
Alexandre Vidal Porto
Arte de Capa: Raul Loureiro
Companhia das Letras – 2026 – 168 páginas
O protagonista de Só depois entenderei possui um emprego respeitável no Itamaraty, mas em meados dos anos 1990, o amor entre homens ainda é algo que se ocultava e era tratado com tabu em cargos públicos. Por isso, deslumbra-se com as possibilidades anônimas dos primórdios da internet. Se, a princípio, tudo o que buscava era sexo, logo ele terá sua vida virada do avesso por uma paixão avassaladora por um homem casado e com filhos.
Com uma prosa direta, de crueza estarrecedora, Alexandre Vidal Porto mergulha fundo nas delícias e sofrimentos de uma paixão que, por sorte ou azar, muitos de nós já vivenciamos.
Uma coisa que acredito que você precisa saber antes de ler este livro é que personagens principais aqui não são nomeados, mas não há qualquer dúvida sobre quem é quem: o narrador, o homem casado pelo qual ele se apaixonada (também chamado de “amor impossível”), o homem que vem a ser o marido de nosso narrador (o seu “amor principal”) e outras personagens coadjuvantes, como a esposa do amor impossível, uma amiga e outras em uma galeria de personagens que realmente são palco de fundo para uma história sobre amor, do começo ao fim, do apaixonar-se ao curar-se. Exatamente isso.
Foi como parar de fumar. Aos poucos não funcionou. Teve que ser de uma vez.
A explicação mais plausível é que eu tenha deixado de controlar razão e emoção, como às vezes acontece com as pessoas. Mas a experiência cavou um buraco em mim. Tenho, agora, que me acostumar ao novo relevo do meu corpo.
Ficou uma cicatriz grande, difícil de disfarçar. Disseram-me que uma tatuagem sobreposta resolve, se o tecido da cicatriz ainda retiver tinta.
Este livro é essa tatuagem.
A trama é direta e com diversos capítulos bastante curtos com passagens de tempos de anos, já como a trama aqui se passa em mais de vinte anos, desde quando o nosso protagonista conhece um homem casado em um chat de internet. Morando no Estados Unidos, ontem trabalha como diplomada no Itamaraty, a busca por amor veio depois da aceitação de sua própria sexualidade. Conversa iniciada, inicio dos anos noventa do seculo passado, fotos enviadas por Correios (sim), encontro marcado, tudo exatamente no script de um encontro sexual casual com dois homens que não queria expor sua sexualidade em uma época na qual ainda não era aceitável, sem contar que também queriam manter seus empregos e vida exatamente igual como era.
Mas a vida acontece e o que era somente um encontro casual termina em encontros cada vez mais frequentes. Personalidades parecidas, gostos em comum, o narrador não tem interesse em forçar o homem casado a quem ama a se assumir para a esposa, mesmo que ela já sabia sobre a sexualidade do casal. O homem casado sempre parecia ter grandes prioridades – jornalista renomado, autor de um livro de sucesso, os filhos – e é assim que o narrador é promovido em seu trabalho e enviado para Colômbia. A diferença de idade entre eles de quase 10 anos nada parece importar, mas, ainda assim, o homem casado simplesmente aceitar a transferência do outro.
Ao longo dos anos, a gente vai entendendo que, além do amor impossível, existe também o amor principal, que pode não ter sido o mais intenso de todos, mas foi o que deu mais certo e, por essa razão, acabou se tornando o mais forte.
Quando falo de amor principal, refiro-me também àquele que, entre todos, durou mais tempo, subsistiu às condições adversas e ao que parecia impossível. O que levou sua vida para a frente.
Um chefe meu dizia que não há felicidade fora da realidade. Concordo com ele. Esse tipo de amor principal seria o máximo denominador comum entre os elementos reais e objetivos que compõem e condicionam a felicidade. É o amor que, na prática, existe e se manifesta.
E é assim, com o coração partido, que nosso narrador se muda para o outro país, onde tenta recomeçar. Ainda apaixonado, aceita encontrar esporadicamente com o outro, e é aqui o grande trunfo do livro: quando o “E se…” se desenha fortemente. E se ele não tivesse aceitado ir para um cargo melhor na Colomabia? E se o homem que ele amava fosse deixar a esposa e ficar com ele? São muitos “E se” que permeiam nossas vidas, e eu aposto que você, que me lê também tem alguns, assim como eu, assim como este personagem que não consegue desapegar da ideia de um homem que deixou em uma vida hipotetica que poderiam ter tido.
Os anos se passam e o narrador vai aceitando o lugar no qual o homem que ele acredita amar lhe deu, mas é um lugar pequeno demais. Mudando-se novamente para o Estados Unidos para estudar e depois ganhando o mundo, onde conhece seu amor principal, com quem se casa, nosso protagonista parece nunca conseguir entender que o “E se…” dele e daquele homem nunca foi algo real e sim a ideia de um amor que ele manteve viva por anos e anos em uma especie de amizade tóxica que era capaz de o fazer continuar se diminuindo.
O pior abandono é o que surpreende o abandonado, porque, aí, não se trata mais só de abandono, mas de traição também. Às vezes, a traição é recíproca, com as duas pessoas em autoengano, sem que se saiba quem engana quem.
É um trauma que não se consegue resolver. É como se você tivesse deixado o passado sem conseguir chegar ao presente, porque não crê que esse presente exista. Não consegue conceber a nova forma que ele assumiu. Nesse entretempo, é você sozinho, em suspensão, tentando entender palavras que não encontram sentido emocional em você.
E é muito doloroso ler um livro que mostra um amor real, ou seja lá o nome real que um sentimento desses realmente tenha. É paixão, um traço de amor também, mas uma ilusão gigantesca sobre alguém que muito provavelmente sequer vive além de nosso imaginário. Talvez só depois que tudo se extinguir que venhamos a entender – e não é spoiler: é isso que acontece na vida real.
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