13. Cidade de Vidro – Tornando-se Sebastian Verlac

O terceiro dos quatro trechos de conteúdos especiais. Esse é um texto curto sobre como Jonathan Christopher Morgenstern se tornou Sebastian Verlanc em Cidade de Vidro.

Era um bar bem pequeno, numa rua íngrime e estreita, numa cidade murada cheia de sombras. Jonathan Morgenstern sentara no bar por pelo menos vinte e cinco minutos, terminando vagarosamente  sua bebida, antes de se levantar e se encaminhar pela escada frágil de madeira para o clube. O som da música parecia estar o empurrando para cima enquanto ele descia: ele podia sentir a madeira vibrando em seus pés.

O lugar estava lotado com corpos se contorcendo na fumaça obscura. Era o lugar em que demônios rondavam. O que fazia um lugar em que caçadores de demônios frequentavam.

Um lugar ideal para alguém que estava caçando um caçador de demônios.

Fumaça colorida pairava sobre o ar, exalando um cheiro vagamente ácido. Haviam grandes espelhos pelas paredes do clube. Ele podia ver a si mesmo se movendo pelo cômodo. Uma figura esguia em preto, com os cabelos de seu pai, brancos como a neve. Era úmido ali embaixo no clube, abafado e quente, e sua camiseta estava grudada em suas costas com suor. Um anel de prata em sua mão direita brilhava enquanto ele escaneava o local a procura de sua presa.

Ali estava ele, no bar, como se estivesse tentando se misturar aos mundanos, embora ele era invisível a eles.

Um garoto. Talvez com dezessete anos..

Um Caçador de Sombras.

Sebastian Verlac.

Jonathan geralmente nutria pouco interesse em pessoas de sua própria idade – Se havia algo mais aborrecedor que outras pessoas, eram adolescentes – mas Sebastian Verlac era diferente. Jonathan escolhera ele, cuidadosamente e especificamente. Escolhera ele da maneira que alguém escolheria um terno de alfaiate customizado e caro.

Jonathan deu a volta nele, dando a si um tempo e analisando o garoto. Ele havia visto fotografias, claro, mas as pessoas sempre pareciam diferentes pessoalmente. Sebastian era alto – a mesma altura de Jonathan, e com a mesma estrutura esguia. Suas roupas pareciam como algo que serviria em Jonathan perfeitamente. Seu cabelo era negro – Jonathan teria que pintar o seu próprio cabelo, o que era irritante, mas não impossível. Seus olhos eram pretos, também, e suas feições, embora irregulares, se completavam harmonicamente: ele tinha um carisma amistoso que era atrativo. Ele parecia ser alguém que confiava nos outros facilmente, e sorria com facilidade.

Ele parecia ser um tolo.

Jonathan chegou no bar e se encostou contra a mesa. Girou a cabeça, deixando que o garoto reconhecesse que ele o poderia ver.

Bonjour.

Olá – Sebastian respondeu, em inglês, a língua de Idris, embora tivesse um toque de sotaque francês. Seus olhos se estreitaram. Ele parecia surpreso por ser visto, e parecia estar imaginando o que Sebastian poderia ser: um companheiro Caçador de Sombras, ou um feiticeiro com um sinal que não poderia ser visto?

Algo perverso ao seu caminho vem, Jonathan pensou. E você nem ao menos se dá conta.

Eu mostrarei o meu se você mostrar o seu – ele sugeriu, e sorriu. Ele podia ver a si mesmo sorrindo no espelho sujo do bar. Ele sabia como iluminar suas feições, e fazê-lo parecer irresistível. Seu pai o havia treinando por anos para sorrir daquela maneira, como um ser humano.

A mão de Sebastian se enrijeceu na borda da mesa do bar.

Eu não…

Jonathan sorriu mais e virou sua mão direita para mostrar a runa Voyance nas costas. A respiração saiu de Sebastian num alívio e ele radiou com o reconhecimento: como se qualquer Caçador de Sombras fosse companheiro e amigo em potencial.

Você está a caminho de Idris, também? – Jonathan perguntou, bastante profissional, como se estivesse em regular contato com a Clave. Protegendo os inocentes, ele projetava isso ao mundo e a Sebastian em particular. Ele não podia se ver satisfeito disso!

Eu estou – Sebastian respondeu – Representado o Instituto de Paris. Meu nome é Sebastian Verlac, falando nisso.

Ah, um Verlac. Uma família boa e antiga – Jonathan aceitou sua mão, e o cumprimentou firmemente. – Mark Blackthorn – ele disse facilmente – Do Instituto de Los Angeles, originalmente, mas eu estive estudando em Roma. Eu pensei em passar por Alicante. Apreciar a paisagem.

Ele havia pesquisado sobre os Blackthorns, uma grande família, e sabia que eles e os Verlacs não haviam estado na mesma cidade por anos. Ele estava certo que ele não teria problemas em responder com um nome que não era seu: ele nunca tinha. Seu nome verdadeiro era Jonathan, mas ele nunca se sentiu conectado a ele, particularmente: talvez porque ele sempre soubera que esse não era apenas SEU nome.

O outro Jonathan, sendo criado não muito distante, numa casa como a dele, visitado por seu pai. O pequeno anjinho do papai.

Eu não tenho visto outro Caçador das Sombras há muito tempo – Sebastian continuou. Ele estava falando a um tempo, mas Jonathan esquecera de prestar atenção a ele – Engraçado te encontrar aqui. É meu dia de sorte.

Deve ser – Jonathan murmurou – Embora não totalmente por acaso, claro. Houveram denúncias de um demônio Eluthied espreitando esse lugar. Eu presumo que você tenha ouvido, também?

Sebastian sorriu e tomou o último gole de seu copo, o colocando em cima da mesa.

Depois de nós o matarmos, deveríamos beber uma rodada em celebração.

Jonathan assentiu, e tentou parecer que estava muito focado em encontrar a sala para demônios. Eles pararam ombro a ombro como irmãos guerreiros. Foi tão fácil que foi quase entediante: tudo que ele tinha que fazer era se mostrar, e ali estava Sebastian Verlac, como um cordeiro empurrando uma lâmina em sua garganta. Quem confia em outras pessoas desse jeito? Quer ser amigo tão facilmente?

Ele nunca foi bom com os outros. Claro, ele nem nunca teve a oportunidade: o pai dele manteve ele e o outro Jonathan separados. Uma criança com sangue de demônio e uma criança com sangue de anjo: crie os dois meninos como seus e veja quem vai fazer o papai orgulhoso.

O outro menino falhou no teste quando era muito novo, e foi mandado embora. Jonathan sabia disso. Ele passou por todos os testes que o pai deu para ele. Talvez ele tenha passado todos bem demais, muito perfeitamente, não incomodada pelo isolamento naquela camêra e os animais, o chicote ou a caça. Jonathan havia identificado uma sombra nos olhos do pai agora e depois, um que era uma queixa ou uma dúvida.

Embora o que ele teria para se lamentar? Porque ele teria dúvidas? Jonathan não era o guerreiro perfeito? Ele não era tudo que o pai dele o criou para ser?

Humanidade é tão complicada.

Jonathan nunca gostou da ideia do outro Jonathan, do pai ter outro filho, um que fez o pai sorrir algumas vezes ao pensar sobre ele sem uma sombra em seus olhos.

Jonathan cortou nos joelhos um dos bonecos que ele usava para praticar, e passou um dia agradável o estrangulando e tirando as vísceras, cortando do pescoço ao umbigo. Quando o pai dele o perguntou porque ele tirou um pedaço das pernas, ele disse que queria saber como era matar um garoto que tivesse o mesmo tamanho dele.

Eu esqueci, você vai ter que me desculpar –  disse Sebastian, que estava se tornando irritantemente falante. – Quantos são em sua familia?

Oh, nós somos uma grande –  Jonathan respondeu. – Oito no total. Eu tenho quatro irmãos e três irmãs.

Os Blackthorns realmente eram oito: A pesquisa de Jonathan tinha sido completa. Ele nem podia imaginar como seria, tantas pessoas, tal desordem. Jonathan tem uma irmã de sangue também, apesar de nunca terem se conhecido.

O pai dele contou sobre a mãe dele fugindo quando Jonathan era um bebê, que ela estava grávida de novo, inexplicavelmente chorosa e miserável porque ela tinha um tipo de objeção ao filho dela ser melhorado. Mas ela fugiu tarde demais: Pai já tinha visto que Clarissa teria poderes angelicais.

Apenas algumas semanas atrás, o pai conheceu Clarissa pela primeira vez, e no segundo encontro Clarissa provou que ela sabia como usar o poder dela. Ela também mandou o navio do pai deles para o fundo do oceano.

Uma vez que ele e o pai tivessem retirado e transformado os Caçadores de Sombras, devastado seu orgulho e sua cidade, o pai disse que a mãe, o outro Jonathan e Clarissa iriam viver com eles.

Jonathan desprezou sua mãe, que aparentemente tinha sido uma fraca patética que fugiu dele quando ele era um bebê. E o único interesse dele no outro Jonathan era provar o quão superior ele era: O filho real, por sangue e com força de demônios e caos no mesmo sangue.

Mas ele estava interessado em Clarissa.

Clarissa nunca decidiu deixar ele. Ela foi levada e forçada a crescer em meio a mundanos, uma das coisas mais nojentas. Ela provavelmente sempre soube que ela foi feita de um jeito diferente das pessoas a volta dela, destinada a fazer coisas diferentes, poder e uma crepitante estranheza sob a pele dela.

Ela deve ter se sentido como a única criatura igual a ela em todo o mundo.

Ela tinha o anjo nela, como o outro Jonathan, não o sangue infernal que corria nas veias dele. Mas Jonathan era muito filho de seu pai como qualquer outra coisa: ele era como o pai o fez, mais forte, misturado com o fogo do inferno. Clarissa era filha real de seu pai também, e quem saberia o que seria a estranha combinação do sangue do pai deles e o poder do paraíso correndo nas veias de Clarissa? Ela poderia não ser muito diferente de Jonathan.

O pensamento o deixou excitado de um jeito que ele nunca ficou antes. Clarissa era irmã dele; ela não pertencia a mais ninguém. Ela era dele. Ele soube disso, porque apesar de não poder sonhar—isso era uma coisa humana—depois que o pai contou a ele sobre a irmã dele destruindo o navio, ele sonhou com ela.

Jonathan sonhou com uma garota parada no mar com o cabelo igual a fumaça escarlate cobrindo seus ombros, enrolando e desenrolando no vento indomável. Tudo era uma escuridão tempestuosa, e no mar revolto tinham pedaços do que foi uma vez um barco e corpos boiando com o rosto para baixo. Ela olhava para eles com os olhos verdes e não tinha medo.

Clarissa tinha feito aquilo, a destruição causada assim, como ele faria. No sonho, ele estava orgulhoso dela. A irmãzinha dele.

No sonhos, eles estavam rindo juntos de toda a linda ruína em volta deles. Eles estavam suspensos no mar, não podiam ser machucados, a destruição era um elemento deles. Clarissa estava olhando para baixo enquanto ria, arrastando suas mãos brancas igual ao luar na água. Quando ela levantou as mãos, elas estavam escuras, pingando: ele notou que o mar era puro sangue.

Jonathan acordou desse sonho ainda rindo.

Quando fosse o tempo certo, o pai disse, eles estariam juntos, todos eles. Jonathan teria que esperar.

Mas ele não era muito bom com esperas.

Você tem o olhar mais estranho no seu rosto – disse Sebastian Verlac, gritando acima do ritmo da música, soando claro e irregular nos ouvidos de Jonathan.

Jonathan se inclinou sobre ele, falando suavemente e com precisão no ouvido de Sebastian.

Atrás de você –  disse ele. – Demônio. Na posição de quatro horas.

Sebastian Verlac virou, e o demônio, na forma de uma menina com uma nuvem de cabelo escuro, se afastou apressadamente do garoto com o qual estava falando e começou a correr para longe no meio da multidão. Jonathan e Sebastian o seguiram por uma porta lateral com “Saída de Segurança” escrita através dela em letras misturadas em vermelho e branco.

A porta dava para um beco, aonde o demônio estava descendo rapidamente, quase desaparecendo.

Jonathan saltou, jogando-se contra a parede de tijolos do outro lado, e usou a força de sua pancada de volta para mirar a cabeça do demônio. Ele torceu-se no ar, a sua lâmina com runas na mão, fazendo assobiar através do ar. O demônio congelou, olhando para ele. A máscara de rosto de uma menina estava começando a escorregar, e Jonathan poderiam ver as características por trás dela: olhos próximos como de aranha, uma boca com presas, aberta com a surpresa. Nada disso provocou nojo nele. O fluído que corria nas veias do demônio também corria nas suas.

Não que isso inspirasse misericórdia também. Sorrindo para Sebastian sobre o ombro do demônio, ele deslizou a espada, cortando em aberto o demônio como ele uma vez havia cortado um boneco, do pescoço ao umbigo. Um grito borbulhante correu pelo beco como se o demônio tivesse se dobrado sobre si mesmo e desaparecido, deixando algumas gotas de sangue negro salpicado sobre as pedras.

Pelo Anjo – Sebastian Verlac sussurrou.

Ele estava olhando para Jonathan por cima do sangue e o vazio entre eles, e seu rosto estava branco. Por um momento, Jonathan estava quase satisfeito que ele tinha a percepção de ter  medo.

Mas não teve essa sorte. Sebastian Verlac permaneceu um tolo até o fim.

Você foi incrível! – Sebastian exclamou, com a voz abalada mas impressionado. – Eu nunca vi ninguém se mover tão rápido! Alors, você tem que me ensinar esse movimento. Pelo Anjo –  ele continuou. – Eu nunca vi nada como o que você fez.

Eu adoraria ajudar você – disse Jonathan.  – Mas infelizmente eu tenho que  ir embora em breve. Meu pai precisa de mim, sabe. Ele tem planos. E ele simplesmente não pode fazer sem mim.

Sebastian pareceu absurdamente desapontado.

Ah, você não pode ir agora – ele tentou persuadir  – Caçar com você foi muito divertido, mon pote. Nós temos que fazer isso de novo alguma hora.

Eu receio –  disse Jonathan para ele, tocando o cabo de sua arma – Que não vai ser possível.

Sebastian pareceu tão surpreso quando foi morto. Isso fez Jonathan rir, a lâmina na mão e a garganta de Sebastian aberta abaixo dela, o sangue derramando seus dedos quentes.

Ele não queria que o corpo de Sebastian fosse encontrado em um momento inconveniente e todo o jogo fosse arruinado, então Jonathan arrastou o corpo como se ele estivesse carregando um amigo bêbado para sua casa, pelas ruas.

Não era muito longe de uma pequena ponte, delicada como uma filigrana recém feita (joia de ouro, com os fios muitos finos interligados) ou como um estofado para uma criança morta, ossos frágeis, sobre o rio. Jonathan levantou o cadáver para o lado e o viu cair entre as águas negras correntes com um barulho.

O corpo afundou sem deixar vestígios, e Sebastian o esqueceu antes mesmo dele ter afundado todo. Ele viu os dedos curvados, balançando nas correntes como se tivessem voltado à vida e implorando por ajuda ou, pelo menos, por respostas, e pensou em seu sonho. Sua irmã, e um mar de sangue. Água havia respingado da onde o corpo afundara, alguns dos respingos batendo em sua manga. Batizando-o com um novo nome. Ele era agora Sebastian.

Ele caminhou pela da ponte para a parte antiga da cidade, onde havia lâmpadas elétricas disfarçados de lampiões a gás, mais brinquedos para os turistas. Ele estava indo em direção ao hotel onde Sebastian Verlac estava ficando; ele tinha descoberto antes de ir para o bar, e ele sabia que poderia entrar pela janela e recuperar os pertences do outro garoto. E depois disso, um vasilhame de tintura barata para cabelo e…

Um grupo de meninas em vestidos de festa passou por ele, balançando seus babados, e uma, sua saia prateada roçando em suas cochas, deu um olhar direto e um sorriso para ele.

Ele se sentia indo em uma festa.

Comment tu t’appelles, beau gosse? – Perguntou-lhe outra garota, a voz levemente animada.  – Qual é seu nome, menino bonito?

Sebastian –  Ele respondeu suavemente, sem hesitar um segundo. Esse era quem ele era a partir de agora, quem o plano de seu pai o obrigou a ser, quem ele precisava ser para percorrer o caminho que levava a vitória e Clarissa.

Sebastian Verlac.

Ele olhou para o horizonte, e pensou nas torres de vidro de Idris, pensado nelas envoltas em chamas, sombra e ruína. Ele pensou em sua irmã esperando por ele, lá fora, em qualquer lugar do mundo.

Ele sorriu.

Ele pensou que ele ia gostar de ser Sebastian.