03. Cidade dos Ossos – Cena da estufa – Ponto de Vista do Jace

Quando chega a meia-noite

Eu beijei sua boca e parti seu coração

Os sinos do Instituto começaram a badalar, a profunda e alta batida do coração do ápice da noite.
Jace abaixa sua faca. É um elegante canivete, feito de osso, que Alec lhe deu quando eles se tornaram
parabatai. Ele tem usado-o constantemente, e o punho amaciou devido a pressão de seus dedos.
“Meia-noite”, diz ele. Ele pode sentir Clary atrás dele, sentada entre os restos de seu piquenique, sua leve respiração no ar morno e com cheiro de planta da estufa. Ele olha não para ela, mas para frente, para os brilhantes brotos da planta
medianox. Ele não tem certeza porque não quer olhar para ela. Ele se lembra da primeira vez que viu a flor desabrochar, durante a aula de horticultura, sentado num banco de pedra com Alec e Izzy um de cada lado dele, e os dedos de Hodge no caule da planta – ele havia acordado-os próximo a meia-noite para mostrar o milagre, uma planta que normalmente só crescia em Idris – e lembrou-se de prender a respiração no ar da meia-noite de inverno diante da visão de algo tão supreendente e belo.
Alec e Isabelle se interessaram, mas não, ele se lembra, pegos pela beleza da planta como ele havia sido. Ele estava agora preocupado que quando os sinos tocassem, Clary agiria do mesmo jeito: interessada ou até mesmo maravilhada, mas não encantada. Ele queria que ela sentisse do jeito que ele se sentia sobre a
medianox, ainda que ele não soubesse o motivo.
Um som escapou de seus lábios, um leve “Oh!”. A flor está desabrochando: abrindo como o nascimento de uma estrela, repleta de pólen e pétalas de ouro branco. “Elas florescem toda noite?”
Uma onda de alívio passar por ele. Os olhos verdes de Clary estão brilhando, fixados na planta. Ela está flexionando os dedos inconscientemente, do jeito que, ele entende, é o que ela faz quando ela gostaria de ter uma caneta ou lápis para capturar a imagem de algo em sua frente. Algumas vezes ele gostaria de poder ver como ela: ver o mundo como uma tela para ser capturada em uma pintura, gizes e aquarelas. Às vezes quando ela o olha daquela maneira, ele se encontra quase corando; uma sensação tão estranha que ele quase não reconhece. Jace Wayland não fica vermelho.
“Feliz aniversário, Clarissa Fray”, diz ele, e a boca dela curva-se em um sorriso. “Tenho algo para você”. Ele tateia um pouco, procurando em seu bolso, ainda que ele acha que ela não percebe. Quando ele pressiona a pedra de bruxa para dentro da mão dela, ele está consciente do quão pequeno os dedos dela são embaixo dos dele – delicados, porém fortes, cheios de calos de segurar lápis e pincéis. Os calos fazem cócegas na ponta de seus dedos. Ele se pergunta se o contato com a pele dele acelera sua pulsação do jeito que a dele acelera quando ele a toca.
Aparentemente não, porque ela se afasta dele, sua expressão revelando apenas curiosidade. “Você sabe, quando a maioria das garotas diz que quer uma pedra grande, elas não querem dizer exatamente,uma pedra grande.”
Ele sorri sem querer. Algo que é incomum dele; geramente só Alec e Isabelle conseguem fazê-lo rir. Ele havia sabido que Clary era brava na primeira vez que ele a viu – entrando numa sala após Isabelle, desarmada e despreparada, e agiu com um tipo de coragem que ele não associava commudanos – mas o fato de que ela fez ele sorrir ainda o surpreendia. “Muito engraçado, minha sarcástica amiga. Não é uma pedra, exatamente. Todos os Caçadores de Sombras tem uma pedra de bruxa. Ela vai te iluminar mesmo entre as sombras mais escuras desse e de outros mundos.” Foram as mesmas palavras que seu pai havia lhe dito, quando ele ganhou sua primeira pedra.
Que outros mundos? Jace perguntou, e seu pai apenas riu. Existem mais mundos a um sopro de distância desse do que grãos de areia em uma praia.
Ela sorri para ele e faz uma piada sobre presentes de aniversário, mas ele percebe que ela está emocionada; ela desliza a pedra para dentro de seu bolso cuidadosamente. A flor já está derramando pétalas como um banhode estrelas, iluminando o rosto dela com uma suave luz. “Quando eu tinha 12 anos, eu queria uma tatuagem”, diz ela. Uma mecha de cabelo ruivo cai sobre seu rosto; Jace tem que resistir contra colocá-la para trás de sua orelha.
“A maioria dos Caçadores de Sombras recebe suas primeiras Marcas com 12 anos. Deve estar no seu sangue.”
“Talvez. Embora eu duvide que a maioria dos Caçadores de Sombras tem uma tatuagem do Donatello das Tartarugas Ninjas em seus ombros esquerdos.” Ela estrá sorrindo, do jeito que ela faz quando diz coisas que são completamente incompreensíveis para ele, como se ela estivesse carinhosamente se lembrando. Isso envia uma pontada de ciúmes através das veias dele, mesmo que ele não saiba do quê ele está com ciumes. Simon, que entende as referências a um mundo mundano que Jace jamais fará parte? O próprio mundo mundano que ela pode algum dia retornar, deixando Jace e seu universo de demônios e caçadores, cicatrizes e batalhas, agradecida para trás?
Ele limpa a garganta. “Você queria uma tartaruga no seu ombro?”
Ela acena com a cabeça, e seu cabelo volta para o lugar. “Eu queria cobrir minha cicatriz de catapora”. Ela move a alça de sua blusa para o lado. “Vê?” E ele vê: tem um tipo de marca no ombro dela, uma cicatriz, mas ele vê mais do que isso: a curva de sua clavícula, a luz realçando as sardas em sua pele como um pó de ouro, a curva para baixo de seu ombro, a pulsação na base de sua garganta. Ele vê o contorno de sua boca, os lábios dela levemente abertos. Seus cílios de cobre quando ela os abaixa. E ele é levado por uma onda de desejo, do tipo que ele nunca experimentou antes. Ele obviamente havia desejado garotas antes e sempre satisfez esse desejo: ele havia sempre pensado nisso como uma fome, uma necessidade por um tipo de combustível que o corpo queria.
Ele nunca havia sentido desejo dese jeito, um fogo puro que queimou seu pensamento, que fez suas mãos – não exatamente tremerem, mas tamborilarem com energia nervosa. Ele desvia os olhos dela, rapidamente. “Está ficando tarde”, diz ele. “Deveríamos voltar lá para baixo.”
Ela olha curiosamente para ele, e ele não pode deixar de pensar que aqueles olhos verdes o enxergam através. “Você e Isabelle já namoraram?”, pergunta ela.
O coração dele ainda está batendo forte. Ele não entende a pergunta. “Isabelle”, ele repete.
Isabelle? O que Isabelle tem a ver com algo?.
“Simon queria saber”, diz ela, e ele odeia o jeito como ela fala o nome de Simon. Ele nunca havia sentido nada como isso antes: nada que exaltasse-o como ela faz. Ele se lembra de ter ido até ela atrás da cafeteria, o jeito que ele queria levá-la para fora, para longe do garoto de cabelos escuros com quem ela sempre estava, para o seu mundo de sombras. Ele havia até mesmo sentido que ela pertencia ao mesmo lugar que ele, não ao mundo mundano onde as pessoas não eram reais,onde elas passavam além de sua visão como marionetes em um palco. Mas essa garota, com seus olhos verdes que o prendiam como uma borboleta, ela era real. Como uma voz em um sonho, que você sabe que vem do mundo real,ela era de verdade, perfurando a distância como uma armadura que ele criara cuidadosamente sobre ele mesmo.
“A resposta é não. Quero dizer, pode até ter havido uma época onde um de nós considerou isso, mas ela é quase uma irmã para mim. Seria estranho.”
“Você quer dizer que Isabelle e você nunca-”
“Nunca.”
“Ela me odeia”, diz Clary.
Apesar de tudo, Jace quase ri; assim como um irmão, ele tem um certo prazer em observar Izzy quando ela está frustrada. “Você só deixa ela nervosa, porque ela sempre foi a única garota entre garotos que a adoram, e agora ela não é mais.”
“Mas ela é tão bonita.”
“E você também.” Jace diz automaticamente, e vê a expressão de Clary mudar. Ele não pode ler seu rosto. Não é a primeira vez que ele diz a uma garota que ela é bonita, mas foi ele não consegue se lembrar de uma vez que não tenha sido calculado. Que fora um acidente. Que fez ele ter vontade de ir à sala de treinamento e atirar facas, e chutar e socar e lutar com sombras até que ele estivesse cheio de sangue e exausto, até que sua pele estivesse esfolada, do único jeito ao qual ele estava acostumado.
Ela olha para ele silencosamente. Á sala de treinamento, então.
“Nós deveríamos ir lá para baixo”, ele repete.
“Tudo bem.” Ele também não pode dizer o que ela está pensando através de sua voz; sua habilidade de ler as pessoas parece ter deixado-o e ele não entende a razão. A lua lança feixes de luz através dos painéis de vidro enquanto eles vão saindo, Clary um pouco na frente dele.
Algo se move à frente deles – uma faísca branca de luz – e de repente ela para e dá uma meia-volta em direção a ele, já dentro de seus braços, e ela é quente e macia e delicada e ele está beijando-a.
E ele está atônito. Ele não funciona assim; seu corpo não age sem a sua permissão. É seu instrumento, como o piano, e ele sempre esteve perfeitamente no comando. Mas ela tem um gosto doce, como maçã e cobre, e seu corpo em seus braços está tremendo. Ela é tão pequena; seus braços estão ao redor dos dela, para dar firmeza a ela, e ele está perdido. Ele agora entende porque nos filmes, os beijos são filmados desse jeito, com a câmera rodando sem fim: o chão é instável abaixo de seus pés e ele agarra-se a ela, pequena como ela é, como se ela pudesse segurá-lo.
As palmas das suas mãos amaciam as costas dela. Ele pode senti-la respirando contra si; um suspiro entre os beijos. Os dedos finos dela estão no cabelo dele, em sua nuca, enrolando-o gentilmente, e ele se lembra da flor
medianox e a primeira vez que ele viu e pensou: é uma coisa bonita demais para ser propriamente desse mundo.
Ele ouve o sopro do vento primeiro, devido ao seu treinamento. Ele se afasta de Clary e vê Hugo, empooleirado na curva de um cipreste anão próximo. Seus braços ainda estão em volta de Clary, a cintura dela levemente contra a dele. Os olhos dela estão meio fechados. “Não entre em pânico, mas nós temos plateia”, ele sussura para ela. “Se Hugo está aqui, Hodge não está muito longe. Devemos ir”
Seus olhos verdes se abrem de vez, e ela parece divertida, o que dá uma pontada no ego dele. Depois
daquele beijo, ela não deveria estar desmaiando aos pés dele? Mas ela está sorrindo. Quer saber se Hodge está espiando-os. Ele a tranquiliza, mas sente sua leve risada viajando através de suas mãos dadas – como isso aconteceu? – enquanto eles estão descendo.
E ele entende. Ele entende por que as pessoas dão as mãos: ele sempre pensara que era algo possessivo, dizendo
Isso é meu. Mas tem a ver com manter contato. É falar sem palavras. Significa eu quero você comigo e não vá.
Ele quer ela em seu quarto. E não daquele jeito – nenhuma garota já esteve em seu quarto desse jeito. É o espaço particular dele, seu santuário. Mas ele quer Clary lá. Quer que ela o veja, como ele é de verdade, e não a imagem que ele projeta. Ele quer se deitar na cama com ela e que ela se aninhe com ele. Ele quer segurá-la enquanto ela respira suavemente durante a noite; vê-la como ninguém a vê: vulnerável e adormecida. Vê-la e ser visto.
Então quando eles chegam até a porta, e ela agradece pelo piquenique de aniversário, ele ainda não solta sua mão. “Você vai dormir?”
Ela levanta a cabeça e ele pode ver em sua boca pequenos vestígios de seus beijos: uma onda de rosa, como os cravos na estufa, e isso dá um nó em seu estômago.
Pelo Anjo, ele pensa, eu estou tão…
“Você não está cansado?”, pergunta ela, interrompendo seus pensamentos.
Há um buraco em seu estômago, um nervosismo beirando-o. Ele quer puxá-la de volta para si, derramar sobre ela tudo o que ele está sentido: sua admiração, seu recém-adquirido conhecimento, sua devoção, sua necessidade. “Nunca estive tão acordado.”
Ela levanta o queixo, um movimento inconsciente, e ele se inclina para baixo, colocando sua mão livre sobre o rosto dela. Ele não quer beijá-la aqui – público demais, muito fácil de ser interrompido – mas ele não consegue parar de tocar suavemente sua boca na dela. Os lábios dela se abrem embaixo dos dele, e ele se inclina em direção a ela e não consegue parar.
Eu estou tão –
Foi exatamente nesse momento que Simon abriu a porta do quarto e pisou no corredor. E Clary se afasta dele rapidamente, virando sua cabeça de lado, e com isso ele sente a aguda dor de um adesivo sendo tirado de sua pele.
Eu estou tão ferrado.