Ícone do site Idris Brasil

Resenha: A autoestrada – Stephen King


“A autoestrada”(Os livros de Bachman)
Stephen King
Tradução: Fabiano Morais
Arte de Capa: Estúdio Nono
Suma – 2026 – 334 páginas

Até onde um homem comum é capaz de ir para não perder tudo? Em A autoestrada, Stephen King constrói uma narrativa intensa e desoladora sobre alguém empurrado ao limite quando uma força corporativa ameaça demolir seu lar. Uma descida brutal rumo à violência que retrata um mundo cruel e assustadoramente atual.

Durante um inverno implacável, devastado pela morte recente de seu único filho e com o casamento em crise, Barton George Dawes recebe a notícia de que seu bairro e sua casa serão demolidos para a construção de um trecho de rodovia. Barton decide resistir, apegado ao lar e as memórias que ali vivem. Ele é levado aos limites da sua sanidade e segurança da forma mais extrema possível ― e diante das câmeras de TV de um país que assiste atento à sua derrocada.

Numa poderosa metáfora do labirinto em que se encontravam os Estados Unidos no início da década de 1970 ― a derrota militar no Vietnã, a crise do petróleo, o escândalo de Watergate ―, Stephen King explora com maestria os desvios e fantasmas da mentalidade conturbada do protagonista, um de seus anti-heróis mais memoráveis. À maneira de Jack Torrance, de O iluminado, perseguido por espectros do passado, Dawes se lança a desafiar sozinho as forças destrutivas do progresso e os sinistros guindastes da rodovia em construção, até a redenção final. Intenso e profundamente humano, um olhar bruto sobre como o progresso pode colidir com a vida de um homem.

Normalmente já acho que Stephen King não é para todas as pessoas porque muito o rotularam como um cara que escreve sobre terror sobrenatural e que preza por cenas fortes, e afirmo com todas as letras que quem acha isso não o conhece realmente porque o que King faz de melhor é mostrar que os humanos são os maiores pesadelos de qualquer pessoa, em qualquer livro seu. Mas, voltando ao que mencionei, já acho que ele é o autor não para todos, mesmo vendo o tanto de livros que vendeu ao redor do mundo, e aqui, em “A autoestrada”, acho com mais convicção ainda porque é um livro forte, realmente forte, um espiral de pensamentos, sentimentos e desespero embrulho em um papel sufocante que leva um homem simples ao ponto mais baixo de sua vida, pelo luto e por suas próprias decisões. Falo sem medo nenhum de explicar que este livro precisa ser lido com um certo cuidado porque se você estiver com a saúde mental fragilizada, talvez não seja a hora de ler essa trama que parece se concentrar em algo mundano, mas que não é.

Antes, me permitam explicar sobre o pseudônimo que King usou nos anos 1970: Ele assinou como Richard Bachman porque escrevia mais de um livro por ano e seu editor, acreditando que eram livros demais (como se pudesse existir algo assim), o incentivou a assinar como Bachman algumas de suas tramas. Também já tinha lido que os livros que estavam sobe este pseudônimo eram mais sombrios, coisa que o próprio King confirmou porque, pasmem, os livros de King não tem finais tão sombrios como estes. O que posso dizer sobre isso é que sim, Bachman (a parte do cérebro do King que o é, pelo menos) é um escritor sem medo de esfregar na nossa cara o que já cansei de falar sempre e mencionei no paragrafo acima. Seja como for, Barton “Bart” George Dawes já se tornou um dos maiores anti-heróis que já li sobre na vida. Sua jornada de desespero e descida até o fundo do poço é uma extração de tristeza do fundo do coração do leito, do jeito que somente um autor do quilate de King consegue fazer.

Ele continuava fazendo as coisas sem se permitir pensar sobre elas. Era mais seguro assim. Era como ter um disjuntor na cabeça que desarmava sempre que parte dele tentava se perguntar: mas por que você está fazendo isso? Parte da mente dele escurecia. Ei, Georgie, quem apagou as luzes? Ops, fui eu. Deve ser algum problema na fiação. Só um segundo A chave é religada. As luzes voltam. Mas o pensamento desapareceu Está tudo bem. Vamos continuar, Freddy – onde estávamos?
Ele andava até o ponto de ónibus quando viu a placa que dizia:
MUNIÇÃO – LOJA DE ARMAS DO HARVEY – MUNIÇÃO

Poucas vezes na vida comecei lendo um livro e ficando tão confusa quanto este. Não é porque a trama é confusa: é literalmente o que tem na sinopse, com Bart sabendo que teriam de sair da casa até janeiro do ano seguinte porque estavam construindo a extensão da Rota 784, o que faria com sua casa fosse ser demolida – mas não só a casa de Bart seria demolida, também a lavanderia Blue Ribbon, onde ele trabalhava há 20 anos também seria afetada. Parece algo simples e os moradores e pessoas da area só deveria aceitar os ressarcimentos e se mudarem para as redondezas. Mas o que começa com uma constatação racional começa a se perder a medida que a narrativa vai se desenrolando porque entendemos que não é só uma casa para Bart e sim o lugar que ele compou com a esposa depois de juntarem dinheiro, a realização de ter conquistado algo tão grande em suas vidas, além de ser o lugar onde o filho do casal, Charlie, morou até sucumbir à um tumor cerebral, algo que o devastou. O emprego não só uma lavanderia, era o lugar onde Bar encontrou amizades e apoio que jamais esperou, um lugar aonde o dono e o filho acreditaram nele e o ajudaram na faculdade. E ai sim, começamos a entender que Bart estava perdendo mais do que tijolos e solo, e sim tudo que mantinha sua vida minimamente no lugar.

Mas não é a motivação de Bart estar claramente perturbado que me deixou confusa no começo e sim a própria narração. Ele fala sobre si mesmo em pensamentos envolvendo Fred e George, o que não faz o menor sentido porque não sabemos quem são, mas fica claro que são “as vozes” dentro da cabeça dele. Bart parece perdido e em diversos momentos, seus pensamentos são erráticos, complexos, rancosos e sem fundamento, mas vamos compreendendo, realmente um verdadeiro quebra-cabeças literário que vai se formando diante de nossos olhos a medida que ele começa a sabotar a compra de um novo prédio para a lavanderia se mudar quando o prédio antigo for demolido. Todo desespero, raiva e desespero do homem vai saindo cada vez mais, o afastando de sua esposa, Mary, ao ponto que se torna uma especie de vilão da vida de diversas outras pessoas, sem a menor intenção – um anti-herói.

Ele olhou para o relógio de pulso, sentindo-se culpado. Quase quarenta minutos tinham se passado. Meu Deus, aquilo não era nada bom. Tinha acabado de perder quarenta minutos, e nem havia pensado em tanta coisa assim. Apenas sobre o parque e o Grand Theater.
Tem alguma coisa errada com você, Georgie?
Talvez tenha, Fred. Talvez tenha sim.
Ele passou os dedos pela bochecha, logo abaixo dos olhos, e, ao vê-los molhados, percebeu que tinha chorado.

Tudo nesse livro parece ser colocado para ir aos poucos entregando a sensação de claustrofobia que Bart sente, a raiva escorrendo das páginas, a frustração de ver ninguém desesperado como ele está por estar perdendo sua casa e começar tudo de novo aos quarenta anos, até que vamos compreendido que tudo aquilo começou do luto de perder Charlie, menos de 48 meses antes. O garoto começou a sentir dores de cabeça, e quando enfim foi diagnosticado, veio o desespero e a sensação de impotência: não havia como operar, o garotinho estava fadado a morrer. Observar quem você ama dessa forma é uma das piores coisas da vida e deixou, obviamente, uma marca profunda em Bart.

Mary chorava, era tratada com bondade pelas amigas, teve o apoio da família, mas Bart se trancou, até mesmo se ressentindo da esposa que começou a curar com o apoio e carinho das pessoas que se importavam com ela. Enquanto Mary colocava a dor pra fora no choro, Bart foi alimentando a fogueira do rancor e raiva dentro dele, já como não esperavam ter mais filhos com a idade que estavam atualmente. Pouquíssimo tempo depois, chega a noticia sobre a Rota 789. Parecia que a vida estava, mais uma vez, tirando mais de Bart, e o pouco que ainda o segurava a sua vida estava sendo explodido, a sensação de que não era ninguém aumentando, o fazendo tomar decisões que são muito questionáveis.

Vá pra casa, Bart. Você está fora de si.
Por quê? Porque eu estou falando sobre você e não só sobre grana?
Você está perturbado, Bart.
Você não sabe – disse ele levantando-se e cravando os punhos no tampo de acrílico da mesa de Ordner. – Está com raiva de mim, mas não sabe por quê. Alguém te ensinou que, numa situação dessas, você deveria ficar com raiva. Mas você não sabe por quê.
Você está perturbado.
Pode ter certeza de que estou. E você, está o quê?
Vá pra casa, Bart.
– Não vou, mas vou deixá-lo em paz, que é o que você quer. Só me responda uma pergunta. Pare por um segundo com essa postura corporativa e me responda uma pergunta. Você se importe com isso? Isso tem a mínima importância que seja pra você?

Ordner o encarou pelo que pareceu um bom tempo, a cidade se estendendo às suas costas como um reino de arranha-céus envolvido em tons de cinza e neblina. E então disse:
Não.

Enquanto vamos lendo a descia de Bart ao inferno de seus próprios pensamentos, sentimos empatia pelo homem que perdia tudo, até a sanidade, mas também temos raiva pelo que faz com pessoas como Mary, que realmente se importavam com ele e queriam seu bem. A forma como o rastro da deteriorização mental de Bart fica claro leva todos nós a se questionar sobre tudo que envolve o assunto, mais atual do que nunca – e aqui se espante, você que me lê, porque este livro foi escrito em 1973 e publicado em 1984. Não consigo nem compreender como um livro desses sobre saúde mental foi publicado há tantos anos, sendo que este assunto era quase que um tabu em anos passados, com Mary chegando a sugerir que o marido procurasse um psiquiatra porque era obvio que ele não estava bem. Seja como for, vindo do King, não duvido de nada.

Bart continua como um verdadeiro trator, destruindo todos relacionamentos e até mesmo fazendo crimes enquanto o livro vai se caminhando para um final que é realmente devastador, com uma das melhores frases de encerramento que li na vida – eu sei, eu sei, sem spoilers – mas que traduz bastante toda trama e tudo que acompanhamos enquanto vemos Bart sair de um homem comum, que largou a faculdade para se casar por ter engravidado a namorada até chegar no lugar tão escuro que preferia causar que sentir mais dor em perder o que quer que fosse em sua vida.

– Ah, isso é muito ruim – disse ele para o quarto vazio. As palavras morreram logo depois de pronunciadas e ele foi até a cozinha preparar um drinque.
Suicídio.
A palavra tinha um som sibilante e preso como uma serpente contorcendo-se para passar por uma fenda pequena. Deslizava por entre a língua e o céu da boca dele como um condenado em fuga.
Suicídio.
A mão dele tremia ao servir o Southern Comfort e o gargalo da garrafa tilintou contra a borda do copo. Por que ele fez isso, Freddy? Johnny e Arnie eram só dois velhos rabugentos morando juntos. Deus do céu, por que qualquer pessoa faria isso?
Porém, ele achava que sabia o porquê.

O impacto que a saúde mental tem na vida de qualquer pessoa fica claro neste livro. Sensações desconexas, conversas mentais, momentos que se encaixam e sonhos que parecem ditar como a pessoa se sente depois de o terem se tornam sintomas fortes para Bart, que quando enfim entende que está em um espirral de autodestruição, já está longe demais para se importar. O que podemos fazer para evitar que algo assim aconteça com alguém que amamos – ou até mesmo conosco? Não sei se há resposta para isso, mas posso afirmar que ter pessoas que prestem atenção nesses sinais pode salvar alguém.

A autoestrada” se tornou o meu livro favorito de Bachman e entra facilmente no meu top 5 de livros do King e não há nenhuma peça de sobrenatural ou qualquer monstro tirando a ganancia humana. Aqui, o real vilão é algo que infelizmente não temos como combater, com sua força muito mais do que nossa pequenez humana, e por mais que esta força seja uma vilã, é também nos que nos trouxe até aqui: o destino e seus caminhos sinuosos, repletos de felicidades e perdas, no qual, infelizmente, não há como se conduzir com toda segurança que nos garanta que nunca vamos bater em algo e partir nosso coração em mil pedaços. Foi assim que me senti ao terminar de ler este livro, e é assim que me sinto vivendo – mas não gostaria de perder nenhuma dessas duas experiências.

Para comprar “A autoestrada”, basta clicar no nome da livraria:

Amazon.
Magalu.

Sair da versão mobile