Resenha: Outras guerras – Leonardo Brasiliense

“Outras guerras”
Leonardo Brasiliense
Arte de Capa: Mateus Valadares
Alfaguara – 20260 – 136 páginas
Neste romance preciso, magistral, três homens se isolam numa praia sem começo nem fim, com a tarefa de zelar pelo funcionamento de um farol de navegação. Durante quase três meses, vivem e trabalham em instalações simples ao redor do farol, cercados de areia por todos os lados. Mas o que os leva até lá não é necessariamente o dever, e sim o medo e a culpa, a penitência e a fuga.
Agostinho, o mais velho, tem problemas com a bebida e, ao se voluntariar para o farol, acredita estar purgando um ato sem perdão: alcoolizado e sem memória, foi acusado de algo abominável e não tem como se defender. Ariel, o mais novo, foge para tentar se encontrar: nunca tomou decisões por conta própria, foi sempre influenciado pela vontade dos outros, e agora, na solidão do farol e dedicado aos seus orixás, procura entender quem realmente é.
Já Skawinski está ali pela culpa e pelo desejo. Cresceu sem a mãe, com um pai ausente, e desde cedo ficou aos cuidados da meia-irmã mais velha, Vanda, com quem criou um laço afetivo perigoso. Jovem sem pouso nem futuro, teve de ser acolhido na casa dela e do marido. Mas o amor por Vanda e a impotência perante seu casamento o forçaram a partir.
Isolados no farol, são acossados pelo vento e pela areia, que se acumula, invade e encobre tudo. Os marinheiros, afundados em suas guerras pessoais, em breve serão tomados também pelo delírio.
“Outras guerras” é um livro sobre pessoas e suas escolhas na vida. Três homens de diferentes idades e diferentes motivações, escolhem ficar isolados por 85 dias em um foral na praia mais extensa do mundo, que fica justamente no Rio Grande do Sul– são fatos reais, mas, apesar disso, o nome da praia não é citado nominalmente no livro. Os homens não chegam juntos e nem vão embora juntos, chegando em dias alternados, trocando de posto com os outros homens que já estavam no lugar, e é justamente a história pessoal de cada um que constrói a trama do livro.
No extremo sul do Brasil, a praia mais extensa do mundo, e três marinheiros responsáveis pela manutenção e segurança de um farol náutico. Voluntários, deverão permanecer aqui oitenta e cinco dias cada um, sem contato com família ou amigos. A natureza inóspita isola-os: a mais de cem quilômetros da base militar, sem estradas, o local só se alcança cruzando a areia. Oceano de um lado, dunas em cordão do outro, a praia parece não ter fim; entretanto, olhando para trás, como também não vemos seu início, ela não parece então infinita, e sim eterna. Tudo que esses homens tragam para cá e tudo que eles criem neste lugar pode parecer eterno — quando o passado deles lá fora e o presente coexistem indissolúveis, confundem-se. Chamam o lugar de abismo horizontal, onde a quebra da horizontalidade constante, referência para navegadores não se perderem, é ele, o farol. Mas o farol necessita de proteção: a areia trazida pelo vento — que não teve início nem terá fim — irá soterrá-lo se os três marinheiros, navegantes em suas próprias vidas, não varrerem sem trégua.
Ariel é o mais novo do grupo e está perdido. Talvez pela idade, talvez por sua personalidade, o rapaz sempre foi levado pelas escolhas alheias. Pareceu simplesmente uma boa ideia seguir o que queriam para ele e ir parar naquele farol, tentando guiar outras pessoas enquanto ele próprio ainda não tem a menor ideia do que fazer com a sua vida. E é justamente Ariel que começa a conduzir o fio da narrativa ao desaparecer, sem deixar o leitor sabe o que aconteceu com ele – desertou? Sofreu um acidente? Foi morto? Se há uma resposta, só pode estar com Agostinho e Skawinski, os seus companheiros naqueles dias no farol.
Já Skawinski tem uma história que flerta fortemente com o incesto. Criado pela mãe e pelo pai, mas com a forte presença de Vanda, sua meia-irmã cinco anos mais velha, que a mãe basicamente criou como filha quando se casou com o pai viúvo. Atormentado pela perda dos pais e pelo casamento da irmã, o homem, ainda jovem, decide fugir para o farol para tentar se reconstruir.
Agostinho chega à porta, escora-se no batente.
“Vou reportar pra base”, Skawinski diz.
“Calma. É cedo. Ele vai aparecer.”
O grilo canta sobre a firmeza para Iemanjá.
“Já decidi”, Skawinski insiste.
Agostinho entra no quarto, faz uma concha com as mãos e captura o grilo.
“Não é coisa pra tu decidir sozinho”, ele diz.
“Eu sou o superior aqui. É minha responsabilidade.”
O grilo escapa das mãos de Agostinho e pula para a cabeceira da cama e vai janela afora.
E então temos Agostinho, que foi meu principal problema neste livro. Como fica claro na sinopse, por estar bêbado, é acusado do mais vil dos crimes: abusar de sua enteada, uma garota que parecia estar tendo sentimentos parentais por. Namorando a mãe da pequena Estela, depois de anos perdido sem achar sentido para sua vida ou sobre o que fazer, as coisas parecem entrar em uma rotina de bebidas e drogas com a mulher, mas, de certa forma, estável. Até que um dia acorda com os gritos da namorada, apontando a filha desnuda na cama dela. Nessa altura, meu estomago dava voltas depois de tanto pedir para a trama não ir para este canto.
Mas – e é um GRANDE mas – não posso continuar comentando a trama porque reviravoltas acontecem e confesso que não entendi o sentido real. Digo, sou adulta e consigo entender que algumas pessoas são simplesmente ruins (e não estou dizendo quem) mas tive problemas de aceitar toda a conclusão desta subtrama. E, infelizmente, é tudo que posso dizer.
Ele perdeu a referência ao cair e rolar duna abaixo. Espreme os olhos e observa o entorno: nenhum relevo saliente. Anda a esmo em busca de uma massa sob a areia, e nada. Mas o cheiro está ali, próximo, intrusivo, inegável.
Ouve gritos e olha para o céu: um par de carcarás voa em círculos. Ele acompanha o voo dos carcarás, andando de ré, e tropeça, cai sentado.
Sim, ele tropeçou na coisa.
O farol, o casal que teve de mudar porque as dunas de terra resolveram reclamar o lugar que a casa deles estavam, o casal que estava tentando fazer uma caminhada pelo lugar, todas essas personagens terminam sendo somente um peão no tabuleiro das guerras que cada um dos 3 homens enfrentam, e cabe a nós, aceitar essas guerras e tentar entender que a vida pode não te entregar respostas concentras porque, assim como nossos amigos protagonistas, a vida é realmente uma guerra interna. E depois mais uma guerra. E mais outra.
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