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Resenha: Um homem bom – Waldomiro J. Silva Filho

“Um homem bom”
Waldomiro J. Silva Filho
Arte de Capa: Alceu Chiesorin Nunes
Companhia das Letras – 2026 – 160 páginas

Nós não sabemos o nome do personagem e narrador deste romance. Porém, desde o primeiro parágrafo, sabemos que se trata de uma daquelas pessoas que trazem sob a pele a marca irremovível de ser uma vítima das crueldades do século XX. Sobrevivente involuntário, arrebentado e desorientado, ainda lidando com os efeitos da tortura e dos ensaios de sua execução pela ditadura brasileira, ele vasculha sua pouco confiável memória, seus esquecimentos, escavando as ruínas da história e de sua família. O narrador procura algo ― só não sabe o quê ― que o mantenha vivo, que o faça não desistir. Diante do mal, ele tenta dizer o indizível, evocar o que não tem nome.

Em seu segundo romance, Waldomiro J. Silva Filho constrói uma narrativa de densidade emocional e fluidez poética únicas, em que presente, passado e um passado ainda mais distante se entrelaçam no mesmo parágrafo. Ameaçado por uma espécie crônica e fatal de afasia, o narrador de Um homem bom vai reunindo palavras, frases e histórias que aparecem em discos e livros de autores como Belchior, Gilberto Gil, Atahualpa, Nabokov, Jean Améry, Primo Levi e W. G. Sebald, e assim, enquanto escreve, segue adiante como pode.

Há tanto ainda que se pensar e falar sobre a ditadura militar que é espantoso. Como geração que não viveu a ditadura e não conheceu ninguém que foi afetado diretamente, é estranho pensar na quantidade de pessoas que foi afetada pela morte, pelo sumiço e por ter sobrevivido a uma época tão dura e difícil, e é isto que “Um homem bom” nos entrega: uma grande analise sobre como as pessoas que sobreviveram se sentiram nos anos porvir.

Foi quando ouvi o ronco do carro se afastar em disparada. Sem que eu fosse alertado, minha pena capital fora comutada e, no seu lugar, fui condenado a carregar comigo para sempre um pesadelo, essa tal melancolia, uma superioridade moral triste e cul­pada. Não recebi uma bala na nuca, mas continuei a esperar por ela, tentei acordar do pesadelo, abria os olhos, tudo parecia calmo, saía de casa para trabalhar, mas era um sonho dentro do sonho, eu ainda estava ajoelhado à espera da bala atravessar meu desamparo e me acordar do mundo. Aquela bala aplacaria meu medo e encerraria minha busca infrutífera. Um morto se desape­ga dos suplícios que sofreu, não acorda de noites não dormidas, não grita uma dor do dia anterior, não perscruta a verdade. Para um torturado, a morte é uma saída. Aí só me restou continuar respirando, mexendo as pernas e balançando os braços. Não demorou muito, eu já estava desgarrado do movimento, me afastei da luta, já não enxergava a história guiando meu passo. Num rompante, antes que eu desse cabo de tudo, fui embora de Salvador, tentando largar o remorso para trás, fui morar em São Pau­lo para me perder na multidão e me deixar esquecer. Para um torturado (existe ex-preso político, mas não ex-torturado), o esquecimento também poderia ser uma saída, mas ele não esquece. Eu poderia ter levado aquela bala sem ter tido tempo de saber o sentido. Foi como se eu tivesse recebido um bônus, como se o fim fosse adiado para que eu encontrasse o sentido. Ou pode ter sido apenas o sadismo do meu torturador que sabia que eu seria, para sempre, um homem torturado. E veja que, de lá para cá, tantas vezes o planeta girou ao redor do sol desde que o lp Alucinação girou pela primeira vez na minha vitrola, a cada frase que me vem no esforço de dizer alguma coisa, mesmo uma tolice, as palavras “inferno”, “sofrimento”, “dor”, “padecer”, “tor­tu­ra”, ficam socando as paredes do que restou da minha memória. E eu nem sei mais o que elas significam, palavras ásperas e intru­sivas que, com a repetição mecânica dos “erres” — rrrrrrrr, inferrrrrno, dorrrrr, sofrrrrrrrrimento, torrrrrrturrrrrrr-ra —, arranham, arrastam, carregam, roem, mas não dizem coisa alguma, não se dirigem a ninguém. Juro, isso me desagrada mais do que a você, saiba disso.

Contado em forma não cronológica, alternando entre os anos de 2001, 1995, 2022 e 2017, a narrativa nunca nos mostra todos os dias de cativeiro de nosso protagonista, que foi preso e sabemos que foi torturado. Não vemos gritos, não vemos a violência que aconteceu, mas vemos tudo pelos olhos do homem que foi tentando juntar o que sobrou de si e que tentou construir uma vida para si, com novos relacionamentos, já como os amigos foram mortos. A tristeza e a melancolia começa a fazer parte da personalidade do homem, e quem pode dizer que não havia motivos?

Entre a sensação de se encontrar em músicas e trechos de cantores e compositores que também sofreram com o regime brasileiro e autores que enfrentaram em seus países situações semelhantes, vemos a construção de uma realidade na qual sobreviver deveria se constar como uma vitória, mas, ao mesmo tempo, não soa como tal. Continuar vivo entrega mais a sensação de injustiça e dúvidas do que o alívio de poder se perpetuar.

E se eu tivesse sido fuzilado ali mesmo, na poça de água barrenta? E se eles jogassem numa vala meu corpo imundo e sem vida, sem alma, é óbvio, sem ideais, e ele sumisse misturado à terra para servir de alimento aos vermes, fertilizar o mato? Haveria alguma dignidade extraordinária nisso? Figurar em um painel com mais quatrocentas fotografias 3×4 em branco e preto alçaria minha existência a uma condição humana especial e, morto, eu sentiria a doçura da glória do herói nacional? Minha covardia, minha confusão mental no minuto final estariam purgadas? Foi imperdoável eu não ter encontrado o fio de sentido da minha vida naqueles segundos antes do clique do revólver que não veio. Não! Foi vergonhoso, foi ridículo da minha parte. Eu estava confuso, clique, acabou. Mas o cara escroto que comandava a operação decidiu que me daria mais um tempo para pensar melhor e, no dia em que eu encontrasse a resposta, qual seja, que não há sentido algum, eu mesmo me jogaria nos braços do vazio.

Nascido na Bahia, com diversas passagens por cidades deste estado, o homem pensa sobre escrever sobre o que lhe aconteceu, pensa em escrever sobre tudo que lhe aconteceu, entregando este livro como sua experiência e todos sentimentos que nos levam a acreditar que o homem conviveu por todos aqueles anos com uma grande síndrome do sobrevivente, que apesar de não ser um diagnostico de saúde mental nos manuais de psicologia, é algo observado em diversas pessoas que passaram por situações traumáticas. É uma leitura profunda, calma, quase que uma conversa com os pensamentos próprios transcritas para um amigo, que aqui toma a forma do leitor.

O livro começa justamente com o homem indgnado com seu psicologo, que o interrompe no meio de um pensamento. Parece haver muito mais do que também somente tristeza e essa sensação pesada de ter sobrevivido em meio a um caos gritante, mas aos poucos vamos entendendo mais e mais a sensação de falta que habita em nosso protagonista, que justamente nos mostra como os relacionamento dele haviam de se aprofundar se ele mesmo não permite, sempre mantendo uma barreira em torno de si, uma distancia segura com a sensação de que poderia (e deveria) ter feito algo. Mas que algo é este? Não acredito que haja uma resposta, mas, neste livros, temos diversas perguntas sem respostas.

De todos os pensamentos que me incendiaram até hoje, além da memória da tortura que nunca vai embora, o mais perturbador é reconhecer que eu sou e não sou a mesma pessoa que foi capturada, levada à masmorra, a mesma pessoa que andava de bicicleta sem usar as mãos, que levou uma bofetada que comprometeu a audição do ouvido esquerdo, o homem que considerou seriamente ter o direito de empunhar uma arma por sua causa e matar por essa causa, um homem que ouvia música como quem consulta oráculos, que dormia até tarde nos sábados chuvosos de abril, eu sou e não sou a mesma pessoa por causa de um único evento: ter sobrevivido. Nada mais. E agora estou aqui e escrevo estas palavras, algo que nenhuma outra pessoa poderia escrever, estas frases. Eu sou aquele que escreve estas frases… Eu não seria esta pessoa se, pelo menos por um instante, não tivesse querido salvar a humanidade e, na mesma medida, tivesse perdido o dom para fazer isso, a pessoa que não consegue abandonar as sessões de interrogatório nem desviar das bofetadas. Tudo aquilo, toda a esperança e boa vontade, todo o horror, me transformou, assim como todos os meus erros e fracassos com meus amigos, com minha mulher, com minha filha, a minha amnésia medicinal, minha bondade, minha fuga, minha covardia, meu lapso verbal, me transformaram, assim como meu fracasso com a salvação do mundo modificou minha vida. Tudo isso me transformou, só não sei em quê.

Um homem bom” é um livro sobre sobreviver. O protagonista se apresenta como um homem que esteve à beira da morte durante a ditadura brasileira, com uma arma apontada para sua cabeça depois de torturado, mas, por algo que nunca entendeu, a vida continuou. Sem morte. Sem sua morte. Mas só fisicamente, porque mentalmente, sua consciência ficou presa aquele momento, repetindo em um loop infinito aquele momento que, com toda razão, marcaria sua existência, e por isso entendo que a partir de sobreviver a esta violência, o homem realmente passou somente a sobreviver, e não mais viver, o que configura uma espécie de morte. O que se fazer a partir dai? Não sei a resposta. Você sabe?

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