
Bruno Ribeiro
Arte de Capa: Ale Kalko
Alfaguara – 2026 – 336 páginas
Batista dos Santos Assumpção é um homem preto de origem humilde, nascido na Paraíba, que sonhou com uma vida melhor derrubando árvores na construção da Transamazônica, no coração da floresta. Mas seus ideais de um trabalho justo e seu amor ingênuo por Iolanda, uma prostituta local, são destruídos aos poucos. Por fim, acaba envolvido num esquema sem volta com os agentes mais obscuros da ditadura.
Tentando apagar o passado, Batista conhece Soledade da Silva Farias, com quem se casa, na esperança de um recomeço. Mas a mulher carrega suas próprias feridas e opressões, das quais tampouco consegue escapar.
Conquistar uma vida digna, para eles, é uma impossibilidade. Seus três filhos tomam caminhos tortuosos, mas o pior é Graciliano, que segue o legado de selvageria do pai. Ele se envolve com o mundo do crime e arrasta o inferno para dentro da própria família, que busca uma vida tranquila na pequena Brejo do Livramento, cidade paraibana dominada pela produção de cachaça e pela poderosa família Lucena Neumann.
Essa não é uma história tradicional nem previsível. Os Farias de Assumpção são acossados pela figura grotesca e anárquica conhecida pela alcunha de O Inglês, que gradativamente os empurra para um vórtice de loucura. O Dono e o Mal é um romance multifacetado, de diálogos afiados e situações absurdas, que se impõem sobre uma família que avança sem atalhos pelo caminho da destruição.
No segundo que li a sinopse de “O Dono e o Mal” e vi que o autor era o Bruno Ribeiro, soube que iria ler este livro. Autor do muito falado “Porco de Raça”, terminei não o lendo, mas sempre existiu a vontade – por isso foi lógico querer ler essa trama, e, como sempre, me conhecendo bem como me conheço, não me arrependi nem mesmo remotamente. Um livro que trata de 3 gerações da família Lucena Neumann e 2 gerações da família Assumpção, me questionei diversas vezes se O Inglês, personagem que consta na sinopse, seria real ou uma analogia para quando o próprio dono da vida abre as portas para o mal. Um livro que mostra como os segredos dentro de famílias podem abrir abismos, como ter favoritos dentro de sua família também podem abrir abismos, como ter expectativas demais sobre filhos ou netos podem abrir abismos, transforma essa narrativa aquele tipo de leitura que é capaz de fazer o leitor pensar sobre… a vida.
Entrar em certas histórias é como mergulhar em um pântano. A princípio você tem controle dos seus passos, mas aos poucos algo te puxa. Espectros, gravidade, inércia. Algo te puxa. E você afunda, sem nenhuma mão para te puxar de volta ou te salvar, você só afunda. Pergunte para eles. Pergunte a você mesmo. Quem te salvará quando o pântano da história te puxar? Faça essa pergunta. Faça de novo. Amanhã a repita. Não há como correr o risco e sair ileso. Você tem os seus motivos, eu sei, eu tenho os meus. Quem está certo? Não importa. Nossas histórias se chocam e depois de anos aprendi que o que destruímos e o que construímos são sinônimos. Estou cansado, penso em parar depois de séculos e mais séculos de trabalho. Tantos sonhos, tantos, sim: sonhos. É neles que atuo. Eu sei o que eles dirão e eu sei o que se espera de mim, mas não me peça certezas. A única certeza que sou capaz de entregar é a seguinte: devemos abraçar as ambiguidades da vida, lembrando que a história é conduzida pelos vivos — os que estão acordados e os que estão sonhando.
Acredito que seja producente começar a falar sobre a família Lucena Neumann, começando por Juca Galego, homem vindo da Alemanha e que terminou em Brejo do Livramento, Paraíba, no longínquo ano de 1948. Abrindo um bar no lugar (o qual, criativamente era chamado “Bar do Alemão”), o homem tentava esconder seus segredos ali. Casado com Irene Lucena e com dois filhos gêmeos, Wagner e Will, sua vida muda completamente com a chegada de dois homens na cidade. Vida interrompida, dívida paga, Irene, se vendo viúva e com duas crianças, também se descobre rica ao saber de uma determinada partitura que o marido possuía.
Vinda de família tradicional e que fabricavam cachaça, os Lucena, com o dinheiro da herança do finado marido, Iolanda investe na decante fábrica da família, também investindo em cana de açúcar, transformando dor em dinheiro. Os filhos, entretanto, eram muito dispares: Wagner, estudioso, se formou em direito em São Paulo, enquanto Will, gay, não podia se assumir por causa da homofobia da época, mas a beleza havia recaído sobre os dois. Wagner se casou com uma atriz que morreu ao dar a luz a trigêmeos: Elena, Evangelista e Cássio. Elena, toda força e tradição; Evangelista, toda calma e quietude; Cássio, irresponsável, nada afeito a ser herdeiro da família. E é através dele que a vida dos Lucena Neumann se cruzarão com a vida dos Assumpção.
Um coro grego eletrizante como uma rajada de anfetamina cantarolava pelos buracos do firmamento: a família Lucena Neumann não será mais a mesma, a família Farias de Assumpção nunca mais será a mesma.
Toda jornada de heróis começa com uma faísca. Esta começou antes que esses amantes na moto rosa derrapassem na curva mal-intencionada às três da madrugada.
Batista, homem negro do interior da Paraíba, saiu do Nordeste e foi abrir caminho através da Amazônia para a construção da Transamazônica, uma rodoviária até hoje inacabada, que começou a ser construída em 1970. Procurando uma vida melhor, se apaixonada por uma prostituta chamada Iolanda, e acreditando ter encontrado um atalho para uma possível vida melhor no Rio de Janeiro com sua amada, entra no que deveria, e assim é preso em plena Ditadura Militar. Vai morar no Rio de Janeiro, mas em um presídio, onde um fantasma começa a aparecer para ele, o ajudando a se transformar de um homem analfabeto para alguém com mais consciência do que poderia fazer. Infelizmente isso não o impede de começar a trabalhar para os militares.
Tentando mudar de vida, conhece Soledade em um forró. Mulher marcada por uma vida de trabalhos domésticos desde que foi vendida por mãe, Batista simplesmente aceita a mulher sem nunca conversarem sobre seu passado – nem ela falando sobre o dela. Com dois filhos, Genival e Graciliano, o passado tenta voltar a vida de Batista, que pega a esposa e os filhos e vai para Brejo do Livramento, onde uma tia de Soladade mora. E lá o casal tem uma terceira filha, Valeria, quel, ao quinze anos, engravida de Cássio. Uma garota preta retinta, filha de um casal pobre, também preto, engravida do filho loiro playboy herdeiro local, algo que é claro que é uma receita para o desastre.
Saber ler e escrever é autonomia, Batista, é ganhar o mundo. Eles nos querem abaixo dos seus pés, nunca deixe: eles só pensam em si. Eu já habitei esses mundos de elite, era um deles, escrevi livros, ganhei fama, mas só achei minha verdadeira humanidade na cadeia. Aqui encontrei paz entre arames, areia e gritos, encontrei o que é humano, o que é respeito. Só quando somos humilhados é que descobrimos nossa força. Abrace toda oportunidade de aprender, de ser mais que eles — é a única esperança possível para não sermos dizimados.
A narrativa é permeada por indas e vindas, mostrando toda essa árvore genealógica, dando a sensação de que estamos lendo um livro sobre duas famílias unidas por um fio que se cruzará no futuro e que sim, trará consequências que perdurarão por muitos anos. Mas, ao mesmo tempo, enquanto vamos lendo, também vamos sendo apresentados a figura chamada O Inglês, que parece ser o mal encarnado que se atrela a famílias, histórias, pessoas, e que se faz presente em diversas tragédias, mas todas com portas abertas para a figura entrar.
Confesso que os momentos que a figura aparece sempre me causam bastante curiosidade e dificuldade de visualizar todo o terror e sangue que traz com ela, me fazendo questionar o que falei no primeiro parágrafo desta resenha: não seriam as pessoas que traziam esse mal encanado na forma de O Inglês para suas vidas? Pessoalmente, acredito que sim, mas não se engane: O Inglês aqui é uma entidade real, capaz de comer carne, cuspir sangue e moer ossos, sendo o Mal do Dono – ou o dono do mal, dependendo da visão que o leitor tenha da vida.
O Inglês sabe que ele vai tomar a decisão certa. Ser independente. Pensar em si.
O que importa é que a história está sendo escrita por suas mãos pálidas de maresia, que o impelem a continuar nessa praia, nesses mundos, nessa luta.
Afinal, por trás de cada acontecimento histórico se esconde um monstro.
Enquanto os 3 filhos dos Assumpção vão tomando caminhos muito diferentes, já como enquanto Genival escolhe o caminho dos estudos, indo fazer mestrado e doutorado em São Paulo, mas não sem se perder um pouco no caminho, Graciliano tem sua vida modificada depois de ser humilhado por Elena Lucena Neumann, com quem começa a ter um relacionamento que continuam em ambos mesmo depois de 10 anos do primeiro encontro da família, causado pela gravide Valeria e Cássio, que parece ter um futuro mais ligado ao do avô que imaginaríamos. O Inglês está presente, cobrando sua cota de sangue, oferecendo seus serviços e não deixando ninguém que o encontra esquecer dele, exatamente como você se sentirá ao terminar de ler este livro majestoso, que atravessa décadas de histórias, destruição, mal e pessoas – porque o maior mal sempre será as próprias pessoas e as escolhas que fazem.
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