16. Cidade dos Anjos Caídos – O Ato de Cair

“Porque não posso falar com você,” disse Jace. “Não posso falar com você, não posso estar com você, não posso nem te olhar.” – Cidade dos Anjos Caídos

Jace nunca esquecerá o olhar no rosto de Clary depois que ele disse isso. Choque num primeiro momento, se encolhendo de dor.
Ele já a havia machucado antes, nunca porque ele queria, apesar de haver se perdido em sua própria cegueira. O momento em que ela entrou e o viu beijando Aline e havia dito a ela tudo de horrível que podia pensar, como se as palavras tivessem o poder de fazê-la desaparecer, para enviá-la de volta a onde estava a salvo.
Ele sempre se preocupou com a segurança dela mais que qualquer outra coisa. Se não, nada disso estaria acontecendo. Jace se pergunta se ela pode ver em seus olhos o terror, os fragmentos de todas essas dezenas de sonhos na qual ele a apunhalou, a estrangulou ou a afogou e olhou as mãos depois, molhadas com o sangue dela.
Ela dá um passo para trás. Há algo em seu rosto, mas não é medo. É infinitamente pior. Ela dá a volta, quase tropeçando, com pressa de fugir e sai correndo do clube.
Em um instante ele se põe de pé e vai atrás dela. Isto é exatamente o que ele queria, uma parte de sua mente grita. Quer afastá-la dele. Para mantê-la a salvo, longe dele.
Mas o resto da sua mente está vendo a porta bater atrás dela e junto a ruína de todos seus sonhos. Uma coisa é chegar a esse ponto. Outra coisa é deixá-la ir para sempre. Porque ele conhece Clary, e se ela vai agora, ela nunca vai voltar.
Volte.
De alguma maneira ele está fora do clube e a chuva cai como balas. Ele vê tudo de uma só vez, a forma que sempre fez, a forma na qual foi treinado a fazer. A van branca no meio-fio, a inclinação da rua, que se curva até Greenpoint, a abertura de um beco escuro atrás do bar, e Clary na esquina, prestes a atravessar a rua e caminhar fora da sua vida para sempre.
Ela empurra o braço dele para longe, quando ele tenta se aproximar, mas quando ele coloca sua mão nas suas costas, ela o deixa guiá-la até o beco. Sua mão desliza pelas costas até seu braço, enquanto ela vira para ele – e ele pode ver tudo ao seu redor uma vez mais: a umida parede de ladrilhos atrás deles, as janelas gradeadas, os aparelhos de música descartados jogados em poças d’água.
E Clary está levantando seu rosto, pequena e pálida, seu rímel correndo em listras brilhantes debaixo dos olhos. Seu cabelo está escuro, grudado na cabeça. Ela se sente frágil e perigosa em suas mãos, um vidro explosivo.
Ela afasta os braços dele para longe dela:
Se está pensando em se desculpar, nem se incomode. Não quero te escutar. – Ele tenta protestar, para dizer que só queria ajudar Simon, mas ela está sacudindo a cabeça, suas palavras como tiroteios de mísseis – E você não poderia me contar? Não podia me mandar uma mensagem, uma só linha me dizendo onde estava? Oh, espera. Não podia, porque ainda tem o meu maldito celular. Devolva-me.
Ele entrega o celular a ela, mas ele é apenas consciente de seus movimentos. Ele quer dizer: Não, não, não, eu não podia te dizer. Não posso te dizer. Não posso dizer que tenho medo de te machucar, ainda que não queira. Não posso dizer que tenho medo de me transformar em meu pai. Sua fé em mim é a melhor coisa na minha vida e não posso suportar destruí-la.
Me perdoe.
Ela fica branca, seu batom brilhante em sua pele rígida.
Eu nem sequer sei do que tenho que te perdoar. Por não me amar mais?
Ela se distancia dele e tropeça, cegamente, e ele não consegue se conter e vai até ela. Ela é delicada, e está tremendo em seus braços e ambos estão suando frio, e ele não consegue parar. A boca dela está parcialmente aberta, e ele trás seus próprios lábios juntamente com os dela, provando batom, gengibre doce e Clary.
Eu te amo. Ele não pode dizer isso, então ele diz com a pressão de seus lábios, seu corpo e suas mãos. Eu te amo, eu te amo. Suas mãos estão em volta da cintura dela, a levantando, e ele esquecera: ela não é frágil; ela é forte. Os dedos dela estão sendo pressionados contra sues ombros, sua boca firmemente contra a dele, e seu coração está pulsando como se estivesse tentando se libertar do corpo dela enquanto a tinha como um alto falante quebrado.
Pare. Sua mente está dizendo. Pare, pare, pare. Ele força suas mãos para longe dela, e as coloca na parede, em ambos os lados da cabeça dela. Só que isso faz com que seus corpos fiquem mais próximos, e isso é um erro. Ele pode ver a pulsação de sua garganta; o batom dela se foi, e ele não consegue desvencilhar o olhar de sua boca roseada por causa do beijo, enquanto ela respira rápido:
– Por que você não consegue falar comigo? Por que não consegue olhar para mim?
Seu coração está batendo como se quisesse sair de seu corpo e fixar residência em outro lugar.
– Porque eu te amo.
Isso é verdade, e uma verdade inadequada, mas ele sente como se ela saísse dele como se fosse uma mentira. A expressão da face dela fica mais suave, seus olhos maiores. Suas mãos estão juntas das dele, pequenas, e delicadas e cuidadosas, e ele se inclina para ela, respirando a fragrância dela sob o cheiro de água da chuva.
Eu não me importo – ele se houve dizer – Eu estou cansado de fingir que posso viver sem você. Você não consegue entender isso? Você não pode ver que isso está me matando?
Ele está se entregando, e agora já é tarde demais. Ele vai até ela, como um viciado procura desesperadamente pela droga que jurou nunca tocar novamente, e que decidiu que é melhor usar tudo de uma vez, uma última vez, do que viver eternamente sem ela.
E o mundo cinzento explode em cores conforme eles ficam juntos, corpos batendo fortemente contra a parede atrás deles. A água encharcando o vestido dela o torna escorregadio como óleo sob seus dedos. Ele a pega e a trás pra perto de si, o desejo modelando seus corpos a cada toque. A respiração irregular dela em seu ouvido, as pálpebras dela quase fechadas e se mexendo rapidamente. Ele toca a pela dela em cada lugar que pode: seu pescoço, sua nuca, sua clavícula dura contra seus dedos, seus braços, macios e escorregadios. As mãos dela estão sobre ele, também, sem timidez, e cada toque parece evaporar a chuva e o frio.
Ela está agarrando os ombros dele enquanto levanta suas pernas e as coloca em volta da cintura dele, e ele faz um som que nem imaginava ser capaz de fazer. É tarde demais para retroceder agora. As mãos dele se cerram involuntariamente, e ele sente o tecido da calça dela rasgando sob seus dedos, e ele está tocando sua pele nua. E seus beijos têm gosto de chuva. E se ele não estava caindo antes, agora está.
Ele pensa na Queda, dos anjos eternamente no fogo, e Icarus, que voara próximo ao sol. Ele pensara na agonia da queda, o terror disso, mas nunca que isso poderia ser bom. Lucifer não queria cair, mas também não queria servir, e enquanto Jace se colocava junto de Clary, mais perto do que ele jamais pensara que poderia estar, ele imaginou se apenas no ato de cair que alguém realmente poderia ser livre.