Resenha: Apenas Humana – Carol Chiovatto

“Apenas Humana”
Carol Chiovatto
Arte de Capa: Bruno Romão
Suma – 2026 – 368 páginas
Ísis Rossetti é bruxa e intuitiva, responsável por investigar ocorrências paranormais na cidade de São Paulo. Ela enfrenta casos complexos, relatórios intermináveis e cobranças constantes, além de um Conselho de telepatas mais interessado em disputas de poder e burocracias do que em proteger os comuns. Para piorar, tem que encarar o trânsito caótico e o metrô lotado, e mal tem tempo de respirar. Afinal, é apenas humana.
Quando um caminhão desgovernado avança o sinal numa avenida movimentada e provoca um acidente fatal, Ísis consegue evitar por pouco que ela e o amigo, Murilo, também saiam feridos. O motorista jura ter visto o fantasma do pai antes de perder o controle e, para a bruxa, esse será o início de uma sequência de mistérios repleto de almas perdidas. Quando os problemas começam a convergir, ela contará com a ajuda de Victor Spencer, corregedor que ela antes achava insuportável, mas que agora não tem tanta certeza.
Na aguardada sequência de Porém Bruxa, Ísis e Victor irão enfrentar uma força maligna e vingativa, que se oculta e ataca quando menos esperam. E, em meio a uma intriga que envolve seus próprios aliados, eles terão de descobrir em quem podem confiar.
Comecei a resenha de “Porém Bruxa”, o livro que vem antes de “Apenas Humana” explicando a dificuldade que tenho de resenhar livros que amei. Isso foi em 2023. Pois muito bem, estamos em 2026 e continuo com o mesmo problema porque eu simplesmente AMEI (em caps mesmo) este livro novo da lindíssima e inteligentíssima Carol Chiovatto, que entrega tudo que amamos no primeiro livro mas em uma trama mais intricada ainda, com uma ameaça que foi realmente de tirar o folego e ainda de quebra desenvolveu o romance – sério, o que tem para pedir mais?
Outro dia estava conversando com a Ju como as sequências cinematográficas estavam decepcionando quem esperou tantos anos por estes filmes (oi, “O Diabo veste Prada 2”, estou olhando para você!), mas te garanto que não foi o caso aqui. Três anos separam a edição da Suma da sua continuação, com 7 anos de sua publicação original, mas todos esses anos de espera valeram a pena porque a trama realmente é perfeita. Tive a chance de falar isso pra Carol e ainda deixar claro que, na minha cabeça, o 3º livro virá ai sim porque o mundo (e São Paulo!) precisa de mais Ísis.
A vida é tão frágil. Bastaria não ter me ouvido para estarmos mortos. Ou a insistência das buzinas tê-lo irritado o suficiente para fazê-lo acelerar de novo. Ou seus reflexos falharem. Uma ínfima escolha diferente acabaria com tudo, e perceber isso paralisava.
De pernas bambas, Murilo saiu do carro e cambaleou até o banheiro do posto na esquina. A aglomeração em torno dos respingos de sangue no asfalto embrulhou meu estômago, mas me enfiei entre os curiosos, à procura de sobreviventes.
Como sugeria o estado dos carros atingidos, não havia nenhum. Restavam ecos das consciências esvaídas, cessadas ou transformadas em alma — a depender da crença ou da descrença da pessoa em vida —, fragilizando a fronteira entre os planos. Uma cicatriz a mais numa cidade já tão marcada.
A surpresa neste livro, pelo menos para mim, fica com a ambientação: passaram-se apenas semanas desde o fim de “Porém Bruxa”, ou seja, os eventos do final do primeiro volume ainda estão se desenrolando, então se você não quer nenhum spoiler, fique por aqui, leia a minha resenha sem spoilers do primeiro livro clicando AQUI e seja feliz porque estes dois livros precisam ser lidos: tem magia, tem romance bem construído, tem São Paulo de fundo, tem burocracia como só um órgão grande pode ter, tem diversidade, tem protagonista que chuta bundas – ENFIM, tem tudo que a gente quer. Ok, avisei. Bora continuar.
Como já falei, semanas se passaram e o Fábio Siviero ainda está preso, afastado de seu lugar de Corregedor por tudo de errado que já fez, inclusive por traumatizar Ísis da forma como tudo que aconteceu. Para quem não lembra, o homem é um telepata e, usando seu poder, ele entrava na mente de Ísis e abusou dela tão intensamente que a deixou com Transtorno de estresse pós-traumático. Parte da personalidade tão sarcástica e tão forte de Ísis vem justamente do seu mecanismo de defesa para lidar com as pessoas sem correr risco de demonstrar ou mostrar sobre os traumas que carrega. Agora um tanto mais centrada, aprendendo a lidar com tudo que aconteceu e dando uma chance pelo que sente por Victor, Ísis já vê de cara seu mundo mais uma vez virar de cabeça para baixo quando ela e Murilo quase morrem em um acidente de carro em São Paulo. Comum, certo? Não.
Para um fantasma conseguir tocar — e ferir! — uma pessoa, era preciso tempo. Ainda assim, não deveria ser capaz de afetar o plano material de modo tão tangível, nem mesmo se sua vítima o ancorasse, e não era o caso. Não ainda. Apaguei a lanterna. Ele estava tentando se libertar da casa, se fixando em Luana. Talvez o estado mental da menina o fortalecesse — ou ele tivesse mesmo recebido ajuda. Soava cada vez mais provável; não era comum almas perdidas saberem como transformar pessoas em pontes para a materialidade.
Claro que acidentes de carro em São Paulo são mais comuns do que deveriam ser, mas aqui temos um motorista de caminhão que mata pessoas depois de afirmar que viu seu pai. O problema? O pai dele está morto. Ísis e Murilo só não entraram na contagem de corpos porque a intenção de nossa bruxa gritou e a fez falar pro seu amigo não passar o sinal. O que começa como um caso isolado vai se somando a uma garota que ela vê passando pelo MASP e atrai sua atenção e ainda outra mulher que bate no carro de Murilo? Claro que é algo complexo e que se une em uma única trama, mas temos Ísis novamente sendo carregada para o centro da ação em momentos de real perigo.
Preciso destacar mais uma vez o quanto Carol domina lidar com assuntos sensíveis de uma forma tão delicada e isso é iuma das coisas que mais amo na escrita dela. Sendo mulher, com uma protagonista mulher, em uma trama hanbientada no Brasil, temos Ísis mais uma vez cara a cada com uma violência contra uma mulher na forma de Luana, a personagem de quinze anos que ela vê no MASP e que começa a desenrolar bem mais do que inicialmente esperado. Não precisa de muito para deixar claro que mulheres, principalmente meninas, são sempre as que mais sofrem violência em relacionamentos – e aqui, até mesmo no pós-vida. Luana ainda tem um irmão, Roberto, que vai se tornando cada vez mais jogado em toda trama não só envolvendo sua irmã, mas tudo de ruim que vai acontecendo.
— Já ouviu falar de um artefato capaz de causar a impressão de ter… sei lá, vontade própria e… consciência? — perguntei.
— Um livro de almas, talvez?
Abri a boca para retrucar e ela ficou aberta. Condizia com o material usado na confecção do livro, segundo o relato de Luana sobre as explicações de Maria Clara. Pele humana.
— Achei que tinham selado todos no cofre do Conselho no início do século xx — murmurei.
Enquanto em “Porém Bruxa” vemos pouco da Cidade dos Nobres, em “Apenas Humana” vemos mais do lugar na trama, que também mostra mais da hierarquia dos Bruxos, principalmente com o trabalho de Victor, que retorna mais uma vez, mostrando que ainda existem bons caras por ai, mesmo que no caso aqui seja somente no livro. Conhecemos também Anna, a prima mais nova de Victor, que quer muito ajuda Ísis, mesmo quando ela não queira ter de lidar com uma adolescente. A trama vai caminhando na direção de um tal livro que leva a uma grande reviravolta, que não dá pra comentar muito sem entregar a trama, então só confiem em mim e se joguem porque o livro leva o tempo que requer para se desenvolver, sem pressa, mas também sem enrolar o leitor. A ação aqui acontece intensamente, como quando Ísis tem um sonho com sua mãe e a livra de tomar uma facada – parei, sem spoilers!
Murilo, Dulce e Fernanda voltam aqui, mesmo que em papeis menores e mais de suporte, mas é sempre bom ver estas personagens que se tornaram importantes dentro do universo. Victor aqui aparece mais e tem um papel maior, até para o desenvolvimento do romance entre ele e nossa bruxa favorita. Mais uma vez toda construção do universo, as magias feitas e as cenas com entidades e espíritos são necessariamente colocadas de um jeito que ensina como fantasia realmente precisa ser feita: nem pirotecnia demais, nem construção de personagens de menos. Carol Chiovatto deu um show ao mostrar que pode ter demorado para escrever a resenha, mas também mostra que uma boa trama precisa de tempo para maturar, e me sinto mais do que feliz por esperar por este livro, que ficará entre os melhores do ano pra mim, com toda certeza – sem porém ou apenas.
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