19. Anjo Mecânico – Na ponte – Will e Jem antes de Anjo Mecânico

Já havia passado da meia-noite, e Londres estava tão quieta como sempre esteve: o som das carruagens nunca parava completamente, nem os choros e gritos dos moradores da cidade, nem as conversas animadas dos mendigos ao lado do rio, que remexiam entre os detritos jogados à margem pelo Tâmisa em busca de algo de valor. Will Herondale e James Carstairs se sentaram à beira do Victoria Embankment, as pernas deles balançando. Do lado esquerdo deles, eles podiam ver a agulha de Cleopatra (obelisco em Londres), furando o céu; do lado direito, a ponte Hungerford.
Will bocejou e espreguiçou os braços. Uma espada pequena, desembainhada, brilhava em seu colo. “Você sabe, James, comecei a acreditar que esse demônio Leviatã não existe. Ou, se existe, já está há muito afundado no oceano.”
“Bem, não será a primeira vez que ficamos sentados esperando a noite inteira por nada, nem vai ser a última, eu aposto”, disse Jem, concordando. Sua bengala com cabeça de dragão estava equilibrada em seus ombros, seus braços apoiados nas extremidades dela. O cabelo cintilante dele brilhava conforme a lua aparecia e desaparecia por trás das nuvens. “Você ainda está insistindo naquela investigação? As garotas mortas no East End?”
“Me levou a lugares bastante interessantes”, disse Will. “Eu ganhei 60 libras do Ragnor Fell na banca na noite passada. Quando você se juntar a mim de novo –“
“Eu não gosto muito desses clubes. Mundanos inebriados, envolvidos em jogos nos quais eles não têm a menor chance de ganhar, zombar e drogas até mesmo criaturas do submundo, tudo isso me deixa muito desgostoso. E você sabe o que Charlotte diria se visse você apostando.”
“Charlotte se preocupa demais. Ela não é –“ Will interrompeu a frase, e olhou para cima, vendo as estrelas, ou o que podia ser visto em meio à fumaça e às nuvens. Elas iluminaram os olhos dele, então o azul deles poderia ser visto mesmo na escuridão, amenizada apenas pelas lâmpadas em forma de golfinhos tradicionais de Embankment.
Jem sabia que Will estava a ponto de dizer “minha mãe”. Era o jeito de Will, interromper-se cuidadosamente antes de revelar demais sobre si mesmo.
“Você disse que seu pai costumava apostar”, disse ele, com uma casualidade deliberada, batendo os dedos no topo de sua bengala.
Por um momento, Will parecia estar tão distante quanto as estrelas que ele admirava. “Só uma batida de cartas casual. Minha mãe desencorajava qualquer coisa a mais. Ela não gostava de apostas. E ele nunca foi um desses homens doidos que costumavam apostar em tudo – a que horas o sol se poria naquele dia, ou se o velho Henderson conseguiria escalar o Minith Mawr bêbado, por exemplo.”
Jem desconhecia o que era Minith Mawr, e não perguntou. Em vez disso, ele disse: “Seu pai deve ter amado muito a sua mãe, para desistir de ser um caçador de sombras por ela.”
Will estremeceu, quase imperceptivelmente, mas seu tom de voz estava surpreendemente calmo quando ele falou. “Ele amou. Eu perguntei a ele uma vez se ele havia se arrependido alguma vez, mas ele disse que nunca. Ele disse que há vários caçadores de sombras por aí, mas amor verdadeiro acontece apenas uma vez na vida se a pessoa tiver sorte, e essa pessoa seria muito tola de deixá-lo escapar.”
“E você acredita nisso?” Jem falou com um tato enorme; falar com Will sobre qualquer coisa pessoal era como tentar não assustar um animal selvagem.
“Acho que sim”, disse Will, depois de uma pausa. “Não que importe pra mim, mas –“ ele encolheu os ombros. “Se o amor é verdadeiro, então vale a pena lutar por ele.”
“E se for imoral, de alguma forma? Proibido?”
“Proibido? Mas o amor de meu pai pela minha mãe era proibido, ou pelo menos contra a lei. Ou você quer dizer se ela for casada, ou uma vampira?”
“Ou uma vampira casada.”
“Bom, mesmo assim”, disse Will, com um sorriso irônico. “A pessoa precisa continuar lutando por ele. O amor conquista tudo.”
“Avisarei os vampiros casados da região”, disse Jem, de maneira seca.
“E você, Carstais? Você ficou muito quieto quanto às suas opiniões.”
Jem afastou seus braços da bengala e suspeitou. “Você sabe que acredito que vamos nascer novamente”, disse ele, muito quieto. “Acredito que se duas almas pertençam uma a outra, elas ficaram juntas na Roda e ficarão juntas na próxima vida depois dessa, não importa o que aconteça conosco agora.”
“Isso é um ensinamento oficial ou algo que você mesmo inventou?”, perguntou Will.
Jem riu. “Isso importa?”
Will olhou para ele, curioso. “Você acha que vai me ver de novo?” Com a mudança de expressão no rosto de Jem, Will acrescentou. “Quero dizer, há uma chance para mim? De ter uma vida depois dessa, uma vida melhor?”
Enquanto Jem abria a boca para responder, uma farfalhada passou por baixo dos pés deles. Quando os dois olharam para baixo, um tentáculo surgiu da superfície do rio, enroscou-se no tornozelo de Jem e puxou-o para baixo da superfície da água. Will se ergueu com a espada em punho; a água ainda fervia onde os tentáculos da criatura se debatiam com selvageria, o que indicava que Jem estava conseguindo dar uns bons golpes neles. O coração de Will bateu com força, bombeando o sangue e o chamado da batalha por suas veias.
“Inferno”, disse ele. “Só porque estava ficando interessante”, e ele saltou para dentro da água, em busca de seu amigo.