Resenha: Nódoa – Calila das Mercês

“Nódoa”
Calila das Mercês
Arte de Capa: Giulia Fagundes
Companhia das Letras – 2026 – 160 páginas
Nódoa é narrado por duas personagens: Regina, que sobrevive a um quadro de catalepsia, e Lurdes Maria, com quem a Regi partilha um complexo vínculo fraternal. Neste interior de mundo bastante particular, nos anos 1960, elas fazem parte de uma família unida por laços que extrapolam o sangue, são marcados por afeto, cuidado e tradições.
As várias mulheres que povoam essas páginas estão em constante deslocamento, em travessias que as põem diante do custo das partidas, da expectativa das chegadas e dos mais variados desafios de ser uma mulher migrante. A personificação deste movimento é Dona América, figura misteriosa e quase mítica, cuja trajetória funciona como fio que conecta as demais personagens ― inclusive uma que surgirá décadas depois.
Em seu romance de estreia, Calila das Mercês constrói um palimpsesto de histórias femininas que se entrelaçam ao longo de gerações. Em uma prosa que explora a forma e a própria materialidade da escrita ― outro tema central para a autora ―, coexistem vozes, tempos e registros distintos, como lembranças, notícias, relatos orais, legendas de exposição, cartas e fragmentos de caderno. Por meio desta engenhosa trama subterrânea, o livro desperta uma reflexão a respeito do que são feitos os nós que nos unem, nos sustentam e nos mantêm vivos ao longo do tempo.
Poucos livros que li na vida tem o tom que “Nódoa” tem, mas, lendo sobre a autora, compreendi que era o seu primeiro romance. Autora de de contos também, Calila das Mercês escreve poesias, e é ai que compreendi o tom lirico e ritmado da narração, algo que somente algo acostumado a escrever assim conseguiria. Apesar deste tom, não se iluda, porque o temos aqui é um livro que mostra mulheres em uma grande história conectada, repleta de lembranças, partidas e chegadas, deixando uma marca maior do que esperava-se – ou seria uma nódoa?
Como se fosse, não é.
Foi Regina quem entrou comigo no meu casamento. Foi ela quem entrou comigo na minha formatura do magistério. Nunca foi essas coisas como mãe, nem minha nem dos próprios filhos, digo ser alguém que me desse um colo, um abraço, uma ideia, um conselho amigo. Um parabéns pelo meu aniversário ou por ter passado de ano, ou por ter conseguido mover todas as plantas de um quintal infinito de um lado pro outro, uma lanterna pra estudar à noite em vez de velas pra economizar um filete de energia em Oitizeiro. Era estranho eu ser irmã como se fosse filha, como se fosse alguma parte que não sei o nome. Lurdinha era como todo mundo me chamava, e eu nem gostava tanto assim do meu nome. Meu nome é Lurdes Maria e a prosa não é sobre o mundo de todos, até porque lá era uma dose, cinco centavos de mundo. A história é sobre o nó que tem no nosso mundo, o nó do ar e do mundo todo. Como se fosse, não é. E não é mesmo.
A história tem como narradoras Regi e Lurdes (com u assim mesmo), mas se pudesse apontar uma protagonista, diria que é o centro é Dona América, ligação entre tempo e histórias. Contato em um linha do tempo não cronológica, começa como um quebra-cabeças sendo montado a cada página, a cada linha que vai sendo lida, completando essa narrativa sobre mulheres que preenchem todas as linhas.
Mas, além de não ser contado em linha cronologia crescente, o livro também se constrói com cartas, passagens escritas por personagens e até mesmo relatados de terceiros, que vão construindo a personalidade de mulheres fortes, que saem para o mundo procurando um lugar no mundo, um trabalho que seja capaz de lhes proporcionar dignidade e, principalmente, tentam descobrirem quem são, o que querem e para onde estão indo, com respostas que podem ser não a que esperam exatamente.
Dona América sempre dizia Regina, minha filha, só sabe fazer um nó bom quem consegue desatar. E assim é a vida, tensiona e afrouxa, com simplicidade a gente aprende a desapertar quando precisa. Sair do saco me fez pensar nisso.
Como a sinopse entrega, Regi sofreu um episódio de catalepsia, que é quando a pessoa realmente parece morta, com os sinais vitais praticamente imperceptíveis. Dada como morta por um tempo, vemos Regi acordar e conseguir sobreviver, apesar de ter sido colocada dentro de um saco para corpos, e se questionar onde sua companheira de viagem está. O que começa com o questionamento de onde estaria se não soubesse fazer aquele nó, a jornada do leitor vai sendo levada para compreender o que aconteceu na vida daquelas mulheres comuns, já como as narrativas se entrelaçam, que conhecemos todo o tempo.
A complexidade da trama me afastou um pouco dela a principio, porque fica um tanto quanto confusa porque há uma inquietude nas personagens, que são exatamente o que falei, mulheres comuns que estão tentando descobrir muito e ganhar o mundo, mesmo quando a vida apresenta mudanças que elas não esperavam. A mudança para São Paulo procurando isso parece sempre o caminho que muitos nordestinos percorrerem e é durante uma viagem que Regi é dada por morta, com o questionamento sobre o que aconteceu realmente se perdurando a narrativa, que termina não se aprofundando tanto quanto poderia em alguns temas, apesar de ter um ponto que me pega muito, porque mostra que o amor familiar cresce da convivência, não do sangue.
Tentar a vida. O que seria esta ideia de tentar o que nos é imposto desde o momento que retiram a gente, ou expulsam, do ventre de alguém que nos gestou? Daí só nos resta tentar? Ou aceitar como é? Ou somente dormir e acordar? Deixar passar?
Tentar é tipo uma fuga? Uma luta contra o impossível? É ver uma passagem de rua virar casa ou uma casa virar uma passagem? Loucura?
Mas “Nódoa” também deixa uma pergunta que não consigo responder e ouso dizer que quase ninguém realmente poderia responder: depois de voltar da morte, você ainda seria o mesmo? A jornada de Regi está começando (ou recomeçando) enquanto ser perpetua na história dessas outras mulheres, tão simples e corriqueiras, mas tão fortes e marcantes. E se você terminar se questionando sobre qual nódoa o título faz, só posso dizer a minha interpretação de ser a marca que nunca se apaga, e isso também se chama “memória”.
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