Prévia de Lady Midnight – Emma e Julian (TFTSA)

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Emma pegou a Pedra de Luz Enfeitiçada de seu bolso e a acendeu – e quase soltou um grito. A camiseta de Jules estava ensopada de sangue, e pior, as runas de cura que ela havia desenhado tinham desaparecido de sua pele. Elas não estavam funcionando.
“Jules,” ela disse. “Eu tenho que chamar os Irmãos do Silêncio. Eles podem te ajudar. Eu preciso.”
Os olhos deles se fecharam com a dor. “Você não pode,” ele disse. “Você sabe que nós não podemos chamar os Irmãos do Silêncio. Eles reportam diretamente para a Clave.”
“Então nós mentimos para eles. Dizemos que foi uma patrulha de rotina. Eu vou ligar.” Ela disse, e pegou seu telefone.
“Não!” Julian disse, forte o suficiente para pará-la. “Os Irmãos do Silêncio sabem quando você mente! Eles podem ver dentro da sua cabeça, Emma. Eles vão descobrir sobre a investigação. Sobre Mark…”
“Você não vai sangrar até a morte no banco de trás de um carro pelo Mark!”
“Não,” ele disse, olhando para ela. Seus olhos eram de um azul-esverdeado diferente, a única cor viva no interior sombrio do carro. “Você vai me consertar.”
Emma podia sentir quando Jules estava ferido, como um espinho alojado em sua pele. A dor física não a incomodava; era o terror, o único terror pior que o medo do oceano. O medo de Jules estar ferido, o medo dele morrer. Ela desistiria de tudo, suportaria qualquer ferimento, para prevenir que esse tipo de coisa acontecesse.
“Tudo bem,” ela disse. Sua voz soava seca e fina para seu próprio ouvido. “Tudo bem.” Ela respirou fundo. “Espere um pouco.”
Ela abriu o zíper de sua jaqueta, e a jogou para o lado. Empurrou o console entre os assentos, e colocou sua Pedra de Luz Enfeitiçada no chão. Então ela foi em direção de Jules. Os próximos segundos foram uma mistura do sangue de Jules em suas mãos e sua respiração difícil enquanto ela o puxava um pouco para cima, o encostando contra a porta de trás. Ele não fez som algum, mas ela conseguia ver ele mordendo os lábios, o sangue em sua boca e queixo, e ela sentiu como se seus próprios ossos estivessem saindo para fora de sua pele.
“Seu traje de luta,” ela disse entre dentes. “Eu vou ter que cortá-lo.”
Ele balançou a cabeça em afirmação, deixando sua cabeça cair para trás. Ela tirou a adaga de seu cinto, mas o traje era muito resistente à lâmina. Ela fez uma prece silenciosa e pegou sua Cortana.
Cortana passou pelo material do traje como uma faca pela manteiga derretida. Ele se desfez em pedaços que Emma colocou de lado, então abriu a frente da camiseta dele e puxou, como se estivesse abrindo uma jaqueta.
Emma já havia visto sangue antes, até mesmo com frequência, mas dessa vez era diferente. Era o sangue de Julian, e parecia ser uma grande quantidade. Estava espalhado para todo lado em seu peito e tórax; ela conseguia enxergar onde a flecha havia se alojado e onde a pele havia se partido quando ele a arrancou.
“Por que você puxou a flecha?” ela perguntou, tirando o suéter. Ela tinha uma regata por baixo. Ela apalpou seu peito e lado do corpo com seu suéter, absorvendo o máximo de sangue que conseguia.
A respiração de Jules estava começando a ficar mais difícil. “Porque quando alguém… o atinge com uma flecha…” ele arfou, “sua resposta imediata não é… ‘Obrigado pela flecha, acho que vou mantê-la por um tempo.”
“Bom saber que seu senso de humor continua intacto.”
“Ainda está sangrando?” Julian perguntou. Seus olhos estavam fechados.
Ela moveu o suéter sobre o corte. O sangue estava saindo mais devagar, mas o corte parecia estar protuberante e inchado. O resto dele, entretanto – havia algum tempo que ela tinha visto ele sem camisa. Havia mais músculo que ela se lembrava. Músculo esguio sobre suas costelas, seu abdome reto e levemente definido. Cameron era muito mais musculoso, mas os contornos sobressalentes de Julian eram tão elegantes como as de um cão de caça. “Você é muito magro,” ela disse. “Café demais, e panquecas de menos.”
“Espero colocar isso no meu túmulo.” Ele disse enquanto ela se movia para a frente, e ela percebeu abruptamente que estava praticamente no colo de Julian, os joelhos dela ao redor da cintura dele. Era uma posição bizarramente íntima.
“Eu… estou te machucado?” ela perguntou.
Ele engoliu saliva visivelmente. “Está tudo bem. Tente a iratze novamente.”
“Tudo bem,” ela disse. “Pegue a barra do pânico.”
“A o quê?” Ele abriu os olhos e a fitou.
“O apoio para as mãos de plástico! Ali em cima da janela!” Ela apontou. “É para você se segurar quando o carro está fazendo manobras ou curvas.”
“Tem certeza? Eu sempre achei que fosse para pendurar coisas. Como roupas limpas.”
“Julian, agora não é a hora para formalidades. Segure na barra ou eu juro que…”
“Tudo bem!” Ele levou a mão para cima, segurou no plástico e estremeceu. “Estou pronto.”
Ela balançou a cabeça e colocou Cortana de lado, pegando sua estela. Talvez as iratzes anteriores tivessem sido feitas rápido demais, de forma descuidada. Ela sempre se focava nos aspectos físicos de ser Caçadora de Sombras, não nos aspectos mais mentais ou artísticos: ver através do glamour, ou desenhar runas.
Ela pousou a ponta da estela sobre a pele do ombro dele e desenhou, com cuidado e lentamente. Ela tinha que se segurar mantendo sua mão esquerda no ombro dele. Ela tentou pressionar a estela o mais leve que conseguia, mas ela podia sentir ele tensionar sob seus dedos. A pele de seu ombro estava lisa e quente sob seu toque, e ela queria se aproximar mais dele para que ela pudesse colocar sua mão sobre a ferida e curá-la com a força pura de sua vontade. Tocar seus lábios nas linhas de dor por trás dos olhos dele e…
Pare. Ela havia terminado a iratze. Ela se sentou para trás, sua mão envolvendo a estela. Julian se sentou um pouco mais ereto, os resquícios de sua camiseta pendurados em seus ombros. Ele respirou fundo, olhando para si mesmo – e a iratze desapareceu em sua pele, como gelo derretendo, se espalhando, sendo absorvido pelo mar. Ele olhou para Emma. Ela conseguia ver seu próprio reflexo nos olhos dele: ela parecia destruída, em pânico, com sangue em seu pescoço e sua regata branca. “Está doendo menos,” ele disse em voz baixa.
O ferimento no lado de seu corpo pulsou novamente; sangue escorreu para o lado de seu tórax, empapando seu cinto de couro e o cós de seus jeans. Ela colocou suas mãos na pele nua dele, pânico a dominando. A pele dele estava quente, muito quente. Quente de febre.
“Eu tenho que chamar,” ela sussurrou. “E não me importo se o mundo inteiro cair ao nosso redor, Jules, a coisa mais importante é que você sobreviva.”
“Por favor,” ele disse, o desespero claro em sua voz, “Seja lá o que estiver acontecendo, nós podemos consertar, porque somos parabatai. Somos para sempre. Eu te disse isso uma vez, você se lembra?”
Ela balançou a cabeça cautelosamente, sua mão já no telefone.
“E a força de uma runa que seu parabatai te faz é especial, Emma. Você consegue. Você pode me curar. Nós somos parabatai, e isso significa que as coisas que podemos fazer juntos são… extraordinárias.”
Havia sangue no jeans dela agora, sangue em suas mãos e em sua regata, e ele ainda estava sangrando, o ferimento ainda aberto, como uma lágrima incompatível na pele lisa ao redor.“Tente,” Jules disse em um sussurro seco. “Por mim, tente?”
A voz dele produziu a perguntou, e nela ela ouviu a voz do garoto que ele antes fora, e ela se lembrou dele menor, mais magro, mais jovem, suas costas contra uma das colunas de mármore do Salão dos Acordos de Alicante, quando seu pai se aproximou com a espada embainhada.
Ela se lembrou do que Julian fizera. O que ele fez para protege-la, para proteger todos eles, porque ele sempre faria de tudo para protege-los.
Ela soltou o telefone e segurou novamente a estela, tão firmemente que sentiu cravar-se em sua palma úmida. “Olhe para mim, Jules,” ela disse com voz baixa, e seus olhos foram ao encontro dos dele. Ela apoiou a estela contra a pele dele, e por um momento ela ficou parada, apenas respirando, respirando e se lembrando.
Julian. A presença dele em sua vida por toda sua vida, salpicando água um no outro no oceano, cavando a areia juntos, ele colocando suas mãos sobre as dela, e eles maravilhados com a diferença no formato e no tamanho de seus dedos. Julian cantando, terrivelmente desafinado, enquanto dirigia, os dedos dele no cabelo dela cuidadosamente tirando uma folha que estava presa, as mãos dele a segurando na sala de treinamento quando ela caiu, e caiu, e caiu. A primeira vez depois da sua cerimônia parabatai quando ela socou a parede com raiva por não ter conseguido manobrar corretamente a espada, e ele foi em sua direção, segurou seu corpo ainda tremendo e disse, “Emma, Emma, não se machuque. Quando você se fere, eu sinto, também.”
Algo no peito dela pareceu se dividir e quebrar; ela se surpreendeu que não foi algo audível. Energia pulsou em suas veias, e a estela se sacudiu em sua mão antes de começar a se mover aparentemente sozinha, traçando o formato gracioso da runa de cura pelo peito de Julian. Ela o ouviu suspirar, os olhos dele se abrindo rapidamente. Suas mãos pegaram as costas dela, a aproximando de seu corpo, os dentes dele trincando.
“Não pare,” ele disse.
Emma não teria conseguido parar nem se quisesse. A estela parecia estar se movendo por vontade própria; ela estava cega com memórias, um caleidoscópio de lembranças, todas elas sobre Julian. O sol em seus olhos e Julian adormecido na praia com uma camiseta velha e ela não querendo acordá-lo, mas ele acordou de qualquer forma quando o sol se pôs e olhou imediatamente para ela, sem sorrir até que os olhos dele a encontraram e ele soube que ela estava lá. Os dois caindo no sono com suas mãos entrelaçadas; os dois haviam sido crianças no escuro, juntas, uma vez. Mas agora eles eram algo mais, algo íntimo e poderoso, algo que Emma sentiu estar tocando apenas a beirada enquanto terminava de desenhar a runa e a estela caiu de seus dedos sem forças.
“Oh,” ela disse suavemente. A runa estava iluminada internamente com um brilho suave.