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Resenha: A linguagem dos desastres – Fabiane Guimarães

“A linguagem dos desastres”
Fabiane Guimarães
Arte de Capa: Julia Masagão
Alfaguara – 20260 – 160 páginas

Nascida em meio a um blecaute, Catarina vem ao mundo sob o prenúncio do fim. Filha de uma artista plástica que tenta reencontrar a inspiração e de um bancário pragmático e silencioso, ela cresce em meio a secas, enchentes e apagões que parecem ditar o ritmo da vida familiar. Desde cedo, carrega uma sensibilidade fora do comum ― ouve o que os outros não escutam, enxerga presságios nas pequenas coisas e acaba por buscar respostas em um velho baralho de tarô da mãe.

Em uma Brasília que alterna entre estiagens e tempestades, ela cresce como uma criança solitária em uma sociedade em que ter filhos beira o imoral. Quando Augusto, acompanhado apenas da mãe, muda-se para a casa ao lado, o destino dos dois se entrelaça. A amizade entre as crianças nasce da curiosidade e da solidão, mas logo se transforma em algo ambíguo: uma relação tão afetuosa quanto cruel, que atravessa a infância e a juventude.

Enquanto o mundo à sua volta se fragmenta, Catarina tenta compreender a realidade e a si mesma. No simbolismo das cartas de tarô ela busca sentido para o caos, como se nelas houvesse uma forma não de prever o futuro, mas de decifrar as ruínas.

Em A linguagem dos desastres, Fabiane Guimarães conduz o leitor por uma história de afeto e de sobrevivência, em que o íntimo e o apocalíptico se confundem. Um romance avassalador sobre o peso de herdar um planeta em colapso e a tentativa de encontrar beleza entre as cinzas.

Acho que a Fabiane Guimarães é a minha autora nacional favorita. Tudo que li dela simplesmente amei acima da média (você pode ler as resenhas sem spoilers clicando AQUI) porque ela tem a capacidade de falar sobre assuntos muito, muito difíceis com uma crueza necessária, mas não despojada de sensibilidade. Parece que são livros que tocam em lugares que a sociedade tem dificuldade de falar sobre estes assuntos e ela, de forma magistral, consegue passar a mensagem que quer ser ser apelativa, sem mostrar nada além do necessário e, principalmente, de uma forma que você consegue entender a posição mais errada possível porque ninguém o vilão de sua própria história. E se eu fosse descrever “A linguagem dos desastres” seria como um livro muito real sobre um relacionamento tóxico que não vai pelo caminho que você pensa – e ainda bem.

Fabiane é do centro-oeste e seus livros se passam nesta região. Aqui temos uma Brasília dividida entre a seca e chuvas pesadas que inundam a cidade, enquanto na seca as queimadas tomam conta dos arredores da capital de nosso país, transformando o cenário do livro em abafado, sem ar, uma sensação de que realmente é uma linha que levará a uma sucessão de desastres que estamos seguindo no meio daquele fogo enquanto vamos conhecendo mais de Catarina e Augusto.

Você acha que a vida dela vai ser um inferno? — Serena sussurrou, algum tempo depois de encerrada a conversa.
Jorge se virou para encarar a esposa. Percebia, pelo tom de voz, as raízes de uma preocupação genuína.
Meu amor — ele respondeu, sorrindo com tristeza. — Qual vida não é um inferno?

Catarina nasce em uma noite de apagão, trazendo a luz com ela. Criança calma, tímida, diferente das outras crianças, parecia conseguir ver através da carne e ver sinais que as outras pessoas passavam sem notar nada, seja por pressa, seja por falta de dom. Cresceria sozinha, sem amigos e sendo filha única, se não fosse a chegada de Augusto, filho de uma vizinha problemática. A amizade entre duas crianças tão diferentes cresceu, brincadeiras ao sábado de manhã e depois escola, os dois sempre juntos, caminhando lado à lado, mesmo que algumas vezes Augusto fosse cruel.

E se você se questiona porque Augusto era cruel, a verdade é que ser cruel e ter raiva do mundo foi a única coisa que ele aprendeu ainda pequeno. Mãe alcoólatra, abandonado pelo pai, talvez se ele tivesse encontrado em Serena, mãe de Catarina, uma mãe substituta, talvez ele tivesse sido outra pessoa, mas não há como se questionar sobre algo que nunca realmente aconteceu, exatamente como em nossas vidas: o “E se…?” é grande demais, até mesmo para ele, que em certa altura da trama se questiona algumas coisas, assim como a própria Serena também se faz algumas perguntas, mas, de tona forma, o passado foi escrito já – o que não, está nas cartas de tarot de Catarina, que insiste em não prestar atenção em alguns avisos que aparecerem aqui e ali.

Ao longo dos anos, as estações iam se embaralhando no mundo, carregando geadas e ondas de calor, enchentes e incêndios, e as crianças cresciam acostumadas à linguagem dos desastres. Ao chegarem à adolescência, Catarina e Augusto eram tão próximos que muita gente começou a brincar que acabariam namorados. Os dois, contudo, não enxergavam nenhuma lógica em tal presunção. Embora estivesse adquirindo a casca de mulher típica da puberdade, Catarina ainda não havia despertado para a incoerência do amor. Detestava mudanças. Buscava a segurança da rotina, do lugar fixo, como se a sua alma fosse ainda um rascunho.
Augusto, por sua vez, já vivia outro tipo de maturidade, o que contribuiu para afastar qualquer hipótese de que Jorge e Serena o abraçassem como um segundo filho, e fazia com que olhassem com receio para aquela amizade infinita. Na sua casa sempre vazia, ele organizava festas, cultivava os amigos errados e encontrava as primeiras namoradas. Perdeu a virgindade com uma moça dez anos mais velha e, mesmo o encontro tendo durado apenas alguns segundos, comemorava o fato aos quatro ventos. Quando se sentia mal pelos exageros, procurava Catarina. Jogava-se na cama dela, bocejando, arrancava o livro de suas mãos e brincava que ainda mostraria a ela a verdadeira vida.
A verdade era que, embora fossem muito diferentes, ele sentia ao lado dela uma tranquilidade imbatível. Nina sabia que era ela o ponto de equilíbrio daquele pequeno ­ecossistema. Não se incomodava em ser o lugar para o qual ele voltava quando todo o resto dava errado.

Ainda pequenos, no primeiro sábado que brincavam, Catarina (Nina, às vezes) mostrou a Augusto o maior bem que tinha: um baralho antigo de tarot da mãe. Tirou as cartas sobre uma possível volta do pai de Augusto, quis agradar e mentiu, mas quem nunca mentiu para tentar agradar um amigo, ainda mais quando se não há nenhum outro? A amizade conseguiu superar o “erro” e os dois continuavam crescendo, mesmo quando Augusto largou a escola que estudavam para trabalhar, depois que a mãe o emancipou e sumiu.

Catarina, ao contrário, tem o amor incondicional dos pais, Serena e Jorge, mas, ainda assim, escolhe não fazer faculdade porque o que quer e precisa esta no tarot. Começa a ficar conhecida, a fama de ser uma cartomante confiável se espalhando pelo bairro. Sai da casa dos pais e aluga um pequeno apartamento onde pode atender seus clientes, a vida inteira amarrada por este fio invisível a Augusto. Mas será mesmo que era um fio ou será uma ancora? Algumas pessoas podem trazer o que temos de melhor a toma, outras podem trazer a tona o que temos de pior.

Os dois conversavam muito, talvez mais do que em qualquer outro tempo. O amigo chegava no meio da tarde e com frequência trazia comida, de forma que improvisavam um almoço tardio na varandinha enquanto o caldeirão da rua fervilhava de gente apressada. Em um desses dias, ele acendeu um cigarro e, em um tom solene, revelou os últimos acontecimentos sobre sua mãe e a recaída que o tinha levado a requisitar um pedaço do chão de Catarina. Ela se comoveu, porque o drama daqueles dois era uma história antiga, e conhecia o potencial de destruição de ambos. Com cuidado, perguntou se ele seria mesmo incapaz de perdoá-la.
Eu não consigo — Augusto respondeu. — Não tem co­mo, Catarina. Você perdoa hoje, amanhã ela volta a fazer o que sempre fez. Isso não é doença. É escolha.

Sim, o mundo está basicamente apocalíptico ao redor de nossas personagens, mas o que me prendeu foi realmente o relacionamento dos dois, se é que se pode chamar assim. Por mais que quando comecemos a ler, possamos acreditar que algo será romântico, talvez o que tenhamos diante de nós seja mais algo misturado com ressentimento, inveja e carência. Até quando podemos perdoar uma pessoa? Faz diferença se tudo estiver pegando fogo ao nosso redor?

Não espere saber aonde essa trama vai terminar porque não acho que consigam. A forma como o rio da vida das personagens correm realmente nos entrega algo inesperado, mas, mais do que isso, crivel, muito crível, porque quando não há como se fazer escutar e a linha do desastre já está correndo, o que você pode fazer é correr – ou caminhar – o mais rápido possível, por quanto tempo seja, porque você ainda quer aprender, quer viver, quer evoluir, e não há como se arrastar quem não quer. Precisamos nos ater mais a isso.

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