22. Anjo Mecânico – Sobre Perda: O Ponto de Vista de Will sobre seu beijo com Tessa

Sobre Perda: Ponto de Vista de seu beijo com Tessa em Anjo Mecânico, página 284 a 292.

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Will Herondale estava queimando.
Essa não era a primeira vez que ele havia consumido sangue de vampiro, e ele sabia o padrão da dor. Primeiro havia uma vertigem e euforia, como se você tivesse bebido muito gin – o breve período de embriaguez antes de a sensação passar. E então vinha a dor, começando dos dedos dos pés, subindo como se linhas de pólvora tivessem sido postas sobre seu corpo e estivesse queimando até chegar a sua cabeça.
Ele ouvira que a dor não era tão intensa para humanos: que seu sangue, mais fino e mais fraco que o sangue de um Caçador de Sombras, não lutava pela doença demoníaca como o sangue de Nephilim fazia. Ele estava vagamente consciente quando Sophie veio com a água benta, borrifando nele algo frio conforme deixava os baldes no chão e saía do quarto. O ódio de Sophie por ele era sólido como a neblina de Londres; ele podia sentir saindo dela quando ela se aproximava dele. A força disso o fez levantar e se apoiar pelos cotovelos. Ele puxou um balde para perto de si e o levantou em direção a sua cabeça, abrindo sua boca para engolir o que conseguisse.
Por um momento, ele sentiu como se fogo queimasse completamente suas veias. A dor cessou, exceto pela pulsação em sua cabeça. Ele se deitou cuidadosamente, curvando um braço sobre seu rosto para bloquear a iluminação fraca vindo das janelas baixas. Seus dedos parecia deixar uma trilha de luz conforme se moviam. Ele ouviu a voz de Jem em sua cabeça, o repreendendo por arriscar sua vida. Mas o rosto que ele via contra suas pálpebras não era o de Jem.
Ela estava olhando para ele. A voz negra em sua consciência, o lembrete de que ele não poderia proteger ninguém, e que ficaria sozinho até o fim. Ela aparentava exatamente da maneira que ele a havia visto da última vez; ela nunca mudava, e assim ele sabia que ela era uma invenção de sua imaginação.
Cecily – ele sussurrou – Cecy, pelo o amor de Deus, me deixe.
Will?
Aquilo o surpreendeu; ela aparecia para ele frequentemente, mas raramente falava. Ela aproximou sua mão dele, ele teria se aproximado dela também, se não fosse o ruído de metal colidindo o trazendo de volta de seu devaneio. Ele engoliu seco.
De volta, é, Sophie? – Will disse. – Eu te disse que se você me trouxesse outro desses baldes infernais, eu…
Não é a Sophie – veio a resposta. – Sou eu. Tessa.
O batimento de seu próprio pulso invadiu seu ouvido. A imagem de Cecily desvaneceu e se dissipou em suas pálpebras. Tessa. Porque eles a enviaram? Será que a Charlotte o odiava tanto assim? Isso deveria ser algum objeto de lição para ela nas indignidades e perigos do Mundo das Sombras? Quando ele abriu seus olhos, ele a viu parada em sua frente, ainda em seu vestido de veludo e luvas. Seus cachos negros contrastavam com sua pele pálida, e sua bochecha estava salpicada, levemente, com sangue, provavelmente de Nathaniel.
Seu irmão, ele sabia que deveria dizer. Como ele está? Deve ter sido um choque tê-lo visto. Não há nada pior que ver alguém que você ama em perigo.
Mas fazia anos, e ele aprendera a engolir as palavras que ele queria dizer, transformando elas. De alguma forma eles estavam conversando sobre vampiros, sobre o vírus e como ele era transmitido. Ela deu o balde para ele com uma careta – ótimo, ela deveria ter raiva dele – e ele usou isso para extinguir a chama, para acalmar a queimação em suas veias e garganta e peito.
Assim melhora? – ela perguntou, observando ele com seus olhos cinzas claros – Derramando a água em sua cabeça desse jeito?
Will imaginou como ele deveria estar aparentando para ela, sentando no chão com um balde acima de sua cabeça, e fez um som com a garganta, quase uma risada. Oh, o glamour de ser um Caçador de Sombras! A vida de guerreiro que ele havia sonhado enquanto criança!
As perguntas que você faz… – ele começou.
Outra pessoa, outra pessoa que não fosse a Tessa, talvez teria se desculpado por ter perguntando mas ela apenas permaneceu parada, o observando como um pássaro curioso. Ele não achava que ele já tivera visto alguém com olhos da cor dos dela antes: era da cor da névoa cinza pairando sobre o mar de Gales.
Você não poderia mentir para alguém que possuía olhos que o lembrava de sua infância.
O sangue me faz ficar febril, faz minha pele queimar – ele admitiu – Eu não consigo ficar mais fresco. Mas, sim, a água ajuda.
Will… – Tessa disse.
Quando ele olhou para cima de novo, ela parecia estar envolta em luz como um anjo, embora ele sabia que era o sangue de vampire borrando sua visão. De repente ela estava se movendo em sua direção, pegando em sua saia para pode se sentar ao seu lado, no chão. Ele imaginou o porquê de ela estar fazendo isso, e percebeu, para seu próprio horror que ele havia pedido para ela fazer isso. Ele imaginou a doença de vampiro em seu corpo, subjugando seu próprio sangue, enfraquecendo sua força de vontade. Ele sabia, intelectualmente, que ele havia bebido água benta suficiente para matar a doença antes que ela pudesse se impregnar em seus ossos, e que ele não poderia deixar de lado seu autocontrole para a doença. E ainda – ela estava tão perto dele, perto o suficiente para ele poder sentir o calor irradiando de seu corpo.
Você nunca ri – ela estava dizendo – Você se comporta como se tudo fosse engraçado para você, mas você nunca ri. Às vezes você sorri quando você acha que ninguém está prestando atenção.
Ele queria fechar seus olhos. As palavras dela passaram por ele como um corte limpo de uma lâmina serafim, queimando seus nervos como fogo. E ele não tinha ideia de como ela o observara tão atentamente, ou tão precisamente.
Você – ele respondeu – Você me faz rir. Desde o momento que você me acertou com aquela garrafa. Sem mencionar a maneira que você sempre me corrige. Com esse olhar engraçado em seu rosto quando você faz isso. E a maneira que você gritou com o Gabriel Lightwood. E até a maneira que você respondeu o de Quiencey. Você me faz…
Sua voz sumiu. Ele podia sentir a água fria escorrendo por suas costas, por seu peito, contra sua pele aquecida. Tessa sentou a alguns centímetros dele, exalando um cheiro de pó e perfume e transpiração. Seus cachos úmidos enrolados contra suas bochechas, e os olhos dela estavam abertos para ele, seus lábios de um rosa pálido, levemente partidos. Ela levantou a mão para puxar uma mecha de seu cabelo, e, sentindo como se ele estivesse se afogando, ele foi em direção à sua mão.
Ainda há sangue – ele disse, inarticuladamente – em suas luvas.
Ela começou a se esquivar, mas Will não a deixaria ir; ele estava se afogando, ainda, se afogando, e ele não conseguia soltá-la. Ele virou sua pequena mão para cima. Ele tivera o mais forte desejo de se aproximar dela completamente, de puxá-la contra ele e apertá-la em seus braços, de envolver seu corpo pequeno e forte com o dele. Ele curvou sua cabeça, grato de que ela não conseguia ver seu rosto conforme o sangue o corava completamente. Suas luvas estavam puídas, rasgadas onde ela havia pego nas algemas de seu irmão. Com um estalido de seus dedos, ele abriu os botões de pérola que mantinham a luva fechada, deixando seu pulso nu.
Ele conseguia ouvir a si mesmo respirando. Um calor se espalhou por seu corpo – não o calor não natural da doença vampírica, mas o mais comum rubor do desejo. A pele de o pulso dela estava translucidamente pálida, as veias azuis visíveis por baixo. Ele podia ver a palpitação de seu pulso, sentir o calor de sua respiração contra sua própria bochecha. Ele acariciou a maciez de seu pulso com as pontas de seus dedos e fechou seus olhos pela metade, imaginando suas mãos no corpo dela, a pele macia de seu antebraço, suas pernas sedosas debaixo de suas saias volumosas.
Tessa – ele disse, como se ela tivesse a menor ideia do efeito que estava tendo sobre ele. Havia mulheres que talvez tivessem esse efeito, mas ela não era uma delas. – O que você quer de mim?
Eu… Eu quero entender você – ela suspirou.
O pensamento era assustador.
Isso é mesmo necessário?
Eu não tenho certeza se alguém realmente te entende – ela respirou – exceto, possivelmente, o Jem.
Jem. Jem havia desistido de entendê-lo há muito tempo, Will pensou. Jem era um estudo sobre como você poderia amar alguém completamente sem ao menos entedê-lo. Mas o resto das pessoas não eram o Jem.
Mas talvez ele só quer saber que há uma razão – ela estava dizendo.
Seu olhar era feroz. Nada a impedia de argumentar, ele pensou, ou de se importar. Nesse aspecto ela era como o Jem: a perda não a fazia amargurada, e a traição não deixava sua fé de lado. Inconscientemente, ela se moveu para mover sua mão para trás, para fazer um gesto passional, e ele a segurou, retirando a luva de sua mão. Ela engasgou, como se ele tivesse colocado as mãos em seu corpo, o sangue subindo e ficando fixo em suas bochechas. Sua mão pequena e nua, que se contraía como uma pomba contra a sua, ficou rígida. Ele levantou a mão em direção à sua própria boca, sua bochecha, beijando sua pele… roçando seus lábios por suas articulações, até seu pulso. Ele a ouviu fazer um barulho baixo com sua voz, e levantou sua cabeça para vê-la sentada perfeitamente ereta, sua mão estendida, seus olhos fechados e seus lábios semi abertos.
Ele beijara garotas, outras garotas, quando o desejo básico de contato físico se tornou algo do senso comum, em esquinas escuras, em festas, ou em baixo de um visgo. Beijos rápidos, apressados, a maioria deles, embora alguns tiverem sido surpreendentemente elaborados – como Elspeth Mayburn havia aprendido a fazer aquilo com seus dentes, e o por que ninguém nunca contara a ela que essa não era uma boa ideia? – mas isso era diferente.
Antes houvera uma tensão controlada, uma decisão deliberada de ceder a o que seu corpo estava pedindo, separado de qualquer outro sentimento. Cortado de qualquer outra emoção. Mas isso… isso era um calor florescendo dentro de seu peito, deixando sua respiração mais curta, enviando uma onda de arrepios por sua pele. Esse era um sentimento de dor quando ela soltou sua própria mão, uma doença de perda curada apenas quando ele a puxou para perto de si através do chão de madeira rachada, suas mãos atrás de sua nuca conforme seus lábios iam em direção aos dela tanto com ternura como com ferocidade.
A boca dela se abriu sob a dele, hesitantemente, e algum canto de sua mente o alertou para desacelerar seu passo, que por algum palpite razoável esse era o primeiro beijo dela. Ele forçou suas mãos para desacelerar, para gentilmente tirar os grampos em seu cabelo e alisar os cachos que escorriam por seus ombros e costas, as pontas de seus dedos traçando uma linha pelas bochechas dela, por seus ombros nus. Seu cabelo parecia uma seda quente, passando por seus dedos, e o corpo dela pressionado contra o dele, era todo maciez. As mãos dela eram leves como plumas em sua nuca, em seu cabelo; quando ele a puxou para mais perto, ela fez um som baixo contra sua boca que quase dissipou os últimos pensamentos de sua cabeça. Ele começou a direcionar as costas dela para o chão, movendo seu corpo em cima do dela…
E então congelou. Pânico correu em seu sangue em uma corrente em ebulição conforme ele viu a estrutura completa e frágil que ele construíra em torno de si, se partir, tudo por causa disso, dessa garota, que quebrou seu controle como se nada nunca existira. Ele separou sua boca bruscamente da dela, empurrando ela para longe, a força de seu terror quase a derrubando. Ela olhou para ele através da cortina entrelaçada que era seu cabelo, seu rosto pálido em choque.
– Deus do Céu – ele sussurrou – O que foi isso?
A consternação dela era clara em seu rosto. Seu coração contraiu, lançando auto aversão em suas veias. Aquele momento, ele pensou. Aquele único momento…
Tessa – ele disse. – Acho que você deve ir.
Ir? – Os lábios dela se partiram; eles estavam inchados de seus beijos. Era como olhar para um ferimento que ele mesmo infligira, e no mesmo momento, ele queria nada mais além de beijá-la novamente. – Eu não deveria ter ido tão longe. Desculpe-me.
Deus! – A palavra o surpreendeu; ele deixara de acreditar em Deus há um longo tempo atrás, e agora ele o havia invocado duas vezes. A dor no rosto dela era quase mais do que ele poderia aguentar, e não menos porque ele não havia tido a intenção de machucá-la. Tão frequentemente, ele tinha a intenção de machucar e ferir, e nesse momento ele não tivera – não a princípio – e ele causara mais ferimentos que ele poderia imaginar. Ele queria nada mais que se aproximar dela e pegá-la em seus braços, não para satisfazer seu deseo, mas para transmitir ternura. Mas fazer isso apenas faria a situação piorar além do imaginado. – Apenas me deixe sozinho agora – ele ouviu a si mesmo dizer. – Tessa. Estou lhe implorando. Você entende? Estou lhe implorando. Por favor, por favor me deixe.
A resposta dela veio, finalmente, rígida com mágoa e raiva:
Muito bem – ela disse, embora claramente não estivesse tudo bem.
Ele deu um olhar rápido para ela pelo canto de seu olho: ela era orgulhosa, não choraria. Ela não se importou em pegar os grampos de cabelo que estavam jogados; ela apenas levantou e virou suas costas para ele.
Ele não merecia nada melhor, ele sabia. Ele jogara a si mesmo contra ela sem consideração por sua reputação ou de sua paixão indecorosa. Jem pensaria nisso. Jem teria sido mais cuidadoso com os sentimentos dela. E a partir de então, ele pensou, conforme os passos dela recuaram, ele também seria. Mas ele não sabia mais ser aquela pessoa. Ele cobrira aquele Will por tanto tempo com fingimento, que era pelo fingimento que ele procurava primeiro, não pela realidade. Ele cravou suas unhas no piso, agradecendo a dor, pois ela era pequena comparada à dor de saber que ele perdera mais do que a opinião de Tessa essa noite. Ele perdera Will Herondale. E ele não sabia se ele poderia alguma vez tê-lo de volta.