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Resenha: Antes que apague – Natalia Timerman

“Antes que apague”
Natalia Timerman
Arte de Capa: Bloco Gráfico
Companhia das Letras – 2026 – 192 páginas

Diagnosticada com Alzheimer, a mãe da narradora perde, em velocidade assombrosa, os traços que definem sua identidade. No luto antecipado desse apagamento, vêm à tona revelações inesperadas sobre o passado materno. Este livro ― uma investigação sobre a força da memória e dos laços familiares ― atesta o poder da literatura contra o esquecimento.

Antes que apague” é um ensaio sobre um relacionamento entre uma mãe e uma filha durante uma vida inteira, repleto de encontros, desencontros, momentos felizes, momentos não felizes, momentos que nos fazem questionar quem nossa mãe é e, claro, memórias – mesmo que a mãe esteve perdendo as suas porque desenvolveu Alzheimer. Ao mesmo tempo um livro que honra a mãe que ajudou e é falha, como todos humanos, é também um livro repleto de melancolia, composto por momentos que se juntam a nossa teia diária de momentos que constroem os relacionamentos. Estar ali e não estar mais parece uma punição cruel demais para qualquer ser humano, e Natalia Timerman, uma das autoras que mais chamam atenção atualmente em nosso país, realmente nos mostra a preciosidade que uma família pode construir – e também a maldição que pode se abater.

Começo a escrever sem saber se, no final, você estará viva.
Às vezes essa dúvida — você estará viva? — dura menos que a escrita de um livro. Dura um ano, uma semana, um dia. Como quando seu ouvido começa a sangrar até formar uma poça dentro da sua orelha, até escorrer pelo seu pescoço, e te acompanho na ambulância ao hospital sentindo minha apreensão e a sua, pois você já não entende o que está ao redor, não faz mais diferença se você está no sofá confortável e agora sujo da sua casa ou numa sala de emergência. A ambulância segue seu trajeto barulhento e eu seguro a sua mão gelada, trancada há tanto tempo no formato de segurar algo. Seis anos? Sete? É difícil estipular a contagem de coisa tão insidiosa: quando nos damos conta, você já perdeu algo de você, e os objetos ao seu redor continuam a existir, o museu dos seus restos. Suas roupas de sair, sua agenda, seu telefone celular, quando foi que o Elói cancelou a linha? Sua carteira de identidade. A você ela não diz mais nada, no entanto eu a entrego à atendente para abrir sua ficha enquanto a médica afere seus sinais vitais.
E mais uma vez o corredor do mesmo hospital, aonde você chega a cada vez um pouco pior, e a nossa esperança de que você continue viva — minha e do Elói — é sempre um pouco mais triste. Você ainda é você? Pressão 100 por 56, pulso de 78. A atendente digita o seu nome, mas quando a médica te chama, embora escute, você não reage — Alice, pedra, sopro, mãe. Tanto faz. Só palavras que não te dizem mais nada.

A narrativa se compõe de idas e vindas no tempo pelos olhos da filha de Alice, que está lidando com a doença da mãe. Alice já tinha se parado do pai de nossa protagonista há anos e se casado novamente com um homem chamado Elói, mãe de 4 filhos do primeiro casamento e judia, a figura que se controi é de uma mulher que exigiu muito da filha, mas tentando fazer o oposto do que a mãe havia feito com ela, querendo focar em coisas que achou que não tivera, um eterno paradoxo entre gerações que acontece perpetuamente.

A narradora desta trama, que acontece em primeira pessoa, conta a história de sua família no Brasil, que começou com seus avós, Ruth e Abelardo, pais de Alice, mãe da nossa protagonista. Alice teve um relacionamento complexo (e complicado) com a sua mãe, colocando muito do peso de como via o mundo nela, afirmando que o pai era uma boa pessoa. Mas, como em quase todas as famílias, há momentos escondidos, palavras que se perdem com o passar dos anos e, principalmente, uma vontade de recontar a verdade por parte daqueles que acreditam que estão fazendo bem – spoiler: nunca estão, pelo menos na minha opinião e deixo claro que o livro não traz nenhum julgamento sobre as escolhas de como agir com os “segredos” de família. Há também um reflexo do relacionamento entre a protagonista e Alice e o relacionamento com seus próprios filhos, dois garotos, e a forma como esperava que a mãe continuasse a cuidar dela atraves de seus filhos, um lugar que foi dado a Alice e que agora ela não se vê mais capaz de o preencher, deixando os sentimentos da filha à deriva.

Foto dos meus pais colada na parede: essa eu sei bem qual é, continua colada na parede, entre a minha cama e a cômoda onde se entulha a montanha de próximos livros a ler que é o maior indício da distância entre o que minha vida é e o que eu gostaria que ela fosse. Uma foto de quando eles eram casados, numa viagem, uma paisagem nevada ao fundo, os cabelos da minha mãe ondulados pelo permanente da época, ela que sempre teve cabelos lisos; meu pai a abraçando, bem gordo, como era quando casado com minha mãe; ambos parecendo felizes, ou ao menos confortáveis em suas próprias vidas, naquela viagem, no que seria provavelmente uma pausa de suas vidas. É perturbador olhar para aquela foto já sabendo o final da história deles juntos, já sabendo o final da vida deles, ou pelo menos o final da vida do meu pai e com um forte indício de como será o fim da vida da minha mãe. Me sinto roubando no jogo, portadora de um conhecimento sobre eles que não deveria ter. Me assusto ao antecipar meus filhos olhando uma foto minha depois que eu morrer, o mesmo gesto em outro tempo, expandindo o significado de família, ou mesmo de tempo.

Enquanto lia este livro, me peguei diversas vezes tocada pela forma como uma doença que tira a pessoa do outro ainda em vida é difícil de compreender. Quando a mãe de nossa protagonista começa a ter lapsos de memórias e parece estar profundamente confusa sobre marcar um cinema com a filha derivado somente de uma hipotética conversa com ela, vemos como a incredulidade de uma filha psiquiatra, portanto médica, toma um lugar grande em algo que parece que está ali à sua frente. A esperança de Elói, que viu uma publicidade sobre um tratamento alternativo capaz de recuperar as perdas da doença, é tudo muito real e cruel de um jeito doloroso, que faz você sentir simpatia por aquelas pessoas falhas – e, mais uma vez, falhas como todos nós.

Antes que apague” é um livro tão íntimo e pessoal que me sinto tão com dificuldade de falar sobre determinados pontos, mas há algo que me tocou profundamente e que acredito que represente a família de muitas formas: em uma viagem em família para o Uruguai, a narradora se perde e em um ponto, esperando a volta de todos. Quando chegam, vê seu irmão mais velho, a quem acredita que lhe odeia, chorando. A surpresa toma conta da garota e por mais que o irmão se mostre alguém não tão confiável ou sequer gostável, ainda assim é um momento que cutuca nossas feridas porque família é isso: demonstrar que não gosta e, ao mesmo tempo, gostar. E, ainda assim, sinto que faço errado de exemplificar este momento porque deixo claro para quem ler a trama que não compartilho de qualquer afeição pelo personagem irmão.

A memória, a partir de determinado momento, passa a ser externa: são as pessoas que te amam que completam suas frases, seus raciocínios, e vejo (ou imagino) seu alívio quando encontro algum sentido no que você diz, mesmo que não haja nenhum. É uma memória que te ultrapassa, exterior, inventada, tecida pelo afeto — e pela vontade de que nada disso estivesse acontecendo e que você voltasse a ser quem era. Com todas as chatices de mãe a que agora me agarro com saudade. Dona da própria his­tória, a mulher que poderia me responder ao que eu quisesse perguntar.
Martim acaba de dizer: o Alzheimer é como um quebra-cabeça do cérebro cujas peças vão sendo tiradas.

Entre tantos livros nacionais muito bons que estão sendo publicados no Brasil atualmente, coloco “Antes que apague” entre os mais fortes e que mais se perpetuam em qualquer leitor que o toque pela profundidade que vemos nos personagens, quase um ensaio sobre o lugar e a presença de uma mãe em nossa vida e como tudo isso se perpetua por anos e anos diante de nós. Ser mãe e estar neste lugar nos entrega mais do que amor – responsabilidade, memória, estabilidade, confiança, chão, tudo isso se faz presente em uma palavra que pode se apagar ainda em vida e precisamos honrar antes que seja tarde demais. Uma ode a uma memória que pode estar se apagando, mas se perpetura agora neste livro.

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