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Resenha: Cemitério de vaga-lumes – Pablo Zorzi

“Cemitério de vaga-lumes”
Pablo Zorzi
Capa: Guilherme Xavier
Suma – 2026 – 272 páginas

Henrique Romano tinha apenas seis anos quando desapareceu de casa no meio da madrugada, em 1983. Horas depois, foi encontrado imóvel perto da floresta. Seus olhos, de um branco enevoado, irradiavam uma calma sinistra, estranha para uma criança. Rique nunca mais foi o mesmo depois daquela noite, e coube a sua irmã mais velha, Ellen, tentar restaurar alguma normalidade à vida da família.

Dezesseis anos depois, a história se repete. Duas crianças desaparecem, mas apenas uma delas retorna: Will Valente. Desesperado para entender o que houve com o filho, Cláudio Valente busca a ajuda de Ellen. Juntos, eles correm contra o tempo para descobrir o que se esconde na floresta ― antes que algo terrível se abata sobre a cidade de Serra do Lobo novamente.

Explorando os limites entre a realidade e o sobrenatural, Cemitério de vaga-lumes é um thriller de tirar o fôlego que evoca o melhor da tradição cinematográfica e literária do terror e do suspense.

Já faz algum tempo que escuto falar sobre Pablo Zorzi, e a chegada dele à minha editora favorita da vida, a Suma, me permitiu, enfim, ler algo dele. E ainda bem que, mesmo com uma certa ansiedade, não me decepcionei, porque “Cemitério de vaga-lumes” realmente entrega algumas das melhores cenas de terror do ano. E preciso deixar claro que aqui é terror, não metáforas, não apenas o clima: temos cenas de terror do tipo assustadoras, como crianças que são sequestradas, voltam e sorriem. Ou seja, corram para as montanhas! Se você tem medo do escuro e de florestas, definitivamente digo que este livro não é para você, porque o terror em formato de livro é um zilhão de vezes mais assustador do que em filmes. E aqui temos um ótimo exemplo de um autor que realmente queria escrever um livro de terror, puro e simples. E eu adoro.

Há uma chamada na sinopse divulgada do livro que diz: “Fãs de Stephen King e Stranger Things vão adorar esta história…”. E eu concordo, em parte, que realmente se torna bastante confortável associar a trama a King, já que há crianças diretamente ligadas ao enredo principal, o que também remete a “Stranger Things”. Mas eu também acrescentaria um certo ar de “Dark” à narrativa. Também deixo claro que não gosto muito dessas associações, mas, para mim, a história me lembrou Dark em diversos momentos, porque há uma floresta na cidade e o tempo… Bem, o tempo.

Antes que se aproximasse da segunda porta, percebeu pela fresta que o quarto não emanava claridade alguma. Estranhou. Rique morria de medo do escuro, dormia sempre com o abajur aceso. Júlia tinha até conversado com o diretor da escola, cogitando se os colegas não estariam contando histórias de terror para o menino, mas o diretor lhe informara que era Rique quem contava histórias sobre pessoas que não existiam. Baboseira. Ou a lâmpada do abajur tinha queimado durante a noite, ou Rique tinha perdido o medo. A segunda opção era a menos provável, pois duas noites antes ele tinha invadido o quarto dos pais se queixando de barulhos na janela.
“Monstros não existem”, Júlia lhe dissera naquela ocasião.
“Não é um monstro, mamãe”, Rique respondera. “É o Senhor Vaga-lume. Ele mora embaixo da minha cama e fala comigo quando você não tá perto.”

O livro acompanha diversos personagens nos anos de 1983 e 1999. Em 1983, Henrique “Rique” Romano desaparece de seu quarto, em casa, depois de uma briga entre os pais, durante a qual o pai sai para beber, a mãe se tranca no quarto e sua irmã, Ellen, vai dormir depois de limpar o prato que a mãe quebrou na cozinha. Quando Julia, a mãe de Rique, percebe que o filho desapareceu, faz o que qualquer mulher sensata deveria fazer: chama a polícia depois de procurá-lo pelos arredores. Mãe e filha decidem sair elas próprias em busca de Rique depois de responderem às perguntas da policial, que também inicia as buscas. Para choque de ambas, elas encontram Rique em uma clareira no meio da floresta da cidade, segurando um pedaço de pau e ensanguentado.

A narrativa mantém o leitor em suspense, sem revelar de imediato o que aconteceu em diversos momentos, mas, depois, entrega cenas bastante gráficas de terror. Rique é internado, apesar de ter apenas seis anos, porque fica claro que sofreu algum tipo de colapso. A família termina de se esfarelar, mas só descobrimos isso alguns capítulos depois, quando o ano de 1999 entra em cena.

Alguns lugares não são só lugares. Eles te conhecem. Sabem quem você é. Às vezes, eles te chamam de volta, não para machucar, mas para te lembrar de quem você costumava ser.
Conhecida por oferecer uma promessa de isolamento em meio ao caos moderno, Serra do Lobo havia sido emancipada no final dos anos 1960, no entorno de uma rodovia que viria a cair em desuso, o que explicava a calmaria. Boa parte das ruas era de ladeiras íngremes de paralelepípedo que faziam os motores dos carros gemerem. Quem olhasse de longe, veria uma mancha de civilização agarrada à rocha para não escorregar. Imune ao passar do tempo, seus habitantes existiam aprisionados entre o doce orgulho de pertencer a Serra do Lobo e a amarga constatação de que estavam sendo deixados para trás.
Os que haviam permanecido na cidade, especialmente os de idade mais avançada, olhavam com desconfiança tanto para os forasteiros quanto para os jovens que nasciam e viviam ali. Uma divisão invisível, mas constante, que separava os “de dentro”  dos “de fora”. Para Ellen, essa divisão sempre fora perceptível. E, depois do ocorrido em 1983, o nome da família ficara manchado pelo medo da comunidade, toda a cidade havia conspirado para empurrar os Romano para o lado de fora da linha.

Will é um garotinho que sofre bullying na escola. O grupo de amigos que tem, Gabi e Cícero, é bastante restrito e, quando os fortões Martim, Joel, Élvis e Afonso aparecem, o terror que o garotinho sente é tanto que causa antipatia imediata pelos outros garotos. Uma noite, Will sai de casa e desaparece, e é assim que somos apresentados a Cláudio e Alba, os pais do menino. Cláudio está desesperado, tentando encontrar o filho e investigando a cidade de Serra do Lobo, onde descobre o caso que aconteceu 16 anos antes. Por isso, é lógico que ele procura Ellen.

A vida não foi nada graciosa com a jovem, que assumiu os cuidados do irmão, internado e sem nunca realmente se recuperar do que aconteceu. Já o pai sumiu, e a mãe não conseguiu lidar com todo o peso da situação. Rique continua internado, mas agora em Criciúma, e não mais em Serra do Lobo. Ellen deixa claro para Cláudio que não quer mais se envolver com nada relacionado àquela história, levando o homem, derrotado, a voltar para a cidade. Mas a trama nos surpreende ao revelar a Ellen que Rique fugiu da clínica, fazendo com que ela siga para sua antiga cidade em busca do irmão, já que ele foi visto caminhando na direção daquele lugar. Logo ao chegar, ela descobre que mais crianças desapareceram. É aí que finalmente admite para si mesma que o que aconteceu com seu irmão não foi algo tão mundano quanto os médicos querem fazer parecer e que talvez algo mais esteja acontecendo, até mesmo porque o casal Valente mora na mesma casa em que sua família viveu anos e anos atrás. E confesso que a racionalidade de Ellen é algo realmente bom no livro.

Sentiu uma vontade desesperada de chorar, mas se segurou. Sabia que, se começasse, não teria mais como parar. Seu estômago revirou, e as pernas ficaram pesadas, mas Will continuou arrastando uma após a outra. Precisava se mover, fazer alguma coisa. Por um instante, imaginou estar em casa. Uma lágrima escorreu por seu rosto. Queria sua mãe. Queria que tudo aquilo fosse outro pesadelo do qual seu pai o acordaria a qualquer momento dizendo que estava na hora de ir para a escola. Mesmo a escola seria melhor que aquilo. Enxugou as lágrimas, mas o gesto só fez sua mão suja de terra melecar o rosto.
Pelo canto do olho, notou uma irregularidade no tronco da árvore ao lado. Seus dedos percorreram a casca rugosa até encontrarem uma falha que não era natural. Aproximou o rosto. Sob o musgo, havia um entalhe gasto: três espirais partindo de um mesmo eixo, girando para fora. Não era um coração flechado de namorados como faziam nas paredes da escola. Era algo mais velho, um selo deixado por mãos que entendiam que o tempo não andava em linha reta, mas em círculos.
Um estalo seco veio dos galhos acima.
E então, um par de olhos brilhou.

E, entre todos esses personagens, preciso destacar Serra do Lobo, a cidade que serve de palco para o desaparecimento das crianças e que tem aquela floresta ao redor. O ambiente é realmente sombrio e, por mais que pareça improvável, imagino que morar perto de uma floresta também desperte nas crianças um espírito de aventura, levando-as a querer desbravar as árvores e explorar cada cantinho. Mas isso é extremamente perigoso, o que me leva a questionar por que os pais não foram mais rígidos quanto às idas dos filhos ao local.

A trama também apresenta momentos genuínos de terror e afirmo, mais uma vez, que, se você não gosta do gênero puro e simples, este livro realmente não deve ser para você, porque há um ritual sendo praticado. Só não vou falar sobre ele, nem sobre como ou por que acontece, já que, claro, seria um grande spoiler. Mas também preciso apontar que foi justamente nessa parte que o livro me perdeu um pouco e que, por isso, não recebeu cinco estrelas. De qualquer forma, se você gosta de terror, assim como eu, não restam dúvidas de que vale a pena ler essa história, que envolve uma trama antiga, tradições, rituais, crianças que ficam abublezinhas das ideias e, claro, a maldade humana, mesmo quando se manifesta em crianças. Dica mais do que dada!

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