
Richard Chizmar
Tradução: Marcello Lino
Capa: Raul Fernandes
Valentina – 2026 – 591 páginas
Por isso eu não estava muito preocupado com o misterioso saco preto naquela manhã. Deve ser um monte de folhas, pensei. É bem provável que tenha caído da traseira de algum caminhão. Nada de mais. Até eu me aproximar… e me dar conta.” No verão de 1988, o jovem Richard Chizmar foi catapultado para o centro de um pesadelo quando um serial killer – apelidado pela mídia de Bicho-Papão – começou a assombrar sua pacata cidade natal.
De lá para cá, muitas coisas mudaram. Muitas mesmo. Hoje, mais de trinta anos depois, o próprio Chizmar – apesar de já ter alcançado um certo nível de celebridade e fama como autor best-seller – continua sendo a única pessoa com quem o assassino se abre. Chizmar acredita que está prestando um serviço à comunidade ao visitá-lo na prisão, pois há outras vítimas, outros casos sem conclusão.
Quem sabe assim o Bicho-Papão revela seus segredos, levando um pouco de paz às famílias enlutadas? Contudo, acaba descobrindo que, para ir ao inferno e dançar com o diabo, há um preço a ser pago. O pesadelo está de volta e, ao que parece, mais aterrorizante, mais complexo, mais cruel. Enquanto a história se aproxima de uma conclusão devastadora, somente uma pessoa tem todas as respostas – e talvez essa pessoa seja, ou tenha se tornado, um monstro ainda mais maligno.
“O Bicho-Papão está de volta” conseguiu algo bastante difícil: ser um segundo livro ainda melhor do que o seu antecessor, e falo isso com tranquilidade. Seguindo os passos e formato de “Perseguindo o Bicho-Papão”, com fotos de personagens, locais e provas, este segundo livro coloca o autor como um protagonista que não só viu o que aconteceu, mas no centro de uma trama que se desenrola com motivo e velocidade com base no que já foi apresentado. O ritmo não para, não há esmorecimento da trama e não há como se pensar que Chizmar não sabe exatamente o que está escrevendo e não simplesmente fazendo uma continuação para se aproveitar do sucesso inesperado que foi a primeira trama.
Para o que não sabem ou não lembram, em Perseguindo o Bicho-Papão” tem o autor como testemunha de assassinatos em sua cidade natal no ano de 1988 e depois toda uma investigação de descoberta do quem seria o serial killer (você pode ler a resenha sem spoilers clicando AQUI). Autor consagrado e parceiro de Stephen King (sim!), Chizmar segue adiante em sua trama com um assassino que conhece desde criança e com quem teve vários encontros, mas também há mais aqui porque não sabemos tudo sobre ele dentro da trama – e temos muitas, muitas descobertas e desdobramentos.
Quando terminei, estiquei o braço e toquei no celular no bolso da minha calça, confirmando que estava lá. Meu sistema interno de alarme havia disparado alto e forte na minha cabeça, mas eu ainda hesitava com medo de me precipitar. Eu já tinha sido vítima de trotes idiotas — pegadinhas preparadas por adolescentes entediados numa sexta-feira à noite ou por fãs e/ou críticos que tinham viajado de sabe-se lá onde até a minha casa. Máscaras caseiras de aniagem e de lona branca foram enfiadas na minha caixa de correio e penduradas em galhos de árvores do meu jardim. Uma inclusive com o título do livro escrito com carvão. Amarelinhas foram desenhadas com giz e uma só com o número 3 no acesso à minha garagem. Punhados de moedas de um centavo foram jogadas na frente da minha casa. E, em um aparente tributo à minha amizade de longa data com Stephen King, picharam PENNYWISE É FODA com tinta vermelha num trecho da nossa cerca. Todos esses incidentes foram certamente intrusivos e irritantes, mas, no final das contas, se revelaram relativamente inofensivos.
Mas… daquela vez parecia diferente.
Cheirava diferente.
E ah, não se preocupe, o livro começa com diversas passagens de jornais com um “Antes” relembrando o leitor de tudo que aconteceu bem, antes, algo bem prático que ajudou demais para contextualização da trama que iria se desenrolar, com passagens em 1988, quando os primeiros assassinatos aconteceram e em 2019, quando o assassino foi preso. Uma melhores partes deste livro, e aqui quero falar sobre isto antes de falar sobre a trama em si, foi apresentar a vida de quem está vivendo dentro de um crime. Quando assistimos um documentário de um crime real, o crime já aconteceu e as emoções ainda estão lá, é claro, mas aqui estamos vivendo com Chizmar e sua esposa, Kara, mostrando a perspectiva de quem vive algo assim e sente o mais puro medo, além das pessoas que os amam e tentam alertar que o caminho que estão seguindo está levando-os para o abismo. É fascinante como somos realmente fisgados por uma trama que só aumenta, se tornando perigosa a ponto de nosso heróis aqui sair realmente machucado em mais de uma passagem do livro.
Aqui, mais uma vez, a realidade vai se misturando com a trama. Richard Chizmar escreveu “Perseguindo o Bicho-Papão” e este fez tanto sucesso que chegou na lsita de livros mais vendidos e ainda ganhou uma adaptação cinematográfica. O sucesso o levou a fazer uma tour depois que a epidemia de COVID começou a ser controlada (sim, também está na trama) e sua esposa Kara está preocupada com a forma como ele tem se trancado no mundo do tal serial killer, ainda de fazer entrevistas com ele – e, a partir daqui, claro que haverão spoilers da primeira trama, então se você não leu o livro inicial, indico ir ler e voltar aqui para continuar a ler esta resenha e amar o Chizmar – e a Kara!
Kara se sobressaltou e se afastou do laptop.
O homem andando pelo acostamento da Southampton estava usando roupas escuras e uma máscara de aniagem com buracos recortados na altura dos olhos. Nos ombros, ele carregava o saco de lixo preto. Caminhava quase sem pressa, observando a casa, como se soubesse que sua incursão estava sendo gravada.
Depois desapareceu da tela.
Joshua Gallagher está preso e provavelmente não sairá nunca da cadeia depois de sua confissão, mas claro que ele não entregou tudo que tinha feito e tudo que poderia levar a todos os corpos das mulheres que ele tirou a vida. Richard é o único jornalista com quem ele fala e tudo parece seguir o ritmo normal de um autor que fez entrevistas com um serial killer que ganhou a alcunha de “Bicho-papão” depois de aterrorizar a pequena cidade de Edgewood. Kara, esposa de Chizmar, aqui ganha um papel muito maior e mais destaque, mostrando a sua preocupação com o marido e sua real obsessão de conversar e tentar entender Joshua, com quem tem uma conexão que não pode negar, deixando no ar até mesmo se esta conexão não ultrapassou as barreiras do aceitável ou não.
A vida está seguindo neste ritmo tranquilo no ano de 2022, com o filho mais novo do casal, Billy, também morando na grande casa que eles possuem, com um lago no quintal. Mas (claro que haveria um “mas” bem grande!) tudo muda quando, uma manhã, se sentindo um tanto quanto forçado a se movimentar para afastar os pensamentos, Chizmar leva o cachorro do filho para dar uma volta e encontram um saco com um cheiro intenso vindo dele – claro que há um corpo ali, mas a vitima pode ser alguém que já conhecemos e que definitivamente é uma personagem importante na trama anterior. O que vem a partir dai é a certeza de que alguém está tentando copiar o estilo e as mortes de Gallagher, que está cada vez mais enigmatico e parecendo acreditar que há muito que ele precisa fazer suspense como Chizmar, que pode ter caído em uma armadilha do seu próprio ego ao lidar com alguém tão perverso e que talvez não esteja só.
Talvez, durante todo aquele tempo, a pergunta devesse ter sido: por que Edgewood?
Em “Derry: uma história não autorizada de uma cidade” — em IT: A coisa, a obra-prima de Stephen King, a cidade de Derry é o cenário tanto do livro como dos filmes e da série —, seu autor, Michael Hanlon, faz uma pergunta fascinante aos leitores: “É possível toda uma cidade ser assombrada?”
Acredito que a resposta seja um inequívoco SIM.
Eu também acredito que Edgewood, Maryland, talvez seja um desses lugares.
Lidando diretamente com a Tenente Clara McClernan, já como o detetive Lyle Harper faleceu, Chizmar precisa encontrar um jeito de proteger sua família e ainda lidar com a pressão que enfrenta de toda cidade, que o culpa por ter jogado holofotes em uma pequena comunidade tão pacata que prefere fechar os olhos ao que está acontecendo embaixo de seu nariz. A critica à como a mídia também lida com casos tão difíceis e terríveis assim – claro que há toda uma comunidade de pessoas que consomem casos criminais (como esta que vos escreve), mas se faz necessária um melhor controle disso. O perigo parece cada vez mais próximo do autor e de sua família, até explodir em mais mortes violentas que replicavam outras mortes e uma figura misteriosa usando uma mascara parecida com o do famigerado Bicho-papão ser pega nas câmeras de segurança da casa do homem, mostrando que havia um assassinado copiando tudo que já havia acontecido.
Se culpando por ter colocado a família, todos amigos (Carly Albright também está de volta!) e sua cidade em perigo mais uma vez, Chizmar borra todas linhas da realidade com ficção em uma trama mais ágil, com uma revelação que mostra que tudo faz parte de algo muito mais do que esperado e prepara o caminho para mais um livro (pausa para dizer que o 3º livro se chamará “Killing the boogeyman” e será publicado em 06 de outubro próximo, ainda sem data no Brasil, e, ao que tudo indica, será o livro final, já como a tradução é “Matando o Bicho-papão”), o qual mal posso esperar para ler porque preciso saber o que irá acontecer em seguida ao desfecho deste livro. Se você gosta de true crime ou simplesmente livros de suspense, não perca a chance de ler estes livro porque eu te prometo que o Bicho-papão está de volta em toda sua glória – ou, talvez, nunca tenha sequer ido para lugar nenhum.
Para comprar “O Bicho-Papão está de volta”, que está sendo publicado hoje, basta clicar no nome da livraria:

