21. Anjo Mecânico – O porquê de o Will odiar patos – Um extra de Anjo Mecânico

Ocorre no começo do Capítulo Nove de Anjo Mecânico, “O Conclave”

Will bateu os sapatos impacientemente contra as pernas da mesa da biblioteca. Se Charlotte estivesse ali, diria a ele para parar de danificar os móveis, embora metade da mobília na biblioteca já apresentasse marcas de anos de abuso – lasquinhas nos pilares onde ele e Jem praticavam briga de espadas fora da sala de treino, marcas de sapatos nos assentos perto das janelas, onde ele havia ficado sentado por horas, lendo. Orelhas de livros dobradas, lombadas quebradas, marcas de dedos nas paredes.
Claro que se Charlotte estivesse ali, eles também não estariam fazendo o que faziam, que era assistir a Tessa se transformar em Camille e depois nela mesma novamente. Jem estava sentado ao lado de Will na mesa da biblioteca, e de vez em quando, murmurava encorajamentos ou conselhos. Will, que apoiava a cabeça nas mãos atrás da cabeça, uma maçã que havia roubado da cozinha na mesa ao lado dele, fingia não estar prestando atenção.
Mas ele estava. Tessa andava para lá e para cá no cômodo, com as mãos fechadas ao lado do corpo, que demonstrava sua concentração. Era fascinante observá-la se transformando: havia uma onda, como a formada pela água de uma lagoa quando alguém atira uma pedra, e o cabelo preto dela iria aos poucos se tornando loiro, seu corpo se curvando e se transformando de uma maneira que tornava impossível, para Will, desviar os olhos. Não era costumeiramente considerado educado encarar uma moça dessa maneira tão direta, mas mesmo assim, ele estava grato pela chance…
Ele estava, não estava? Ele piscou, como se quisesse clarear os pensamentos. Camille era linda – uma das mulheres mais bonitas que ele já havia visto. Mas a beleza dela o deixava frio. Era, como ele disse a Jem, como uma flor morta pressionanda embaixo de vidro. Se seu coração estava disparado e seu olhar, hipnotizado, era pela própria Tessa. Ele disse a ele mesmo que isso era devido à fascinação por uma magia tão diferente, e não a adorável carranca que retorcia suas feições quando ela tinha dificuldade de imitar o jeito deslizante que Camille caminha – ou o jeito com que o vestido dela se afastava da clavícula dela e caia por cima dos ombros quando ela voltava a ser ela mesma, ou a maneira com que seu cabelo preto, solto, espalhavam-se pelas bochechas dela e pelo pescoço dela enquanto ela balança a cabeça, frustrada –
Ele pegou a maçã ao seu lado e começou a ostensivamente limpá-la na frente de sua camisa, esperando que isso disfarçasse suas mãos, subitamente trêmulas. Ter sentimentos por Tessa Gray não era aceitável. Ter sentimentos por qualquer pessoa era perigoso, mas sentimentos por uma garota que estava vivendo no Instituto – alguém que havia se tornado uma parte importante dos planos deles, alguém que ele não poderia evitar – eram especialmente perigosos.
Ele sabia o que precisava fazer nesse caso. Afastá-la, machucá-la, fazer com que ela o odiasse. E, mesmo assim, tudo dentro dele se rebelava contra essa idéia. Era porque ela estava sozinha, vulnerável, ele dizia para ele mesmo. Seria tão cruel fazer isso com ela…
Ela parou onde estava, jogando os braços para o alto e emitindo um ruído de frustração. “Eu simplesmente não consigo caminhar desse jeito!”, exclamou ela. “O jeito com que Camille parece deslizar…”
“Você caminha com os pés muito para fora”, disse Will, embora isso não foi realmente verdade. Era o mais cruel que ele poderia ser, e Tessa o recompensou com um olhar duro de reprovação. “Camille caminha de uma maneira delicada. Como um fauno na floresta. Não como um pato.”
“Eu não caminho como um pato.”
“Eu gosto de patos”, disse Jem. “Especialmente os do parque Hyde.” Ele sorriu de lado para Will, e Will sabia do que ele recordava: ele estava lembrando-se da mesma coisa. “Lembra quando você tentou me convencer a alimentar um pato com uma torta de frango no parque para ver se você conseguia criar uma raça de patos canibais?”
Ele sentiu Jem se balançar, rindo, ao lado dele. O que Jem não sabia é que os sentimentos de Will por patos – e sim, ele sabia que era ridículo ter sentimentos complicados acerca de aves aquáticas, mas não podia evitar – estavam misturados com memórias de sua infância. No País de Gales, houve um lago com patos em frente à sua casa de campo. Quando criança, Will frequentemente ia até lá, jogar pedaços de pão aos patos. Ele achava divertido observá-los grasnando e brigando pelos restos de sua torrada de café da manhã. Ou costumava achar, até que um dos patos – um pato particularmente grande – ao perceber que Will não tinha mais pão em seus bolsos, correu em direção ao garoto e mordeu-o com força no dedo.
Will tinha apenas seis anos, e fugiu rapidamente de volta à casa, onde Ella, já com oito anos e bastante superior a ele, riu absurdamente da história dele e depois fez um curativo no dedo dele. Will não teria mais pensado nesse assunto, se não fosse pela manhã seguinte quando, ao sair da casa pela porta da cozinha, ele se distraiu pela visão do mesmo pato preto, com seus olhos redondos fixados nele. Antes que Will pudesse se mover, o pato avançou nele e o mordeu com força na outra mão; e quando Will conseguiu gritar, o pato ofensivo já havia desaparecido em meio aos arbustos.
Dessa vez, enquanto Ella fazia o curativo no dedo de Will, ela disse: “O que você fez à pobre criatura, Will? Nunca ouvi falar de um pato vingativo antes.”
“Nada!”, protestou Will, indignado. “Eu apenas não tinha mais pão, então ele me mordeu.”
Ella olhou para ele, a dúvida em seu olhar. Mas naquela noite, antes de Will ir dormir, ele afastou as cortinas de seu quarto para observar as estrelas – e viu, parado sem se mover nos jardins, a pequena figura de um pato, com os olhos grudados na janela do quarto dele.
O grito de Will trouxe Ella ao quarto, correndo. Juntos, eles observaram o pato pela janela, que parecia pronto para permanecer naquela posição a noite toda. Finalmente, Ella balançou a cabeça. “Eu vou lidar com isso”, disse ela. Jogando suas tranças escuras para trás, ela seguiu em direção às escadas que levavam ao andar inferior.
Pela janela, Will a avistou saindo da casa. Ela marchou em direção ao pato e se inclinou em direção a ele. Por um momento, pareceu que eles estavam imersos em uma conversa. Depois de alguns minutos, ela se endireitou, e o pato deu meia volta, e com uma sacudida final das penas de seu rabo, caminhou para fora dos jardins. Ella se virou e voltou para dentro da casa.
Quando ela voltou ao quarto de Will, ele estava sentado na cama e olhando para ela com olhos enormes. “O que você fez?”
Ela sorriu presunçosamente. “Chegamos a um acordo, o pato e eu.”
“Que tipo de acordo?”
Ella se inclinou e, afastando as curvas grossas e escuras do cabelo dele do rosto dele, beijou a testa dele. “Nada com o que você precise se preocupar, querido. Vá dormir.”
E Will o fez, e o pato nunca o incomodou novamente. Durante anos depois disso, ele perguntou a Ella o que ela havia feito para se livrar do maldito pato, e ela apenas ria em silêncio e não respondia. Quando ele fugiu de casa depois da morte dela, e estava à caminho de Londres, ele havia lembrado do beijo dela na testa dela – um gesto incomum para Ella, que não era tão afetuosa como Cecily, quem ele nunca conseguia realmente impedir de se agarrar às suas mangas – e essa lembrança havia sido como uma faca quente entrando nele; ele se encolheu com a dor e chorou.
Jogar tortas de frango aos patos no parque havia ajudado, de uma maneira estranha; ele havia pensado em Ella, primeiramente, mas a risada de Jem afastou um pouco da dor dessa lembrança, e ele pensava apenas em como sua irmã ficaria contente de vê-lo rindo naquele espaço verde, e como ele havia tido pessoas que o amaram na vida dele, e ainda tinha agora, mesmo que fosse apenas uma.
“E eles comeram”, disse Will, mordendo um pedaço da maçã. Ele já havia praticado o suficiente para saber que nada do que ele estivera pensando havia transparecido em seu rosto. “Pequenas bestas sedentas de sangue. Nunca confie em um pato.”
Tessa olhou para ele de lado, e por um breve momento, Will teve uma sensação inquieta de que talvez ela tenha o visto melhor do que ele imaginava. Ela era Tessa agora; seus olhos eram cinzentos como o mar, e por uma longa pausa, tudo o que ele podia fazer era olhar para ela, todo o resto havia ficado esquecido – maçãs, vampiros, patos, e todo o resto no mundo que não fosse Tessa Grey.
“Patos”, murmurou Jem, ao lado dele, baixo demais para que Tessa pudesse ouvir. “Você é louco, sabe disso, não sabe?”
Will desviou o olhar dos olhos de Tessa. “Oh, eu sei.”