Ícone do site Idris Brasil

Resenha: Escudo de pardais – Devney Perry


“Escudo de pardais”
Devney Perry
Tradução: Guilherme Miranda
Paralela – 2026 – 512 páginas

Odessa Cross sempre soube que estava destinada a ficar nas sombras. Sendo a filha mais velha do rei de Quentis, sempre foi preterida por Mae, sua meia-irmã, fruto do segundo casamento de seu pai.

Mas tudo muda no dia em que guerreiros do reino vizinho de Turah, contratados pelo rei Dourado para matar monstros que ameaçavam os mares quentinos, chegam à cidade, acompanhados do príncipe herdeiro Zavier, até então noivo prometido de Mae. Para surpresa de todos, Zavier decide se casar com Odessa em vez da irmã. E o mais rápido possível.

Num piscar de olhos, a princesa se vê não apenas casada com um estranho, mas incumbida de uma missão quase impossível: seu pai quer usá-la como espiã para descobrir a localização exata de Allesaria, a capital envolta em segredos de Turah, onde existe algo que o rei de Quentis deseja tomar para si.

Contudo, ninguém nunca achou que Odessa seria uma espiã (ou uma guerreira ou uma rainha) e não vai ser tão fácil conquistar a confiança dos turanos a ponto de lhe revelarem onde fica essa misteriosa cidade. Para piorar, seu marido parece não ter nenhum interesse pela jovem, ao contrário de um de seus súditos, o famoso Guardião ― um notório assassino e caçador de monstros ―, que aparentemente decidiu vigiar cada passo da princesa ― e talvez esteja se aproximando até demais do seu coração.

Perfeita para fãs de Sarah J. Maas e Rebecca Yarros, Escudo de pardais é uma história intensa sobre destino, escolha e a coragem de quebrar regras.

CONTEÚDO ADULTO

Não me interessa quem define o gênero dos livros nos Estados Unidos porque eu contesto fortemente: “Escudo de Pardais” é uma senhora de uma fantasia! Sim, tem romance, mas o slow burn é tão lento aqui que o par de Odessa só revela o nome dele com 65% do livro já superado – e não, eles não beiram antes. Entendo sim, que o romance de Odessa e o Guardião é um fio condutor da narrativa, mas não é, nem mesmo remotamente, o principal deste livro que se passa em um mundo no qual monstros imensos existem e matam pessoas como se fossem formigas. Quando se fala de romantasia, se tirar o romance do centro da narrativa, o livro se pega sem nada, e, pelos deuses da leitura, o que mais tem nesse livro é justamente trama sem o romance.

A construção do mundo e toda mitologia foi o que me conquistou de um jeito que estou desde sábado ainda pensando nessa trama (e hoje já é terça-feira). Digo com tranquilidade: melhor fantasia do ano até aqui, e em termos de romantasia, foi a melhor que li até hoje. Quando pesquisando um pouco para esta resenha, descobri que ficou em 1º lugar na lista de livros mais vendidos em fantasia em Maio de 2025, quando foi publicado em inglês e realmente fez um sucesso estrondoso (e merecido) no Goodreads, com mais de 300.00 reviews (!) e insana nota 4.38 atualmente, além de ter sido pro prêmio da rede de leitura. Enfim, acho que já te mostrei que esse livro vem ai arrebentando tudo e indico fortemente você a largar tudo que estiver lendo e ir ler uma fantasia/romantasia com adultos como personagens principais que envolve Deuses, muito (mas muito mesmo) desenvolvimento da personagem principal, personagem principal masculino que se apaixona primeiro, intrigas, mentiras e aventura, sem contar que tudo sobre os taos monstros – argh, estou fascinada por eles. Mas ok, vamos de onde devemos começar: do começo!

Meus ouvidos treinados estavam atentos a qualquer barulho conforme eu passava pé ante pé pelos quadros e tapeçarias. Nem precisaria ser tão sorrateira assim. Ninguém entrava nesse corredor, muito menos Margot.
Ela não gostava das obras de arte dessa galeria em particular. Eram horripilantes demais para ela.
Todas as obras retratavam os crux de gerações passadas. O maior mural havia sido pintado depois da última migração deles, quase trinta anos antes, quando os imensos monstros semelhantes a águias sobrevoaram Calandra e massacraram nosso povo.
Na pintura, um crux acobreado carregava um homem partido ao meio em seu bico enorme. Vísceras pendiam da boca aberta. Sua garra, mais afiada do que qualquer lâmina, perfurava o coração de uma mulher esmagada sob seu peso.
Os chifres grossos e pontudos do macho pingavam sangue e entranhas.
Margot não estava errada. Essa galeria era sim violenta. E se eu sobreviver a uma migração, talvez nunca mais coloque os pés nesse corredor também.

Odessa Cross é a filha mais velha do Rei Dourado, o Rei de Quentis, que tem Roslo como capital. Quentis é um dos 5 reinos do continente de Calandra, que tem o formato de uma baia – ou seja, uma terra em formato de C. Quentis está no final dessa baia, fazendo divisa com Genesis, que faz divisa do outro lado com Laine, que, por sua vez, faz divisa com Ozarth do outro lado, que faz divisa com Turah, do outro lado do oceando de Quentis, mas fica tranquilo que tem mapa nas primeiras páginas do livro. Odessa é filha do primeiro casamento do Rei, que, ao se ver viuvo, achou de bom tom se casar com a dama de companhia da finada esposa, uma mulher linda e chamada Margot. Deste casamento, nasceu Mae. Mae é tudo que Odessa não é: comportada, linda e treinada para saber lutar e cumprir tudo que esperam dela. Ainda há o pequeno Arthalayus, irmão de pai e mãe de Mae e meio irmão de Odessa, que tem apenas 3 anos, mas será o herdeiro do Rei algum dia.

Odessa foi prometida em casamento para Banner, o general do exercito do Rei, ou seja, ela era basicamente um prêmio dado ao homem pela lealdade dele, enquanto Mae foi escolhida como a Pardal, e para ser a Pardal é mais do que só uma escolha de favoritismo: é manter o reino à salvo. Há muitos anos, os reinos brigavam entre si e não sobreviviam a migração dos crux, que são basicamente águias gigantescas (mas gigantescas mesmo) que passam por cima de Calandra. O Acordo dos Pardais surgiu para unir as famílias reais dos reinos e assim firmar o comércio entre eles, fazendo com as guerras entre si acabassem e o comércio fosse firmado indefinitivamente entre os 5 reinos, ou seja, um casamento que mais servia como um contrato entre todos, mas que funcionava e deixava cada um cuidado de seu povo para se proteger da migração – e é aqui que a coisa fica realmente boa. Por motivos de: monstros. E intrigas. Muitas intrigas.

Antes desse último ano, antes de começarem a atacar nossos navios, as enguias eram conhecidas por viver apenas nas águas mais profundas do oceano Marixmore, longe de onde nossos navios quentinos velejavam. Por que haviam mudado de habitat? Teriam os monstros se aproximado do continente em busca de alimento? Haveria um novo predador forçando sua aproximação das costas de Roslo?
Teriam os deuses criado monstros ainda mais aterrorizantes do que os crux?

Explicando sobre os monstros, preciso antes explicar sobre as Divindades deste mundo e seus Deuses: A Ama e Oda são os pais, Deuses maiores, e eles tinham criados os animais e toda Caladra. Eles tinham Seis, seus filhos, e eles, com raiva do amor dos pais aos humanos, criou os monstros, uma desvirtuação dos animais criados pelos Deuses pais. Esses monstros são nada mais nada menos do que animais que conhecemos, mas modificados para se tornarem basicamente uma maquina de matar, como os crux, que são águias imensas, que conseguem segurar uma pessoa adulta e a tirar do chão, ou como os tarkins, que são basicamente tigres vermelhos com escamas impenetráveis em suas costas. Há dezenas de monstros que vivem neste mundo e os Reis precisam manter seus povos longe deles. Quentis, por exemplo, é uma cidade com edificio e guarda pronta para matar qualquer bicho que se aproxime, mas Turah decidiu começar a colocar a civilização até mesmo dentro da floresta, então depende de como cada país se protege dos monstros.

Odessa é basicamente oprimida pela madrasta e se ressente do pai por deixar claro que Mae era a favorita, mas ama a irmã acima de todas as coisas. Com 23 anos, Odessa guarda o que sente e se encolhe quando gritam com ela, vivendo dentro de sua cabeça. A sua vontade de se libertar está lá, mas ela não tem coragem de verbalizar ou sequer protestar contra o que quer que seja, chegando ao ponto da sua madrastra a obrigar a pintar o cabelo de castanho escuro porque não quer que vejam que ela é ruiva e ainda a vestir somente de cinza. Tenham em mente que estamos em uma fantasia com traços medievais, então basicamente Margot estava relegando Odessa a um lugar “escondido” com Mae na frente. Mae foi escolhida Pardal, mesmo Odessa sendo mais velha, e ela deveria se casar com Zavier Wolfe, o príncipe herdeiro de Turah, o povo mais afastado e misterioso entre os 5 reinos.

— Não quero me casar com ele. Deve ter algum jeito de reverter isso.
Ele se inclinou para trás e me abriu um sorriso triste.
— Noiva de recompensa à parte, não podemos nos dar ao luxo de irritar os turanos com uma recusa. E não podemos quebrar o Escudo de Pardais, não com a migração de crux se aproximando. Mae iria a Turah. Você deve assumir o lugar dela. Deve ser a Pardal agora.
Era outro tratado assinado com sangue e selado com magia.
Se um rei se recusasse a entregar a filha a outro, o pai morreria. Até onde eu sabia, nenhum homem nunca havia escolhido a filha em vez de si mesmo.
Eu definitivamente não esperava esse tipo de sacrifício.

O Rei dourado chamou guerreiros de Turah para matarem enguias-osseas que estavam destruindo embarcações no oceano de Marixmore, o oceano que ganha as costas dos 5 países. O que parece ser somente uma visita para receber um pagamento por matar estes monstros imensos, termina, na verdade, trazendo o Príncipe Zavier, o Guardião e ainda vosters com eles – e pausa para explicar o que são os vosters: basicamente um grupo que usa magia e que teve o fisico alterado, com unhas manchadas com algo verde escuro, olhos completamente verdes, magros, altos e sem cabelos ou sobrancelhas, algo meio saindo de um filme de terror mesmo. Odessa tem pavor dos vosters e termina se atrasando para a cerimonia que iria apresentar Mae pra Xavier porque eles nunca tinham se entrado pessoalmente. Quando nossa heroína chega lá, é pega de surpresa porque o principe, que supostamente não fala, dá um recado pelo Guardião que ele não quer se casar com Mae e sim com Odessa. Claro que a cabeça dela quase explode porque não foi treinada para ir morar em outro país e ser a Pardal, mas não há o que fazer porque Zavier parece estar determinado a se casar com ela e a exige como pagamento pelas mortes dos monstros maritimos porque aqui, neste mundo, há diversos tipos de acordos tudo com a magia voster os guiando. Sem saida, o Rei Dourado aceita, entregando a filha mais velha que não estava preparada para o que ele realmente queria.

E o que o Rei dourado realmente queria era um jeito de chegar até Allesaria, a capital de Turah, uma cidade que supostamente existe dentro de montanhas que ninguém sabe como chegar até lá, porque, segundo o homem, há um jeito de conter a migração, um segredo escondido nesta cidade, e este era o motivo pelo qual Mae era tão treinada em lutas, com espadas e afins. Para completar, o Rei também pede que Odessa mate o Guardião – coisa simples, já como todo o mito em torno do homem é que ele foi abençado pelos Deuses e tem poderes além da força humana, velocidade e afins, basicamente um super-humano. Odessa, que tem a necessidade de agradar e quer que a família se orgulhe dela, aceita, se casar e parte para Turah com a missão de fazer tudo isso, a vontade de ser validada pela família a tornando uma jovem sem tanta personalidade. Desenhista e gostando de cultura, Odessa não é uma guerreira, mas foi jogada no meio de uma trama que nunca foi preparada para, apesar de ficar um tanto quando claro, desde o começo, que o destino dela é maior do que ela imagina, e todos ao redor dela também.

— Se eu mandar correr, você corre. Se eu mandar se esconder, você se esconde. Se eu mandar pular num pé só e bater na cabeça, você. Vai. Pular. Porra. Entendido?
— Não.
A palavra me surpreendeu tanto quanto a ele. Talvez eu tivesse bebido água salgada demais? Mas eu é que não concordaria cegamente. Passara vinte e três anos recebendo ordens de homens que achavam que podiam ditar cada passo meu. E estava farta.
Eu me recusava, terminantemente, a me acovardar diante desse homem. Eu me recusava a dar esse controle a ele.
Não quando já havia perdido tanto.
Ele piscou devagar, claramente esperando uma resposta diferente.
— O que você falou?
— Não. — Joguei os ombros para trás, usando meu último resquício de força, e ergui o queixo. — Vou ouvir quando for uma questão sobre a minha segurança. Ou de outras pessoas. Vou fazer o possível para “não atrapalhar”. Mas não vou ceder a todos os seus caprichos. Não vou me humilhar só porque me acha insignificante. Se me queria quieta, deveria ter deixado que a enguia-óssea me matasse. Não sou um de seus guerreiros para você liderar. Não sou sua esposa para você comandar. Então, não, não estamos entendidos.

No navio mesmo, atravessando o oceano de Marixmore, fica claro que a pedra no sapato de Odessa vai ser o Guardião. O homem não para de aparecer e ela não para de ficar irritada com ele, o que leva aquela dinâmica que sabemos exatamente aonde levará, mas me permitam deixar muito claro: não esperem pegação no começo, e por começo digo os primeiros 75% do livro. A caminhada de Odessa é muito mais do que só se apaixonar porque antes ela precisa encontrar sua própria voz, sendo mandada para um outro país, vigiada e cercada por pessoas desconhecidas, mesmo que acompanhada por duas damas de companhia. A progressão e a forma como Odessa começa a entender que precisa amadurecer e fincar o pé no chão para lhe escutarem é realmente uma das melhores coisas do livro porque ela não tinha isso no começo do livro e fica explicito em cenas como ela vai encontrando a força que precisa dentro de si e por isso que ela começa a se tornar uma protagonista que você torce por, que você quer ver até onde vai, quer ver ela conquistar tudo que ela merece porque o pai dela não é confiável, pelo menos supostamente.

Os reinos são ainda estilos medievais, mas Quentis parece mais uma corte do que Turah, onde mulheres podem se vestir com calças e afins. Já em Turah, Zavier fica enrolado e não leva Odessa para Allessaria, e fazem um viagem de cavalo por dias, no qual o Guardião começa a treinar nossa princesa. Zavier também não parece ansioso para encontrar o pai, o Rei Ramsey Wolfe, que também entrega que não é lá tão confiável – na verdade, ninguém parece confiável à esta altura da trama. Somente temos o ponto de vista de Odessa e não sabemos o que está realmente acontecendo, mas o grupo começa a seguir para outro lugar chamado Treow, enquanto são atacados por monstros, mostrando o nível de perigo que estão enfrentando. E sabe o melhor de tudo? Ainda há mais na trama porque tudo que mencionei aqui não chega nem nos 40% do livro – Sim. Há trama de sobra aqui e ainda não me conformo que este livro não está sendo cultuado em todas conversas dos bookstans no Brasil. Sinceramente, fica até difícil saber como encerrar esta resenha porque sinto que posso continuar falando por horas e horas de “Escudo de pardais” e ainda não farei jus a trama, então vou ficando por aqui, já esperando o segundo livro ser publicado (espera-se ser uma trilogia!) aqui pra poder continuar amando Odessa enquanto a magia explode ao redor dela e de todos.

Para comprar “Escudo de pardais”, basta clicar no nome da loja:

Amazon.
Magalu.

Sair da versão mobile