendo?” porque ela se aventurou em escrever sobre o ponto de vista masculino, coisa que quase não faz (ela própria admite nos agradecimentos ao seu marido) e também por ter feito um cara que é mesquinho, egoísta, egocêntrico e que se acha um cara bastante decente e legal. A falta de se enxergar como realmente é faz de Blake uma presa fácil para o que está acontecendo e quando todas as peças se juntam, você pode achar demais, mas, ainda assim, você não fica sofrendo por ele porque ele não era um cara legal, e requer coragem para uma autora escrever esse tipo de personagem, mas o que falta para Freida é coragem – e imaginação (até demais).

Ah, é? Acho difícil de acreditar. Considerando o que aconteceu no seu último emprego…
Considerando o que aconteceu no meu último emprego? O que ela quer dizer com isso? Ela não sabe do que está falando.
Whitney olha para o relógio no pulso.
Enfim, vou indo. Não quero me atrasar.
Espera. — Tento segurar seu pulso, mas ela puxa o braço com força. — Do que você está falando? O que você está sugerindo?
Ai, Blake — suspira ela. — Você deveria se preocupar mais com você mesmo. Você está com uma cara péssima.
Depois de soltar essa, ela passa por mim e bate a porta, saindo. Como eu queria ter dinheiro suficiente para mandá-la embora daqui. Seria melhor ainda se eu nunca tivesse precisado de um inquilino, para início de conversa.
Esfrego os olhos. Será que estou mesmo com uma cara péssima? Fico tentado a conferir minha aparência no espelho do banheiro, mas tenho a impressão de que não vou gostar do que vou ver. A falta de sono está de fato acabando comigo.
Por que ela comentou aquilo sobre o meu trabalho? Antes de Whitney começar a me odiar, tivemos algumas boas conversas, mas eu nunca contei para ela o motivo de ter sido mandado embora. Será que ela sabe? Ou será que está só me provocando? Não há a menor chance de ela saber o motivo pelo qual fui demitido. A não ser que…
Sinto um frio na barriga. Será que o fato de Whitney ter vindo morar na minha casa é mais do que uma terrível coincidência? Será que ela arquitetou tudo desde o início?
Será que ela está querendo acabar com a minha vida desde o momento em que se mudou para cá?

É um fato sobre todos os livros da Freida: tudo poderia ser resolvido se as pessoas fossem minimamente racionais e por isso digo que quando levei “A Empregada” à sério, não gostei – mas depois só embarquei e aceitei as personagens malucas que se apresentam nas tramas de Freida, me apaixonei pelas tramas rocambolescas dela. Para ilustrar o que digo, uso de exemplo o livro “O namorado”, no qual há pessoas morrendo dentro do prédio da protagonista, Sydney, que acredita que está sendo perseguida por seu namorado, mas ela continua vivendo a vida e saindo em encontros porque a vida tem que continuar. Ou ainda em “O Detento”, no qual a personagem principal, Brooke, uma enfermeira, decide se canditar e aceitar o emprego em uma penitenciaria no qual o ex-namorado preso por matar pessoas está e ela supostamente guarda um segredo imenso dele e não quer que ele descubra nunca, mas vai lá ficar pertinho dele! Acho que vocês já entenderam: não há lógica no que as personagens fazem, mas há toda uma razão sobre criar uma trama quase mexicana que diverte, prende e que é escrita com capítulos curtos para justamente manter o leitor ali, grudadinho nas páginas.

O que quero deixar claro é que você quer começar a ler qualquer coisa da Freida e precisa de um empurrão, estou aqui para te empurrar ladeira abaixo. Foram poucos livros dela que não me divertir lendo e, sendo sincera, nem todo livro precisa mudar vidas ou ser imensamente sofisticado, com trama que seja crivel. Algumas vezes você só quer se divertir lendo sobre coisas malucas que podem acontecer com alguém, já como há 8 bilhões de pessoas no mundo, e ela tem feito tanto sucesso que tem todos esses livros sendo vendidos a ponto de ter um cupom ativo na Amazon com 20% de desconto – clique AQUI e aproveite uma seleção de livros da autora. Só vá e se divirta, seja feliz e leia esses livros sabendo que não, Freida não é nova Agatha Christie, mas definitivamente ela é a Freida McFaden e tá tudo bem! Se pudesse dizer algo para esta digníssima autora, seria para ela continuar escrevendo esses livros tão divertidos e espalhar maluquice pelo mundo porque precisamos nos divertir com pessoas burras fazendo maluquices e sendo nada racionais. É maravilhoso. Indico.

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