
Fabiane Secches
Arte de Capa: Elisa Von Randow
Companhia das Letras – 2026 – 160 páginas
Nesta sensível estreia de Fabiane Secches no romance, Ilhas suspensas equilibra ensaio e ficção para contar não apenas uma história sobre saudade e solidão, como também sobre amor, família e amizade.
Mariana tem encarado a maternidade sob diferentes formas: primeiro, com a morte de sua mãe; depois, com a frustração de várias fertilizações in vitro malsucedidas; por fim, com o distanciamento da própria língua materna, quando se vê migrando com o marido para um país cujo idioma, “composto de fonemas desconhecidos”, ela não compreende. A dinâmica de constantes perdas leva Mariana a um quadro depressivo que só é aliviado pela companhia dos livros e de seu cachorro, Quincas.
Entre se adaptar ao novo bairro, acostumar-se ao clima estranho e se moldar à atual rotina do marido ― que, devido ao trabalho, se ambientou às mudanças com muito mais facilidade ―, Mariana se dedica à escrita de sua tese de doutorado, sobre a presença de animais na literatura, enquanto coleciona trechos das obras de Donna Haraway, Susan Sontag e Carola Saavedra, na tentativa de encontrar algum tipo de resposta para as suas inquietações. De fato, é na literatura que ela experimenta esse acalanto, mas é ao lado de um grupo de amigas imigrantes que a possibilidade de recomeçar se apresenta.
Quando comecei a leitura de “Ilhas suspensas”, podia sentir a melancolia escorrendo das páginas e entrando em mim, me deixando em uma lagoa rasa de tristeza. Mariana, a personagem principal, entre lembranças e momentos atuais, está vivendo em um país ao qual não pertence e que a língua não lhe ajuda a se sentir bem-vinda ou se sentir realmente integrada aquela nova vida. Acompanhando seu marido, muito bem casada e com um relacionamento saudável e estável, Mariana sente que não está bem no lugar que sua vida se encontra, por muitos motivos.
Mas, assim como comecei sentindo essa melancolia, terminei a narrativa sentindo o famoso quentinho no coração por todos motivos certos do mundo porque Mariana encontra força onde a maior parte de nós já encontrou: nos livros – e nas amizades e força feminina. Vem comigo que vou explicar isso melhor.
Ao chegar no apartamento depois da última consulta, Mariana parecia voltar de outro mundo. Primeiro, imaginou que o estranhamento vinha do fato de que, fora as visitas médicas, havia tempos mal saía de casa. Talvez tenha ido longe demais, deixado seu epicentro de segurança, de seu quarto, de sua cama, da companhia gentil de Quincas. A depressão estabelece limites físicos muito estreitos.
Mas, pensando bem, não era isso. Ela voltou para casa e não se sentiu aliviada, nem protegida. Tudo no apartamento parecia pontiagudo e árido. Tomou fôlego e foi até a varanda. Quincas acompanhou o movimento com entusiasmo — seus passeios diários tinham se limitado aos horários do marido: de manhã, ele o levava até a praça mais próxima e o deixava brincar na área reservada aos cachorros enquanto lia o jornal. À noite, davam uma volta pelo quarteirão. Então, quando Mariana de repente decidiu ir à varanda, Quincas tremia de alegria, os pelos amarelos eletrizados. Era um cachorro compreensivo, mas nunca havia de fato se conformado à mesmice silenciosa dos últimos tempos.
Mariana tentou ser mãe e havia desistido depois de várias tentativas frustradas. Não há como se falar sobre isso sem imaginar a dor que deve existir em uma mulher que quer ter um filho biologico e não consegue. Depois de exames, remédios para aumentar a ovulação, a mulher chega a tentar a fertilização in vitro, tudo depois de convencer o marido a ter um filho, algo que ele não era tão aberto a ideia no começo. Mas há um limite para se tentar e Mariana chegou ao seu, voltando a usar um DIU e encerrando assim suas tentativas para tentar um filho biológico.
Essa tristeza também é potencializada com a morte de sua mãe, fato da vida que sempre é causa de perca de chão para qualquer pessoa que tenha um relacionamento bom e próximo com sua família. Quando seu marido recebe a novidade sobre se mudarem para o tal país não especificado na Europa, Mariana aceita mesmo sabendo que se afastará de seu pai, acreditando que pode ser algo necessário para sua vida.
Nos primeiros meses no novo país, tudo reluzia como reluzem as novidades. A sua canção do exílio seria diferente: no lugar do saudosismo da pátria, a leveza de quem está longe, sem que olhares e perguntas a alcançassem. Ninguém esperava que ela cruzasse o oceano de volta na primeira oportunidade. Era uma mulher livre, ávida por esse recomeço.
Então, aos poucos, passou a ser esquecida. Andava pelas ruas como um fantasma, aproveitando-se da desimportância que seu corpo assumia. O novo idioma era composto de fonemas desconhecidos, e depois de se debater um pouco, o seu cérebro, agora resignado, nem sequer se esforçava em decifrá-los. Era como se ouvisse uma sinfonia, ou um álbum de músicas instrumentais. Músicas estranhas, engraçadas, com acordes vigorosos, compostas de tantas consoantes pronunciadas de forma indistinguível. Lembrava-se de ter lido em algum lugar: ouvir música é uma forma de nos afastar do sofrimento das palavras.
No novo país, Mariana se depara com a grande barreira inicial: a língua. Não consegue aceitar e compreender a língua bem, mesmo sendo estudiosa da língua portuguesa e que provavelmente teria alguma vantagem por conhecer as raízes de uma língua. Sempre acompanhada por Quincas, seu cachorro que a acompanhou do Brasil para seu novo país, Mariana começa a se sentir a deriva em uma nova que deveria ser, por sonho, perfeita.
Fazendo uma aula de ioga em uma turma muito diversa, é lá que Mariana conhece Florence, uma imigrante sul-africana de 76 anos – a diferença de idade entre as duas é algo em torno de 35 anos, já como Mariana tem 41 – e que vai fazer toda diferença em sua vida, a apresentando a força feminina em sua potencia total atraves de um clube do livro pelo qual é convidada depois de um encontro aleatório em um supermercado no qual estava acompanhada de Quincas. O que vem a partir dai é o que falei: o quentinho no coração de ver mulheres que se apoiam, se mostram e querem estar perto umas das outras por diferentes motivos.
Na fábula de Esopo, uma raposa passa por uma videira carregada de uvas brilhantes e suculentas. Olha para elas com um estalo de encanto e começa a tramar tentativas para colhê-las. Por um instante, as uvas lhe parecem a coisa mais preciosa do mundo e ela as deseja como se disso lhe dependesse a vida. A raposa precisa das uvas. Depois de tentar alcançá-las algumas vezes, em vão, diz que nem as queria tanto assim: Olhando bem, elas estão verdes.
Na fábula, faz-se questão de ressaltar que as uvas estavam maduríssimas e servem de julgamento para o despeito da raposa, que desdenha do que não pode ter. Mariana gosta da fábula, mas não da lição de moral inequívoca que lhe atribuem, menos ainda de como a raposa é criticada. Um dia, quem sabe, a raposa falante de Esopo poderia chegar à conclusão cheia de palavras: o desdém era uma forma de se proteger da dor.
O casamento de Mariana continua forte, sem abalos, e o ponto alto do livro é realmente entender que mesmo se sentindo sozinha, a força que a ajudou a se fortalecer veio de algo que ela precisava ser somente dela: aquele clube do livro deixou de ser somente um clube no qual se discutiam livros e passou a ser uma verdadeira irmandade, um lugar de acolhimento aonde ela se sentia pertencente, fazendo aquele sentimento forte de deslocamento sumir. E é maravilhoso de ler justamente por isso, pelo foco estar em como uma mão para segurar a sua pode ser o que você mais precisa em algum momento, e não necessariamente uma mão com desejo romântico.
Há diversas menções à livros, filmes e músicas no livro, tudo que cai perfeitamente no momento que é citado, formando uma narrativa muito, muito encaixada e perfeita no que se propõe. É maravilhoso ler livros com visões diferentes sobre temas que estão bastante em alta, como maternidade, mas que também traz a luz o que se sente quando se muda completamente do lugar no qual você cresceu – e, muitas vezes, até nele mesmo, porque mesmo estando onde você deveria pertencer, você pode se sentir deslocada. E, se isso acontecer, você sempre terá os livros, e, com sorte, pessoas que sintam o mesmo, o que pode ser traduzido em uma única palavra: família.
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